Código Aberto

Boataria desorienta eleitor e mostra omissão dos jornais

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

A última campanha presidencial mostrou que se a mídia jornalística brasileira, especialmente a escrita, não mudar suas estratégias de cobertura política, ela caminhará inexoravelmente para a insignificância em matéria de informação eleitoral.

Os jornais nesta campanha se limitaram a publicar pesquisas eleitorais, geralmente com atraso, ou funcionar como caixa de ressonância para denúncias, quase sempre, geralmente associadas a algum lobby político ou empresarial.

Fora disso a cobertura foi rotineira, sonolenta e burocrática, o que tende a afastar cada vez mais os jornais e as revistas de seus respectivos públicos, justamente num contexto onde a fidelização dos leitores tornou-se o fator crítico para a sobrevivência de empresas jornalísticas.

O nicho disponível para a imprensa escrita na cobertura eleitoral é a checagem responsável das denúncias e boatos que se multiplicam viralmente durante a fase final das campanhas. A investigação de fatos, o chamado fact checking, foi amplamente esquecida pelos nossos jornais justo no momento em que os eleitores mais precisaram dela.

É um fato público e notório que a boataria corre solta quando alimentada por factoides e rumores criados por marqueteiros e políticos. Eles são os artífices do vale-tudo informativo pré-eleitoral, mas sua função seria inócua sem a participação de eleitores que, inconscientemente, passam adiante notícias inverídicas, dados falseados e informações descontextualizadas.

Essa irresponsabilidade no manejo da informação é uma consequência da avalancha de notícias, fatos, números e eventos que diariamente são jogados sobre as pessoas sem que elas tenham condições de fazer a triagem adequada. O resultado é que muitos acabam agindo como propagadores, voluntários e involuntários, de uma cacofonia noticiosa que gera confusão, perplexidade e – o que é mais grave – cenas explicitas de sectarismo eleitoral.

Tudo isso poderia ser menos intenso se a imprensa cumprisse a missão de checar os fatos einvestigar a veracidade de denúncias, em vez de servir de porta-voz para lobbies políticos, governos e empresas. 

O fact checking é a oportunidade que a imprensa escrita tem para reencontrar seu papel informativo no ambiente noticioso que está sendo cada vez mais ocupado por ferramentas digitais e redes sociais na internet. Caso os jornais e revistas impressos não optem por esta estratégia editorial, a tendência é que se tornem cada vez mais dispensáveis numa campanha eleitoral.

Não será fácil romper com um comportamento que já vem sendo adotado desde o fim do regime militar. A relação da imprensa com a elite política e empresarial do país é sólida demais para ser alterada da noite para o dia. Mas a digitalização colocou a imprensa diante de um dilema atroz: mudar ou morrer. Os veículos de comunicação do país já estão mudando em várias áreas da atividade jornalística, mas a cobertura eleitoral ficou para trás.

Os novos tempos mostram que a interatividade entre os eleitores, que é onde as decisões são tomadas, está sendo monopolizada cada vez mais pelas redes sociais, ao mesmo tempo em que a internet passa a ser o grande repositório de programas e documentos partidários. As emissoras de rádio e televisão continuam imbatíveis nos debates ao vivo, onde a impossibilidade de aprofundar temas é compensada pela carga emocional do confronto entre candidatos.

O que sobra para a imprensa escrita é talvez a parte mais importante de todas: a redução da desorientação coletiva causada pela multiplicação de versões contraditórias, denúncias e acusações de origem duvidosa. Não há nenhum outro veículo de comunicação com tantas condições favoráveis para exercer essa função como os jornais e revistas porque ambos podem ir mais fundo na investigação e na verificação dos dados.

Muitos jornais podem até alegar que já fazem isto, mas falta o envolvimento com o leitor para saber quais são as suas dúvidas e preocupações.A imprensa só faz isso superficialmente porque o seu foco prioritário são os objetivos da elite governante e empresarial do país, que é de onde saem as verbas publicitárias que até agora mantinhamequilibrado o orçamento dos jornais.A realidade está exigindo uma ruptura de modelos editoriais também na cobertura eleitoral. 

