ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 561 - 2/2/2010
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AQUECIMENTO GLOBAL
Erros factuais e de interpretação

Por Roberto Takata em 27/10/2009

Tendo em vista o artigo "A mídia e o CO2: Toda unanimidade é burra" publicado neste Observatório da Imprensa, gostaria de informar que há nela um grande número de erros factuais e de interpretação.

Seria trabalhoso listar todos. Abaixo relaciono alguns:

1) Não existe a tal "camada de gases de efeito estufa". Os gases de efeito estufa distribuem-se, por efeito da dinâmica da atmosfera, mais ou menos uniformemente por toda a troposfera. Exceção é o ozônio – que se forma pela ação dos raios UV sobre moléculas de O2 – e se concentra na chamada camada de ozônio.

2) De fato, o elemento carbono é essencial à vida como a conhecemos. O que isso tem a ver com o caso não consigo pensar. Se é uma sugestão de que, por ser essencial à vida, então qualquer composto que o contenha pode estar presente em qualquer quantidade que será boa à vida, então é algo totalmente errado: basta pensar que o CO2 em excesso acidifica o sangue – situação conhecida como hipercania – sendo bastante danoso à saúde.

3) De fato, se não houvesse efeito estufa algum, a vida na Terra não seria possível. Novamente, não sei a que lugar se quer chegar. Se for uma sugestão de que qualquer nível de efeito estufa será benéfico, basta pensar no forno que é o planeta Vênus com seus mais de 460º C de temperatura superficial média.

5% de CO2 é considerado tóxico

4) De fato, o CO2 perfaz apenas cerca de 0,3% da troposfera em massa. Ocorre que nem o N2, nem o O2 – principais componentes – apresentam efeito significativo ao aquecimento global, além de suas concentrações permanecerem essencialmente inalteradas. O fato da concentração de CO2 ser pequena, não quer dizer que seu efeito seja insignificante. Ao contrário, não fossem esses 0,3% de CO2, a temperatura superficial média da Terra seria muito abaixa: sem os chamados gases estufa, a temperatura média do planeta seria de 18º C, e não de +14º C (ver aqui).

5) Fazendo uma conta simples: se 60% do carbono é capturado pelas algas e 40% pelas florestas, teremos 100% de captura de CO2 e não deveríamos detectar aumento de sua concentração na troposfera. Mas detectamos um aumento acentuado em sua concentração: desde 1960, subiu de cerca de 315 partes por milhão (ppm) para cerca de 380 ppm – os tais 20%, não em 200 anos, mas em pouco mais de 40 anos (ver aqui).

6) De fato, se não houvesse CO2 não haveria fotossíntese. Mas, mais uma vez, não sei aonde se quer chegar isso. Se se sugere que então qualquer nível de CO2 é bom, novamente lembro a questão da hipercania, por exemplo.

7) Se 50% do C está fixado na biomassa e 50% no solo, novamente temos 100% de C. Então não haveria nem CO2 na atmosfera, nem haveria hidrocarbonetos, nem seres vivos que não fossem árvores. Mas, de todo modo, uma das preocupações principais é exatamente com o desmatamento, que mobilizaria o C fixado na biomassa das plantas.

8) É factualmente errado dizer que o CO2 na atmosfera está concentrado sobre as cidades e regiões de queimadas. O que ocorre é que ali, a concentração de CO2 é maior, mas não significa que a maior parte do CO2 da troposfera está ali – do contrário, teríamos um ar realmente irrespirável nas cidades. Basta pensar que as cidades ocupam uma área de cerca de 1,2% do total da superfície da Terra (ver aqui), o que significaria (considerando-se uma espessura mais ou menos uniforme da troposfera) que os 0,3% do CO2 estariam em 1,2% da troposfera. Se assim fosse, a concentração de CO2 no ar das cidades seria de 25%! Uma mistura gasosa com 5% de CO2 é considerada tóxica.

Aquecimento antropogênico

9) "O CO2 não esquenta nada". Se não fossem os gases estufa, como dito, a temperatura média da superfície do globo não seria de 14º C positivos como hoje, mas de 18º C negativos (ver aqui).

10) Ninguém afirmou que o CO2 é a causa única do aquecimento global. E sim, que o aumento de sua concentração é um dos componentes principais.

