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A rua é a maior arquibancada do Brasil

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

O slogan criado pela Fiat para alavancar seu patrocínio na Copa das Confederações pode também servir para entender por que milhares de pessoas saíram às ruas não para torcer por uma equipe de futebol, mas para mostrar um inconformismo que ninguém conseguiu até agora rotular.

Os protestos urbanos dos últimos dias fugiram ao modelo tradicional de manifestação política, mostrando que tanto os governantes como os analistas políticos perderam a capacidade de interpretar o que está acontecendo, especialmente entre os mais jovens. A imprensa, políticos e o governo se esforçam para enquadrar as passeatas e atos de vandalismo dentro de suas respectivas estratégias eleitorais.

É inegável uma clara perplexidade política entre os membros do establishment tupiniquim, pois as manifestações não têm uma liderança clara, não adotam palavras de ordem unificadas e nem seguem estruturas definidas. Noutros tempos, os líderes seriam os dirigentes de organizações estudantis, as palavras de ordem teriam cunho ideológico e o movimento seria verticalizado e hierarquizado.

Como nada disso está acontecendo, ficou difícil o enquadramento das manifestações nos clichês político-partidários tradicionais. Só isso já é um fato positivo porque mostra como a geração com menos de 35 anos trata de impor um novo tipo de comportamento e de valores ao seu desejo de ser ouvida.

O simbolismo político é outro. A presença nas ruas é mais forte do que os slogans ou lideranças. Aqui, como em vários outros lugares do mundo onde ocorreram protestos recentes, os jovens manifestantes ignoram as hierarquias e o monolitismo. A heterarquia (ausência de comando) é seu ambiente natural inconsciente. A simbologia da presença é mais forte do que o discurso.

A mobilização é feita basicamente pela interatividade das redes sociais na internet, sem que os ativistas estejam preocupados com a certificação da credibilidade das informações. Apesar das gerações mais velhas rejeitarem as redes sociais como ambiente político, isto acontece de fato, tanto que toda a mobilização para a avalancha de manifestações da segunda feira (17/6) era palpável no Facebook e no Twitter, muito antes de elas explodirem nas ruas.

As passagens de ônibus são um pretexto antigo e recorrente. Se existe alguma coisa que poderia simbolizar o estado de espírito dos manifestantes seria a expressão “estou de saco cheio”. Custo de vida, corrupção, violência e ineficiência funcionaram como ingredientes de um caldo muito mais significativo.

Quem acompanhou a cacofonia virtual nas redes já sabia há muito tempo que a garotada não está nem aí para a imprensa. Eles simplesmente a ignoram e preferem conviver com a imaterialidade, incerteza e fluidez da informação virtual. Os jornais, políticos e governantes não têm credibilidade para a geração digital. Há razões de sobra para isso e não adianta criticar a internet, com suas virtudes e defeitos, porque ela é o ambiente político da nova geração.

Para entender isso é preciso sair da zona de conforto das explicações convencionais e tentar conviver, mesmo que parcialmente, com as contradições e incertezas dos novos caras pintadas. Eles assumem a fluidez da existência virtual ao mesmo tempo em que sonham com um cargo público, pensando em estabilidade e segurança.

As ruas das principais cidades do Brasil são mais do que a arquibancada da propaganda da Fiat. Elas acabaram se transformando na parte visível de um imenso laboratório social que até agora permaneceu oculto aos olhos da geração com mais de 40 anos, por culpa da imprensa e dos formadores de opinião. Os protestos são um sintoma de uma mudança social contextualizada nas novas tecnologias de comunicação e informação, mas que vai muito além da internet e do computador.

Arapongagem nas redes sociais coloca governos na defensiva

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

O caso da espionagem em redes sociais, correio eletrônico e telefones celulares começa a ganhar dimensões de um marco político na era digital. O episódio colocou, pela segunda vez em três anos, a incapacidade de os governos impedirem o vazamento de informações consideradas sigilosas. Também sinalizou uma mudança de atitude dos autores dos vazamentos, que começam a transitar da condição de traidores para a de paladinos da defesa da privacidade e do direito à informação.

