ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 549 - 2/2/2010
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CRISE NO SENADO
Jornalismo de faz-de-conta

Por Luciano Martins Costa em 6/8/2009

Comentário para o programa radiofônico do OI, 6/8/2009

José Sarney se defende alegando que as denúncias que pesam sobre ele são menores, baseadas em recortes de jornal. Foi o que bastou para que seus adversários recuassem.

Nas edições de quinta-feira (6/8) dos jornais, o que resta é apenas declaração e mais declaração, queixas e mais queixas sobre a decisão do Conselho de Ética do Senado, de arquivar liminarmente quatro das onze acusações.

Sarney se comportou como um alienado, ou como um personagem defasado na História. Para ele, nomear parentes é parte dos deveres de um avô e pai de família.

A mistura entre o público e o privado está em suas veias, em seu jeito de ver a vida, e ele declara essa convicção tão naturalmente, essa declaração cai tão suavemente no plenário do Senado e repercute tão pouco na imprensa, que torna sem sentido a pesquisa apresentada pela oposição, indicando que 80% dos cidadãos consultados defendem sua saída da presidência do Senado.

Energia de sobra

Pouco importa se a pesquisa dos adversários de Sarney é bem fundamentada ou se é mais uma dessas manipulações da política. Aqueles que decidem e seus consortes da imprensa não parecem interessados nos fatos, mas na versão.

A transmissão dos debates no plenário, durante a leitura das conclusões da Comissão de Ética, deixou vazar episódios de verdadeiro deboche, que os jornais reproduzem em suas edições de quinta-feira (6). Mas nada parece capaz de surpreender. Tudo, até mesmo as caras e bocas dos personagens mostrados na televisão e nas fotos dos jornais, parece um filme antigo do qual todos conhecem o final.

A imprensa insiste no escândalo do dia, faz tudo parecer muito sério, mas não abre uma linha para qualquer abordagem mais profunda da eterna crise política que atrapalha as instituições do país.

Se os jornais colocassem na reforma política e institucional metade da energia que dispensaram ao esforço de acabar com a exigência do diploma de jornalista, que se revelou um mero e desastroso capricho, alguma coisa já teria mudado.

O leitor que desembarcasse hoje de um longo exílio talvez se perguntasse: por que tudo isso parece uma história de faz-de-conta?

Porque é uma história de faz-de-conta.

***

Com o rabo preso

A Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça e a Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda posicionaram-se recentemente contra a fusão da Fernando Chinaglia Distribuidora e da Dinap, Distribuidora Nacional de Publicações, que pertente ao Grupo Abril. A decisão atende a pedido de empresas concorrentes, entre elas o Grupo Globo, que alegaram o risco de formação de monopólio.

Existem no Brasil mais de 200 editoras em atividade, a maioria de pequeno e médio porte, e apenas duas distribuidoras capazes de levar as publicações às 33 mil bancas: Abril e Chinaglia. A fusão colocaria todas as publicações sob controle do Grupo Abril, porque não há outro meio de chegar aos pontos de venda.

O parecer da Secretaria de Acompanhamento Econômico está disponível na internet (pode ser lido aqui), mas a imprensa não se interessou pelo assunto. Da mesma forma, os jornais não tomaram conhecimento de outro tema que coloca em pauta a lisura no mercado de publicações.

Manobra comum

Há duas semanas, na edição nº 2121, a revista Veja publicou uma entrevista com o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, na seção de páginas amarelas, historicamente dedicada a grandes personagens. Uma entrevista que parecia ter sido produzida pela assessoria do próprio governador, tal o tom amigável e de profusos elogios.

O tema da entrevista era: "Ele deu a volta por cima". Referia-se ao fato de Arruda ter se tornado governador depois de haver renunciado ao Senado, no meio do escândalo da violação do painel de votação, ocorrida em abril de 2001.

Sob qualquer critério jornalístico, tal entrevista não faria sentido, diante da atual crise política e de outros temas mais relevantes. Mas é possível que a decisão editorial tenha nascido em outro departamento da revista.

