Código Aberto

Jornais: entregando os anéis para salvar os dedos

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

Caso avancem as negociações entre um grupo de jornais, revistas e páginas noticiosas na Web com pelo menos duas grandes redes sociais virtuais, cairá por terra um dos mais tradicionais valores da imprensa mundial e estaremos cada vez mais próximos da possibilidade de o Facebook se transformar numa outra internet.

Um número ainda não revelado de empresas jornalísticas, algumas delas bem tradicionais como o The New York Times, estuda a possibilidade de publicar notícias, reportagens e análises em redes sociais como o Facebook. 

Esta possibilidade, que rompe a histórica tradição de cada veículo possuir também a sua própria plataforma de publicação, é estimulada pelo desejo de pegar carona nas redes sociais que são hoje o grande ponto de encontro de pessoas na internet. É um esforço para ampliar audiências visando aumentar o faturamento com publicidade online, mesmo perdendo parte importante da autonomia corporativa. Seria o equivalente a entregar os anéis para não perder os dedos.

A lógica econômica faz sentido para um segmento corporativo que ainda não encontrou um modelo de negócios compatível com a nova realidade digital no consumo de informações jornalísticas. A publicação de conteúdos jornalísticos em redes sociais equivale ao surgimento de franquias noticiosas na internet (o que os marqueteiros chamam de conteúdos distribuídos) e à institucionalização da figura do jornalista terceirizado.

A mudança é muito grande e pode não acontecer da forma como esperam tanto as redes sociais como os jornais que namoram a fórmula dos conteúdos distribuídos. Para o The New York Times, por exemplo, o interesse óbvio é comercial e financeiro. Só a ampliação das receitas online poderia explicar por que o jornal decide alterar uma cultura secular em matéria de produção jornalística e independência editorial.

Embora os detalhes do projeto ainda não tenham sido divulgados oficialmente, experiências feitas por outros sites, como o Snapchat, indicam que as redes compartilhariam o faturamento resultante do aumento de visitações com as empresas jornalísticas responsáveis pela produção dos conteúdos informativos.

O fenomenal crescimento dos usuários de redes sociais (só o Facebook tem quase 1,4 bilhão de usuários frequentes em todo mundo) está levando empresas produtoras de conteúdos a pegar carona no sucesso o alheio. Em termos de negócio é atraente usar a popularidade alheia em vez de gastar rios de dinheiro para cativar e fidelizar internautas. Para as redes, é um atrativo a mais para manter as pessoas conectadas, sem trocar de endereço na Web. Em princípio seria um bom negócio para ambas partes.

Acontece que as redes sociais na internet não são algo permanente e sólido. O fenômeno das redes vai continuar, mas a volatilidade dos usuários em matéria de marcas é muito grande. Uma pesquisa do instituto Pew Research Center mostrou que os norte-americanos estão, em média, vinculados a cinco redes sociais virtuais diferentes. Também é histórico o processo de migração de usuários de uma rede para outra.

O Facebook cresceu à custa da importação de usuários do MySpace e do Orkut. Hoje, já ocorre uma migração similar em relação ao Facebook, com a redução acentuada do público mais jovem e um sensível “envelhecimento” da média da audiência. Redes como Instagram, Snapchat, Whatsapp, Pinterest e Linkedin, e até mesmo projetos mais recentes como a Ello e a Kik, são hoje o principal alvo dos anunciantes online, o que deixou os jornais numa situação difícil porque sua participação no bolo publicitário deixou de crescer desde 2013.

Estabelecer uma aliança estratégica com as redes sociais significa importar também a sua volatilidade e a cultura do risco permanente que elas trazem no seu DNA corporativo. A imprensa tradicional tem como um de seus principais valores a preocupação em errar o menos possível. Já as redes assumem os revezes como uma consequência inevitável da necessidade da inovação permanente, para manter-se num mercado em constante ebulição. Para analistas da imprensa digital, como o norte-americano Jeff Jarvis, “é como se o The New York Times, de repente abandonasse uma cultura centenária para incorporar o espírito da garotada do Whatsapp”.

