Código Aberto

Como sobreviver à ‘guerra da informação’

Postado por: Carlos Castilho | 9 comentários

No texto anterior (ver “Mais perdido que leitor de jornal”) foi iniciada uma análise da maneira como as pessoas captam uma notícia e como uma confusão entre os conceitos de dado e informação acaba contribuindo para aumentar a desorientação dos leitores, provocada pela avalancha informativa.

É um tema complexo, mas importante porque sua compreensão ajudará a reduzir os efeitos de outro problema, a “guerra da informação”, na qual já estamos metidos – basta ver a polarização da opinião pública depois das eleições presidenciais e agora com o escândalo da Petrobras.

Jornais publicam informações, mas nós, leitores, devemos recebê-las como dados, ou seja, o que importa para nós é avaliar o dado antes de emitir uma opinião. Uma notícia é um tipo especíifico de dado, caracterizado pelo ineditismo para quem a recebe. Uma notícia deve ser verificada, contextualizada, atribuir significados etc.

Uma informação você aceita ou não, e pronto. Da mesma forma que você não é obrigado a gostar de todos os tipos de músicas, você não é obrigado a aceitar todo tipo de informação publicada pela imprensa porque ela é um dado trabalhado por alguém, portanto não é um espelho fiel de realidade, por mais experiente e capacitado que seja o jornalista que a produziu.

Uma informação jornalística é no máximo é uma tentativa de descrição, de representação, que pode ser boa ou ruim, que pode agradar ou desagradar, assim como uma música pode agradar ou desagradar e nem por isso você hostiliza o músico. Quem faz a informação somos nós, e não o jornal. O jornal produz a informação dele que nós captamos como notícia (dado inédito), assim como reagimos diante da previsão do tempo.

O meteorologista não pode ser criticado porque anunciou chuva para o fim de semana. Para alguns a previsão incomoda porque esperavam ir à praia, mas para outros o tempo chuvoso pode ser uma dádiva dos céus, como para os moradores das regiões sob o efeito de secas prolongadas. O significado atribuído à previsão de chuva depende do leitor e não do meteorologista, e cada leitor desenvolve o seu próprio significado.

Outra coisa importante: muitos acham que para não se irritar com notícias que não gostam, o ideal seria ler só os jornais (ou sites, ou blogs) com os quais simpatiza ou compartilha opiniões. Tudo bem, esta é uma atitude muito comum, quase uma regra, mas um dos mais renomados pesquisadores da opinião pública, o norte-americano Cass Sunstein, adverte: quanto mais uniforme for a opinião de um grupo de leitores, maior a tendência à xenofobia, sectarismos e discriminações. 

Sunstein escreveu quatro livros a respeito do tema sobre o qual realiza pesquisas de campo desde 1990. O mais conhecido é Going to Extremes, publicado em 2009. Assim, quando só lemos um mesmo jornal durante muito tempo, acabamos conhecendo apenas a versão deste jornal sobre o que acontece ao nosso redor e no resto do mundo. Como todos sabemos, um jornal não consegue dar conta da complexidade do mundo em que vivemos – ainda mais agora, na era digital, quando milhões de pessoas passaram a publicar informações cada uma delas respondendo a um contexto específico e a uma forma personalizada de ver um fato, número ou evento.

Todo o material sobre a operação Lava Jato que está sendo publicado pelos jornais ou divulgado pela televisão deve ser visto como uma massa de dados que o leitor ou telespectador deve analisar, checar e contextualizar antes de tomar uma posição e difundi-la para outras pessoas. Assumir o noticiário como a essência da verdade é ignorar a realidade dos fatos, porque cada número, cada evento, declaração ou fato registrado assume significado somente quando o leitor ou telespectador o situa em seu contexto pessoal. 

É claro que o leitor comum não tem condições de conhecer todas as circunstâncias de um depoimento, se foi espontâneo, se foi obtido sob tortura ou se foi resultado de uma transação (delação premiada, por exemplo). Uma mesma frase assume significados diferentes conforme o contexto em que foi pronunciada. O mesmo acontece com números, denúncias, suposições e ilações produzidas por repórteres, policiais, políticos, economistas e formadores de opinião. Todos têm sua agenda pessoal, interesses que podem ou não ser os mesmos do leitor, ouvinte ou telespectador.