Mas o artigo não é todo demeritório. A necessidade de uso racional de solos e recuperação de áreas degradadas é importante, não apenas na questão das mudanças climáticas. Na verdade, em relação ao aquecimento global, estudos têm indicado que a conversão de áreas tem um efeito de resfriamento – basicamente pelo aumento no albedo (ver aqui e aqui.

A respeito do aquecimento global antropogênico, escrevi em meu blogue um texto em três partes, mostrando os indícios que suportam essa hipótese (ver aqui, aqui e aqui).

Comentários (8)
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Richard Jakubaszko , São Paulo-SP - jornalista
Enviado em 2/11/2009 às 14:12:01
Encontrei na internet, recomendo a leitura do artigo científico "Desmistificando o aquecimento global", autoria do cientista Luiz Carlos Baldicero Molion, do Instituto de Ciências Atmosféricas, Universidade Federal de Alagoas. O artigo do Prof. Molion é esclarecedor de muitos aspectos sobre o debate do aquecimento, em especial a questão do CO2: http://www.alerta.inf.br/files/molion_desmist.pdf
Richard Jakubaszko , São Paulo-SP - jornalista
Enviado em 30/10/2009 às 12:29:43
Caro Roberto Takata, confesso que não entendi o seu "artigo réplica", pois vc concorda, "de fato", com quase todas as observações técnicas contidas em meu artigo publicado na edição 559 aqui do OI, e apenas diz, na minha opinião, duas incorreções: primeiro, que não existe camada de GEE, e que eu teria afirmado a sua existência. Ora, fui que inventei essa baboseira? Depois, quase ao final, até admite que o artigo não é de todo "demeritório"... logo após afirmar a maior barbaridade de seu texto, no item 10, de que ninguém afirmou que o CO2 é a causa única do aquecimento global... ôrra meu!!! Acho que pirei, pois é só o que leio e ouço na grande mídia. Espero que vc tenha ficado satisfeito com a resposta do Dr. Odo Primavesi, afinal, ele foi um dos signatários do maledeto do relatório do IPCC. Juntos estamos brigando para colocar as coisas nos eixos, o que é muito difícil de fazer com a mídia do jeito que anda, e pior ainda com a ciência em confronto de egos, em desacordo de estrelas midiáticas que dizem qualquer asneira para aparecer na mídia. Vi seu blog, lá vc diz, de outras maneiras, a mesma coisa que estamos dizendo, Primavesi e eu. A luta é contra a mediocridade generalizada e ainda contra os gigantescos interesses econômicos. Estes mistificam fatos, criam dificuldades para vender facilidades.
Roberto Takata , são paulo-SP - estudante
Enviado em 30/10/2009 às 05:49:02
"a temperatura média do planeta seria de 18º C, e não de +14º C" - onde está "18oC" leia-se "-18oC" (menos dezoito). []s, Roberto Takata
Odo Primavesi , São Carlos-SP - engenheiro agrônomo
Enviado em 29/10/2009 às 23:58:17
3 A ação é antrópica! E o pior é que esse impacto antrópico já corre 10.000 anos de degradação de ecossistemas, por ação do fogo global, e cujo calor em excesso escapava para o espaço, até a camada de GEE engrossar uns 100 anos atrás, e mais intensamente uns 30 anos atrás. Aí surgiu uma resultante fatal para a vida terrestre. E como se joga toda a culpa nos gases, permite-se que a toque de caixa ecossistemas naturais remanescentes em áreas críticas para a dinâmica da atmosfera sejam destruídas inconsequentemente, sem contestação. É a isso que esse artigo está se revoltando. Só os gases!!! E a causa maior continua solta!!!?? Obrigado pelo retorno e a possibilidade de troca de informações. Cordialmente Odo Primavesi
Odo Primavesi , São Carlos-SP - engenheiro agrônomo
Enviado em 29/10/2009 às 23:57:05