E não é só isso. As empresas da internet perceberam os riscos da bisbilhotice dos serviços de inteligência militar e parecem dispostas a enfrentar o governo para preservarem seus negócios. A Google, preocupada em limpar a sua barra nas acusações de ter permitido espionagem militar em seus servidores de correio eletrônico, quer agora autorização para divulgar os pedidos oficiais de acesso a dados sobre usuários do Gmail. A empresa Yahoo! não esperou autorização e foi logo revelando que teve de entregar às autoridades de segurança os dados de 18 mil usuários. São iniciativas que procuram criar embaraços para a ação dos “arapongas” da CIA , FBI e Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos.

Todos esses fatores são uma consequência da nova conjuntura criada pela massificação das tecnologias digitais e da popularização do uso da internet. Na era industrial, os governos podiam trancar informações sigilosas a sete chaves porque elas estavam contidas em meios físicos como papel, fotografias e filmes. Agora, a digitalização da informação tornou-a imaterial – portanto muito mais difícil de ser guardada. Ela pode circular com instantaneidade e alcançar vários milhões de pessoas em tempo real. Tudo isso torna muito mais difícil guardar segredos de Estado ou evitar que desvios de conduta de militares ou policiais não se tornem públicos.

A cobertura da espionagem norte-americana em redes sociais mostrou que as fronteiras nacionais definitivamente não interferem mais nas prioridades editoriais. A apuração do jornal inglês The Guardian saltou para as manchetes mundiais ao escancarar a ação da NSA, a ultrassecreta agência de segurança do governo norte-americano, responsável pela espionagem na internet e nas operadoras de telefonia celular. O jornal obteve as mesmas informações que o Washington Post norte-americano, mas este vacilou temendo represálias da Casa Branca e do Pentágono. The Guardian aproveitou a indecisão do parceiro e tornou-se a grande fonte no escândalo globalizando o papel da imprensa no episódio, já que normalmente os jornais americanos teriam prioridade na cobertura do caso.

O presidente Barack Obama tentou esfriar o caso, mas a atitude foi comparada à velha história de enxugar gelo. Quando mais a Casa Branca procurou mostrar o caráter estratégico da espionagem como forma de combater o terrorismo, mais os americanos se preocupavam com a sua privacidade pessoal. Ficou difícil para o governo americano manter a confiança do público, que pela primeira vez desde os atentados às Torres Gêmeas começou a ter dúvidas sobre as promessas oficiais de respeito à privacidade individual.

A capacidade dos serviços de inteligência de preservarem o sigilo de suas operações parece seriamente ameaçada pela internet. Indivíduos anônimos que detêm informações secretas dispõem hoje de recursos quase onipresentes para permitir que outras pessoas tenham acesso a segredos diplomáticos, empresariais e militares. O caso da divulgação do projeto Prism não é o primeiro. Em 2010, Bradley Manning, um militar subalterno dos Estados Unidos, entregou ao site Wikileaks cerca de 251 mil documentos confidenciais sobre ações diplomáticas e militares do governo americano no conflito do Iraque.

Três anos depois, outro anônimo, Edward Snowden, funcionário civil de uma empresa contratada pelo Pentágono, passou para a imprensa informações sobre o ultrassigiloso programa de espionagem nos servidores que hospedam os correios eletrônicos e mensagens de redes sociais na internet. Tanto Manning como Snowden foram classificados como traidores pelo governo americano, mas para muita gente eles se tornaram heróis da luta pela transparência informativa.

Igualmente curiosa é a trajetória de Julian Assange, o criador do Wikileaks, que está envolvido num confuso caso de violência sexual na Suécia e é acusado por atentado à segurança nacional nos Estados Unidos. Assange se asilou na embaixada equatoriana em Londres para fugir da prisão e das acusações de traição, mas recentemente deu entrevistas para a TV americana e ganhou espaço nobre na coluna de artigos especiais do The New York Times.

Apesar dos esforços da Casa Branca e do Pentágono para manter a secular instituição do segredo de Estado, esta parece cada vez mais ameaçada pela imaterialidade da digitalização de documentos e pela viralidade instantânea da internet. Pela primeira vez em muitos anos, os governos, especialmente os das grandes potências, passam a defensiva em matéria de sigilo informativo.

Jornalismo não lucrativo, sonho ou necessidade?