A tendência quase espontânea das pessoas é assumir posições, tipo a favor ou contra. O problema é que isso leva a uma simplificação da realidade, o que é um sinônimo de irrealidade. O sectarismo é uma simplificação da realidade política, que se não for compensada pela diversificação de percepções acaba levando a conflitos violentos, como golpes de Estado ou rebeliões.

O professor Cass Sunstein, que não é nenhum esquerdista (é assessor de Barack Obama), afirma que quando pessoas da mesma opinião só conversam entre si, a tendência identificada em dezenas de grupos focais é de que se tornem cada vez mais radicais nas suas opiniões. Como este processo ocorre tanto entre os que são contra como entre os que são a favor da presidente Dilma Rousseff, por exemplo, não é difícil prever que não vai demorar muito para que o sectarismo ganhe intensidade e, se não for identificado a tempo, poderá gerar situações irreversíveis.

Mais do que em qualquer outra conjuntura política pós-redemocratização do Brasil, a leitura crítica e analítica dos dados publicados na forma de informação pela imprensa torna-se o antídoto da “guerra da informação”. O Observatório da Imprensa pratica e promove desde a sua fundação, há 18 anos, a leitura crítica da mídia jornalística. 

Mais perdido que leitor de jornal

Postado por: Carlos Castilho | 3 comentários

O título bem que poderia ser a atualização do velho dito “mais perdido que cego em tiroteio”. A desorientação é a característica comum e o sinal de que já estamos vivendo o que pode ser definido como “guerra da informação”. Cada vez mais os conflitos modernos tendem a ser decididos por quem maneja a informação, uma arma mais eficiente, ampla e duradoura que os mísseis ou balas.

A desorientação é o estágio inicial e obrigatório da “guerra da informação” porque gera insegurança, que por sua vez alimenta a irritação, as catarses e os confrontos. A guerra da informação não tem fronts porque a desorientação nos leva a confundir quem são os aliados ou os adversários. Na maioria dos casos, a identificação é equivocada dando origem a atritos desnecessários ou injustificados.

Os conflitos gerados por desorientação informativa podem surgir em qualquer lugar ou grupo social porque são alimentados por percepções diferentes e pela ausência de compreensão mútua. Mas a causa principal está no nosso desconhecimento sobre como captar e passar adiante os dados que recebemos.

Nisto é fundamental distinguir o dado bruto da informação processada. Dado bruto são os números, fatos, eventos e notícias que recebemos pela imprensa, redes sociais, parentes, amigos e conhecidos. Há duas atitudes diante de um dado: ele nos ajuda a ter uma compreensão básica de quem o enviou, quando é necessário distinguir os elementos objetivos dos subjetivos. Numa notícia de jornal, o elemento objetivo pode ser o anúncio da alta da gasolina. A parte subjetiva, ou oculta, fica por conta da conjuntura do anúncio e da relevância ou não atribuída pelo jornal ao fato objetivo, por exemplo.

Informação é o dado recebido, processado por uma pessoa e passado adiante. Ela incorpora o contexto cultural, social, político e econômico de quem a transmite. Quando lemos um jornal ou assistimos a um telejornal recebemos dados, mas quando comentamos a notícia estamos transmitindo uma informação. Um mesmo fato pode ser dado ou informação, dependendo da posição do indivíduo, como receptor ou transmissor.

A diferença é sutil e pode parecer supérflua, mas é importante porque nos ajuda a reduzir os efeitos da desorientação noticiosa, provocada pela imprensa, redes sociais e formadores de opinião. Ao lermos uma noticia de jornal como dado, priorizamos o que ela tem de concreto, real e objetivo. É como se recebêssemos uma conta de luz. Ali estão um valor e uma data. A conta só terá algum significado depois que compararmos o valor com o de meses anteriores e situarmos a data em nosso orçamento doméstico. Aí a conta vira informação porque vai orientar nossas ações futuras. Quando não separamos dados e informações podemos reagir irritados a um aumento da conta antes de avaliarmos se ele é ou não justificado.

A diferença entre dado e informação nos ajuda a separar fatos de emoções. Há um fato objetivo que é a desorientação provocada pela avalancha de versões jornalísticas diferentes sobre um mesmo fato, publicadas na imprensa e nas redes sociais. Trata-se de um fenômeno com o qual teremos que conviver durante algum tempo, até que sejam desenvolvidos sistemas de triagem mais eficientes e rápidos para lidar com a avalancha informativa.

