Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ATLAS DA NOTíCIA 2.0 > Redes digitais

Rádios aderem ao jornalismo on-line e lançam sites

Por Elvira Lobato em 04/12/2018 na edição 1016

A internet mudou o perfil da comunicação no interior alagoano. Enquanto a mídia impressa encolhe, os sites de notícias proliferam, impulsionados pelo menor custo de manutenção. O sinal mais evidente da mudança é a adesão cada vez maior das rádios ao serviço on-line. As que não criam seus próprios sites fazem parceria com os já existentes. Além de compartilharem conteúdo, um meio promove o outro.

A Junta Comercial do Estado de Alagoas tem 230 sites e blogs cadastrados em seu mailing. A maioria tem pouco ou quase nenhum conteúdo próprio e limita-se a republicar notícias extraídas dos grandes sites e releases. A Federação das Indústrias tinha 32 sites cadastrados em 2016. Como os sites tomam a iniciativa de apanhar os releases na internet, ela parou de atualizar o mailing. A Associação dos Municípios de Alagoas fez o mesmo, por causa da rapidez com que os sites se multiplicaram.

Arapiraca possui os sites Sete Segundos, Arapiraca News, Minuto Arapiraca, Já é Notícia , Diário Arapiraca, Tribuna do Agreste e o recém-lançado NN1. Palmeira dos Índios tem os sites Todo Segundo, Tribuna do Sertão e o Estadão Alagoas.

O Sete Segundos é o de maior audiência e de material jornalístico mais “quente”. O NN1 é do grupo Novo Nordeste, que possui as rádios Nova FM, Novo Nordeste FM e Imprima FM. O Diário de Arapiraca pertence à Rádio 96 FM.

Segundo o diretor do Novo Nordeste, Fernando Rodrigues, a internet mudou também a programação musical. “Há dez anos, as emissoras do interior tinham de se filiar a redes de rádios nacionais para ter acesso às novidades que surgiam nas grandes capitais. Agora, os artistas nos procuram pelo WhatsApp para divulgar suas músicas.” No jornalismo, o acesso ao noticiário nacional e internacional é imediato.

Rádio Novo Nordeste. (Foto: Ana Terra Athayde)

O grupo Novo Nordeste teve jornal impresso e gráfica nos anos 1990, mas desistiu da aventura em 1999, quando se convenceu de que não seria rentável. O parque gráfico foi adaptado para a impressão de material plástico e para a produção de sacolas recicladas. “O jornal impresso não é economicamente viável, a menos que seja financiado com recursos públicos. Como não queremos dependência do setor público, optamos por fechá-lo”, afirmou Rodrigues.

O jornalista Luciano Amorim, editor do NN1, testemunhou uma fase em que os redatores das rádios pautavam-se pelos jornais impressos e os locutores liam as notícias do dia anterior durante os programas. Agora, a corrida é pela velocidade da informação. “As rádios vão sobreviver porque ainda não inventaram um meio de comunicação mais rápido do que a voz”, disse ele.

Controle de políticos nas rádios

As demais emissoras de rádio de Arapiraca pertencem a políticos. São elas: Gazeta FM — da família do ex-presidente da República e senador Fernando Collor de Mello —; Pajuçara FM — que tem como acionista o ex-deputado federal José Thomaz Nonô, do Democratas — e a Rádio 96 FM — pertencente à família do ex-deputado estadual Marcelino Santos. Há mais uma rádio em nome de político, a Cultura FM de Arapiraca, do ex-governador Geraldo Bulhões, eleito pelo então PFL em 1991, mas que está desativada.

Já em Palmeira dos Índios, todas as cinco emissoras de rádio são controladas por políticos. A Palmeira FM pertence ao deputado estadual Edval Gaia (PSDB), reeleito em outubro. As rádios Sampaio AM e FM são da família do ex-deputado federal e ex-vice-governador Geraldo Sampaio, proprietário da TV Alagoas, que presidiu o PDT no Estado. A Rádio Farol é do deputado federal reeleito João Henrique Caldas (PSB), que tem concessão de uma segunda rádio na cidade, em nome da empresa Alagoas Comunicação, que não estava implantada até a edição desta reportagem. Por fim, existe a rádio comunitária Vitório FM, controlada pelo ex-vice-prefeito Ricardo Vitório.

