Código Aberto

Os leitores não são idiotas

Postado por: Carlos Castilho | 6 comentários

Vocês já notaram que quando alguém é atingido por uma bala perdida, a polícia invariavelmente atribui o fato a um tiroteio entre facções rivais do narcotráfico? A explicação até pode ser verdadeira em casos pontuais, mas a frequência com que é usada gera algumas suspeitas de que passou a ser um clichê para explicar o que dá trabalho justificar, ou esconder a participação de PMs no incidente.

O exemplo é apenas um dos que aparecem com regularidade suspeita nos nossos noticiários envolvendo episódios de violência urbana, que hoje são a base dos telejornais e páginas web de empresas jornalísticas. O crime só não bate o escândalo da Operação Lava Jato, o pessimismo econômico e as fofocas anti-Dilma no noticiário dos jornais impressos, que se especializaram no jogo do poder deixando para as televisões o filão do sensacionalismo.

O recurso regular a explicações batidas e quase automatizadas põe em evidência o fato de que a questão central não é buscar uma solução para o problema, mas simplesmente dar uma satisfação ao leitor, ouvinte, telespectador ou internauta. O público passou a ser um conjunto de idiotas a serem anestesiados por explicações triviais, para não dizer simplesmente enganosas.

Explicar uma bala perdida na cabeça de um menino de dez anos dá trabalho para a polícia porque vai exigir investigar um entre 13 casos do mesmo tipo registrados em menos de quatro dias no Rio de Janeiro, por exemplo. É claro que a polícia não tem condições de checar os detalhes de cada um desses episódios, mas recorrer a uma explicação simplista reproduzida incondicionalmente pela imprensa é sacramentar um procedimento burocrático que não mexe uma vírgula no problema da insegurança urbana.

A imprensa também não tem condições de resolver o problema, mas sua função seria investigar os casos mais representativos e tirar deles as lições sobre como preveni-los. Um caso bem investigado pode fornecer dezenas de lições para a polícia e para os nossos gestores municipais, hoje mais preocupados em arrecadar votos do que em resolver o drama de quem foi alvo de uma bala perdida ao sair de uma pizzaria, por exemplo.

A contabilidade macabra da imprensa sobre as vítimas de balas perdidas em cidades como Rio e São Paulo não acrescenta nada ao dia a dia dos sobreviventes, salvo a sensação de que em algum momento a paciência vai acabar. Se e quando isto acontecer, a imprensa vai reproduzir declarações de governantes, políticos e policiais culpando os vândalos de sempre, os radicais do PT ou, com alguma imaginação, até eventuais seguidores do Estado Islâmico ou da Al Qaeda.

O que se nota é que a reserva de tolerância está acabando, mas ninguém nos círculos tomadores de decisões parece que estar levando a sério os sinais de irritação do público, especialmente nas grandes metrópoles como Rio, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador e Recife.

A imprensa deveria funcionar como alarma avançado da exaustão social, mas prefere ficar apostando neste ou naquele protagonista do jogo do poder. Nossos editores, salvo raras exceções, preferem não olhar para o que rola na periferia e tratam a maior parcela do público leitor, ouvinte, telespectador ou navegador virtual como pessoas desprovidas de capacidade crítica. Eu não sei até que ponto eles estão enganados, mas tudo indica que o que chamamos de audiência finge que concorda, mas no fundo tem seus próprios pontos de vista – que só se manifestam de forma emocional e pouco estruturada nas chamadas explosões populares. Quando o circo pega fogo e o vale-tudo substitui a razão.

Um público como o carioca e o paulista, cujo contato com a violência urbana deixou de ser esporádico para ser institucional, pode ser tratado como idiota durante algum tempo, mas não o tempo todo. Quando a paciência acaba, aí já é tarde demais e a espiral suicida da violência gerando violência passa a vigorar irremediavelmente.

A rotinização da violência pela imprensa tem um limite psicológico determinado pela para capacidade de tolerar o insuportável. Quando este limite é alcançado, quem primeiro recorrer ao autoritarismo assume o poder, porque oferece à sociedade a ordem e a paz que ela procura, não importa se ela for inspirada pela direita ou pela esquerda. A história está cheia desses exemplos e não é preciso ser nenhum teórico para saber disso.

