Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ATLAS DA NOTíCIA 2.0 > Jogo de poder

Prefeitos versus imprensa

Por Elvira Lobato em 04/12/2018 na edição 1016
A difícil relação entre poder público e a mídia no agreste

Vista de Arapiraca. (Foto: Ana Terra Athayde)

Arapiraca-AL está acostumada às altas temperaturas típicas do agreste, mas desde que o prefeito Rogério Teófilo (PSDB) assumiu a gestão do município, em janeiro de 2017, o clima nunca esteve tão quente. O prefeito é alvo de uma sequência de denúncias do Jornal de Arapiraca e do site Sete Segundos.

Em setembro, o secretário de Educação, Jaime Melanias, acusou jornalistas de estarem a serviço dos opositores políticos do prefeito. “Tem gente contratada só para denunciar o que estiver errado e, quando não tem, inventa. […] Conheço meia dúzia que trabalha direito; o resto é vagabundo. Se arrumar emprego, vai falar bem. Se não, é cacete no prefeito o tempo todo”, disparou.

O ataque indiscriminado à imprensa local foi feito durante um encontro com funcionários terceirizados da rede municipal que estavam sem receber os salários. A Justiça suspendera os contratos firmados com três organizações civis de interesse público (Oscips) que forneciam mão de obra à Prefeitura, depois que a imprensa apontou irregularidades no processo licitatório.

Melanias não sabia que estava sendo filmado; o vídeo foi enviado ao Sete Segundos e imediatamente replicado por outros sites do interior e da capital alagoana. O prefeito tentou amainar os ânimos e disse, em nota, que a fala não refletia o pensamento da administração pública sobre os profissionais e os veículos de comunicação. O secretário continuou no cargo.

A relação com a mídia ficou crítica a partir de abril de 2018. O estopim foi uma entrevista publicada pelo Jornal de Arapiraca com o auditor Luiz Lobo, contratado por Teófilo para auditar as contas deixadas pelos dois ex-prefeitos que o antecederam. Depois de ter o contrato rescindido, Lobo procurou a imprensa para contar que tinha recebido 10% do valor combinado por meio de uma empreiteira. O caso foi levado ao Ministério Público, que abriu investigação.

Novas reportagens contra a gestão do prefeito vieram à tona. Em maio, o Sete Segundos noticiou que a Prefeitura havia adquirido 2 mil carteiras escolares sem processo licitatório. A contratação de três Oscips — Instituto Viva a Vida, Elo Social de Gestão Pública e Centro de Integração Pública — para fornecimento de mão de obra terceirizada foi o caso de maior repercussão. O Ministério Público moveu uma ação civil pública pedindo a suspensão dos contratos; o pedido foi acatado pelo juiz Giovanni Jatubá, da 4ª Vara Cível, no final de agosto. Em consequência, cerca de 1,5 mil funcionários terceirizados deixaram de receber salário no início de setembro, creches suspenderam as atividades e o transporte escolar parou.

O promotor público Rogério Paranhos, responsável pela apuração das denúncias veiculadas na imprensa, disse que as irregularidades não foram inventadas pelos jornalistas. Ele considera, porém, que o tom do noticiário reflete interesses políticos de opositores ao prefeito Teófilo.

Centro da cidade de Arapiraca-AL. (Foto: Ana Terra Athayde)

Palmeira dos Índios

O prefeito de Palmeira dos Índios, Júlio Cézar Silva (PSB), é jornalista. Filho de lavadeira, cresceu em um bairro pobre da cidade e teve uma carreira política meteórica. Após um mandato como vereador, disputou a eleição para governador, em 2014, pelo PSDB, e ficou em terceiro lugar, apresentando-se como o “Obama do sertão”. O único veículo de comunicação local que o critica ostensivamente é o site Estadão Alagoas.

A diretora do site, Grazi Duarte, disse que foi convidada a fazer parceria com a Prefeitura, que lhe teria oferecido R$ 3 mil mensais, e que recusou a oferta para ter autonomia de criticar.

Em julho último, ela divulgou um vídeo de 2016 em que Júlio Cézar, então candidato a prefeito, parecia orientar um candidato a vereador de sua coligação sobre a compra de votos. A Prefeitura contestou a interpretação e disse que o vídeo mostra que foi orientada “a busca pelo voto espontâneo”. O prefeito acusou a jornalista de estar a serviço de uma campanha para desestabilizá-lo e anunciou intenção de processá-la. Segundo Grazi, a ameaça não se concretizou.

Ela disse ao Observatório da Imprensa que entregou o vídeo a uma pessoa de sua confiança, fora de Palmeira dos índios. “Se algo me acontecer, o resto virá à tona”, avisou.

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Elvira Lobato é jornalista enviada especial do OI para Arapiraca.

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