As redes tentam seduzir os jornais com outras vantagens, como a maior rapidez no acesso a uma informação online. Atualmente quem está no Facebook e clica numa notícia tem que esperar de cinco a oito segundos para sair da rede social e entrar na página do jornal. Com o conteúdo distribuído, o acesso passa a ser de milissegundos porque o usuário não sai da página da rede social. No Brasil, esta perda de tempo não é notada por conta da lentidão de nossa internet, mas nos Estados Unidos e Europa a velocidade de acesso conta muito na hora de fazer negócios.

A grande imprensa perdeu há tempos o controle dos acessos à suas páginas noticiosas na Web. O Facebook é responsável por 40% dos acessos à página do The New York Times. O Google teria outros 40%, o que limitaria a magros 20% o total de leitores que acessam diretamente a página do NYT. Caso a aliança jornais/redes sociais na Web avance, a imprensa perderá o controle sobre seus leitores e também sobre a publicidade, já que os dados sobre acessos de usuários e o relacionamento com anunciantes deve ser assumido pelas redes. É a quebra de um modelo histórico na imprensa mundial, que sempre foi muito ciosa dos segredos envolvendo o relacionamento com público e anunciantes.

Outra consequência relevante é o fato de os jornais publicados numa rede social perderem também o controle do fluxo das notícias e informações. Numa rede social, as pessoas têm uma postura diferente da que têm diante de um jornal. No impresso, a leitura é sequencial, causal e reflexiva. Na internet, as pessoas só leem os dois ou três primeiros parágrafos e depois passam adiante, preocupando-se mais em elogiar ou criticar a notícia ou comentário. O elogio ou crítica é em seguida passado sucessivas vezes adiante, com a incorporação de novas observações. Geralmente depois de um certo número de compartilhamentos, o contexto da notícia é bem diferente do original. 

Fantasma do Estado Islâmico justifica viés noticioso

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

“Governo detecta recrutamento de jovens pelo Estado Islâmico no Brasil.” Este título de alto de página publicado pelo jornal O Estado de S.Paulo no domingo (22/3, pág. A13), com direito a manchete de capa, tem todos os ingredientes para causar preocupação na maioria dos leitores. Quem se deixou levar pelo impacto imediato da informação provavelmente não se deu conta do viés informativo e nem das distorções que ela poderia provocar no imaginário dos leitores do Estadão.

A notícia foi baseadA num relatório intitulado “Estado Islâmico – Reflexões para o Brasil”, de autoria não identificada e supostamente preparado por um organismo de segurança, também não identificado. Este e outros relatórios sobre a organização terrorista teriam sido discutidos numa reunião na Casa Civil no Palácio do Planalto. Os repórteres do Estadão afirmam que este e outros relatórios visavam alertar a presidente Dilma Rousseff sobre os riscos de atentados terroristas nas Olimpíadas de 2016. Ainda sem identificar fontes, o texto diz que o Estado Islâmico (EI) estaria interessado em ampliar suas ações para a América Latina.

No sexto parágrafo, um leitor experiente detecta um dos objetivos do texto: dar visibilidade a supostas queixas da Agência Brasileira de Inteligência e da Polícia Federal sobre a necessidade de uma nova legislação para repressão de atos terroristas no país. No antepenúltimo parágrafo, o jornal, ainda sem citar fontes, diz que dez jovens brasileiros estariam fazendo propaganda do EI nas redes sociais.

Quem confiou no jornal e nos repórteres tem uma enorme surpresa no último parágrafo da matéria. O entretítulo “Casa Civil diz que assunto não foi debatido na reunião” destrói a veracidade da notícia e põe por terra todas as hipóteses levantadas pelo texto. A Casa Civil nega inclusive que tenha havido uma distribuição de relatórios sigilosos sobre o Estado Islâmico. Se a informação da Casa Civil é verdadeira, então a notícia não tem base real. Se o Planalto escondeu a verdade, então era obrigação dos repórteres e do jornal desfazer a manobra e mostrar suas razões reais. Mas nada disso foi feito.