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

Falar em jornalismo sem lucro parece ser um contrassenso. Como é que uma empresa pode sobreviver sem lucro? Na verdade, é a pergunta que está errada. Como empresa, o jornalismo precisa gerar lucro para poder continuar funcionando. Isto implica ter um produto com valor de troca que seja suficientemente escasso para obter um preço compensador, ser necessário para gerar demanda e difícil de ser substituído para gerar fidelidade do comprador.

Mesmo sem ser economista, é fácil perceber que o negócio da comunicação jornalística contemporânea não consegue preencher todas as condições mencionadas, que são uma espécie de receituário da sobrevivência no mundo capitalista. A notícia de atualidade (hard news) como commodity vale cada vez menos, há uma sobreoferta de informação e o número de opções para informar-se cresceu exponencialmente.

Assim, a sobrevivência do jornalismo passa a ter que ser pensada noutras bases, nas quais o lucro deixa de ser a palavra-chave. Foi isso que o Pew Research Center, dos Estados Unidos, tomou como ponto de partida para uma pesquisa sobre uma modalidade de exercício do jornalismo que até agora era vista como periférica, ideológica, não confiável e, na maioria das vezes, tudo isso junto. Pode-se discordar dos critérios e métodos do Pew, mas é necessário reconhecer o seu mérito em pesquisar áreas não exploradas em busca de novos conhecimentos e realidades. É a única instituição no mundo no gênero.

Este é o segundo informe sobre a evolução do jornalismo não lucrativo nos EUA. No relatório anterior, de 2011, foram identificados apenas 46 projetos que preenchiam as condições fixadas pelo Pew para serem considerados não lucrativos. Dois anos mais tarde, este número subiu para 172, quase quatro vezes mais, mostrando que o fenômeno está em expansão acelerada, embora as incertezas ainda sejam enormes. Em valores absolutos anuais, o ritmo de crescimento do número de organizações jornalísticas não lucrativas caiu em 2012 em consequência da recessão econômica no país, mas o índice de sobrevivência ainda é maior do que o de fracassos.

A pesquisa indica que o grande problema do jornalismo não lucrativo é a sustentabilidade no médio e longo prazos, um fator que, surpreendentemente, não tem funcionado como um desestimulante de novas iniciativas. Apenas 28% das organizações estudadas afirmaram que estão com seu orçamento assegurado pelos próximos 24 meses. Mais da metade dos novos aventureiros do jornalismo nos Estados Unidos se queixam que não têm gente, nem tempo e muito menos recursos para criar um sistema permanente de captação de recursos capaz de garantir uma existência livre de periódicos sobressaltos financeiros.

Dois terços dos projetos não lucrativos têm 75% de suas receitas dependentes de um único financiador – o que os torna muito vulneráveis aos humores e problemas do mecenas. O jornalismo investigativo é a atividade predominante (21%), quase sempre em escala estadual (38%), ou foca na cobertura de problemas urbanos (29%).

Números como esses inexistem no Brasil porque aqui ainda ninguém teve a ousadia de pesquisar a opção não lucrativa como um projeto jornalístico voltado para o preenchimento do vácuo informativo que está sendo gerado pela crise das empresas convencionais. [Entre as experiências brasileiras, uma exceção que confirma a regra é o trabalho da Agência Pública.] Ainda é muito forte, entre nós, o preconceito de que jornalismo não lucrativo é sinônimo de militância ideológica, onde a causa é mais importante do que a realidade.

Mas se levarmos em conta que mudaram as condições materiais que asseguraram a lucratividade das empresas jornalísticas durante quase dois séculos, somos obrigados a pensar em alternativas que não passem pela obrigatoriedade do lucro como motor da sobrevivência organizacional. Há inúmeras possibilidades que vão desde as fundações, cooperativas, organizações de interesse social e outras que ainda podem surgir, dependendo da criatividade de quem se aventurar na exploração dessa área do empreendedorismo.

O Observatório da Imprensa é uma organização jornalística sem fins lucrativos que logrou sobreviver já por 17 anos. Por isso, quando levamos o tema para debate com você, leitor, trazemos todo um conhecimento acumulado que nos permite ter consciência plena dos enormes problemas que a opção não lucrativa nos coloca pela frente. Sabemos que não vamos encontrar sozinhos a solução, da mesma forma que ninguém conseguirá esse objetivo isoladamente.