4,5,6,7. Já tratado em 1 8. OK. Para reforçar que sua concentração (como de outros gases, como CO, No) é maior sobre queimadas e combustões em intensidade e escala. Não somente cidades. Mas tb áreas agrícolas que cobrem 70% do território nacional não amazônico. 9. O cobertor de GEE são como um cobertor. Não esquenta. Retém calor irradiado pelo corpo, no caso a Terra. E porque a Terra irradia mais calor, além de ser retido mais calor (antes perdido diretamente ao espaço) pelo espessamento desse cobertor de GEE? Em 1980 dizia-se que chegavam 47% da radiação solar sobre a superfície terrestre. Depois subiu para 51%, e hoje já se fala em incidência de 60%. Porque os mecanismos de interceptação não estão funcionando? 10. Não é o que se percebe nas ações de reação dos que fazem ou dizem fazer alguma coisa para reduzir o aquecimento global. Tanto que cientistas britânicos, irritados, procuram incluir as correntes marinhas nos modelos de simulação usados pelo IPCC (que só consideram os gases), para melhorar a explicação dos desatinos atuais da natureza, e que mesmo assim só explicam 40%. Seu texto é excelente tentativa de esclarecimentos e merece ser lido. 1. O aquecimento global existe, e os sinais mais expressivos são os derretimentos das geleiras. Os aquecimentos locais podem ser mais extremados, e são por ação do homem.. 2. O sol realmente explicaria uns 5-10% do efeito.
Odo Primavesi , São Carlos-SP - engenheiro agrônomo
Enviado em 29/10/2009 às 23:53:36
1. a camada de GEE é essencial e o primeiro filtro de entrada de radiação infravermelha (IV) solar, e de retenção de parte da radiação IV terrestre. O problema com os gases de C e N são que são mais estáveis que o vapor de água (em maior quantidade), que varia em função da necessidade de dissipar ou interceptar radiações. A camada de GEE existe, mas não é a mais importante na degradação ambiental. Na realidade a camada de GEE via vapor de água procura ampliar suas atividades no processos de arrefecimento. Mas mesmo que se consiga isso, os efeitos deletérios do excesso de CO2 na atmosfera como a acidificação dos mares e a destruição da biodiversidade ali existente é muito maior, e só pode ser revertida retirando o CO2 em excesso do ar. Ao dizer que essa camada não existe, foi para mostrar a fração menor que exerce sobre as mudanças climáticas, e as mais importantes não são mencionadas pelos que fazem as políticas públicas. 2 Na natureza ocorrem processos opostos com os mesmos elementos, conforma a dosagem. CO2 mantém e mata, árvores esquentam ou esfriam, água sólida reflete e liquida absorve radiação solar, nuvens retêm calor e evitam aquecimento. 3. O problema ai foi questão de grafia, trocando CO por CO2. As queimadas emitem muito CO que facilmente chega a níveis nocivos. E queimadas e combustíveis de compostos orgânicos são um processo usado em demasia. segue...
Odo Primavesi , São Carlos-SP - engenheiro agrônomo
Enviado em 29/10/2009 às 23:51:02
Um texto jornalístico geralmente procura exaltar e sensibilizar o lado emotivo do leitor, pois o arrazoado científico por vezes fica pesado e complexo de entendimento. O que nos preocupa é que apesar das evidências claras de inúmeros desequilíbrios ocorrentes na biosfera e que está fragilizando as condições de vida tb da espécie humana, dentre elas a composição da atmosfera, não se vê intenções políticas muito menos ações reais de recomposição na escala em que ocorreram os desequilíbrios. Assim no calor da exaltação realmente ocorrem afirmações extremadas, mas cujo resultado final estão acertadas. Um dos pontos questionados é de que as mudanças climáticas sejam realizadas somente pelos gases de efeito estufa. A degradação de ecossistemas naturais e que passam a gerar mais calor em excesso, porque não conseguem formar nuvens interceptadoras, por si só significam menor capacidade de suporte biológico e menor capacidade de produzir alimentos e de água limpa e de condições atmosféricas adequadas à vida. Os aquecimentos locais (devido à degradação ambiental e desligamento de serviços ambientais naturais de estabilização térmica e de UR do ar) chegam a ser 13oC (S.Paulo) ou mesmo 16oC (Rio de Janeiro) mais elevados que a media global. É esse o ponto central discutido. Os gases são um agravante do descalabro ambiental em que nos encontramos, não a causa. Assim: (segue)
Odo Primavesi , Sao Carlos-SP - Eng.Agronomo
Enviado em 29/10/2009 às 21:18:10

Bom dia, Como poderia encaminhar um texto maior de esclarecimentos ao Roberto Takata? Obrigado Odo

Nota do OI: Para entrar em contato com a Redação, o endereço é canaldoleitor@ig.com.br  conforme indicado na página Envie seu Artigo, item constante do botão "Contato" da barra de menu presente nas páginas do Observatório.

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