Uma notícia como esta, consumida sem o apoio da leitura crítica, pode induzir o leitor à falsa ideia de que estamos a beira de um ataque terrorista do Estado Islâmico no Brasil, que as Olimpíadas de 2016 serão um chamariz para os chamados “lobos solitários” (terroristas que agem sozinhos) e que há necessidade de um endurecimento das leis antiterror no país. Mais do que isso, evidencia como a técnica de enviesar uma informação de acordo com a perspectiva do repórter, do jornal ou da fonte pode criar um factoide com aspecto de fato verídico.

Quem publicou esta notícia não estava preocupado com o leitor e sim com a fonte – no caso, os serviços de inteligência e a Policia Federal. Os manuais de redação garantem que a função do jornalista e do jornal é oferecer dados ao leitor para que este possa tomar decisões conforme seus desejos e necessidades. Como alguém pode ser um bom cidadão quando é induzido a criar uma falsa percepção da realidade? 

O Observatório da Imprensa, há 18 anos, na luta por uma imprensa melhor . Muita coisa já evoluiu, mas quando comparamos o que existe com o que seria necessário, vemos que a distância em vez de diminuir, aumentou. O grau de exigência do público cresceu muito mais do que a capacidade dos jornais, revistas e telejornais em atendê-lo. E não é só por culpa das redações e dos executivos. A tecnologia avançou muito mais rápido do que a capacidade editorial e gerencial dos responsáveis pela imprensa.

A combinação de deficiência humana com a avalancha de inovações tecnológicas cria para o leitor, ouvinte, telespectador e inclusive internautas a sensação de que não temos mais onde buscar informações. Sensação esta que é reforçada quando alguém perde alguns minutos para examinar criticamente uma notícia como a que acabamos de analisar. É o sinal dos tempos e um sintoma inquietante da mudança de paradigmas que estamos vivendo.

Se por um lado a tecnologia está atropelando a imprensa, esta contribui ainda mais para aumentar brecha informativa entre o que leitor quer saber e o que lhe é oferecido na forma de notícias enviesadas que só contribuem para incentivar o descrédito do público. Notícias como a publicada pelo Estadão sobre uma hipotética ação futura do Estado Islâmico no Brasil mostram como é essencial adotar a leitura crítica na nossa rotina diária no contato com a imprensa.

O que a imprensa não viu nas manifestações de março

Postado por: Carlos Castilho | 2 comentários

Tudo indica que as manifestações de rua tendem a ocupar um espaço cada vez maior na definição do impasse entre adeptos e críticos do governo da presidente Dilma Rousseff. Isso obrigará a imprensa a repensar a cobertura de protestos de rua daqui por diante. Nos dias 13 e 15 de março, a quase totalidade da imprensa nacional enfocou as manifestações como se elas fossem uma espécie de plebiscito, priorizando a contagem dos participantes e a comparação numérica entre os dois eventos de rua. Uma abordagem editorial coerente com a estratégia do terceiro turno apregoada por alguns políticos oposicionistas.

Mas a mídia não prestou atenção ao fato de os protestos atuais marcarem uma nova fase em matéria de manifestações públicas. Elas já não apresentam palavras de ordem unificadas, uma característica obrigatória em todos os protestos anteriores comandados e organizados por partidos ou organizações políticas. Agora cada pessoa leva a sua palavra de ordem, fato que deu origem a slogans aparentemente despropositados e fora de contexto. A imprensa deixou de ver os cartazes e faixas como a expressão de um desejo pessoal e não de um slogan político-partidário.

As manifestações de rua, contra e a favor do governo Dilma, tendem a se transformar em materializações daquilo que já rola nas redes sociais. O que alguns chamaram de desvarios de radicais estampados em cartazes e faixas na verdade circulam diariamente na internet. A análise dos protestos não pode mais ser feita com base em valores e parâmetros da era pré-internet porque estamos diante de uma nova realidade: a da avalancha de percepções, opiniões e propostas de uma forma caótica porque respondem a contextos muito diversificados e específicos. A internet alimenta as ruas e estas retroalimentam as redes sociais.

