Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ATLAS DA NOTíCIA 2.0 > Enxugamento das redações

Nordeste: jornalismo digital avança e supera o número de impressos*

Por Mariama Correia em 20/11/2018 na edição 1014

O enfraquecimento do modelo de negócios dos jornais impressos e a expansão do acesso à internet em alta velocidade ajudaram a impulsionar o avanço do jornalismo online no Nordeste. Dos 109 novos veículos cadastrados na região na segunda edição do Atlas da Notícia, 53 são digitais. Desses, apenas dois têm alguma versão impressa.

Mas o rápido avanço do conteúdo digital não deve ser entendido por si só como um aprimoramento dos veículos jornalísticos nordestinos. Em boa medida, isso acontece porque a transição do impresso para o online ocorre num ambiente de crise, marcado pelo enxugamento das redações e consequente sobrecarga de trabalho para os profissionais que seguem empregados. Nessa toada, as apurações e a qualidade da produção jornalísticas tendem a ser sacrificadas.

Espaços em branco representam desertos de notícias: 51% dos municípios brasileiros, com 30 mi de pessoas. (Crédito: Atlas da Notícia 2.0)

No Ceará, por exemplo, o Sistema Verdes Mares, que inclui site e jornal Diário do Nordeste, a Rádio Verde Mares e a TV Diário, fez demissões em massa em 2018. Em Pernambuco, o Diário de Pernambuco dispensou 30 jornalistas de uma só vez e lançou um plano de demissão voluntária. Desde o fechamento desta segunda edição do Atlas, o Jornal Extra de Caruaru, em Pernambuco, também encerrou a sua edição em julho do ano passado. Circulando há 16 anos numa das principais cidades do Agreste pernambucano, o Extra concorria com o Jornal Vanguarda, do clã Lyra, uma família tradicional da região.

É interessante observar também a proliferação de projetos de opinião no ambiente online. Blogs e páginas em redes sociais, nem sempre vinculadas a jornalistas profissionais, têm presença sobretudo em cidades do interior, onde estão entre as poucas fontes de informação. Dos 53 novos veículos online cadastrados, 19 estão fora das capitais.

Muitos dos produtores de conteúdo desses veículos desempenham também uma função administrativa, como venda de publicidade, por exemplo, principal fonte de renda para 17 deles. Tal duplicidade de papéis pode configurar certo conflito de interesses entre a missão jornalística de investigar o governo e empresas locais, que frequentemente são também os principais anunciantes.

O levantamento do Atlas da Notícia no Nordeste registrou também 23 jornais impressos, 20 rádios e 11 TVs e duas revistas. Entre os impressos, as assinaturas foram apontadas como principais fontes de renda em 12 casos – em cinco deles ao lado da venda de espaço para anúncios publicitários.

Das 20 rádios cadastradas, apenas duas não incluíram o noticiário em tempo real entre as principais características do veículo, o que pode indicar um movimento onde as rádios e TVs assumem o lugar do hard news, diante do fechamento dos jornais impressos e da receptividade ao jornalismo de opinião na internet. Durante o levantamento, os pesquisadores do Atlas também observaram o encerramento de atividades de três rádios: Rádio FM Serro Azul; Rádio Educadora de Parnaíba; Rádio Difusora do Vale do Orucuri, todas no estado do Piauí.

Receptividade

O trabalho de levantamento de dados dos veículos jornalísticos no Nordeste contou com o envolvimento de alunos da Universidade Federal do Piauí, da Universidade Federal da Paraíba e da AESO – Faculdades Integradas Barros Melo em Pernambuco, que atuaram como voluntários. A receptividade dos professores e dos alunos em relação ao projeto foi sempre muito positiva, embora o engajamento das instituições e dos docentes nas atividades tenha sido mínimo na maioria das experiências.

No contato direto com os veículos de jornalismo, a equipe de pesquisa enfrentou certa indiferença em relação ao projeto, principalmente quando se tratava de grandes grupos de comunicação. Uma melhor receptividade, no entanto, foi percebida na aproximação com pequenos projetos de mídia.

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Mariama Correia trabalhou por mais de três anos como repórter do caderno de Economia da Folha de Pernambuco. Também assinou matérias na Veja Comer e Beber, da Editora Abril, no portal The Intercept Brasil e no Projeto Draft. Tem cursos nas áreas de jornalismo de dados (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), fact-checking e mídias digitais (Kings Brighton). Atualmente escreve para o coletivo de jornalismo investigativo Marco Zero Conteúdo.

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*NOTA: Este primeiro mapeamento realizado pela rede de pesquisadores do Atlas da Notícia com o apoio de colaboradores voluntários traz o melhor panorama possível, com informações detalhadas, sobre a existência e a natureza de veículos jornalísticos. Mas uma vez que a nossa amostragem reflete os dados obtidos — sem necessariamente cobrir todos os veículos — não a consideramos um retrato completo do jornalismo local e regional do Brasil. À medida que nosso projeto avance anualmente, seremos capazes de corrigir e refinar nossos dados e mapas. A propósito, solicitamos aos nossos leitores que nos comuniquem sobre possíveis incorreções no nosso mapeamento.

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