Eleições 2014: o desencanto venceu

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

Pode ser apenas uma percepção pessoal, mas sinto que seja qual for o resultado do segundo turno das eleições de 2014 a sensação de desencanto dos eleitores supera os percentuais dos candidatos. As pesquisas não mediram o grau de desilusão do público em relação às promessas e ao desempenho dos dois candidatos presidenciais, mas a falta de entusiasmo dos eleitores é palpável nas redes sociais. 

Houve apenas uma fugaz demonstração de expectativa quando Marina Silva despontou como alternativa, mas as contradições de seu programa e dos partidos que a apoiavam minaram a sua possibilidade de encarnar as esperanças do eleitorado. O resultado é que tivemos mais do mesmo em matéria de candidaturas e programas.

O desencanto dos eleitores pode ser percebido com mais clareza nas redes sociais, como o Facebook, onde as pessoas se expressam com mais liberdade do que nas pesquisas de opinião. E o que se pode perceber é que o público se dividiu em duas atitudes: a do bate-boca e a da decepção, com um leve predomínio desta última.

A imprensa passou ao largo dessa divisão porque não conseguiu criar uma sinergia com o público, acabou se limitando a uma cobertura burocrática e a servir de instrumento para lobbies e grupos de pressão organizados, como os sistemas financeiro e bancário. Os jornais e revistas precisam reavaliar suas estratégias editoriais para evitar um distanciamento ainda maior em relação ao leitor e a perda de credibilidade política.

Diante da falta de interação com a imprensa escrita, a alternativa do público passou a ser a televisão, por causa dos debates entre candidatos, e as redes sociais, onde a troca de ideias, palpites e também de desaforos acabou aproximando mais as pessoas, fazendo com que elas se sintam mais à vontade na hora de tomar uma atitude.

A descaracterização ideológica dos partidos, as alianças eleitorais oportunistas e a generalização do marketing político transformaram as eleições num jogo dominado por aqueles que desejam controlar o poder. A representatividade popular foi perdendo densidade com o passar dos anos e hoje transformou-se num slogan quase vazio.

Além do distanciamento da imprensa em relação ao público nos períodos pré-eleitorais, outro fator que agravou o desencanto dos eleitores é a obsessão dos candidatos pelas promessas de campanha – um hábito antigo, mas que se mostra cada vez mais ineficiente. Mesmo os eleitores pouco familiarizados com a política sabem que fazer promessa é a coisa mais simples do mundo para um candidato.

Cumprir com o prometido já é um problema bem mais complicado e que não depende apenas do político, pois há toda uma máquina administrativa e burocrática a ser mobilizada. Por isso sobram desculpas e explicações para o abandono daquilo que foi prometido nos palanques e debates eleitorais.

No caso especifico deste segundo turno, a candidata Dilma Rousseff prometeu continuar o projeto petista, apesar de que isso depende do apoio de uma eclética base aliada de partidos interessados apenas em cargos públicos bem remunerados. Dilma não conseguiu reviver o carisma de Lula e sua campanha não teve o mesmo envolvimento popular do seu antecessor.

Aécio Neves prometeu mudança, tentando reviver a mística de Lula em 2002, mas não conseguiu ocultar o fato de que o antipetismo sempre foi a principal mola propulsora de sua candidatura. Para o eleitor, mudança significa novos tempos, novas propostas, novas esperanças, mas a oposição não logrou superar a sensação geral de que, para ela,  mudar se limitava   apenas a acabar com a hegemonia do Partido dos Trabalhadores.

A soma desses fatores se plasmou num sentimento de desencanto com a política que não chega a ser expresso em números como, por exemplo, as abstenções e votos nulos ou em branco, porque é mais um estado de espírito do que uma atitude ou decisão pessoal. Por ser um estado de espírito, o desencanto político se manifesta na falta de entusiasmo eleitoral e pode se concretizar de forma imprevista, como aconteceu nos protestos de rua de junho-julho de 2013.

O desencanto torna as pessoas menos submissas ao poder do Estado porque elas não se sentem correspondidas e nem comprometidas e corresponsáveis. Isto provavelmente fará com que o próximo governo tenha muita dificuldade em criar uma base popular minimamente sólida. A perspectiva é de muito conflito entre os lobbies políticos e empresariais que lutam por favores estatais, ao mesmo tempo em que estão criadas as condições para a rotinização de protestos dos segmentos mais desiludidos da população – como os sem teto, sem terra, sem transporte e sem perspectivas. 