Um mês antes de ser entrevistado, o governador José Roberto Arruda havia feito um pagamento de R$ 442 mil ao Grupo Abril por conta de um contrato para a distribuição de exemplares de Veja em escolas do Distrito Federal. A notícia saiu apenas em alguns blogs. Os jornais não se manifestaram, provavelmente porque esse tipo de manobra, misturando o espaço editorial com os interesses comerciais, se repete pelo Brasil afora (ver "Promotoria quer esclarecer compra de revistas").

Comentários (9)
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adenilde petrina bispo , juiz de fora-MG - aposentada
Enviado em 7/8/2009 às 14:02:02
Depois de tudo que já vivi e ví, não acredito na mídia nem por reza brava.
Amilton Aquino , Olinda-PE - Programador
Enviado em 7/8/2009 às 08:07:19
O jornalismo está mesmo diferente. A responsabilidade em mostrar ambos os lados da notícia deixou de ser uma preocupação de boa parte da imprensa. O jornalismo investigativo, antes bem visto e essencial para a democracia, agora virou sinônimo de “denuncismo”. A natureza da denúncia passou para segundo plano. Agora o debate está focado no “objetivo” da denúncia. Ou seja, se é contra nossa preferência política é “conspiração”, “golpe”. Se é a nosso favor, é jornalismo “alternativo”, “colaborativo”. Nesta linha de “vanguarda” política, a Venezuela segue dando seu belo exemplo ao mundo, calando a “mídia golpista” sob os aplausos da população bestificada pela propaganda governamental.
Hell Back , Florianópolis-SC - Aposentado
Enviado em 7/8/2009 às 07:45:33
"Há um limite onde a tolerância deixa de ser virtude". Até parece que a frase dita por Edmund Burke foi feita para demonstrar o atual momento político por que passa o país. Senhores congressistas, ou vossas excelências mudam o enredo dessa estória, ou resolvam sair do palco desse circo chamado “Congresso Nacional”. Nossas cabeças não são vasos sanitários!
Fernando vaz , recife-PE - pesquisador
Enviado em 6/8/2009 às 22:32:14
Vejam a maior mentira que já vi postada na internet... com autoria de vossa excelência Alberto Dinis. "A República vive um de seus piores momentos – a única instituição capaz de salvá-la é a imprensa. Só ela é capaz de despertar a sociedade diante das emergências. Ao mesmo tempo em que distrai o cidadão com a enxurrada de irrelevâncias e modismos, também é capaz de embargar esta avalanche de hipocrisia e cinismo." Não acredito que sobrevivi para ler tamanha estupidez. Qual é a instituição capaz de salvar a república? A imprensa! Não me faça rir!! A tal imprensa que apoiou a ditadura (folha de SP). Que chama a ditadura de "ditabranda". A impresa que apoiou a venda do Brasil durante o governo de FHC. A mesma imprensa que manipulou a massa durante o impeachment do Collor, só porque o mesmo resolveu cortar toda publicidade da poderosa instituição Globo. A imprensa que falsifica um ficha da época da ditatura de uma pré-candidata à presidência. A imprensa que mantém um campo de força ao redor do [ ] José Serra por receber quantias inestimável de publicidade. Francamente, você acha que o Brasil é composto de idiotas e marionetes como colocou o Ancora do Jornal Nacional (William Boner). Alberto Dinis acho totalmente o contrário, sem a imprensa golpista no atual governo o Brasil estaria em outro patamar. O único poder que o Brasil não precisa é o da imprensa Golpista.
José Olavo Rocha , Florianopolis-SC - Aposentado
Enviado em 6/8/2009 às 21:13:15
