ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 571 - 5/1/2010
  Imprensa em Questão
Início > Índice Geral > Imprensa em Questão + A | - A
 
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]

ANO NOVO, TUDO VELHO
Dilúvios, modo de cobrir

Por Alberto Dines em 5/1/2010

A TV Globo estava no ar havia nove meses sem conseguir liderar a audiência como prometera. Diante da catástrofe que se abateu sobre o Rio, Roberto Marinho deu o sinal verde: as câmeras foram para a rua, a emissora ficou no ar enquanto durou o dilúvio – três dias ininterruptos – cobriu a vida da população atarantada, o resgate das vítimas, coordenou a ajuda aos desabrigados. Quando acabou a tormenta, a Globo estava relançada. E consagrada.

A chuva torrencial começou em 11 de janeiro de 1966, a maior precipitação pluviométrica ocorrida na cidade desde 1883, quando começaram as medições. Só no primeiro dia morreram 117 pessoas vitimadas por deslizamentos de encostas e desabamentos. Um edifício nas Laranjeiras estatelou-se no chão (ali morreu um dos irmãos do jornalista Nelson Rodrigues). No interior do estado do Rio, romperam-se as represas da Light, interrompeu-se o fornecimento de energia e, em seguida, foi decretado um rigoroso racionamento.

Eleito em outubro do ano anterior, diante da resistência da linha dura militar o governador Negrão de Lima só conseguira tomar posse no início de dezembro de 1965, graças ao aval do presidente-general Humberto Castelo Branco. Nas primeiras horas da tragédia, o governo federal abriu uma linha de crédito de 2 bilhões de cruzeiros. Um verão para não esquecer.

Jornalismo é serviço público. A história da imprensa mundial tem inúmeras façanhas como a do batismo da TV Globo; no Brasil, mínguam – esta aconteceu 43 anos atrás, há mais de uma geração.

Era dos cataclismos

Os portais de notícias brasileiros perderam uma excelente oportunidade de exibir o potencial da internet. Na cobertura dos estragos causados pelas últimas chuvas, não souberam tirar partido do clima de recesso das redações de jornais – sobretudo na estressada Paulicéia – e contentaram-se em aproveitar as sobras da intensa movimentação das rádios. Já na sexta-feira (1/1) à tarde, doze horas antes dos jornais de sábado, poderiam ter mostrado os estragos na Ilha Grande, em Angra dos Reis e no outro lado da montanha, no vale do Paraíba (Cunha e São Luiz de Paraitinga).

Os portais noticiosos da internet assumem-se como os exterminadores da mídia impressa, mas não se dispõem a investir em jornalismo. Falam em "conteúdo exclusivo", mas até agora não se viu um portal de notícias fretar um helicóptero para cobrir uma emergência ou destacar uma equipe para investigar uma denúncia. Não querem ser testados nem comparados.

As redes "sociais" da web aparentemente funcionaram na localização de sobreviventes, identificação de vítimas, distribuição de imagens e a blogosfera – como sempre – encheu-se de indignação. Na melhor das hipóteses isto é comunicação, não é jornalismo.

Também não é jornalismo forçar lágrimas dos telespectadores com depoimentos chorosos. Estas lágrimas secam depressa. Estamos ingressando na era dos cataclismos, convém preparar-se para desafios mais difíceis.

Comentários (16)
Comentar
Compartilhe
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas – e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.
         
Nome :   Sobrenome :
E-mail:   Profissão:
Cidade:   Estado:
Comentário:


para o limite de 1400.
 
The CAPTCHA image
Clique aqui para ouvir o
texto soletrado(mp3)
Digite no campo abaixo o texto
que você vê na imagem ao lado.