A institucionalização do anonimato como fonte de notícias

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O espantoso índice de seis bilhões de visitas mensais transformou o site norte-americano Whispers no foco de um intenso debate sobre o uso de informações anônimas para alimentar a pauta de notícias da imprensa. O site faz diariamente uma seleção do material que recebe e manda as postagens mais polêmicas e atrativas para jornais, revistas, emissoras de rádio e TV.

Whispers (“sussurros”, em português) é o mais bem sucedido caso de uma série de iniciativas similares como os sites Yik YakSecretWikileaks e SecureDrop. Todos usam estatísticas, fatos e eventos comunicados de forma anônima para jogá-los na arena da informação pública, concorrendo com a função jornalística.

Não é de hoje que o anonimato é um dos recursos mais usados pela imprensa, especialmente em grandes escândalos envolvendo autoridades públicas. Aqui no Brasil, todos os casos que mobilizaram a imprensa tupiniquim nos últimos dois anos contaram com a colaboração de informantes anônimos.

O sucesso do Whispers transformou o anonimato noticioso numa rotina e numa fonte de recursos, já que a avalancha de visitas é um atrativo irresistível para os anunciantes online. Trata-se de um fenômeno que radicaliza a mudança de padrões éticos e comportamentais gerada pela internet, porque o mundo das coisas privadas perde cada vez mais espaço no ambiente digital.

Os sites de informações anônimas atraem multidões porque expõem ao público dramas, sentimentos, projetos, neuroses e paranoias que até agora eram mantidas em sigilo por seus protagonistas por medo de represálias. O mesmo acontece com pessoas que por alguma razão foram contrariadas, punidas ou discriminadas em ambientes de trabalho, famílias, escolas ou organizações sociais e decidem “lavar a roupa suja” pela internet sem revelar nomes.

Esse tipo de comportamento também não é novo, mas ganhou uma relevância inédita por conta da multiplicação exponencial dos casos, graças às facilidades oferecidas pela internet. O outro fator inédito é a transformação do fluxo de segredos anônimos em fonte regular de suprimento de matéria prima para reportagens jornalísticas.

Segundo a American Journalism Review, quase todos os grandes jornais norte-americanos monitoram regularmente os sites de notícias anônimas em busca de inspiração para suas pautas diárias. Jornais como The Washington Post e The Guardian já incorporaram o aplicativo SecureDrop em suas versões online, como uma forma regular de captar rumores, boatos e fofocas.

O anonimato está deixando a área cinzenta do jornalismo para transformar-se numa ferramenta rotineira dos repórteres na era digital. O problema é que o uso deste tipo de material implica procedimentos complexos de verificação e checagem que podem levar semanas para serem completados. Nesses casos, o tempo desafia a ética profissional, já que a tentação de publicar algo sensacional, mas não checado, é grande demais para muitos jornais e jornalistas. Especialmente quando envolve políticos, governantes e empresários.

Como em muitas outras situações, a internet abriu novas oportunidades noticiosas para a imprensa, mas, em contrapartida, criou a necessidade de novos padrões de comportamento informativo, para evitar a generalização das difamações, desconstrução inescrupulosa da imagem pública de indivíduos e instituições, bem como danos irreversíveis à reputação pessoal.

A tentação do sensacionalismo e voyeurismo alimentada por sites como o Whispers vai exigir da imprensa uma espécie de pacto antifuro jornalístico, pois um veículo que publicar, sem verificação, um boato postado anonimamente na internet acabará servindo da pretexto para todos os demais adotarem atitude idêntica, alegando que o fato passou a ser de domínio público, especialmente quando o tema for político e em época de eleições.

Na atual cultura jornalística, ainda solidamente ancorada nos valores da imprensa analógica, um pacto como este é altamente improvável, porque a vontade de ser o primeiro a publicar ainda é mais forte do que a preocupação com as consequências da divulgação de um fato, dado ou evento não submetido à verificação prévia.

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P.S. – Este texto já havia sido inserido no Código Aberto quando o jornal britânico The Guardian publicou uma reportagem afirmando o site Whispers guardou dados de alguns usuários e os teria entregue ao Pentágono, nos Estados Unidos, violando o código de privacidade da empresa. A direção do Whispers, em Los Angeles, considerou falsos os dados publicados pelo jornal inglês, mas admitiu que colabora com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos num estudo sobre consequências de distúrbios mentais em ex-combatentes no Iraque e Afeganistão. 