A “guerra de informação” é alimentada pela desorientação, mas deflagrada pela manipulação de percepções e emoções. Quando deixamos de examinar um dado com a frieza que a sua natureza objetiva impõe, acabamos misturando a realidade com o que gostaríamos que fosse real. Esta mistura gera inconformismo e revolta.

O leitor recebe notícias como dados, mas o jornal as publica como informação, ou seja, incorpora a ela os significados e contextos conforme os interesses e a conjuntura empresarial. Assim, a imprensa transmite a sua visão, o que não necessariamente significa que esteja reproduzindo a realidade. Só que o leitor não foi educado para distinguir um dado de uma informação. A imprensa paga o preço dessa incompreensão; e, se não orientar o público levando em conta as percepções de leitores, ouvintes, telespectadores e internautas, manterá o tiroteio noticioso e será corresponsável pela “guerra da informação”

Aos leitores: Minha internet foi normalizada e a voltarei a responder os comentários postados no Código.

Publicidade que parece notícia

Postado por: Carlos Castilho | 2 comentários

publicidade nativa (native advertising) é a versão portuguesa de um jargão, muito popular na imprensa dos Estados Unidos, que identifica matérias publicitárias disfarçadas de jornalismo, cada vez mais frequentes na mídia impressa norte-americana, inclusive em grandes jornais como The New York TimesThe Washington Post e The Wall Street Journal

A estratégia é considerada um verdadeiro sacrilégio por muitos jornalistas, mas, para os jornais, a publicidade nativa é a grande solução para migração dos anunciantes para a internet. Para não serem acusados de violar os códigos de ética do jornalismo, os jornais identificam as matérias patrocinadas, mas o leitor dificilmente notará que está comprando gato como lebre. As matérias são diagramadas com o mesmo padrão das notícias comuns e a identificação do patrocinador é feita com letra bem pequena, para não chamar a atenção.

A proliferação de notícias e reportagens patrocinadas, mas que se parecem matérias jornalísticas, já é uma tendência irreversível embora a grande maioria dos jornais trate de minimizar o uso desSe recurso como fonte de receita adicional. Trata-se de um estratégia de negócios vislumbrada há mais de dez anos por David Ogilvy, um dos magos da publicidade mundial. “Não há necessidade de um anúncio parecer um anúncio. Se ele parecer uma matéria jornalística, atrairá mais 50 % de leitores” – é a frase de Ogilvy, citada por Joshua Benton, do Nieman Report.

Há inclusive projeções de que o mercado da publicidade nativa atingirá algo como 4,6 bilhões de dólares anuais em 2017, apenas nos Estados Unidos, onde esta modalidade de anúncio já foi incorporada ao departamento comercial de grandes jornais como o The New York Times e The Wall Street Journal. Um caso que está sendo observado intensamente pelos críticos da mídia norte-americana é o do The Washington Post, controlado por Jeff Bezos, dono da livraria digital Amazon e um dos grandes milionários da internet mundial. É voz corrente que várias matérias publicadas pelo Post fazem parte de estratégias comerciais e publicitárias da Amazon, mas os leitores dificilmente percebem o limite entre negócios e informação.

A questão da publicidade nativa vai além de uma mera estratégia para aumentar receitas num momento de crise na indústria dos jornais. Ao que tudo indica, ela está se transformando num modelo de negócios que altera radicalmente os princípios éticos tradicionais no jornalismo. Durante muito tempo, os profissionais da imprensa acreditaram que o noticiário era o seu produto principal e os leitores, os seus clientes. Mas a lógica econômica dos donos de jornais era outra: os verdadeiros clientes eram os anunciantes, que garantiam as receitas; os leitores eram o produto comprado pelos anunciantes e o jornalismo não passava de uma ferramenta do marketing para fazer a ligação entre leitores e publicidade.

O surgimento da internet mudou parcialmente esse esquema. Os executivos de jornais continuam apostando no papel dos anunciantes como grandes clientes e no público como a mercadoria a ser vendida. O problema é que o jornalismo já não funciona mais como instrumento eficiente de marketing na medida em que a Web criou uma relação direta entre o público e os anunciantes. A publicidade nativa tenta recompor o esquema mediante uma transformação do papel do jornalismo na sustentação financeira das empresas de comunicação jornalística.

