Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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ARMAZéM LITERáRIO >

Viva e desigual

Por Gabriel Perissé em 04/07/2005 na edição 336

Na revista Veja desta semana (edição nº 1.912), o jornalista Jerônimo Teixeira (autor da novela As horas podres) escreve sobre Clarice Lispector, afirmando (mas há um cauteloso ‘talvez’) que ‘talvez nenhum outro escritor brasileiro seja tão cultuado’.

O culto a Clarice existe. Eu mesmo me incluo entre seus admiradores incondicionais. Atrai os leitores aquele seu eros filosófico, como nos ensina Benedito Nunes. Atrai-nos o mundo de Clarice, onde há conhecimento das coisas e autoconhecimento, beleza e susto, linguagem cheia de realismo metafísico e realidade eloqüente.

Existencialismo literário, sensibilidade à flor da pele, aprendizado com dor e prazer, a maçã brilhando no escuro. E então Jerônimo Teixeira faz outra afirmação. Sem ‘talvez’: ‘Clarice era, sim, uma grande escritora – mas (…) nem todos os seus textos contêm epifanias ou revelações.’

Esta afirmação, no entanto, que me desculpe o articulado articulista, também não é uma grande epifania nem uma emocionante revelação. De fato, os escritores, mesmo os geniais, com inesquecíveis horas de estrela, têm lá suas horas e minutos banais, e até mesmo os seus momentos um tanto podres. É a famosa ‘qualidade desigual’.

Textos apagados

Se podemos pinçar na obra de Clarice uma descoberta – ‘E ninguém é eu, e ninguém é você. Esta é a solidão’ –, muitas frases corriqueiras e descrições ‘normais’ estarão à nossa disposição. Não se pode fazer milagres o tempo todo, ou o próprio milagre deixaria de ser milagrosa exceção. Pérolas são muitíssimo menos numerosas do que pedras… com perdão pela obviedade. Lembrando que pedras são úteis em ocasiões nas quais pérolas não serviriam para nada. Na hora de matar um gigante, como bem experimentou o pequeno Davi!

Se em Água viva leio algo estranho e sugestivo como – ‘não ter nascido bicho é uma minha secreta nostalgia’ –, leio também algo insignificante como isto: ‘a margarida é florzinha alegre’. Nem só de água viva vivemos. Também a água cotidiana mata a sede.

Num prefácio escrito para uma edição brasileira das Novelas exemplares, de Cervantes, Fernando Sabino observa que se trata de doze histórias ‘escritas em épocas diferentes, e de qualidade desigual’.

Carlos Drummond de Andrade produziu muitas crônicas e poemas que se apagam diante de alguns incomparáveis textos seus.

Dostoievski, Flaubert, Shakespeare, Kafka, Goethe… todos tiveram dias e obras melhores do que outros… outros dias e obras que desdiziam seus talentos.

Clarice Lispector não foi exceção.

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Doutor em Educação pela USP e escritor; site (www.perisse.com.br)

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