A imprensa com funções de partido político

Postado por: Carlos Castilho | 5 comentários

Sempre que o país enfrenta uma conjuntura delicada no terreno econômico, social ou político, ou ainda durante campanhas eleitorais acirradas, a imprensa se transforma na principal arena de confronto entre posições antagônicas, deixando em segundo plano os debates parlamentares. 

Este fenômeno não é fruto de uma conjuntura específica, mas um processo estrutural cujos efeitos tendem a se prolongar. A origem está no fato de que a busca visibilidade pública por políticos e governantes como parte da preocupação com apoios eleitorais tornou-se mais importante do que a busca por soluções para os problemas nacionais.

Como a imprensa é a instituição mediadora entre a massa da população e os seus dirigentes políticos, ela, inevitavelmente, acabou se tornando mais importante do que a tribuna parlamentar para deputados e senadores. Com isso, os legisladores e governantes passaram a pautar suas ações mais pela forma como elas são transmitidas pela mídia jornalística do que pelo conteúdo do problema em debate.

Esta transferência de funções partidárias foi intensificada pela perda de identidade ideológica das diferentes siglas representadas no poder legislativo federal, estadual e municipal. A miríade de partidos brasileiros não representa hoje nada além do que estratégias de permanência ou conquista do poder, sem falar nos egos.

Esta “desidratação” de partidos políticos já ficou evidente para o eleitorado a ponto de no primeiro turno das eleições deste ano terem se registrado resultados como o do Maranhão, onde o governador eleito é do Partido Comunista Brasileiro enquanto o seu companheiro de chapa é de um partido conservador. Quem ainda tem uma vaga ideia do que foi o marxismo deve ter levado um susto quando o novo governador maranhense anunciou que dará “um choque de capitalismo” em sua gestão.

A descaracterização da atividade partidária no país deveria ter sido um processo tratado pela imprensa como tema de interesse público, mas aconteceu justamente o contrário. Em vez de assumir um papel crítico em relação à utilização dos meios de comunicação com substitutos das tribunas legislativas, os jornais, revistas, emissoras de rádio, telejornais e páginas noticiosas na Web transformaram-se em peças de estratégias de marketing político baseado na mídia de massa.

Esta alteração de prioridades foi facilitada pela mudança estrutural na ação partidária, mas teve também os seus atrativos econômicos, nem sempre visíveis. É preciso levar em conta que toda a imprensa vive hoje um momento de profunda incerteza financeira porque seu modelo de negócios está sendo implodido pelo uso da internet como plataforma de distribuição massiva de notícias de atualidade.

As receitas com publicidade e vendagem minguaram e o futuro é cada vez mais sombrio para a imprensa. Uma das estratégias adotadas pelos donos de conglomerados jornalísticos é procurar algum tipo de apoio financeiro estatal e este, obviamente, está condicionado a favores políticos. Neste ponto uniram-se a fome com a vontade de comer – e a imprensa assumiu plenamente uma função partidária complementar às estratégias de interesses oposicionistas e oficialistas. A imprensa assume assim o risco de envolver-se no mesmo mecanismo corruptor de troca de favores políticos por benefícios financeiros que está na origem dos escândalos do “mensalão” e da Petrobras.

É bom lembrar que o ódio da revista Veja em relação ao lulopetismo tem origem no fim de um milionário contrato de impressão de livros didáticos pela Editora Abril, determinado durante o governo do ex-presidente Lula. Coincidência ou não, foi a partir do fim desse privilégio que começaram as agruras orçamentárias da editora, cuja revista semanal de informações assumiu, sem muitos disfarces, a função de um partido político oposicionista.

A mudança do papel político de muitos órgãos da imprensa ainda não foi percebida pela maioria dos leitores, ouvintes e telespectadores que continuam sob a influência da herança cultural criada pela ideia de independência dos meios jornalísticos de comunicação. Mas o quadro está mudando rapidamente – como fica expresso nas pesquisas de credibilidade na imprensa, que registram uma queda continuada, apesar dos índices de confiança ainda serem mais elevados do que noutros países, como os Estados Unidos.