As próximas manifestações provavelmente proporcionarão novos elementos para compreender por que quem saiu às ruas na primeira quinzena de março foi mais por uma vontade pessoal do que pela convocação de algum partido ou movimento político. Estamos ingressando numa era em que os indivíduos começam a ter mais protagonismo do que as organizações. E neste ambiente o caos é inevitável, porque não há mais palavras de ordem determinadas hierarquicamente. Estamos na era da avalancha informativa cujas consequências para nosso dia a dia político foram exemplarmente definidas pelo cientista norte-americano Alex Pentland, no seu livro Social Physics (Física Social):

“Para entender o nosso novo mundo, nós devemos ampliar ideias familiares sobre economia e política para incluir os efeitos de milhões de indivíduos aprendendo uns dos outros, influenciando-se mutuamente na formação de opiniões. Não podemos mais pensar como indivíduos que tomam decisões de forma cautelosa; somos obrigados a incluir em nossas decisões individuais os efeitos da dinâmica social que gera bolhas econômicas, revoluções políticas e a economia da internet”. [Alex Pentland, Social Physics: How Good Ideas Spread (Física Social: Como as boas ideias se espalham) Editora Penguin Press, 2014. Citação traduzida por mim.]

Cobrir o caos das manifestações de rua transformou-se num grande desafio para a imprensa, se ela desejar manter um mínimo de relevância social. Caso contrário, as redes sociais tendem a ocupar cada vez mais espaços na forma como as pessoas se comunicam e se influenciam mutuamente. Quando os jornais e telejornais desprezam a parte socialmente mais interessante dos protestos, porque se preocupam apenas com o lado politico dos eventos, a mídia não leva em conta a diversidade de motivos que fazem as pessoas sair de casa para gritar contra ou a favor do governo.

É evidente que na massa de gente que foi às ruas surgiram cartazes estapafúrdios como o que pedia a execração do educador Paulo Freire dos currículos escolares e os que exigiam a entrega do poder ao Ministério Público, à Polícia Federal ou ao Exército. São expressões do caos cognitivo vivido por pessoas que recém estão se acostumando com a avalancha de informações e com a velocidade com que elas passam “de boca em boca” na internet. Se a imprensa estivesse realmente preocupada em reconquistar a confiança de um público perplexo com as consequências das mudanças tecnológicas, deveria deixar de aguçar paranoias ou estimular atitudes plebiscitárias. As pessoas querem saber por que as coisas acontecem, pois já estão a par do que acontece.

A repetição futura de novas manifestações não resulta apenas de uma estratégia da oposição mas principalmente porque as pessoas, contra e a favor, descobriram como compartilhar em carne e osso a insatisfação que já compartilham virtualmente na internet. Os protestos geraram o calor humano que as relações virtuais não permitem. A imprensa olimpicamente ignora esta realidade.

A notícia tratada com se fosse um quilo de batatas

Postado por: Carlos Castilho | 6 comentários

A comparação parece despropositada, mas é justamente o que acontece com 99% das notícias publicadas na nossa imprensa. A gente só se dá conta desta relação absurda quando lê, ouve ou vê algo que nos toca diretamente, e sobre o qual conhecemos minimamente suas causas, consequências, prejudicados e beneficiados.

Isto aconteceu há dias com o fundador do Observatório da Imprensa, Alberto Dines, ao ser envolvido no escândalo HSBC por uma notícia tratada como se fosse um quilo de batatas. O texto publicado desprezou elementos básicos na avaliação de uma notícia – como a verificação de sua exatidão, situá-la no contexto humano, social, político e econômico, sem falar na obrigatoriedade de consulta aos envolvidos. O pior é que deslizes como este acontecem diariamente e a gente só se dá conta dos efeitos quando conhece os protagonistas ou as situações focadas na notícia.

