Quarta-feira, 22 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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Dois lados da mesma moeda

Por Elvira Lobato em 19/02/2019 na edição 1025

As trajetórias de Divino Alves, dono do jornal O Grito, e do jovem Wendel Gomes, do Radar Ocidental

Por Elvira Lobato
Enviada a Cidade Ocidental (GO)

Divino Alves aparenta ter mais do que os 63 anos que constam em seu registro de nascimento, culpa de uma insuficiência renal que o obriga a fazer sessões diárias de hemodiálise. Caminha com dificuldade e se locomove na maior parte do tempo em cadeira de rodas. Mas, os olhos brilham e eles se entusiasma quando o assunto é o jornal O Grito, impresso de tiragem e periodicidade incertas, que circula quando consegue verba para bancar os R$ 2.500 do custo de impressão.

Divino Alves, dono do jornal “O Grito”.

O preço do anúncio no comércio local, segundo Divino, varia de R$ 50 a R$ 100, e os comerciantes demoram a pagar. O impresso depende, de verbas da prefeitura e da
Câmara Municipal.

O Grito surgiu em 1992, e, segundo seu fundador, viveu épocas boas e ruins. “No momento está mais fácil, porque o prefeito [Fábio Correa] é nosso amigo, e trabalhei na campanha eleitoral dele,” diz. “Mesmo assim, o primeiro ano de gestão foi difícil, e o prefeito nos ajudou do próprio bolso. Agora, prefeitura tem verba para comunicação e nos manda releases, o que facilita nosso trabalho.”

A redação do impresso funciona em um cômodo anexo à casa de Divino e praticamente não gera renda para a família. Divino e o filho Diego, que o ajuda na feitura do jornal, são diagramadores do Correio Braziliense. O lugar possui duas mesas com computadores. O arquivo com as edições e fotos antigas foi jogado no lixo por uma ex-empregada da casa.

Segundo Divino, o jornal surgiu como um informe publicitário da campanha eleitoral do então candidato a prefeito Carreta Forte. Ele não se elegeu, mas Divino decidiu manter a publicação e passou a fazer oposição ao candidato eleito, o ex-prefeito Plínio Araújo, por quem foi processado três vezes. Um dos processos foi provocado pela manchete “Plinóquio” publicada na primeira página, com uma caricatura do então prefeito como o boneco de pau Pinóquio.

O período de críticas à administração municipal durou pouco. “No final da primeira gestão de Plínio fizemos as pazes e eu trabalhei para a reeleição dele”, diz Divino. Indagado se não ficou em conflito por apoiar quem havia criticado, responde, lacônico, “que a política tem destas coisas.”

Ele também apoiou Gisele Araújo, do PTB, eleita prefeita em 2012, e viúva do primeiro prefeito da cidade. Ele a considera a pior gestora que a cidade já teve, porque pouco ia à prefeitura e os filhos é que governavam no lugar dela.

— O jornal O Grito mostrava essa situação?
— Não, porque a gente estava do lado dela.

— Como a população ficava sabendo o que havia de errado na administração municipal?
— Não ficou sabendo. Hoje, as redes sociais mostram mais as coisas, mas naquela época, elas praticamente não existiam.
— Você acha que pode fazer jornalismo imparcial estando na dependência financeira do poder público?
— Não tem condição de ser imparcial. Eu pensei que pudesse trabalhar com a prefeitura e ser crítico. Mas não é assim. Eles dizem: estou te pagando, e você tem que ficar do nosso lado.
— Isso não o deixava frustrado?
— Se o jornal denuncia o que está errado, a população acha bonito, mas ninguém o ajuda a mantê-lo. Eu faço jornal porque minha vida sempre foi fazer jornal. Existiram muitos impressos em Cidade Ocidental, e o único que sobrevive é o meu.

O Grito tem uma pauta de temas restrita. Por decisão de seu proprietário, não publica notícias sobre crimes. A edição distribuída em dezembro de 2018 continha onze textos, quatro deles assinados pela assessoria de imprensa da prefeitura e um da assessoria da prefeitura de Valparaiso de Goiás. Os demais artigos também tinham tom oficial, mas não identificavam os autores. A capa do jornal reproduzia a foto de um folheto promocional da prefeitura.

