Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ARMAZéM LITERáRIO > PADARIA ESPIRITUAL

Vida inteligente na província

Por Manuel Soares Bulcão Neto em 09/01/2007 na edição 415

‘Uma sociedade cearense de letras cujo aspecto irreverente, revolucionário e iconoclasta só se encontra símile no movimento que sairia, trinta anos depois, da Semana de Arte Moderna’. Pedro Nava, Baú de Ossos

Em Os Boas-Vidas (I Vitelloni, 1953), Federico Fellini retrata, por meio das aventuras e desventuras de uma turma de rapazes de uma pequena cidade italiana, a insatisfação da juventude provinciana com sua respectiva província. Com efeito, todos ali, por motivos diversos, anseiam por fugir da vidinha morna, sem oportunidades e perspectivas. Fausto, um arremedo de Dom Juan, após engravidar Sandrinha, e cheio de grandes projetos, prepara as malas pensando em fugir pra Milão; Leopoldo, o intelectual do grupo, sentindo-se isolado e incompreendido, sonha com Roma; Alberto, após tomar todas numa festa, esculacha amigos e inimigos e promete vir para o Brasil, de navio. No fim, entretanto, o único que consegue romper os grilhões – econômicos, sentimentais, pavlovianos… – que o mantêm preso no arraial é Moraldo, certamente o alter ego de Fellini e, se a história encerra mesmo algo da biografia do grande cineasta, o único que terá sucesso na vida. Cena memorável: ao tomar o trem, Moraldo visualiza todos os seus companheiros e familiares dormindo – como se, ao sair daquele lugarejo, ele estivesse acordando.

Depois, porém, de assistir ao média-metragem (documentário; 24 minutos) de Felipe Barroso A Padaria Espiritual, sobre o movimento cultural que aconteceu na pequena e remota Fortaleza da última década do século XIX (1892-1898), constata-se que a vida que se passa na província não se resume a modorra e pasmaceira, mesmo que às vezes mitigada por felliniano lirismo; que, graças à determinação – amiúde reforçada pelo bom-humor – de alguns espíritos fortes, intelectuais com firme auto-estima, muito do que se produziu e se produz, culturalmente, ‘em plagas distantes’ – alguns diriam, grotões – não consiste em meros ecos tardios da metrópole, em versões, se não caricatas, com forte teor tragicômico.

Irreverência e deboche

O documentário, com depoimentos de Batista de Lima, Regina Pamplona Fiúza, Sânzio de Azevedo e Gilmar de Carvalho, resgata a memória desse importante movimento da história da literatura brasileira, hoje quase esquecido. Dele surgiram grandes nomes das escolas realista, naturalista e simbolista, como, respectivamente, Antônio Sales (Aves de Arribação), Adolfo Caminha (A Normalista e Bom Crioulo) e Lívio Barreto (Dolentes).

Os amassadores, como eram conhecidos os membros da Sociedade de Rapazes de Letras e Artes Padaria Espiritual – as sessões eram chamadas de ‘fornadas’ e o presidente de ‘padeiro-mor’ – reuniam-se no número 105 da Rua Formosa (atualmente, Barão do Rio Branco) e, eventualmente, no Café Java. Nessa oficina e bar, do mesmo modo informal como, mais de setenta anos depois, seria editado o Pasquim no Rio de Janeiro, o grêmio publicava o jornal O Pão, que teve 36 edições.

A referência ao Pasquim não se justifica apenas pela informalidade, mas também pelo humor, a irreverência e o deboche, a começar pelos 48 itens do Programa de Instalação do Grêmio, escrito por Antônio Sales – programa este que, ao ser publicado em um jornal do Rio de Janeiro, conferiu notoriedade ao Movimento. À guisa de ilustração, o documentário de Felipe Barroso cita alguns itens, como o de número 39 do Estatuto:

‘As mulheres, como entes frágeis que são, merecerão todo o nosso apoio excetuadas: as fumistas, as freiras e as professoras ignorantes.’

A Padaria Espiritual, como muitos reconhecem, foi precursora da Semana da Arte Moderna (1922) não apenas pela irreverência e iconoclastia, mas também, como escreveu o memorialista Pedro Nava (Baú de Ossos), por certo aspecto revolucionário de inspiração nacionalista, pela aversão ao excesso de estrangeirismos, exacerbada não pelo ódio à diferença – até porque, de acordo com o Estatuto da agremiação, tirava-se o chapéu para Homero, Shakespeare, Dante, Hugo e Camões –, mas, novamente pelo bom-humor e, segundo Gilmar de Carvalho, pela convicção de que nossa língua, costumes, fauna e flora poderiam figurar como referencial para a produção cultural brasileira. Esse nacionalismo deliberadamente risível transparece no item 21 do mencionado Programa:

‘Será julgada indigna de publicidade qualquer peça literária em que se falar de animais ou plantas estranhos à fauna e à flora brasileiras, como: cotovia, olmeiro, rouxinol, carvalho etc.’

A província se antecipa ao centro

Claro que o Movimento não podia sobreviver apenas da contribuição financeira de seus membros e da venda do jornal O Pão. Logo, os padeiros – ou amassadores – tiveram que apelar aos comerciantes locais, a maioria pharmacêuticos, com seus xaropes, elixires e panacéias. Felipe Barroso teve a feliz idéia de convocar o comediante e compositor (não necessariamente nesta ordem) Falcão para interpretar, à sua maneira, esses anúncios publicitários. O resultado, obviamente, é hilariante: Falcão, pelo telefone celular, encomenda nas farmácias alguns preparos medicinaes do pharmacêutico José Eloy da Costa (devidamente aprovados pela inspectoria de Hygiene), entre os quais uma pílula contra vermes. Em outra ocasião, solicita um miraculoso xarope de bromureto de potássio em cascas amargas de laranja e, ainda, uma pílula estomacal capaz de curar dores de estômago, dispepsia, gastrite, falta de apetite, náusea, dores de cabeça, indigestão etc. (principalmente o etcétera).

No média-metragem de Felipe Barroso ainda figuram grandes nomes da literatura e da arte nacional, todos a recitar trovas da seção ‘O Cancioneiro Popular’ do semanário O Pão: Ariano Suassuna, Thiago de Mello, Fausto Nilo, Virgílio Maia e os jovens poetas Rodrigo Magalhães e Tércia Montenegro. É de se mencionar, ainda, a bela trilha sonora original montada por Dihelson Mendonça, bem como a leitura de textos do jornal O Pão por populares escolhidos ao acaso entre os transeuntes da Praça do Ferreira – alguns, semi-analfabetos e nitidamente alcoolizados; outros, porém, demonstrando, ‘estranhamente’, absoluto domínio da linguagem e da retórica, o que me lembra uma asserção de Trotsky, escrita algures, sobre a enorme quantidade de talentos que se perdem nas favelas, arrabaldes e grotões por pura falta de oportunidade.

O Movimento Cultural Padaria Espiritual findou em dezembro de 1898, dois anos depois da fundação, em 15 de agosto de 1896, na Academia Cearense de Letras – a primeira do país, sendo a segunda a Academia Brasileira de Letras, criada em 20 de julho de 1897.

Às vezes, a província se antecipa ao centro – Êta, vidinha mais ou menos… Menina, arma a minha rede!

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Ensaísta, autor de As Esquisitices do Óbvio (2005) e Sombras do Iluminismo (2006), Fortaleza, CE

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