A imprensa é um negócio e como tal gera um produto para ser comercializado. Nisso ela se aproxima do negócio de um produtor de batatas. Mas há uma diferença fundamental. Para vender batatas, o comerciante se preocupa prioritariamente com a aparência saudável do produto. Mas quem “vende” uma notícia ao publicá-la junto com anúncios não pode priorizar apenas o que é visível, e há uma razão central para isso.

Na maioria dos casos, uma notícia envolve pessoas que têm história, têm parentes, amigos e conhecidos, que ocupam ocupa uma posição social, têm uma reputação construída ao longo da vida e têm um futuro pela frente. Quando a notícia é tratada como um produto para venda, o repórter ou editor se preocupa basicamente com a sua aparência, ou seja, a capacidade de atrair a atenção do público e com isso levá-lo a ver também os anúncios pagos que sustentam o veículo jornalístico.

Não é fácil produzir uma notícia levando em conta todos estes fatores. Um jornal, revista, telejornal, página noticiosa na Web ou noticiário radiofônico são produzidos numa linha de montagem. Há prazos determinados, formatos obrigatórios, políticas editoriais a serem seguidas e prioridades operacionais a serem respeitadas. Tudo isso interfere na atividade de um repórter ou editor, que muitas vezes precisa dar mais atenção a esses fatores do que ao conteúdo da notícia.

Mas o jornalista tem uma responsabilidade inalienável que é a de saber que está tratando com pessoas, e não com batatas. Quando o profissional abre mão dessa diferença ele está renegando a sua própria profissão. As pessoas não compram jornal, revistas ou assistem a telejornais para comprar tubérculos, mas sim para saber o que pode afetar suas vidas, de forma positiva ou negativa. Comer batatas preenche uma necessidade fisiológica. Receber notícias atende a uma exigência do convívio social.

Uma notícia descontextualizada ou inverídica – noutras palavras, irresponsável – pode acabar em perda de vidas humanas, algo irreversível, ao contrário de uma intoxicação causada por um alimento estragado. Há centenas de tragédias humanas provocadas por notícias irresponsáveis, e sua consequência mais grave é que, quando isso acontece, os jornalistas raramente tomam conhecimento dos desdobramentos de sua falta de cuidado na apuração, redação e publicação.

Quando algum caso ganha notoriedade por conta das suas consequências, a culpa geralmente é atribuída ao profissional e ninguém se preocupa com o sistema que gerou a publicação irresponsável. O modo industrial de “fabricar” uma noticia e a preocupação com os seus resultados financeiros ou políticos estão na origem da maioria dos desvios éticos e sociais na prática do jornalismo diário.

A preocupação com o tratamento adequado de notícias se tornará ainda maior na medida que as redes sociais ocuparem espaços mais amplos como fonte de informação das pessoas. A reprodução viral de dados falsos, rumores alarmistas e boatos difamatórios tende a crescer, fora do controle da imprensa, num processo irreversível e que vai exigir muito mais do que novas leis e códigos. Todos nós teremos que ser protagonistas ativos na filtragem e contextualização de dados, fatos, eventos e notícias.

Aos leitores: O primeiro e o último parágrafos foram alterados para corrigir problemas na transcrição do texto original para a página do Código Aberto. Pedimos desculpas aos leitores.

Distanciamento do público desafia o jornalismo local

Postado por: Carlos Castilho | 2 comentários

Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos, que provavelmente apontaria resultados parecidos no Brasil, mostrou que em matéria de noticiário local há uma grande distância entre os moradores e a imprensa na maioria das cidades. A investigação realizada pelo Pew Research Center, a mais prestigiada instituição de pesquisas sobre comportamentos e opinião pública nos Estados Unidos, revelou que apenas 10% dos moradores das três cidades estudadas tiveram algum contato com a imprensa nos últimos 12 meses.