Originalmente, a função do jornalista era produzir notícias e reportagens suficientemente fidedignas e atraentes para chamar a atenção do público e, com isso, induzi-lo ver anúncios pagos. Agora, o jornalista passa também a produzir publicidade que parece notícia, o que elimina uma etapa no processo de atração do público. A notícia autêntica tende a tornar-se supérflua no novo esquema de negócios da indústria dos jornais. 

Essa situação aumenta consideravelmente a dificuldade do leitor em separar o joio do trigo em matéria de notícias publicadas na imprensa. O que já era difícil por conta das percepções individuais dos jornalistas e dos interesses econômicos e políticos dos donos das empresas jornalísticas, agora torna-se ainda mais complicado na medida em que o disfarce da publicidade na forma de notícia passa a ser uma norma institucional. A relação entre os jornalistas e as indústrias da comunicação entra numa nova fase, em que os padrões éticos e profissionais já não são mais os mesmos. 

Aos leitores:  Devido à ineficiência do atendimento da operadora OI aos seus usuários, estou há uma semana sem acesso a internet.Por esta razão não estou podendo responder os comentários de membros da comnunidade de leitores dste blog. Quando e se o acesso for restabelecido, voltarei a conversar com todos vocês. Obrigado e desculpem.

Leitores e jornalistas ante o ‘analfabetismo informativo’

Postado por: Carlos Castilho | 4 comentários

Todos nós conhecemos o velho dito “quem conta um conto aumenta um ponto”. Até agora esta pequena dose de exagero não chegava a causar grandes transtornos, mas tudo isso mudou com o surgimento da internet, das redes sociais e da avalancha informativa. Os pontos adicionados às histórias contadas de boca em boca, de jornal em jornal, de TV em TV se multiplicaram zilhões de vezes transformando a soma dos pequenos exageros num megaproblema.

Todos os nossos comportamentos e valores em matéria de captar uma notícia e passá-la adiante já não conseguem mais dar conta do tsunami de dados contraditórios com os quais entramos em contato diariamente. Nossa rotina informativa foi colocada de pernas para o ar, como pudemos sentir durante as semanas anteriores e posteriores ao segundo turno das eleições presidenciais. Aumentou a incerteza sobre em quem confiar, tal balbúrdia noticiosa espalhada pela imprensa e pelas redes sociais.

Isso coloca a todos nós diante da necessidade de revisar nossos hábitos informativos o mais rápido possível para tentar minimizar os efeitos da cacofonia noticiosa. Trata-se de gastar um minuto antes de passar adiante um dado, fato ou evento para refletir sobre sua veracidade, exatidão e interesses associados. Até agora delegávamos esta função aos jornalistas, mas eles já não conseguem mais dar conta do recado porque aumentou exponencialmente o volume de material que devem avaliar, e também precisam rever seus métodos de trabalho diante do protagonismo assumido pelo público na era digital.

A preocupação com a natureza e características da notícia que recebemos e provavelmente transmitiremos a outras pessoas por telefone, contato pessoal ou redes sociais é o preço que estamos tendo que pagar pela maravilhosa diversidade de dados, fatos e eventos que nos chegam sem parar. Esta revisão de nossas rotinas informativas será um processo que tomará algum tempo antes de tornar-se tão automático quanto nossa reação de proteger os olhos diante de um clarão mais forte.

A transição do ambiente analógico para outro predominantemente digital está nos obrigando a ter que aprender a lidar com a notícia dentro de um contexto de avalancha informativa. Estamos na condição de analfabetos informativos e precisamos aprender a lidar com a nova situação da mesma forma que aprendemos a escrever ou a dirigir veículos. É uma habilidade nova resultante de uma conjuntura tecnológica inédita.

Nesse processo, os jornalistas ocupam um papel fundamental porque serão eles que darão as linhas gerais sobre como as pessoas devem se conduzir dentro da avalancha informativa. A função do jornalista já não é mais só redigir ou narrar notícias como um produto pronto para ser consumido pelo leitor, ouvinte, telespectador ou internauta. A distribuição de notícias já está sendo feita por pessoas comuns pelo Twitter, chats, correio eletrônico e redes sociais.

Por dever de oficio e por formação universitária, o jornalista é, pelo menos na teoria, o personagem dotado de maior conhecimento sobre o processo de circulação de notícias e informações. Caberia então a ele a responsabilidade de orientar as pessoas e funcionar como um conselheiro ou instrutor na adaptação a um problema totalmente novo no quotidiano de boa parte da humanidade.