A função partidária da imprensa é um tema complexo que precisa ser discutido com intensidade principalmente pelos cidadãos, já que eles são os mais afetados pela mudança no papel dos meios de comunicação. Este texto nem de longe pretende ser definitivo porque não sou um especialista na questão. Ele precisa ser complementado com percepções diversificadas e mais aprofundadas, porque envolve muitas outras áreas de estudo. O tema é um desafio para os jornalistas e para os cientistas políticos. Por isso, ele deve ser visto como um convite para o início de uma troca de ideias que será longa e complexa

Guerra noticiosa na campanha eleitoral pode ser um tiro no pé

Postado por: Carlos Castilho | 7 comentários

O segundo turno das eleições presidenciais tem tudo para ser uma guerra entre governo e os três maiores jornais do país, cujas simpatias pela candidatura oposicionista ficaram expressas claramente já na campanha para o primeiro turno. 

Os antagonismos entre governantes e donos de jornais não é uma novidade na América Latina, um continente onde a inexpressividade dos partidos acabou fazendo com que a luta política deixasse de ser travada na arena parlamentar para acontecer no espaço midiático. Trata-se de um confronto entre quem manipula as finanças e os empregos públicos contra os que controlam o fluxo de informações para a população.

Aparentemente trata-se de um confronto desigual porque os governos têm a força militar, ma,s se levarmos em conta que as autoridades precisam do apoio da opinião pública para atender egos e projetos políticos, a luta na arena midiática tende a ser mais equilibrada, porque a imprensa sabe como manipular fatos, versões e dados em seu favor.

A radicalização do conflito de interesses entre governos e empresas de comunicação tem seus exemplos mais recentes nos casos da Venezuela, Equador e Argentina. A fragmentação e a perda de consistência ideológica levaram os partidos a transferir boa parte de sua função oposicionista para a imprensa conservadora. Esta, por seu lado, dissimula a sua ação político-partidária por meio do discurso de defesa da liberdade de expressão, um conceito que as páginas editoriais transformaram em arma ideológico-partidária sem qualquer vinculação com o exercício de um direito fundamental das pessoas.

Nos últimos anos tive a oportunidade de acompanhar de perto a radicalização da batalha midiática na Venezuela e Equador na qualidade de consultor de organizações preocupadas com o desarmamento ideológico, e pude verificar in loco como o processo acaba empurrando os dois lados para um beco sem saída.

Para enfrentar a manipulação de notícias por parte dos jornais oposicionistas, os governos de tendência populista têm grande dificuldade para escapar do autoritarismo, o que acaba minando a sua imagem interna e externa. A imprensa, por seu lado, recusa-se a aceitar a perda de privilégios, alguns deles francamente ilegais, confundindo intencionalmente liberdade de empresa com liberdade de expressão

Nas circunstâncias atuais, a posição da imprensa está fragilizada pela crise por que passam jornais, revistas e telejornais em consequência das mudanças provocadas pela internet no modelo tradicional de negócios no segmento. Em muitos casos, a agressividade antigovernamental é também uma cortina de fumaça para encobrir dificuldades financeiras.

A primeira consequência, fácil de avaliar, é a mútua perda de credibilidade. Os cidadãos acabam confusos diante do tiroteio informativo, com fatos e versões contraditórios que tendem a transformar o debate numa batalha quase pessoal, enquanto o público vai lentamente refluindo para uma atitude passiva.

descrédito cobra seu preço no médio prazo na imprensa porque o refluxo do público se materializa na redução da vendagem, que somada à inevitável queda da publicidade causada pelo instinto de sobrevivência dos anunciantes acaba solapando as bases financeiras de jornais, revistas e emissoras de radio ou televisão. A vulnerabilidade econômica da imprensa torna-se ainda mais letal nesta fase de transição de modelos analógicos para os digitais, quando tudo é incerteza.

Na Venezuela, no Equador e na Argentina os grandes grupos midiáticos perderam força diante do embate contra governos interessados em quebrar a histórica hegemonia de grupos midiáticos familiares. Empresas fecharam, como no Equador, ou estão sendo vendidas a outros grupos econômicos, como na Venezuela.