O papel da imprensa numa conjuntura difícil como a que estamos vivendo é não tratar as pessoas como idiotas incapazes de pensar, mas oferecer a elas os elementos para que possam tomar decisões. Mas se a preocupação com a sobrevivência financeira determina as alianças políticas e as estratégias editoriais, a imprensa perdeu seu papel como fator de equilíbrio social e passa a ser um agente da desestabilização política. 

Jornalismo de soluções

Postado por: Carlos Castilho | 5 comentários

Propor soluções para problemas públicos num jornal, revista, rádio ou telejornal sempre foi uma iniciativa arriscada e, muitas vezes, frustrada pelo fato de ser associada a interesses do repórter ou do editor. O que os anglo-saxões chamam de advocacy através da imprensa só é uma ação tolerada quando envolve interesses das empresas jornalísticas.

A norma vigente, na quase totalidade das redações, é a de que os profissionais devem se limitar à descrição do problema, e em casos especiais à sua investigação e contextualização ampliada. A regra não escrita atribui às autoridades competentes a busca de soluções para a questão em agenda. 

A aplicação da regra de uma suposta isenção e objetividade no trato do problema não foi suficiente para levar as autoridades a adotar medidas saneadoras adequadas, como mostrou o artigo de Ulisses Capozzoli publicado neste Observatório, sobre a omissão dos governantes de São Paulo nas últimas décadas na questão do esgotamento das reservas de água na capital do estado.

A ausência de um jornalismo propositivo acabou gerando uma situação que pode levar a uma crise social de consequências imprevisíveis na maior cidade do país, onde mais de seis milhões de pessoas estão na iminência de ficar sem água. É mais um grave problema a complicar a vida dos paulistanos, que já estão à beira de um estresse coletivo por conta de deficiências crônicas no transporte público, na mobilidade urbana e na segurança pessoal.

Quando a situação chega a um ponto crítico, como em São Paulo, a população parte, por conta própria, para a busca de soluções alternativas, o que só é possível com um suprimento extra de informações . Se a imprensa não quer perder clientes, ela terá inevitavelmente que mudar a sua agenda para dar ênfase à busca de soluções. Noutras palavras, sair do distanciamento e envolver-se na resolução dos problemas em foco.

Esta opção foi feita em 2013 por um grupo de jornalistas norte-americanos que fundaram a Solutions Journalism Network, uma iniciativa cuja preocupação central é buscar soluções para problemas, principalmente os das grandes cidades. Em pouco menos de dois anos, a rede já deu assistência a cerca de 30 redações de jornais, revistas, rádios e televisões dos Estados Unidos. Qualificada inicialmente como um projeto romântico, o chamado SoJo (Solutions Journalism – jornalismo de soluções) passou a ser considerado uma proposta séria, embora ainda enfrente algumas resistências na grande imprensa norte-americana.

Nossa imprensa a todo instante publica matérias denunciando a degradação do sistema escolar, prédios caindo os pedaços, professores mal pagos e equipamentos destruídos. Mas raramente sai alguma reportagem mostrando como resolver esses problemas. Essa estratégia editorial induz as pessoas a cobrar sempre soluções do governo, que em geral reage com promessas futuras ou ações que não envolvem participação popular. A segurança pública é um exemplo típico das questões abordadas pela Solution Journalism Newtwork nos Estados Unidos e que também está no alto da agenda dos brasileiros.

Com o aumento da insegurança urbana nas grandes cidades brasileiras, todo mundo cobra proteção policial, ignorando o fato de que é impossível deslocar um policial militar para cada esquina, em caráter permanente. Mas, apesar disso, sempre que ocorrem roubos ou assaltos os telejornais rotineiramente entrevistam pessoas pedindo mais presença da polícia e comandantes da PM respondem que estão prendendo cada vez mais delinquentes e que as solicitações serão atendidas. É um grande faz de conta porque mais prisões não significam mais segurança e nem a proteção permanente é minimamente realista.

