Sábado, 07 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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BIOGRAFIA > Encontros e desencontros

Em sessenta anos de carreira, Jô Soares de todas as artes é um gênio da raça

Por Ricardo Kotscho em 01/10/2019 na edição 1057

(Foto: Flickr – Roberta Sena Lima)

Publicado originalmente no site Balaio do Kotscho

Mudando um pouco de assunto, pois ninguém aguenta mais ouvir nem o nome daquela figura abominável, hoje quero falar bem de alguém, depois de ficar dois dias sem internet.

Aproveitei para terminar de ler o segundo volume do Livro de Jô – Uma autobiografia desautorizada (Companhia das Letras) e fiquei impressionado com a quantidade de coisas que esse camarada fez na vida, sempre com a maior competência.

Televisão, cinema, teatro, música, pintura, rádio, jornalismo, livros – acho que ele só não trabalhou em circo, mas ainda dá tempo.

Jô Soares é um cara inqualificável.

Não por falta de qualidades, ao contrário. Mas pelo excesso, em todas as latitudes.

À medida que avançava na sua história, contada em parceria com o jornalista Matinas Suzuki Jr., com uma incrível sucessão de nomes, lugares, cenas, conquistas e algumas mancadas, que ninguém é de ferro, mais admirado ficava com sua incrível memória e a capacidade de se dedicar simultaneamente aos vários ramos da cultura, além de se divertir com ele mesmo.

Se tem alguém que pode ser chamado de gênio da raça, na minha geração, é ele.

Todos nós conhecemos muita gente que é genial naquilo que faz, mas não conheço outro que tenha um conjunto de obra tão impressionante.

Para vocês terem uma ideia, e verem que não estou exagerando, na contracapa do livro tem um mini-resumo da sua trajetória na primeira pessoa: “Foram sessenta anos de vida profissional, 28 anos de entrevistas, 14.426 conversas, cerca de 1.300 dias de programas de humor na TV, trezentos personagens, 43 anos fazendo one-man shows, dirigi 24 peças de teatro e atuei em onze, foram dez filmes como ator e um como diretor, oito exposições como pintor, um show como músico e cantor, quinze programas de televisão como redator, nove livros, contando com este.”

Desconheço algum assunto que ele não domine como demonstrou em todas as entrevistas que fez ao longo desse tempo.

Duas vezes fui convidado para ir ao seu programa e me senti logo à vontade, como se estivesse na casa de um amigo com quem converso todo dia.

Não sei se ele vai lembrar, mas demos boas risadas quando fui falar sobre um livro que dois jornalistas (Mauro Júnior e José Roberto da Ponte) escreveram sobre meu trabalho como repórter.

Lá pelas tantas, Jô colocou num telão algumas fotos que estão no livro e me pediu para contar quem eram aquelas pessoas ao meu lado e lembrar onde foram tiradas, em que circunstâncias etc.

Como não enxergava bem de longe (ainda não usava óculos multifocal), me atrapalhei todo e fui chutando.

Numa das fotos, eu estava ao lado de uma moça bem pobre, mal vestida, suja de barro, com meu caderno de anotações na mão.

“Isso aí acho que foi durante uma reportagem na Transamazônica…”, arrisquei.

“E o que a Sonia Braga está fazendo nesta foto?”, mangou Jô, com a plateia caindo na risada.

Aí me lembrei: Sonia Braga estava caracterizada, filmando Gabriela, em Paraty, com Marcello Mastroianni, e eu a entrevistava entre uma cena e outra.

Em outra foto, tinha um monte de homem posando no aeroporto, e bati de primeira:
“Essa é a equipe do Estadão embarcando para a Copa do Mundo na Alemanha, em 1974”.
Jô não perdoou: “E o que o Lula está fazendo nessa foto?”.

Pois era a comitiva do PT embarcando para uma viagem à Europa antes da campanha presidencial de 1989…

O pessoal ali morrendo de rir e eu sem saber onde enfiava a cara.

Parecia até coisa combinada para fazer graça na entrevista.

Podia ser o assunto que fosse, mesmo com convidados que enxergam e ouvem bem, o que não é o meu caso, o Jô sempre conseguia fazer seu público rir.

Afinal, por muito tempo, antes do talk show de fim de noite no SBT e na Globo, ele vivia disso…

Por falar em Lula, tivemos dois desencontros, que ele cita no livro, quando eu trabalhava como assessor do ex-presidente.

No primeiro, entrevista agendada, o candidato voltou no bagaço de uma viagem durante a primeira campanha, em 1989, e me pediu pra desmarcar em cima da hora.

Isso é a pior coisa que pode acontecer num programa de entrevistas, eu sei. Dá pra imaginar o que eu ouvi do Jô.

Da outra vez, estava tudo acertado para uma entrevista, quando Lula já era presidente, e não vinha falando com a imprensa.

Sem eu saber, naqueles dias, Lula tinha encontrado o Ratinho num churrasco na Granja do Torto e resolveu, ali mesmo, dar uma entrevista para ele, antes do programa do Jô, que ficou enfurecido com a história.

E, com toda razão, desmarcou a ida de Lula ao programa, porque exclusividade nesse metiê é sagrada. Acho que até hoje ele não me perdoa pelo que aconteceu.

Mas muito melhor do que eu ficar lembrando essas histórias é ler os dois livros de memórias desse, literalmente, enorme artista brasileiro.

Vai ser muito difícil surgir outro igual.

Por isso, é muito bom poder falar do Jô Soares de todas as artes e saber que vivemos no mesmo país, tão degradado nos últimos tempos.

E vida que segue.

***

Ricardo Kotscho é jornalista.

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