Trata-se de uma nova função que deveria ser incorporada o mais rápido possível aos currículos das escolas de jornalismo e comunicação, ao mesmo tempo em que as organizações de jornalistas teriam à sua disposição um tema para discutir a nova relação entre os profissionais e o público

Mas mesmo que os jornalistas assumam integralmente essa nova função, ainda assim eles serão poucos em comparação à massa de consumidores de notícias. Isso gera a necessidade de as pessoas desenvolverem a sua própria cultura informativa de forma individual ou em comunidades de informação. Uma modalidade particular de orientação é a recomendação, ou curadoria de notícias, praticada em grupos de pessoas com interesses afins. 

‘iTunes’ de reportagens faz sucesso entre leitores e jornais

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

Os maiores jornais do mundo já estão com as barbas de molho porque um projeto lançado na Holanda, há menos de seis meses, pode colocar de pernas para o ar todo o sistema de acesso pago ou assinaturas online. A plataforma Blendle funciona como uma banca de jornal online, só que ela vende os artigos que interessam ao leitor, que não precisa comprar uma edição inteira só para ler um texto.

A novidade vendeu como pão quente na Holanda, onde todos os jornais e revistas de circulação nacional já fecharam parcerias com o projeto desenvolvido por um grupo de jornalistas e programadores com menos de 30 anos. A página do Blendle tem 130 mil usuários registrados, que pagam o equivalente a 20 centavos de dólar (R$ 0,60) por artigo, podendo o assinante pedir o dinheiro de volta caso não gostar do que leu, ouviu ou viu.

Empresas estrangeiras como a revista britânica The Economist , o jornal americano The New York Times e o grupo midiático alemão chefiado pelo todo poderoso Axel Springer já formalizaram parceiras com o Blendle, recebendo 70% do valor arrecadado com cada artigo vendido. Os jornalistas holandeses lançaram o seu projeto com dinheiro do próprio bolso, mas hoje já têm financiamentos assegurados no valor de 3 milhões de euros (cerca de 9,5 milhões de reais).

O mundo dos negócios da imprensa está chamado o projeto holandês de “iTunes da notícia”, numa alusão ao site iTunes, da Apple, onde o cliente pode comprar uma única música em vez de um CD inteiro. O estrondoso sucesso do iTunes acabou criando um varejo musical de grandes proporções, frequentado especialmente por jovens.

A segmentação dos conteúdos jornalísticos já é uma tendência mundial em que se destacam projetos como The MediumLong FormLongForm Stories e LongReads, que se especializaram na oferta de artigos produzidos por jornalistas, pesquisadores e escritores autônomos ou vinculados a empresas jornalísticas ou editoras de livros. São textos voltados para um público que deseja ler narrativas literárias e jornalísticas, não vinculadas a livros ou veículos de comunicação da imprensa. Curiosamente, os jovens compõem uma parcela considerável da audiência desses sites.

A multiplicação deste tipo de projeto mostra também que existem pessoas interessadas em textos mais longos que ficam a meio caminho entre a notícia do dia a dia e as grandes reportagens ou obras literárias de ficção e não ficção. The Medium distribui quase diariamente uma lista de artigos para assinantes online fornecendo como atrativo uma indicação do tempo de leitura. LongReads também estima o tempo de leitura, mas se especializou em selecionar artigos já publicados. A seleção é feita por um grupo de curadores e por sugestões dos assinantes.

Long Form, criado em 2010, é um projeto da Universidade de Pittsburgh (Estados Unidos) que oferece aos seus assinantes artigos produzidos por intelectuais e jornalistas independentes, cujos trabalhos são selecionados por uma equipe de professores acadêmicos e críticos literários. O site também publica, no formato podcast, entrevistas e depoimentos sonoros com escritores. Todos esses projetos possuem páginas web mas trabalham basicamente a partir de aplicativos para smartphones e tablets, onde está a maioria esmagadora dos seus usuários.

O sucesso dos projetos de segmentação e personalização de textos jornalísticos acelera a transformação dos jornais em núcleos de produção de conteúdos informativos em vez de empresas voltadas para a industrialização da notícia e reportagens. É mais um indício de que o modelo atual de negócio das empresas jornalísticas está se esgotando mais rápido do que imaginam os seus executivos.

É todo um conjunto de novas soluções tecnológicas que mudam hábitos de leitura e alteram radicalmente os sistemas de produção de conteúdos. São projetos que mostram como a internet não é obrigatoriamente um sistema que impõe a superficialidade e a trivialidade. Há espaço para a experiências literárias e jornalísticas mais densas, um campo que muitos consideram um privilégio exclusivo dos textos impressos.