Algumas organizações jornalísticas não lucrativas nos Estados Unidos já alcançaram reconhecimento profissional, quebrando o preconceito contra formas alternativas de produzir notícias. É o caso do projeto Pro Publica, formado por um consórcio de jornalistas profissionais que já conquistaram dois prêmios Pullitzer (o maior prêmio da imprensa norte-americana) por jornalismo investigativo e reportagens especiais. Pro Publica se propõe a fazer um jornalismo de interesse público sem abandonar os critérios profissionais tradicionais para mostrar que é possível pagar salários e despesas operacionais sem ter lucro.

A guerra cibernética chegou ao nosso computador

Postado por: Carlos Castilho | 2 comentários

A revelação de que um programa ultrassecreto permite ao governo dos Estados Unidos acesso a mensagens de correio eletrônico que circulam pelos servidores do Google, Facebook, Twitter e Yahoo, entre outros, trouxe a guerra cibernética para dentro de nossas casas, escritórios, lan houses, universidades e escolas.

Sabia-se que a privacidade nunca foi absoluta nas principais redes de comunicação digital no mundo. A perda de boa parte do nosso controle sobre nossas informações faz parte de uma troca com empresas como a Google,por exemplo, para a qual cedemos nossos dados em troca de um serviço grátis de correio eletrônico e armazenamento de informações. Mas nenhum de nós tinha até agora se dado conta da possibilidade concreta de que mensagens trocadas em família possam acabar num contexto errado, na hora errada e em mãos erradas.

A divulgação do programa Prism, criado pela Agência de Segurança Nacional, dos Estados Unidos (NSA, na sigla em inglês), pelo ex-advogado e agora blogueiro Glenn Greenwald, é um golpe seriíssimo na confiabilidade das empresas envolvidas. O acordo que transformou a Google numa empresa multibilionária apoia-se na confiança dos usuários de que seus dados não serão utilizados indevidamente.

A gigante das buscas e serviços na internet tem agora diante de si um dilema duríssimo: justificar a sua confiança no usuário para manter a rentabilidade do negócio ou assumir que faz parte de um aparelho político, com sede em Washington.

O monitoramento das mensagens de correio eletrônico e nas redes sociais, previsto no programa Prism, pode chegar à identificação de textos pessoais, mas seu objetivo principal é identificar tendências para combatê-las antes que se manifestem. O processamento dos conteúdos monitorados é feito por meio dos instrumentos de análise de correlações probabilísticas estabelecidas a partir da análise de grandes massas de dados. O caso Prism éuma aplicação militar da teoria dos Grandes Dados. [Para mais detalhes sobre os Grandes Dados (Big Data), clique aqui.]

Nossas mensagens de correio eletrônico, no Facebook, Twitter, Yahoo,torpedos trocados pelas operadoras de telefonia celular e vídeos fazem parte da chamada guerra cibernética deflagrada pelos Estados Unidos e que tem dois alvos prioritários: o terrorismo e a economia chinesa. Muita gente vai lamentar ter passado a usar a internet praticamente para tudo e outros ainda, mais assustados, podem até deixar de usar o correio eletrônico.

Mas estamos num processo sem volta. É impossível voltar para o correio postal ou para a economia analógica. O caso Prism mostrouque a tecnologia pode ser usada para inúmeros fins, inclusive aqueles que ignoramos ou detestamos. Como não podemos mais abrir mão dela, o nosso dilema, que agora se tornou mais claro, é como vamos administrar o seu uso.

E aí surge uma série de perguntas bem complexas. Qual o grau de controle que podemos ter sobre os dados que entregamos a empresas como a Google? Compromissos verbais não impediram que o projeto Prism esteja funcionando desde 2007. É possível confiar nos governos como guardiães dos nossos dados? É viável a formação de bancos comunitários de dados em que os cidadãos possam controlar o uso dos mesmos?

É preciso mudar a estratégia de cobertura da violência

Postado por: Carlos Castilho | 3 comentários

Está na hora de nossa imprensa mudar a sua agenda em matéria de cobertura da violência urbana no país. A saturação de notícias sobre novos assassinatos, latrocínios, sequestros, atropelamentos etc. já está chegando ao limite do suportável e corre o risco de se tornar inócua pela repetição.

A cobrança das autoridades também se mostra ineficaz por conta da burocratização e desvios de conduta nos órgãos de segurança. Além do mais, não dá para colocar um policial em cada esquina e nem há recursos para tudo o que a população exige para se sentir segura nas ruas e em casa.