 
wendel  Anastacio , Barbacena-MG - Vendedor
Enviado em 11/1/2010 às 16:14:06
Caro Sr. Dinis; Como minha memória não é como a da maioria dos brasileiros, solicito: nos conceda, POR FAVOR, seus brilhantes comentários sobre o episódio do " ISTO É UMA VERGONHA"
Alexandre Pastre , Andradas-MG - contabilista
Enviado em 9/1/2010 às 17:18:56
Melhor este que o outro artigo do gênero. Parecem ser até de autores diferentes.
ricardo pires de paula , Presidente Prudente-SP - professor
Enviado em 9/1/2010 às 01:38:55
Para quem só assistiu ao Jornal Hoje do dia 1 de janeiro ficaria com a impressão de uma tragédia ter se abatido, exclusivamente, com alguns ricos que passavam a virada de ano em uma pousada. Até imagens sobrepostas do antes e do depois da pousada eram mostradas aos telespectadores aflitos com a notícia. Só se falava na pousada, no possível número de hóspedes vitimados. Nenhuma linha sobre o que ocorreu nos morros de Angra. Pouco depois, descobriu-se que a quase totalidade dos hóspedes havia sido salvo pelo simples fato de a avalanche ter contornado a pousada e não destruído conforme havia sido mostrado pelo Jornal Hoje. Mesmo depois de ter sido aberto o horizonte da cobertura sobre os eventos, a única vítima que mereceu ser mencionada com nome, sobrenome e história de vida foi a filha do dono da pousada. Alguém poderia me explicar por que?
cristovão  xavantes , linhares-ES - desempregado
Enviado em 8/1/2010 às 21:10:40
Também não vi nada neste Observatório, conforme propõe o articulista. Tá todo mundo de férias?
Márcia Pimentel , Rio de Janeiro-RJ - Jornalista
Enviado em 7/1/2010 às 22:47:10
Eu acho que o cerne central da questão está no tipo de crença que se abateu sobre o jornalismo. Ando, realmente, muito decepcionada com a profissão que parece ter adotado a máxima de que o rebaixamento dos conteúdos e a apelação emocional é a receita do "grande" jornalismo contemporâneo. Tudo que é um pouquinho mais complexo costuma encontrar a cara feia do editor, porque isso é coisa chata que o público não quer saber. Adicione a isso a busca pela emoção barata e pelos clichês. Chega a ser constrangedor ver o jornalista forçando aquela barra para conseguir uma lágrima do entrevistado e a edição acrescentando musiquinhas, que transformam tudo em clichê. Então, pra quê fazer grandes coberturas? Pra quê puxar o fio da complexa rede em que a catástrofe se insere? O público não quer saber dessas coisas, acreditam os "grandes" chefes do jornalismo de hoje! E, assim, tudo vira aquele feijão com arroz que o jornalista sequer se tem mais saco de fazer. Vira burocracia e reprodução da mema receita de clichês.Nesse contexto, fazer grandes coberturas deve dar uma grande preguiça a todos. Pra sair dessa preguiça burocrática só mesmo quando o dono do veículo tem algum interesse político-econômico-eleitoral por detrás. Aí, sim, não se medem esforços de cobertura para abater o inimigo.
Vânia Faissal , São Paulo-SP - Contadora
Enviado em 7/1/2010 às 15:51:34
Caro Dines, estou ansiosa por seu comentário sobre o vazamento do áudio de seu colega de profissão, Boris Casoy, sobre os garis... ansiosa.
Murilo Lucena , Teresina-PI - Jornalista
Enviado em 7/1/2010 às 11:34:03
Impressionante, Dines! O que há de veiculos utilizando-se da desgraça alheia para se alto promover. A questão inteira, é que tudo o que assistimos, lemos (impresso ou web), faz parte do jogo do "Quem comeu meu queijo?". Não a menor dúvida, os veiculos querem e escolhem o caminho mais fácil para "informar", provocar "comoção" geral. Recordo-me, quando cobria entregas de cestas à desabrigados de enchentes, uma senhora abrigada em uma escola falar o seguinte: "...não há porque nos darem cestas, no fim da semana tudo acaba e nada nos trará o que perdemos". Penso o mesmo dessas coberturas. Não adianta ilustrar a materia televisina, ou escrita, com o termo "humanização", se esse princípio é extráido quase que a força por veiculos que não sabem a hora de parar. Cito a TV Record, nunca houve do meu ponto de vista, uma emissora para transformar a catástrofes em coisas piores, como a expressão viciada do Paulo H. Amorim "Tragédia". Nessa corrida, pelo queijo, nos perguntamos: "Somos jornalistas, ou ratos?"
Cleomar Santos Pereira Santos , Goiânia-GO - bancário
Enviado em 6/1/2010 às 18:45:05
Pois bem Dines. Me permita lhe chamar assim. O fato é: a catástrofe de Angra foi um acontecimento catastrófico. Mas o que mais me “lampeja” as antenas é que a grande imprensa só investiu massiçamente em alagamentos por decorrência das chuvas nos grandes centros quando houve o envolvimento de pessoas de grande “cacife financeiro”. Para ser mais contemporâneo, nos últimos doze meses os grandes centros urbanos como SP, RS, SC e até mesmo RJ, sofrem de enchentes advindas das chuvas e possas morrem com isso, até em maior número que o do texto comentado. Na verdade somos uma imprensa provinciana e viciada. Tenho certeza que você Sr. Dines quer falar por esta janela... SALDAÇÕES, CLEOMAR SANTOS, ACAD. EM JORNALISMO