Marcelino Santos administra a Rádio 96 FM e o site Diário de Arapiraca; está há 20 anos sem mandato, mas continua ativo na política. O cunhado Ricardo Nezinho reelegeu-se deputado estadual em 2018, depois de ter perdido a eleição para prefeito em 2016. A família é proprietária do maior grupo empresarial do agreste alagoano, o Coringa, de produção e distribuição de alimentos, com 1,2 mil empregados. Segundo o empresário, a rádio e o site não são financeiramente relevantes para o grupo, mas faturam o suficiente para cobrir os custos e dão algum lucro. Ele ambiciona ter uma emissora de TV em Arapiraca, o que depende da abertura de licitação pelo Governo Federal, e disse não ver futuro para o jornal impresso como atividade empresarial naquela região.

Em entrevista ao Observatório da Imprensa, na sede do grupo Coringa, Santos reconheceu que os políticos usam suas rádios “tanto para se defender quanto para atacar o adversário” e, por isso, todos os caciques e coronéis políticos do Estado têm seus meios de comunicação. Citou como exemplo o governador Renan Calheiros Filho, que é sócio do Sistema Costa Dourada de Radiodifusão.

Marcelino declara-se de direita e do grupo de oposição à atual administração da Prefeitura, mas afirma que a 96 FM é imparcial. “Quando o prefeito faz coisas certas, elogiamos. Mas uma pesquisa de opinião apontou que ele tem um índice de rejeição de 72%. Os moradores estão insatisfeitos e nos ligam para reclamar da gestão pública; se não dermos voz a eles, perderemos audiência”, afirmou.

Sete Segundos solta a ripa

Fundado em 2011, o site Sete Segundos chama a atenção pelas denúncias no noticiário político. Um de seus fundadores é o radialista ngelo Farias, de 33 anos, que iniciou a carreira no rádio ainda adolescente; a precocidade dos radialistas é usual no interior de todo o país. Farias diz que nunca fez o estilo paz e amor: “sempre soltei a ripa no ar”. A redação do site fica no andar térreo do shopping da cidade, a poucos metros da Prefeitura, principal alvo de seus petardos.

Os concorrentes o acusam, nos bastidores, de pressionar a Prefeitura para liberar verba publicitária, o que ele nega. “Sempre tivemos esta linha. Se nos chegam denúncias, nós as levamos ao Ministério Público e divulgamos. Arapiraca é o município que mais cresceu no Nordeste, e o prefeito não faz obras. A gestão não anda. Quanto mais a imprensa denuncia, mais ele se atrapalha e se afasta da mídia. Nós também publicávamos denúncias contra o prefeito anterior”, afirmou Farias. O site hospeda blogs que fazem propaganda explícita de outros políticos.

Pequeno empreendedor

Os sites de notícias passaram a atrair também pequenos empreendedores sem experiência anterior em comunicação. É o caso do Já é Notícia, lançado há cinco anos por Maxwell de Macedo, um jovem especialista em tecnologia da informação. Ele tinha 23 anos quando um amigo, que fora subsecretário da Prefeitura, lhe fez a proposta. “O site nasceu na minha casa, no meu laptop. O que me atraiu foi a parte tecnológica. Contratei um estudante de letras para escrever as reportagens e, seis meses depois, consegui empregar um repórter. Aprendi a gostar do jornalismo, mas meu foco é empreender”, afirmou.

A equipe atual do Já é Notícia é formada por uma repórter e um fotógrafo em tempo integral, um plantonista para os finais de semana, uma estudante para a revisão dos textos, um correspondente na capital e colaboradores. A prioridade, segundo Macedo, é levar as informações sobre os acontecimentos da cidade — acidentes de trânsito, ocorrências policiais, reclamações dos moradores — antes dos concorrentes. O noticiário político não está entre as prioridades. Indagado se tem vinculação política, respondeu com duas palavras: “imparcialidade total”.

O site Todo Segundo, de Palmeira dos Índios, foi criado em 2012 pelo radialista Djalma Lima, de 38 anos. Ele começou a trabalhar em rádio aos 18 anos, quando frequentava os corredores da Transertaneja FM, no município de Inhapi, no sertão. Atualmente, apresenta um programa na Rádio Farol.

Segundo ele, cinco pessoas trabalham no site (dois jornalistas, um fotógrafo, um web designer e um motorista) e 40% do conteúdo divulgado vem de releases enviados por órgãos públicos. Lima disse que construiu uma rede de contatos pelo WhatsApp com delegacias, postos de saúde e hospitais de vários municípios e que os moradores são sua principal fonte de informação sobre acidentes de trânsito. A meta do Todo Segundo é ser o primeiro em audiência no interior.

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Elvira Lobato é jornalista.

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