O dado revela uma situação preocupante, especialmente para a imprensa local, porque evidencia uma falta de envolvimento e confiança mútuos entre profissionais e seu público no debate de temas comunitários. A relação entre jornalistas e moradores acaba sendo marcada por interesses alheios à busca de soluções para problemas, necessidades e desejos da comunidade. A pesquisa mostrou também que a população das cidades estudadas – Denver (Colorado), Macon (Georgia) e Sioux City (Iowa) – mantém uma relação igualmente distante com os governos municipais.

A pesquisa norte-americana indicou que metade dos habitantes das cidades investigadas discute regularmente temas comunitários. Isso revela como as questões locais são importantes para as pessoas, só que elas preferem mais discutir entre si do que compartilhar preocupações com a imprensa e com os governantes. Quando a questão chega a um nível decisório, as autoridades e os jornalistas entram em cena, mas nesta fase o processo já entrou numa fase de uso de pressões e contrapressões. A fase de formatação de uma necessidade ou desejo ocorre à margem da imprensa e dos administradores.

A falta de engajamento dos jornalistas com os temas das comunidades onde estão inseridos prejudica a qualidade na produção de notícias não só porque há uma identificação tardia das questões de interesse coletivo como também porque a falta de confiança e de proximidade humana dificultam a espontaneidade das fontes de informação.

O distanciamento dos jornalistas em relação às comunidades é hoje um dos grandes dilemas enfrentados pela maioria dos jornais de pequenas e médias cidades, conforme revela o trabalho do ex-jornalista e professor Jake Batsell no seu livro Engaged Journalism Connecting with Digital Empowered Audiences, lançado há 30 dias pela Columbia University Press. Segundo o autor, a maioria esmagadora dos profissionais do jornalismo foi formada para falar aos leitores, em vez de com os leitores. A narrativa jornalística tem mais características de um discurso, ou aula, do que uma conversa, uma troca de informações.

O discurso jornalístico foi uma exigência das limitações tecnológicas da imprensa antes do surgimento da internet e da digitalização. A transmissão de notícias era centralizada e as formas de interação entre jornalistas e o público eram restritas a diálogos telefônicos, conversas pontuais ou cartas para jornais, rádios e emissoras de TV. Hoje tudo isso mudou. As redes sociais e a comunicação móvel (celulares e smartphones) abriram um espaço gigantesco, barato e imediato para a troca de dados, versões e opiniões.

Os jornalistas incorporaram as novas tecnologias como uma ferramenta para divulgar o seu trabalho, mas ainda não as assumiram como uma forma de interagir com o seu público para identificar problemas, necessidades e desejos. Também estão demorando muito para descobrir que o engajamento com a comunidade lhes facilita fontes de informação com um grau de confiabilidade muito maior do que numa relação entre estranhos.

A maior resistência dos profissionais às novas formas de relacionamento com leitores, ouvintes e telespectadores está na questão da isenção, um princípio que foi incorporado aos manuais de redação na primeira metade do século passado como uma reação à onda de jornais sensacionalistas, mais conhecidos como “imprensa marrom”. A isenção era uma forma de tentar preservar a credibilidade, mas hoje a situação é bem diferente.

A nova conjuntura social gerada pelas novas tecnologias de informação e comunicação torna necessária uma relativização dos princípios da isenção e da objetividade no exercício do jornalismo. Nenhum dos dois pode ser visto de forma absoluta sem levar em conta o contexto da informação jornalística. O profissional precisa estar integrado ao meio social onde exerce a sua profissão justamente para poder trabalhar melhor, informar melhor e principalmente orientar melhor as pessoas. O jornalista é um profissional especializado em lidar com a informação, por isso tem melhores condições de identificar um boato, rumor, mentira por omissão, indução de opiniões e de difamação.

O crescimento do jornalismo em comunidades não é uma exclusividade norte-americana. Ele ocorre em todo o mundo como um desdobramento das mudanças provocadas pela internet na comunicação jornalística em todo o mundo. Mas ele ainda é uma grande incógnita porque inevitavelmente não poderá seguir o modelo da imprensa local tradicional, cuja sobrevivência está ameaçada pela avalancha de informações nas redes sociais e na comunicação móvel. Para explorar a nova realidade da imprensa local é obrigatório pesquisar e experimentar muito, coisa que nós aqui no Brasil, salvo a exceção do projeto Grande Pequena Imprensa, do Instituto Projor, ainda não começamos a fazer.