Outro problema insolúvel na lógica atual do jornalismo tipo “boca no trombone” é o da crise nas polícias militares. A frequência com que PMs são mencionados em casos de violação da lei que deveriam defender começa a assustar a população e a aumentar o descrédito na instituição. A imprensa se limita a registrar as arbitrariedades policiais e a esperar silenciosamente que as autoridades tomem atitudes. O número de expulsões de soldados/delinquentes aumentou, mas ninguém fala nas mudanças estruturais necessárias para que as causas dos desvios de conduta sejam combatidas. O problema é que medidas para resolver a crise de confiabilidade na polícia deveriam ser tomadas por parlamentares, governantes ou pelos comandantes policiais.

Acontece que os parlamentares se omitem para evitar problemas com uma corporação que tem o poder da força e da intimidação. Os governantes seguem o mesmo roteiro, cedendo às pressões do lobby policial, enquanto os comandantes movidos pelo corporativismo se refugiam em medidas burocráticas para evitar confrontações na caserna. Resultado: a população só tem a imprensa como recurso para buscar reduzir os desmandos e corrupção dentro das polícias estaduais e municipais. E os nossos jornais, revistas, telejornais teimam em não sair da zona de conforto da mera descrição dos escândalos e arbitrariedades.

Solutions Journalism Network acaba de publicar um manual de 48 páginas destinado a mostrar que o envolvimento na busca de solução para problemas sociais não é sinônimo de proselitismo e nem de defesa de interesses pessoais de repórteres e editores. Além disso, o documento fornece indicações sobre como os jornais, revistas, programas radiofônicos, telejornais e páginas noticiosas na Web podem envolver-se na solução de problemas das comunidades onde estão instalados. Vale a pena examinar os 10 pontos que identificam o jornalismo de soluções e como ele pode ser materializado numa reportagem ou notícia. 

A estratégia editorial do medo

Postado por: Carlos Castilho | 6 comentários

A estratégia da imprensa de usar a violência, catástrofes, dramas, crimes e acidentes para chamar a atenção do público já passou do limite da exaustão. É irritante a insistência dos telejornais das redes de TV em transformar o noticiário quotidiano num desfile de tragédias, atentados, assassinatos, tiroteios e desastres naturais. Se o noticiário da TV fosse um retrato fiel do mundo em que vivemos, todos nós acabaríamos paranoicos.

Se a intenção é sacudir as audiências para despertá-las do torpor da rotina diária, o efeito está sendo justo o oposto. As pessoas se acostumaram de tal forma com doses maciças de violência, arbítrio, terror e intimidação que já não se importam mais com poucas vítimas. A imprensa não admite, mas uma estratégia baseada na avalancha contínua de narrativas violentas obviamente acaba por assustar, intimidar e consequentemente tornar as pessoas mais dóceis e submissas

A insistência na divulgação de possíveis novos atos terroristas na Europa tende obviamente a assustar os europeus na sequência do impacto gerado pelo caso Charlie Hebdo, que foi tratado pela imprensa de todo mundo como uma espécie de “11 de Setembro” do Velho Mundo, numa alusão ao atentado às Torres Gêmeas, em Nova York. O clima de medo tende a imobilizar as pessoas e permite que as autoridades policiais tenham liberdade total para violar privacidades e deter suspeitos sem formalidades legais.

A estratégia da exploração da violência no noticiário, especialmente o da televisão, é indissociável da política do medo porque uma é causa e consequência da outra. Mas o uso intensivo do noticiário sobre violência no dia a dia dos telejornais acaba gerando uma visão distorcida da realidade entre os telespectadores e aguça o instinto de autodefesa, que por sua vez gera um fenômeno ainda mais brutal. Quando as pessoas internalizam a percepção de viver num ambiente urbano violento, elas automatizam a reação de atacar antes de ser atacado, ao menor indício de uma ameaça.

É isso que as redações dos telejornais precisam tomar em conta na hora de elaborar as pautas porque, além de correrem o risco de perder telespectadores saturados com a rotina de notícias sobre tragédias, elas podem estar alimentando a própria violência social ao estimular o clima de medo.

O recurso ao noticiário chamado “policial” está também ligado à relação cada vez mais promíscua entre repórteres e policiais. A página policial dos jornais e o noticiário da TV acabaram se transformando em estratégias de marketing da polícia, que facilita o acesso da imprensa aos locais onde ocorreram delitos, prepara a cena do crime e fornece porta-vozes que produzem declarações que seguem o media trainning, mas que não são contestadas pelo repórter. 