A saturação de notícias sobre violência por parte da imprensa tende a aumentar o medo na população, e todos nós sabemos que esse tipo de sensação alimenta negócios, torna as pessoas mais dóceis e manipuláveis, sem falar nas explosões de xenofobia e o recurso à justiça pelas próprias mãos quando alguém, ou algum grupo de indivíduos, chega ao seu limite de tolerância em relação à insegurança.

Por outro lado, não é possível eliminar da noite para o dia a delinquência urbana, o crime organizado, as máfias do narcotráfico e os bandidos do colarinho branco. Todo mundo sabe que o problema é complexo e que não adianta sair prendendo ou matando criminosos. Mas, apesar disso, continuamos ouvindo promessas governamentais de que tudo vai ser resolvido com mais verbas, mais câmeras de vigilância, helicópteros, armas, novos policiais etc., etc.

A soma desses fatores torna quase óbvia a necessidade de uma mudança radical na forma de encarar o problema – e a imprensa está numa posição única, porque tudo indica que a busca de soluções para a violência urbana, que já não é mais um privilegio das metrópoles brasileiras, passa pela mudança de condutas e de valores do cidadão. O problema ficou complexo demais para ser resolvido somente na base da cobrança, das denúncias, da saturação noticiosa ou do tratamento emotivo.

A grande pergunta é o que o cidadão – ou seja, nós – pode fazer para reduzir a violência urbana que conseguiu o milagre de atingir todas as classes sociais. Essa pergunta deveria ser o ponto de partida da imprensa para mudar sua estratégia de cobertura do problema da insegurança pública. Os jornais, rádios, emissoras de TV e páginas web têm o poder de influenciar a mudança na agenda de preocupações do público. 

Isso é quase o óbvio ululante, o que falta é assumir a mudança, porque na hora de montar um noticiário a rotina leva os editores a invariavelmente privilegiar o crime do dia ou o assalto mais espetacular, nos quais quase sempre aparecem policiais triunfantes, bandidos de cabeça baixa, vítimas chorando e testemunhas indignadas.

A rotinização da cobertura só estimula o acúmulo do medo e da raiva, que quando combinados têm efeitos quase tão devastadores quanto o ato criminoso. Sabemos disso há anos mas insistimos em não assumir que essa conduta leva a um beco sem saída.

A resposta à pergunta sobre o que fazer implica uma mudança de comportamento. Não há nenhuma receita ou modelo pronto para ser aplicado. Primeiro porque cada situação é uma situação diferente e, segundo, porque a existência de um modelo único repete o quadro atual em que as pessoas se acomodam ao delegar para um funcionário público a tarefa de resolver o problema – e passam apenas a cobrar resultados. Isso nós já temos hoje. Em qualquer noticiário é rotineira a aparição de autoridades prometendo resolver um problema que elas sabem que não pode ser resolvido por medidas normativas.

Assumir que não existe solução vinda de cima é o primeiro passo para mudar a agenda de cobertura da imprensa. Se existe alguma possibilidade de começar a reverter a violência, esta vem da base social, do cidadão e das comunidades. São eles que podem criar sistemas coletivos de segurança pessoal e patrimonial, que podem não ser perfeitos, mas pelo menos são mais presentes do que a polícia, que não pode estar em todos os lugares o tempo todo.

A imprensa ocupa um papel único nessa possibilidade de mudar a agenda de preocupações do público em matéria de segurança porque, salvo o eventual desaparecimento de anúncios de empresas ligadas a produção de equipamentos e serviços de segurança, ela não tem nada a perder, muito pelo contrário: ganha a atenção do leitor, coisa preciosa nos dias de hoje.

Não é preciso nenhuma decisão mirabolante, basta que as redações comecem a refletir sobre o que estão fazendo em matéria de cobertura da violência e constatem a necessidade de ir buscar junto ao público as soluções para o problema. Não adianta recorrer a especialistas em segurança pública, porque eles são perfeitos para problemas pontuais mas não conhecem, e nem podem conhecer, as realidades específicas de cada comunidade.

Ao procurar junto à população os elementos para uma nova estratégia de cobertura da violência urbana, a imprensa rompe com a rotina de buscar sempre um especialista, reforçando a crença em soluções verticais. É uma primeira mudança, parece mínima, mas seus efeitos podem ser incalculáveis. Principalmente se levarmos em conta que o modelo atual de cobertura tende a nos conduzir a um beco sem saída, onde as principais vítimas seremos nós.