Eduardo  Guagliardi , Braço do Norte-SC - Médico
Enviado em 6/1/2010 às 13:30:09
Pegou muito mal. O programinha "Estrelas" de Angélica, no dia 2/janeiro, em meio à tragédia de Angra foi aonde?? Em Angra!! Que falta de respeito! Podiam ter trocado, não teria custado nada (ou teria??). Falta de respeito da mídia é assim mesmo.
bruno pettinelli , rio de janeiro-RJ - jornalista
Enviado em 6/1/2010 às 00:05:47
Impressionante como a imprensa lida com catástrofes. Exploram ao máximo os vitimados, sensacionalizando suas manchetes. Repórteres da Globo entrevistam uma sobrevivente, amiga de uma falecida, e pais da mesma, com perguntas do tipo: "como eram seus momentos com ela?" ou "o que ela mais gostava de fazer?". E a câmera, num zoom malicioso, enquadra os olhos lacrimosos. Forçam-se lágrimas, vendem-se jornais. E a cobrança de autorizadades que, não sabe-se o por quê, permitiram construções em encostas não é feita. Como jornalista, sinto vergonha do desserviço jornalístico que nos é servido.
Sergio Herlain , Curitiba-PR - aposentado
Enviado em 5/1/2010 às 23:23:55
Esta nova "era de cataclismos" carece muito de informação, revelando o pouco conhecimento ambiental em todos os níveis, sejam administrativos, legislativos e informativos. Basta analizarmos os boletins metereológicos diários. O noticiário limita-se a quantificar o volume de água derramado, sem se preocupar com sua origem. De fato, o "problema do meio-ambiente" é muito sério mesmo.
adenilde petrina petrina , juiz de fora-MG - aposentada
Enviado em 5/1/2010 às 19:23:37
Tambem acho que não é bom jornalismo forçar as nossas lágrimas... concordo que as lagrimas a gente seca, esquece e pronto. Quanto a informação detalhada e bem fundamentada por uma pesquisa séria dos motivos do cataclismos e entrevistas elucidativas, a gente não esquece. repassa as informações e passa observar melhor o meio ambiente que nos rodeia e a cuidar dele pois entendemos a mensagem. Mas é fácil ver que os jornalistas não tem a preocupação de nos informar e, que talvez,muitos deles, nem tenham capacidade intelectual e interesse social para tanto. é mais fácil culpar a chuva por todos esses desastres. aposto que um jornalismo comunitário cumpriria melhor o papel de informar e conscientizar a população
Julio Barcelos , Rio de Janeiro-RJ - Universitário
Enviado em 5/1/2010 às 16:08:54
Concordo quando Alberto Dines diz que "não é jornalismo forçar lágrimas dos telespectadores com depoimentos chorosos." Jornalismo é conscientizar as pessoas que estão numa boa situação a ajudar àquelas que precisam de uma força.
alice  franca leite , Rio de janeiro-RJ - profª/Letras
Enviado em 5/1/2010 às 14:31:10
Lembro muito bem da enchente de 1966,pois foi quando nasceu minha filha e nem podíamos sair pra levá-la ao médico! Tudo inundado,parecia o dilúvio,sobreveio ainda uma epidemia de tifo nas áreas mais pobres,mis desvalidas.... No ano seguinte desaba o prédio da Belizário Távora/Laranjeiras onde morrem Paulo,MªNatália & Família e o lugar ficou como quemal -assmbrado, testemunha da tragédia! É incrível como estas coisas ainda se repetem: tudo poderia ser previsto, já se vão mais de 40 anos! Mas o que me estarrece e me revolta é que nem sequer enterraram ou acharam o último corpo de mais uma vítima e... o prefeito de Angra já está pensando em ... comoangariar fundos e preparar o ... próximo Carnaval de 2010!!! Para esta gente a vida alheia não é mais do que um negócio!!! a.francaleite@uol.com.br
José Tadeu  Genaro , Curitiba-PR - engenheiro
Enviado em 5/1/2010 às 12:56:51
Senhor Dines; Continuo frustrado e decepcionado por ainda não conhecer sua análise em relação a atitude preconceituosa que desmascarou seu colega boris casoy? É uma questão de corporativismo, rabo preso ou simpatia ideologiga ? sds José Tadeu
Oscar Lerner , São Paulo-SP - Historiador
Enviado em 5/1/2010 às 12:24:34
Uma boa forma, e previsível, de cobrir o problema das chuvas seria a seguinte: em SP, coloca-se a culpa no "excesso de chuva", a fim de blindar o governador do estado referido. No resto do Brasil, culpa-se Lula, a fim de proteger o governador de SP.
Compartilhe este texto
Blig Blig BlinkList BlinkList BlogBlogs BlogBlogs BlogLines BlogLines Delicious del.icio.us
Digg Digg Furl Furl Google Bookmarks Google Bookmarks Linkk Linkk Magnolia ma.gnolia
netscape Netscape netvibes Netvibes newsvine Newsvine reddit reddit Stumble Upon Stumble Upon
Technorati Technorati Twitter Twitter Windows Vista Windows Vista Yahoo! MyWeb Yahoo! MyWeb Facebook
Outros artigos desta Seção
ANO NOVO, TUDO VELHO
Dilúvios, modo de cobrir
Alberto Dines
5/1/2010
TELEJORNALISMO
O presente de Natal
do Jornal Nacional