A agonia lenta e aparentemente irreversível dos grandes impérios jornalísticos em vários países latino-americanos deixará transitoriamente um vácuo informativo na população, porque a mão forte do governo, endurecida durante a batalha midiática, tende a preservar a centralização e o controle. É uma consequência da inércia gerencial e da incompreensão do papel da diversidade informativa no desenvolvimento de percepções e conhecimentos.

cegueira provocada pelo passionalismo político na batalha eleitoral tende a provocar prejuízos graves na imagem dos governantes, na estabilidade empresarial dos veículos de comunicação e também no público, que fica privado de uma informação confiável, diversificada e orientada para os seus interesses. 

Mobilidade informativa e as novas estratégias editoriais

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Os mais recentes estudos dos hábitos de acesso às notícias mostram uma preferência cada vez mais acentuada pelo uso de celulares inteligentes (smartphones) e tablets como veículos para informação pública. Um estudo da Associação Nacional de Jornais dos Estados Unidos (NAA, na sigla em inglês) mostrou um crescimento de 18% no uso de equipamentos móveis para acessar notícias, índice superior ao de todas as demais plataformas (impressos, rádio , telejornais e até mesmo o acesso via computadores fixos ou notebooks).

O resultado consolida a preocupação com a mudança dos padrões editoriais adotados pela maioria das empresas jornalísticas do mundo, inclusive a brasileira, que, apesar de não divulgar dados tão precisos como nos EUA, enfrenta o mesmo dilema. A tendência à atualização noticiosa com o uso de smartphones e tablets aumenta a urgência na definição de estratégias editoriais baseadas na prioridade dada à notícia dura (hard news) ou à contextualização interpretada.

Gera também a introdução de um item novo nos procedimentos de produção e publicação de notícias: o tempo de leitura, audição ou visualização. Até agora, o primeiro parágrafo de uma notícia escrita ou a primeira imagem concentravam a atenção dos editores de notícia porque eram considerados os grandes “ganchos” para chamar a atenção do público. Agora, sites como Medium e Slate começaram a publicar o tempo médio de leitura ou visualização num quadro próximo ao título principal. Com este dado, os editores online pretendem ajudar o leitor, ouvinte ou telespectador a achar novos nichos de tempo para acessar notícias.

A notícia dura é menos afetada pela questão tempo do que os conteúdos contextualizados publicados por páginas informativas online. A notícia dura é a principal matéria-prima jornalística dos equipamentos móveis por causa das limitações da tela de exibição e pelo fato de o usuário estar quase sempre fazendo outra coisa enquanto acesso um noticiário online. Se a notícia dura cumprir a sua função de levar o interessado a procurar mais dados sobre o tema noticiado, aí o tempo passa a ser um fator de estímulo ou desestímulo da leitura, audição ou visualização.

Os conteúdos contextualizados (informação) são o ponto forte das páginas online construídas pela leitura em computadores fixos, onde o usuário sofre menos a influência da divisão de atenções. Se ele tiver pouco tempo disponível, será atraído para a leitura de um texto curto, o que gera um outro dilema: como evitar que ele pare no meio a abandone tudo ou deixe de ver outras informações importantes, simplesmente pela pressa?

A preferência pela mobilidade informativa vai obrigar os jornalistas a acelerar a implantação da estrutura não linear que se caracteriza basicamente pela produção de blocos de dados relacionados a uma mesma notícia – e que serão acessados segundo os interesses e necessidades do usuário. Será uma forma de interligar o material publicado em smartphones e tablets com o inserido em páginas web acessadas preferencialmente por usuários de computadores fixos.

A formatação de uma notícia online deixa de ser feita a partir de padrões fixos estabelecidos em normas redacionais para tomar em conta, prioritariamente, o contexto do público. Isso muda a rotina nas redações porque o jornalista, ao escrever uma notícia, tem que ter um olho na relevância, atualidade, pertinência bem como na credibilidade do material a ser publicado, e o outro olho nos hábitos e comportamentos de quem vai ler. Nos jornais impressos e na televisão comercial isso não acontecia de uma forma tão intensa e constante.

Outra constatação da pesquisa revela que as mulheres são o grande fenômeno novo no acesso as notícias online. Nada menos que 92% das mulheres norte-americanas entre 25 e 34 anos acessam notícias por tablets e smartphones, formando o grupo etário com o crescimento mais rápido (38% ao ano) entre todos os analisados pelos pesquisadores. Trata-se de um fenômeno surpreendente porque o público feminino, especialmente as mulheres mais jovens, era pouco representativo na audiência global. 

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