Claro que há notícias envolvendo delitos praticados por policiais – como abuso de autoridade, ocultação de vitimas, assassinato e tortura. Em quase todas elas é incluída a declaração de algum superior hierárquico informando que os acusados serão julgados e, se culpados, exemplarmente punidos. Mas a imprensa dificilmente faz um seguimento do caso para saber se foram considerados culpados e se foram sancionados com a severidade prometida.

O rosário de desgraças transmitidas diariamente não se limita ao crime e à corrupção. Se estende também ao clima – com o chamado terrorismo meteorológico envolvendo a seca em várias regiões do país, inundações, a monótona sequência de mortes no trânsito e nas estradas. O noticiário sobre as férias de verão se destaca mais pelos horrores dos afogamentos, congestionamentos, calor sufocante, arrastões etc. do que pela busca de divertimento e descanso.

A imprensa ficou tão obcecada com o lado espetacular das tragédias, crimes e desastres naturais que perdeu de vista a preocupação educativa, como fornecer informações para que as pessoas superem as dificuldades. O espetacular tende a gerar audiência e publicidade, já a educação é bem menos comercial e mais social. É outra consequência da abordagem da notícia como uma mercadoria comercializável em vez de um fator de produção de conhecimento, ou seja, capacidade de tomar decisões para enfrentar situações adversas.

Diante de tudo isso, e inevitável a pergunta: há alguma alternativa? Evidente que há, mas as redações rotinizaram de tal forma o recurso ao noticiário sobre delitos e tragédias naturais que simplesmente deixaram de buscar alternativas para esse tipo de abordagem jornalística. Pior do que isso, ironizam como jornalismo róseo as tentativas de sair da armadilha do crime, tragédias e corrupção. Mas há luz no fim do túnel, como mostra um grupo de jornalistas norte-americanos responsáveis pelo projeto Solutions Journalism Network (Rede de Jornalismo de Soluções).

Pode parecer algo meio piegas ou filantrópico, mas está longe disso, como mostram os depoimentos de empresas que aceitaram colocar em prática as propostas da Rede, explicitadas num manual que pode ser baixado gratuitamente na internet. São sugestões simples, mas que partem de um giro de 180 graus na perspectiva das redações. Em vez de olhar apenas por um lado dos problemas, os profissionais vinculados à Rede propõem que repórteres e editores passem a olhar também do lado contrário.

Num caso como seca, enchentes, terremotos, calor ou frio recordes, tornados etc., não basta noticiar o que está acontecendo. Muito mais importante é fornecer informações para que as pessoas possam enfrentar as adversidades. Os telejornais podem alegar que já fazem isso, só que o noticiário educativo acaba relegado à condição de anexo ou quadro na cobertura principal, toda ela focado na ênfase do trágico, dramático e violento. 

A responsabilidade da imprensa nas crises da era digital

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

Não há necessidade de ter um doutorado em comunicação para saber que uma manchete de jornal tem mais impacto na formação de opinião do que a leitura de uma reportagem, não importa se impressa, sonora ou digital. A média das pessoas não tem tempo e, muitas vezes, interesse em ler o texto integral de notícias sobre situações de crise como, por exemplo, a deflagrada pelo assassinato de jornalistas na revista francesa Charlie Hebdo. A manchete é a percepção que fica e que acaba servindo como base para que as pessoas formem a sua opinião.

Quando um site noticioso publica a manchete “Em vídeo, Amedy Coulibaly diz ser do Estado Islâmico. Autor de ataque a mercado diz ter ajudado os irmãos Kouachi”, mas no texto na noticia afirma: “Um homem que seria Amedy Coulibaly, morto pela polícia após manter reféns em um mercado judeu de Paris, aparece em um vídeo publicado neste domingo (11) na internet”, não é difícil perceber que a publicação induziu o leitor a acreditar que Amedy é o protagonista do vídeo e da confissão de que participou do atentado.

