Segunda-feira, 19 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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ARQUIVOS DA LAVA JATO > Narrativas poluídas

A imprensa e a batalha pelo controle do discurso público

Por Carlos Castilho em 30/07/2019 na edição 1048

(Foto: MARCELLO CASAL JR/ Agência Brasil)

Publicado originalmente no Medium.

A polêmica em torno de mensagens trocadas entre procuradores da operação Lava Jato tornou-se um caso exemplar dos dilemas que o cidadão comum enfrenta quando é bombardeado por informações contraditórias produzidas no meio de um debate entre facções antagônicas que usam complexas estratégias de organização de dados, fatos e eventos.

Em linguagem técnica de comunicação, ambos os lados buscam construir um discurso público capaz de sensibilizar setores da população, visando apoio popular para objetivos políticos geralmente dissimulados pela manipulação de informações.

Essa é a situação que passamos a enfrentar quase que cotidianamente quando algo gera divergências entre tomadores de decisões, lobbies ou grupos de pressão. É uma conjuntura que começa a exigir do cidadão comum a capacidade e o conhecimento necessários para desconstruir o discurso público montado pelos envolvidos num conflito de interesses, como é o caso de problemas recentes como a reforma da Previdência, o vazamento de informações no caso mais conhecido como Vaza Jato e, mais recentemente, a polêmica em torno dos dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Construir um discurso para justificar uma necessidade, desejo ou preocupação é uma ação que vem desde os tempos da Grécia antiga. O novo é a intensidade e amplitude com que tal prática passou a ser usada neste início da era digital. Hoje, qualquer pessoa que publique algo, em algum veículo de comunicação, especialmente na internet, cria um discurso para tentar ganhar simpatias, clientes ou adeptos de alguma causa, ideia, produto ou serviço.

Até agora, a questão não gerava perplexidade ou dúvida porque era fácil desconstruir um discurso num ambiente em que a comunicação era espacialmente limitada, socialmente restrita, lenta e tecnicamente pouco sofisticada. Mas tudo mudou radicalmente e, hoje, não há exagero quando se afirma que nós somos os meios de comunicação, tal o nosso envolvimento como produtores e consumidores de informações no que passou a ser chamado de mídia, ou espaço midiático, formado pelo conjunto de tudo o que se situa entre um indivíduo e outro, entre grupos de indivíduos.

Habilidade obrigatória

Assim, desconstruir discursos passou a ser uma habilidade obrigatória e indispensável para a nossa sobrevivência no conjunto da sociedade. Desconstruir é sinônimo de identificar e entender objetivos e métodos ocultos na retórica ou no discurso desenvolvido por indivíduos e instituições. Em alguns casos, é relativamente fácil; noutros, muito complicado.

Hoje já existem centenas de trabalhos acadêmicos sobre desconstrução de discursos públicos, mas a avassaladora maioria dos cidadãos comuns só agora começa a perceber que é impossível ficar imune à caótica situação criada pela avalanche de versões diferentes sobre um mesmo dado, fato ou evento.

As revelações feitas pelo site jornalístico The Intercept sobre a conduta do ex-juiz Sergio Moro e a força-tarefa da Lava Jato (o escândalo Vaza Jato) tornou-se um caso exemplar de confronto direto entre duas estratégias para impor à opinião pública um tipo específico de narrativa de fatos e dados.

O material divulgado pelo Intercept induz o leitor a pôr em dúvida as ações e decisões tanto do então juiz, hoje ministro da Justiça no governo Bolsonaro, como dos promotores públicos de Curitiba integrantes da força-tarefa da Lava Jato. O site agiu estritamente dentro das normas jornalísticas ao publicar um material obtido por um informante anônimo, mas a divulgação das conversas via aplicativo Telegram teve um indissociável e previsível efeito político.

Moro e os promotores reagiram, também movidos pela política, ao evitar considerações sobre o conteúdo das mensagens publicadas e centrando seu discurso em ilações sobre a autenticidade do material divulgado. Moro e os procuradores optaram pela estratégia de tentar desacreditar a postura dos jornalistas do site, procurando disseminar na opinião pública suspeitas de adulteração das mensagens vazadas pelo Intercept.

Fatos e versões

Duas estratégias de construção de discurso público ficaram claramente delineadas quando o Intercept passou a publicar gradualmente novos detalhes do material fornecido pela fonte anônima. O site optou pela divulgação gradual e periódica das trocas de mensagens entre Moro e os procuradores da Lava Jato buscando com isso manter o tema na agenda da imprensa pelo maior tempo possível, o que contribuiu para a queda dos índices de popularidade do atual Ministro da Justiça e dos membros da força-tarefa em Curitiba.

As técnicas de produção de discurso e formatação de narrativas são hoje muitíssimo mais importantes do que a discussão sobre o que é falso ou verdadeiro numa polêmica pública. A complexidade e a diversificação dos dados e fatos aumentaram tanto que se tornou mais fácil, para o indivíduo comum, se interessar pelas versões ou pelo discurso porque são desenvolvidos visando justamente a compreensão de quem não tem intimidade com a polêmica.

Situação similar surgiu na esteira da decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, ao determinar a suspensão de todas as ações legais envolvendo uso de dados financeiros fornecidos pelo Coaf. A decisão do magistrado beneficiou um dos filhos do presidente Bolsonaro, mas essa circunstância foi rapidamente relegada a um segundo plano devido à batalha de discursos envolvendo, de um lado, apoiadores da Lava Jato, e, do outro, defensores do sigilo de dados financeiros individuais como forma de proteger a privacidade dos cidadãos. Dois discursos apoiados em argumentos jurídicos altamente técnicos e fora do alcance cognitivo da maioria dos brasileiros.

Pouco antes, vivemos a polêmica em torno da reforma da Previdência Social, outra questão que foi conduzida à base de argumentos técnicos e financeiros que confundiram mais do que esclareceram os milhares de assalariados e autônomos cujo futuro ficou incerto com as novas regras de aposentadoria. Tanto no caso do Coaf como no da Previdência, o maior problema da população foi não saber como desconstruir os discursos adotados pelas partes em confronto, desconhecimento este que acabou gerando uma apatia generalizada e um progressivo sentimento de frustração.

A imprensa seria o veículo apropriado para funcionar como desconstrutor dos discursos públicos de governos, empresas, políticos, lobbies e organizações da sociedade, visando ajudar a população a identificar itens ocultos nas polêmicas sobre temas de interesse social. Mas o que vemos, hoje, é a mídia adotando também um discurso, ou estratégia editorial, tentando participar do jogo pelo poder. A preocupação dos grandes conglomerados midiáticos deixou de ser o esclarecimento público para priorizar os seus próprios interesses corporativos. O cidadão comum só ganha protagonismo quando as empresas de mídia precisam dele como mercadoria de troca na busca de maiores receitas financeiras.

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Carlos Castilho é jornalista.

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