ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 564 - 2/2/2010
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DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA
A grande mídia e a desigualdade racial

Por Venício A. de Lima em 19/11/2009

Reproduzido da Agência Carta Maior, 17/11/2009

O "Dia da Consciência Negra" é comemorado em todo o país na data em que Zumbi – o herói principal da resistência simbolizada pelo quilombo de Palmares – foi morto, 314 anos atrás: 20 de novembro de 1695. Muitas revoltas, fugas e quilombos aconteceram antes da Abolição em 1888.

O Brasil de 2009 é, certamente, outro país. Apesar disso, "os negros continuam em situação de desigualdade, ocupando as funções menos qualificadas no mercado de trabalho, sem acesso às terras ancestralmente ocupadas no campo, e na condição de maiores agentes e vítimas da violência nas periferias das grandes cidades".

O estudo Síntese de Indicadores Sociais (SIS), divulgado em outubro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que, de 1998 a 2008, dobrou o número de negros e pardos com ensino superior. Mesmo assim, os números continuam muito abaixo da média da população branca: só 4,7% de negros e pardos tinham diploma de nível superior em 2008, contra 2,2% dez anos antes. Já na população branca, 14,3% tinham terminado a universidade em 2008. Dez anos antes, eram 9,7%. Entre o 1% com maior renda familiar per capita, apenas 15% eram pretos ou pardos no total da população brasileira.

Sentidos contrários

Diante desse quadro de desigualdade e injustiça histórica, como tem se comportado a grande mídia na cobertura dos temas de interesse da população negra brasileira, vale dizer, de interesse público?

Uma pesquisa encomendada pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert), realizada pelo Observatório Brasileiro de Mídia (OBM), analisou 972 matérias publicadas nos jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e O Globo, e 121 nas revistas semanais Veja, Época e IstoÉ – 1093 matérias, no total – ao longo de oito anos.

No período compreendido entre 1º de janeiro de 2001 a 31 de dezembro de 2008, foi acompanhada a agenda da promoção da igualdade racial e das políticas de ações afirmativas em torno dos seguintes temas: cotas nas universidades, quilombolas, ação afirmativa, estatuto da igualdade racial, diversidade racial e religiões de matriz africana.

Não é possível reproduzir aqui todos os detalhes da pesquisa. Menciono apenas cinco achados de um relatório de quase 100 páginas.

1. Com graus diferentes, os jornais observados se posicionaram contrariamente aos principais pontos da agenda de interesse da população afrodescendente. Em toda a pesquisa, as políticas de reparação – ações afirmativas, cotas, Estatuto da Igualdade Racial e demarcação de terras quilombolas – tiveram o maior o percentual de textos com sentidos contrários: 22,2%.

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2. As reportagens veicularam sentidos mais plurais do que os textos opinativos que, com pequenas variações, se posicionaram contrários à adoção das cotas, da aprovação do Estatuto da Igualdade Racial e da demarcação de terras quilombolas. A argumentação central dos editoriais é de que esses instrumentos de reparação promovem racismo. Em relação à demarcação das terras quilombolas, os textos opinativos em O Estado de S.Paulo (78,6%) e O Globo (63,6%) criticaram o decreto nº 4.887/2003, que regulamenta a demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos. O argumento principal foi o de que o critério da autodeclaração é falho e traz insegurança à propriedade privada.

3. A cobertura sobre ações afirmativas foi realizada, basicamente, em torno da política de cotas: 29,3% dos textos. Outros instrumentos pouco foram noticiados. O Estatuto da Igualdade Racial esteve presente apenas em 4,5% dos textos. A discussão sobre as ações afirmativas mereceu atenção de 18,9%. Quase 40% desses textos foram publicados em 2001, ano da Conferência sobre a Igualdade Racial em Durban, África do Sul. A lei 10.639/2003, que inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira", praticamente não foi noticiada. Menções à lei foram feitas de forma periférica, em apenas 0,5% do total de textos, sem que os veículos tenham problematizado o assunto ou buscado dar visibilidade à sua aplicação.

A cobertura oferecida pelo jornal O Globo merece um comentário à parte. O jornal dedicou 38 editoriais sobre os vários temas pesquisados – destes, 25 (ou 65,8%) trataram especificamente de "cotas nas universidades". Os três jornais publicaram 32 editoriais sobre o mesmo assunto. O Globo foi, portanto, responsável por 78% deles.