O principal colaborador do jornal O Grito é Lander Jorge, mineiro de 43 anos, que já foi dono de três jornais impressos na cidade — O Informante (de 2002 a 2005), Gazeta (de 2007 a 2009) e A Notícia, de 2010 a 2010 — que também dependiam de verbas do poder municipal. “Em cidade pequena, o jornal é situação ou oposição. Não tem como ficar em cima do muro e ser imparcial,” diz. Lander Jorge participou da campanha eleitoral do atual prefeito e seu nome aparece na lista de doadores apresentada ao TSE.

Do circo para a internet

Wendel Gomes tem o perfil inverso de Divino Alves. Aos 36 anos, demonstra a autoconfiança dos que se consideram predestinados. No caso dele, está claro que pretende disputar um cargo eleitoral, mas nega: “As pessoas querem que eu saia candidato a vereador. Outras falam que eu ainda vou ser prefeito. Mas meus sonhos e perspectivas são outros,” diz, sem demonstrar muita convicção.

Wendel Gomes, do “Radar Ocidental”.

O jovem, de cabelo rente nas laterais e topete no alto da cabeça, criou a página Radar Ocidental no Facebook sem ter sequer um computador. Seu escritório, ele ironiza, é um telefone celular Samsung Note 8, com o qual fotografa, filma, grava as entrevistas e “reportagens” que exibe. Ele encontrou a equipe do Observatório da Imprensa na padaria Padre Cícero, uma das empresas anunciantes do Radar Ocidental.

Wendel criou a página sem nenhuma preparação formal para exercer o jornalismo, o que o leva a ignorar regras elementares da profissão, como a necessidade de mostrar o ponto de vista dos acusados. Mas é o único a publicar informações que contrariam a administração municipal. Por isso, se define como oposição.

— Não cubro as pautas da prefeitura porque sou contra o prefeito atual, Fábio Correa. Tem gente que me critica por isso. Mas são pessoas que trabalham na prefeitura e se revoltam porque o Radar só mostra os erros. Fábio Correa nunca me chamou para conversar e eu nunca o entrevistei. A prefeitura paga mídia para os jornais da região, mas nunca compactuei com isso.

Apesar da pouca idade, Wendel experimentou várias profissões. Nascido em Manaus, deixou a família na adolescência para trabalhar em circo na companhia de um amigo dos pais. No circo, foi globista da morte e se exibia em uma moto em alta velocidade dentro de um círculo de metal. Deixou a vida circense aos 22 anos, tendo estudado apenas até o 5º ano do ensino fundamental.

Depois foi moto-taxista, “bodypiercing” (profissional que coloca pierciengs), locutor de supermercados e de rodeios, mestre de cerimônias de festas e locutor em campanhas eleitorais, entre outros ofícios. Diz que retomou os estudos e chegou a iniciar o curso de comunicação, sem concluí-lo.

Ele conta que seu interesse pelo jornalismo policial surgiu por causa do programa “Na Polícia e nas Ruas”, apresentado pelo falecido Silvio Linhares na Rádio Atividade, no Distrito Federal. Com dinheiro da indenização de uma rescisão trabalhista, comprou uma máquina fotográfica e, com a ajuda de um policial militar, passou a fotografar vitimas de assassinato em Cidade Ocidental e adjacências. Com isso, conseguiu se aproximar do ídolo Linhares, que o colocou em contato com outros profissionais do jornalismo policial.

Wendel diz que se mantém apenas com os anúncios do comércio local. Alguns varejistas trocam publicidade por permuta. Foi deste modo, por exemplo, que ele comprou o material escolar da filha. Não possui carro e se locomove pela cidade graças a permutas com taxistas, mas na maioria dos caso se desloca em moto-táxi.

Wendel alimenta o Radar Ocidental com notas que ele próprio apura e com o compartilhamento de matérias sobre o entorno de Brasília tiradas de jornais e televisão. Mas a maior das publicações são anúncios, pois, segundo ele, a população também quer estar informada sobre os produtos e serviços em promoção. “As pessoas gostam de ver propaganda,” resume.

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Elvira Lobato é jornalista.

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