Venício A. de Lima
5/1/2010
COBERTURA
DA TRAGÉDIA
Chuva turvou o
olhar da imprensa

Júlio Ottoboni
5/1/2010
TV BRASIL E AS CHUVAS
Uma reportagem, uma pauta
Marcelo Salles
5/1/2010
LULA NA IMPRENSA
O filho do mundo
Paulo Nassar
5/1/2010
AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS
Mais indispensáveis
do que nunca

Philippe Massonnet e
Juliette Hollier-Larousse
5/1/2010
ENTREVISTA / ÁNGEL EXPÓSITO
A potência prescritiva da imprensa
Rogério Faria Tavares
6/1/2010
TEXTO & EDIÇÃO
Jornalismo de fraldas faz fraudes
Paulo Ghiraldelli Jr.
6/1/2010
COBERTURA
DA TRAGÉDIA 2 
Tudo acaba em samba
Luciano Martins Costa
6/1/2010
FATO, NOTÍCIA, CONTEXTO
Os jornais e as tartarugas
Luciano Martins Costa
7/1/2010
A pauta da dor
Alberto Dines
8/1/2010
DIREITOS HUMANOS
Debate para esquentar a campanha
Luciano Martins Costa
8/1/2010
As ideias demoníacas
Marcelo Salles
8/1/2010

Últimos 5 artigos de
Alberto Dines
HERÓIS, MODO DE FABRICAR
Anchieta pagou resgate de Hipólito
27/7/2010
VIOLÊNCIA URBANA
Wesley temia os tiros; morreu com o lápis na mão
20/7/2010
OI na TV
Programa debate o fim do JB impresso
20/7/2010
JB (1891-2010)
Paradoxos impressos, notas para um obituário
20/7/2010
O FIM DO JB
Sem competição, melhor parar as máquinas
20/7/2010
Mais artigos de
Alberto Dines >>