Ainda que os principais argumentos contrários – as cotas e ações afirmativas iriam promover racismo (32%) ou os alunos cotistas iriam baixar o nível dos cursos (16%) – não tenham se confirmado nas instituições que implementaram as cotas, a posição editorial de O Globo não se alterou nos oito anos pesquisados.

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4. Embora a maioria dos estudos e pesquisas realizadas por instituições como IBGE, IPEA, Seade, OIT, Unesco, ONU, UFRJ, Ibope e Datafolha, no período analisado, confirmem o acerto das políticas de ação afirmativa, apenas 5,8% dos textos publicados nos jornais noticiaram e debateram os dados revelados. Esses estudos e pesquisas trataram de assuntos como: menor salário de negros frente a brancos; menor presença de negros no ensino superior; negros como maiores vítimas da violência; e pouca presença de negros em cargos de chefia, dentre outros.

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5. O noticiário das revistas semanais sobre a afrodescendencia e a promoção da igualdade racial teve características muito semelhantes ao encontrado nos jornais. Os textos com sentidos contrários às políticas de reparação (26,4%) foram em maior percentual do que aqueles com viés favorável (13,2%). Da mesma forma que nos jornais, a cobertura se concentrou nos programas de cotas – 33,1% – e o alto percentual dos textos que trataram das religiões de matriz africana (25,6%) foi o único que destoou da freqüência nos jornais: 4,7%.

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Liberdades e direitos

Os resultados da importante pesquisa realizada pelo OBM denunciam um estranho paradoxo. Enquanto a grande mídia tem se revelado cada dia mais zelosa – aqui e, sobretudo, em alguns países da América Latina – com relação ao que chama de liberdade de imprensa (equacionada, sem mais, com a liberdade individual de expressão), o mesmo não acontece com a defesa de direitos fundamentais como a reparação da desigualdade e da injustiça histórica de que padece a imensa população negra do nosso país.

Estaria a grande mídia mais preocupada com seus próprios interesses do que com o interesse público?