Cobertura da lista de Janot: falta de criatividade ou indução de opiniões?

Postado por: Carlos Castilho | 2 comentários

O noticiário das primeiras semanas de março de 2015 nos telejornais da Rede Globo mostrou uma constância na repetição de matérias sobre a lista de políticos envolvidos no escândalo revelado pela Operação Lava Jato que deixou no ar uma dúvida: foi falta de imaginação dos editores em buscar novos ângulos para as reportagens ou uma repetição intencional para induzir a formação de opiniões sobre o caso?

A resposta provavelmente nunca será conhecida, porque a emissora não reconhecerá que lhe faltou imaginação jornalística para criar novos focos de interesse para um tema que dominou a agenda da imprensa desde o início do ano. A Globo também jamais admitirá que estaria forçando os seus telespectadores a assumir uma posição diante das denúncias de corrupção na Petrobras e no meio parlamentar do país.

A repetição de reportagens ficou evidente no dia seguinte à divulgação da chamada “lista de Janot”, com os nomes de políticos envolvidos no escândalo de propinas envolvendo a Petrobras e as maiores empreiteiras do país. A maioria dos telejornais diários da rede aberta bem como os da GloboNews (assinatura) repetiram literalmente quase todas as matérias. O Jornal Nacional do sábado (7/3) retransmitiu as mesmas matérias que já haviam entrado no Bom Dia Brasil, no Jornal Hoje e nas edições de hora em hora da GloboNews.

É evidente a impossibilidade material de refazer toda a cobertura de um telejornal para outro porque isso exigiria um sistema de produção jornalística muito acima da capacidade da emissora. Mas a técnica de edição de telejornais recomenda a atualização ou diversificação dos enfoques das matérias principais para garantir que cada programa tenha um atrativo próprio.

Esta preocupação tornou-se ainda mais relevante depois que a transmissão de notícias pela televisão, rádio ou internet tornou-se um fluxo constante. Identificar diferenciais capazes de chamar a atenção dos telespectadores para enfoques inovadores ou pouco explorados passou a ser uma regra obrigatória para quem desejasse aumentar a audiência.

Claro que isso dá trabalho, exige reflexão e criatividade, fatores que entram em conflito com o ritmo industrial de produção jornalística de uma emissora como a Globo. A audiência hegemônica e, principalmente, o virtual monopólio da publicidade mais cara criaram as condições para um relaxamento na criatividade e inovação, que passam a depender cada vez mais de gadgets eletrônicos do que de neurônios.

A repetição de notícias tem também um componente mais complexo e controvertido que é o de promover uma uniformização de percepções por meio da reprodução continuada de uma mesma mensagem. Todos se lembram da triste frase atribuída ao chefe da propaganda nazista, Joseph Goebbels: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se uma verdade”.

Trata-se de um uso indevido do jornalismo para uma finalidade diferente daquela que justifica o exercício da atividade. Uma matéria pode ser 100% jornalística em sua investigação e produção, mas ter finalidades nada jornalísticas na sua transmissão e divulgação. A justificativa formal do jornalismo está vinculada à sua função de fornecer dados diversificados para que o cidadão possa formar o seu próprio juízo. Mas quando uma notícia é divulgada num contexto diferente ela passa a atender a finalidades divorciadas da função jornalística.

Isso obriga o leitor, telespectador, ouvinte ou internauta a ter que se preocupar hoje não apenas com a relevância, veracidade, atualidade, exatidão e pertinência de uma notícia, mas também com a forma e o contexto de sua transmissão. É um complicador a mais para o cidadão nesta era da complexidade e incerteza informativa. Mas pode ser também um fator de ampliação de nossa capacidade de avaliação de realidade, pois nos obriga desenvolver a leitura crítica – uma habilidade que se torna cada vez mais importante nestes tempos de avalancha de versões e opiniões.

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