Sexta-feira, 22 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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ARQUIVOS DA LAVA JATO > Liberdade de imprensa

É dar um tiro no mensageiro acusar o The Intercept de tentar detonar a Lava Jato

Por Carlos Wagner em 18/06/2019 na edição 1042

Publicado originalmente pelo blog Histórias Mal Contadas

O foco do repórter é explicar ao seu leitor o conteúdo das informações que estão sendo publicadas no site. O resto é uma outra história que precisa deixar a poeira baixar para saber do que se trata. (Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil)

É chumbo grosso o que vem por aí de novas denúncias do site The Intercept Brasil sobre os bastidores da Operação Lava Jato. Afirmo que é dar um tiro no mensageiro culpar o site por tentativas de desqualificação da operação. A divulgação dos diálogos pelo aplicativo Telegram entre o então juiz Sérgio Moro e o procurador da República Deltan Dallagnol foi uma importante contribuição para tornar transparente o funcionamento da Lava Jato, que tornou-se um símbolo da luta contra a corrupção do Brasil. Um alerta aos jovens repórteres. A operação é um símbolo contra a corrupção. Mas a luta não nasceu com ela e não irá morrer quando terminar. A luta nasceu nos cárceres da ditadura militar (1964 a 1985), para onde foram levados dezenas de brasileiros depois de perderem seus empregos e suas famílias, e onde foram torturados e alguns, mortos. Foi o sacrifício deles que nos forneceu a matéria-prima com que moldamos a Constituição de 1988, que garante, entre outros direitos, a liberdade de imprensa, fiadora da luta contra a corrupção.

Sem a liberdade de imprensa, não existiria a Lava Jato. E os desvios de comportamento que estão sendo denunciados pelo site não existiriam se o funcionamento da operação tivesse sido transparente com a imprensa — claro, preservando os assuntos sigilosos. Muito pelo contrário. A imprensa brasileira foi usada pelos operadores da Lava Jato como uma espécie de “oficializadora” das suas teses de acusação. E, por problemas estruturais, principalmente por falta de gente, devido às demissões em massa que aconteceram nas redações, os grandes jornais do Brasil não conseguiram produzir conteúdos próprios sobre a Lava Jato. É do jogo o ex-juiz Moro e Dallagnol tentarem desqualificar o trabalho da equipe do site, que inclui o jornalista americano Glenn Greenwald, dono de um vasto currículo — há uma vastidão de informações sobre ele na internet. Como também faz parte o presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL-RJ), prestigiar o ex-juiz, que é atualmente o seu ministro da Justiça e Segurança Pública.

Qual é o nosso papel nessa história? É fornecer informações exatas ao nosso leitor. E não pensar pelo nosso leitor. A começar pelo seguinte: o site tem o direito constitucional de proteger a sua fonte. O governo e seus aliados estão batendo em três teclas: a primeira, as informações foram conseguidas de maneira ilegal — os celulares teriam sido invadidos por um hacker. A segunda, que o site tem a intenção de detonar a Lava Jato para beneficiar o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP), que cumpre pena por corrupção em uma cela da Polícia Federal em Curitiba (PR). E, por último, que a orientação ilegal dada por Moro a Dallagnol foi a responsável pelo bom desempenho da operação — há muitos relatórios sobre o assunto disponíveis na internet.

O nosso foco com o leitor deve ser o de adverti-lo sobre o que interessa e esmiuçar os conteúdos do material que foi e que vai ser publicado. Porque são ilegalidades que foram cometidas no andamento dos processos. Essas ilegalidades vão invalidar os processos? É uma pergunta que temos que responder ao leitor. Outra: o direito de defesa do ex-presidente Lula foi atingido? Temos que lembrar ao nosso leitor que as informações já divulgadas, e as que vêm por aí pelo site, estão contando a história secreta da Lava Jato. O que significa transparência na condução da luta contra a corrupção. Uma coisa que só existe em países democráticos graças à liberdade de imprensa. É simples assim.

***

Carlos Wagner é jornalista.

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