Quando os homens responsáveis deste país vão começar a pensar mais no Basil e menos na eleição de 2010. Vamos trabalhar e deixar de ódios . O Senado não está fazendo nada. Nõ está trabalhando nada. O país necessita que o legislativo trabalhe. A Imprensa responsavel tem que deixar de criar este clima de guerra. Hoje o Senado viveu momentos de guerra, de ódios. Vamos ser responsáveis de deixar de alimentar lutas estereis que não levam a nada e que só prejudicam o Brasil. Vamos diminuir a violência, vams ser lúcidos, responsáveis. Chega de brigas mesquinhas, irresponsáveis. Vamos olhar mais para o país e menos para a elição. Deixemos isto para o ano que vem. Estou vendo com meus 83 anos o mesmo clima de ódio do tempo do governo de Jango. Os meses que antecederam o golpe de 64. Quanta violência. Não ha respeito aos adversártios políticos, só ódio, só violência. Basta. Chega. Parem. Já não se aguebta mais este clima.
Zé da Silva Brasileiro , Belo Horizonte-MG - Bancário Aposentado
Enviado em 6/8/2009 às 16:33:20
Não acredito que a escolha do governador do DF para a entrevista nas páginas amarelas tenha tido alguma coisa a ver com o contrato para a distribuição de exemplares de Veja em escolas do Distrito Federal. Como sabemos, na mídia brasileira, um muro hermético e intransponível separa o departamento comercial da redação. Os editores de Veja sequer tinham conhecimento do contrato quando convidaram o governador para a entrevista nas páginas amarelas e o governador esqueceu-se de informá-los. Trata-se simplesmente de uma mera coincidência. Quanto ao tom amigável e de profusos elogios é perfeitamente explicável. Um batalhão de reportéres investigativos da revista foi mobilizado para esmiuçar cuidadosamente o governo Arruda. Não conseguiram encontrar nada. Assim os entrevistadores da revista quedaram pasmos diante dessa ilha de honradez, eficiência e eficácia no oceano de incompetência e corrupção em que está mergulhada a administração pública brasileira. Assim é perfeitamente compreensível que tenham traduzido a sua perplexidade em merecidos e entusiasmados elogios...
Luana Silva , Belém-PA - Jornalista
Enviado em 6/8/2009 às 16:33:06
Na verdade, o jornalismo faz-de-conta não é visível somente no caso Sarney. Nos últimos tempos, os repórteres perderam a capacidade de fazer uma abordagem mais profunda sobre qualquer coisa. Nem de levantar o traseiro das cadeiras eles fazem mais questão; afinal, o que é melhor do que o oráculo google? Vamos mais às ruas, vamos investigar, vamos mais a fundo nas histórias que apuramos e nos fatos que cobrimos. Senão, o que nos resta a não ser repassar o que ouvimos por aí ou o que os resultados de pesquisas online nos proporcionam?
Fredson Neves Aguiar , Palmas-TO - Jornalista Anistiado
Enviado em 6/8/2009 às 14:59:13
“Negativismo Dialético” ///// Nem essa neta, que se diz minha menina, / Nem namorado me são questiúncula; / Não como bagres e nem como rúcula; / Não sei de esquema em Amaralina; ///// Nem a cadeira em que estou patrão, / Nem o mandato, nem as emissoras; / Se muito menos os votos, em Vassouras, / São de Yeda, meus é que não são! /////////////// Nem minha filha ou anos de mandato, / Nem Maranhão é feudo e curriola / Da fundação que eu escondi no mato; ///// Nem casório apadrinha o relutante eu; / Nem os atos conheço dessa nobre escola... / Se duvidar: nem esse bigode é meu! /////////////// (http://rabodaporca.blogspot.com)
Dante Caleffi supe , Rio de Janeiro-RJ - Publicitário Rio de
Enviado em 6/8/2009 às 11:53:54
Quando Sarney foi objeto de sincera preocupação por parte da mídia? Agora?Que se torna estratégicamente necessário a execução dos ritos legislativos que possibilite a consecução dos projetos do governo Lula ? Resta ainda a CPI da Petrobrás,que ruma à desmoralização da oposição midiática,para não mencionar a congressual.
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