Comentários (10)
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Jaime Collier Coeli , Itanhaem-SP - Aposentado
Enviado em 21/11/2009 às 08:49:55
Nota de falecimento. No Dia da ConsciÇencia Negra faleceu, no hospital Sirio-Libanês, em SP, esse que foi o grande icone da negritude, o ex-prefeito de S. Paulo, Celslo Pitta. Um bom tema para ser discutido, porque eblematico, pois engloba a cor da pele, a questão das cotas (em Leeds), a etica na politica e nos negocios publicos. Mas a frio, sem sarcasmos.
Marcelo Idiarte , Porto Alegre-RS - Diagramador
Enviado em 20/11/2009 às 19:20:38
Alguma dúvida de que a sistemática campanha anticotas não é articulada e capitaneada - casualmente - por um grupo de imprensa notório por suas posições anti-Democracia? O curioso não são as opiniões contrárias às cotas, mas sim a imensa coincidência delas fecharem ipsis litteris com o pensamento de Ali Kamel, Otávio Frias, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo e outros baluartes do jornalismo de negócios e do compromisso indelével com a elite brasileira. Mesmo que fosse apenas "coincidência" mesmo, só o fato de alguma coisa ter apoio explícito destes cidadãos já deveria despertar suspeita e reflexão. Aliás, é bom que se diga, racismo é racismo sob qualquer meio, seja praticado de forma explícita e acintosa como na África, seja por via dissimulada como no Brasil. A única coisa que diferencia as duas maneiras de racismo é que nesta última fica evidente a falta de hombridade que o sujeito tem até para admitir o que ele é.
Thiago Conceição , Campinas-SP - Programador
Enviado em 20/11/2009 às 18:57:40
Ações afirmativas são uns instrumento de racismo. Quanto a isso não há dúvidos. Ela instaura legalmente um racismo na sociedade. E como já diria, existem mentiras, mentiras deslavas e estatísticas. Para surgir com esse "cálculo" mentiroso os racialistas brasileiros, incluindo os do IBGE, simplesmente agrupam os mestiços juntos aos negros. Parem de mentir! E se tem algum negro lendo isso aqui, levanta a cabeça e vai a luta porque nada cai do céu. Esse bando de parasitas políticos não está nem um pouco interessada contigo, mas apenas um usá-lo como uma ferramenta política.
carlos  anselmo , fortaleza-CE - engenheiro
Enviado em 20/11/2009 às 17:39:35
quanto a pergunta, é mais do que óbvio que a grande mídia partidarizou-se. embora não tenha mandato eletivo, feito o executivo e o legislativo, teima em impor sua agenda política ao país. sobre os comentários inconsequentes apontados por um leitor do post, basta pesquisar na história do brasil. em quatro quintos dela a escravidão foi a regra. as ações afirmativas não se restingem a simplesmente alavancar economicamente os negros, mas também elevar a auto-estima dessa população. as pesquisas desenvolvidas pelo ipea, ibge e universidades demonstram o acerto de tais medidas. no mais, feito vinícios de moraes, à benção zumbi dos palmares!
Dimitri Andrade Barbosa , Três Pontas-MG - Estudante
Enviado em 20/11/2009 às 15:15:25
Talves o posicionamento da mídia seja só um reflexo deste quadro social, afinal quantos são os negros que trabalham em "grandes jornais"? Qual será a opinião de profissionais da imprensa como Glória Maria, Zileide Silva ou Heraldo Silva, sobre as políticas de ações afirmativas? Também é possível que, baseando o sistema de cotas em critérios socioecômicos ao invés de raciais, o programa receba um apoio maior da sociedade em geral.
Geraldo Silva , Belo Horizonte-MG - *
Enviado em 20/11/2009 às 15:09:36
Frequentemente se questiona se há racismo no Brasil. É lógico que existe. Ora, se existe racismo em vários lugares do mundo, como na França, Estados Unidos, Argentina e nos países africanos, onde os negros das diversas etnias brigam entre si, por que o Brasil haveria de ser o paraíso onde todas as raças convivessem na mais perfeita harmonia? A diferença é que no Brasil racismo é mais atenuado, nunca chegou ao nível de conflito armado como em outros países. No entanto, isso que deveria ser considerado como fator positivo, é visto como negativo por esses questionadores racialistas. Pois eles preferem classificar o racismo no Brasil usando termos como racismo dissimulado, velado, disfarçado. Certamente esses racialistas estão insatisfeitos e querem ver, em nosso país, derramamento de sangue por motivos raciais.
cesar  oscar , são paulo-SP - autonomo
Enviado em 20/11/2009 às 13:16:07
Obviamente que a midia esta preocupada com seus interesses:a)economicos(o marketing na sua maioria é demandada por consumo dos brancos e os anunciantes não vão colocar seus produtos para os negros que são maioria pobre e sem condição de comprar).b)social e politico:a midia é contraria a cotas pois "os negros ditos pouco capazes" não podem concorrer com as vagas dos filhos dos brancos no vestibular, uma vez que estes pagam as escolas caras desde o maternal.Só vejo uma saida: muita mobilização social e muito apoio a educação dos afrodescentes no Brasil principalmente do terceiro setor. Abs a todos
RAIMUNDO MARINHO MARINHO , belém-PA - servidor público
Enviado em 19/11/2009 às 15:08:42
A falta de consciência histórica gera comentários inconsequentes. Quanta pequenez, quanta insensibilidade, quanto QI BAIXO.
calypso thereza  escobar velloso , rio de janeiro-RJ - comentarista
Enviado em 19/11/2009 às 14:12:39
imagino,eu,q.nós os branquelos é q.somos caçados,aceita? No Brasil de sempre,hoje ocupa o lugar dos EUA,o número de negros,além da maioria(?)vedam seus bairros a qualquer branco e com o nariz caminhando na frente...será um sistema racial trabalhado pelo homem e vai durar sua eternidade`´E o q.imagino de seu longo,detalhado ao cansaço,O racismo,quando um branco precisa de seus serviços e bem remunerado,leva um virtual açoite de traquinagem,certo? Particulamente,me quedo de medo,trato-os bem,não me preocupa(mesmo escrevendo aquí)ficar penalizada com este problema,conheço poucos da raça escura q.tenham um bom QI,isto o dia a dia nos mostra o sonho de enfrentá-los à distância,sem mais fico grata
Laércio Lucas Baryoussef , Juazeiro-BA - Estudante de Jornalismo
Enviado em 19/11/2009 às 12:02:40
Nããão!!! De modo algum, imagina!!
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