Quanto pior, melhor: os riscos de uma estratégia editorial

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

Os três principais jornais do país, aqueles que em grande medida estabelecem a agenda nacional, estão sintonizados no uso da estratégia de alimentar o fantasma da inflação e da estagnação do crescimento econômico, temas que ocupam um lugar destacado no discurso político do presidenciável oposicionista Aécio Neves.

Não há nada de anormal no fato do possível candidato do PSDB situar o país a beira do caos porque essa é uma tradicional contrapartida ao fato de o Palácio do Planalto invariavelmente carregar no otimismo em matéria de economia. O que preocupa, como muito bem mostrou o colega Luciano Martins Costa, é o fato de os três jornais adotarem a linha do “quanto pior melhor”, porque isso implica dois possíveis desenlaces: ou o pior acontece e voltamos ao passado, ou o pessimismo se dilui e o descrédito na imprensa aumenta mais ainda.

A grande imprensa brasileira está fazendo uma aposta muito perigosa tanto para o país como para ela própria. Os indicadores econômicos são preocupantes, não tanto pela situação interna, mas pela conjuntura internacional que, gostando ou não, determina muito do que acontece aqui dentro. Por mais que o governo diga o contrário, o Brasil não é uma ilha na economia mundial e obviamente sofre os efeitos da recessão mundial.

Os grandes jornais estão cansados de saber disso, mas por razões que ainda não estão claras preferem ampliar a percepção de disparada inflacionária e de estagnação do PIB. O comportamento dos consumidores está sujeito a fatores emocionais que por sua vez determinam condicionamentos econômicos com óbvios reflexos políticos. Não é fortuito o fato de quase todas as grandes manobras de desestabilização política de governos começarem invariavelmente pela desestabilização econômica.

Estamos entrando numa conjuntura pré-eleitoral e como sempre acontece nessas circunstâncias os partidos adotam a tradicional estratégia do fim justificando os meios. Também aqui não há nada de novo porque essa mesma situação se repete monotonamente a cada eleição. O que preocupa é que a imprensa prefira deixar de lado os conhecimentos e a experiência que adquiriu ao longo dos anos em coberturas eleitorais para envolver-se num jogo perigoso e de consequências imprevisíveis.

Num quadro internacional incerto e sujeito a mudanças bruscas, apostar na inflação significa alimentar a dúvida e insegurança entre os consumidores e produtores. Na dúvida, os primeiros tenderão a estocar para prevenir-se contra o pior enquanto os comerciantes, prestadores de serviços, indústrias e agricultura aumentarão os preços para evitar prejuízos futuros irrecuperáveis. Todos os brasileiros com 30 anos ou mais sabem no que isso vai dar.

A coincidência, intencional ou não, na ênfase dada ao fantasma da inflação e da estagnação econômica coloca a imprensa sob suspeita de participação num esquema politico-eleitoral, num momento em que os principais jornais do país precisam é se preocupar com a crise do seu modelo de negócios. A solução desse problema não virá com benesses estatais, seja lá qual for o governo de turno, e sim da recomposição da relação com os seus leitores.

Não é necessário ter bola de cristal ou de pesquisas de opinião para saber que os brasileiros estão razoavelmente satisfeitos com a situação econômica do país, mas ao mesmo tempo temem uma disparada de preços porque isso significará uma redução do seu poder de compra. Seguindo essa lógica, a estratégia mais adequada a uma aproximação com os leitores seria destacar as formas de evitar fatores emocionais que podem acelerar os aumentos de preço, em vez envolver-se numa obscura estratégia eleitoral.

A reconquista da confiança dos leitores passa inevitavelmente pela preocupação jornalística com a serenidade e equilíbrio numa conjuntura de incertezas alimentadas por ambições eleitoreiras. Significa não inflar o fantasma da inflação e nem fenômenos como corrida aos caixas eletrônicos por causa do boato do fim do programa Bolsa Família. Os principais executivos e editores das indústrias da comunicação jornalística no Brasil sabem disso melhor do que todos nós. O que nos preocupa é por que não agem conforme o conhecimento adquirido no exercício da profissão?

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