Ressaca eleitoral antecipa a era da incerteza informativa

Postado por: Carlos Castilho | 6 comentários

A verdadeira avalancha de notícias contraditórias deflagrada nas redes sociais forneceu uma amostra do que nos espera – num futuro não muito distante – em matéria de incerteza informativa. O resultado do segundo turno das eleições presidenciais incorporou um elemento passional às manifestações dos eleitores pela internet, mas o fenômeno da multiplicação de visões divergentes nas redes sociais veio para ficar, para o bem e para o mal.

Nos quatro primeiros dias depois do anúncio da reeleição da presidente Dilma Rousseff ficou claro que redes como o Facebook, Twitter e outras redes já são o ambiente onde as pessoas concordam, discutem e se agridem. O mundo da interatividade interpessoal está migrando irreversivelmente para as plataformas digitais, o que é um elemento positivo porque facilita a troca de ideias, mas também torna possíveis as agressões, disseminação de falsidades e propostas absurdas, como o abaixo assinado pelo impeachment de Dilma ou o pedido postado no site do Exército pedindo a volta dos militares ao poder.

Estamos ingressando na era da incerteza informativa porque nos defrontamos com duas opções pouco tranquilizadoras: de um lado temos a imprensa monoliticamente estruturada em torno de um modelo de negócios e de uma plataforma política, e do outro o caos noticioso na internet. Esta situação não é definitiva porque é inevitável uma redefinição dos papéis dos diferentes protagonistas da arena informativa.

Mas fica uma constatação que deve acelerar a mudança de nossos hábitos e valores na hora de receber noticias e passá-las adiante. Nossa confiança na imprensa como organizadora do nosso cardápio informativo diário está seriamente abalada. Por isso teremos que buscar noutras fontes os dados que viabilizam a nossa vida em comunidades e agrupamentos sociais. O ambiente que ocupa cada vez mais espaços em nossa agenda diária é o da internet e das redes sociais, onde a principal característica é a velocidade, amplitude de disseminação de mensagens e a diversidade de percepções.

A rede mundial de computadores supera todos os demais ambientes informativos analógicos em matéria de liberalização no fluxo de notícias. Mas esta liberdade tem outra face. Para sociedades que sempre conviveram com freios e limites no acesso à informação, a inédita ausência de restrições dá margem a catarses irrefletidas que criam tensão e sérios riscos à tolerância política e social.

O tiroteio noticioso provavelmente perderá intensidade à medida que as emoções pós eleitorais perderem intensidade. Mas a desorientação informativa é um fenômeno com o qual teremos que nos acostumar e saber como lidar. Cada cidadão terá que desenvolver sua “caixa de ferramentas” para lidar com a dúvida e as desconfianças. Dúvidas como a verdadeira origem do inesperado surto de autoafirmação dos nossos parlamentares, cuja imagem ainda está manchada por atentados ao decoro político e à lisura financeira.

Normalmente, o cidadão comum esperaria que a imprensa explicasse o que está por trás dessa atitude, mas ela se limitou a justificá-la como uma vendetta pelo fato de alguns deputados e senadores não terem sido eleitos por falta de apoio do governo federal. Como a maioria já se conformou com a omissão da imprensa, sobrou para os leitores, ouvintes, telespectadores e internautas a indiferença perante os veículos de comunicação e a catarse individual nas redes sociais.

A nossa “caixa de ferramentas” para lidar com a era da incerteza informativa será algo muito pessoal porque cada indivíduo vive num ambiente noticioso diferente. É um esforço que teremos que fazer sozinhos ou com a ajuda de comunidades de informação para separar o joio do trigo em matéria de notícias. Uma das ferramentas é a curadoria de noticias, mas ela dependerá do grau de confiança que teremos na competência e habilidade dos responsáveis pela sugestão de notícias relacionadas aos nossos interesses e necessidades.

Não adianta vituperar contra a internet porque ela também veio para ficar, assim com outras inovações tecnológicas que revolucionaram a história da humanidade. Também não adianta o saudosismo tipo “como era verde o meu vale” porque a história vai para frente, apesar de recuos temporários. É o preço que estamos tendo que pagar por toda a série de maravilhas tecnológicas que mudaram a nossa maneira de viver. 

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