Casos como esse se repetem diariamente na imprensa, que invariavelmente justifica a distorção entre manchete e texto como uma decorrência da necessidade de condensar a informação num título de poucas palavras. Quem já trabalhou em jornal ou em telejornal sabe que sintetizar num título todo o conteúdo de uma notícia é uma tarefa muito complexa. Em geral erra-se mais do que se acerta. As justificativas técnicas são plausíveis, mas o problema não está aí, e sim nas consequências que a distorção provocará no público.

dinâmica industrial da maioria das redações contemporâneas leva os profissionais a priorizar as questões estéticas e as normas editoriais na elaboração de títulos e textos de abertura, deixando pouco tempo para a avaliação do contexto global de uma notícia. Sintetizar um fato, número ou evento em menos de 15 ou 20 palavras é um trabalho que exige muita reflexão e que não pode se transformar num ato mecânico porque os desdobramentos podem ser irreversíveis, principalmente agora, na era digital, quando a imprensa deixou de ser um coadjuvante na política mundial para ser um protagonista central.

As normas editoriais foram desenvolvidas pelos veículos da imprensa para otimizar o processo de produção industrial de notícias. Só que, na era digital, a expansão geométrica na difusão de notícias e a ampliação das audiências fazem com que as consequências sociais da circulação viral de notícias passem a ser mais relevantes do que a eficiência da máquina de produção de conteúdos informativos. Isso faz com que a atitude dos jornalistas diante da sociedade passe a ser mais relevante do que sua capacidade de cumprir as regras dos manuais de redação.

Entre os anos 1930 e 60, os governos eram os maiores responsáveis pelo desenvolvimento das percepções que alimentavam o processo de formação da opinião das pessoas. Na época de Hitler, e logo depois da Segunda Guerra Mundial, a grande imprensa tinha um papel secundário diante dos governos e exércitos. As rádios, por exemplo, seguiam incondicionalmente o roteiro da propaganda oficial. Já no período da Guerra Fria, os jornais e a televisão continuaram seguindo a estratégia governamental, mas passaram a usar o discurso da isenção e objetividade para tentar criar a percepção de independência.

Agora na era digital surge um fenômeno novo. Os governos perderam o controle absoluto sobre a circulação de notícias. Meios de comunicação, como as redes sociais, passaram a ocupar um lugar privilegiado na formação das percepções públicas. Isso altera a postura dos jornalistas diante da busca, edição e publicação de notícias. Se por um lado a ditadura das normas editoriais está sendo relativizada pela evolução constante e acelerada das novas tecnologias, por outro os profissionais deixaram de ser patrulhados apenas pelos patrões e são agora submetidos ao criticismo cada vez mais agudo dos usuários de redes sociais.

As percepções das audiências digitais são geradas de forma cumulativa por meio da recepção continuada de mensagens noticiosas. Hoje, uma percepção não segue mais um processo linear e causal como o que ocorre na leitura de uma reportagem ou análise num jornal ou documentário de TV. O contato das pessoas com a realidade representada pela imprensa ocorre de forma não organizada e é construída, cada vez mais, a partir do estabelecimento de correlações entre os dados noticiados.

O caso Charlie Hebdo é um exemplo típico de como o conjunto de manchetes acaba gerando uma percepção diferente daquela que sugerida por textos sequenciais e causais. As manchetes induziram as pessoas a identificar o islamismo com radicalismo e terrorismo, embora nos textos esta associação fosse até condenada. O acúmulo de manchetes distorcidas ou descontextualizadas acaba gerando uma percepção que torna o islamismo um elemento indesejável em sociedades como a europeia, mais ou menos como os nazistas fizeram com a população alemã na relação com os judeus, antes e durante a Segunda Guerra Mundial.

Há uma enorme responsabilidade da imprensa e dos jornalistas em relação ao desenvolvimento de percepções públicas sobre o islamismo, que hoje reúne cerca de 1,6 bilhão de adeptos em 49 países, quase 1/3 da população mundial, e 62% deles morando na Ásia. Os jornalistas ainda não se deram conta de que o chamado fundamentalismo islâmico é protagonizado por uma minoria ínfima de seguidores do islamismo no mundo árabe. A obsessão com o combate ao terrorismo vai acabar associando todos os muçulmanos do planeta a uma percepção que não tem nada a ver com a realidade. 

A espiral dos extremismos ganha mais velocidade

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

O ataque contra a revista francesa Charlie Hebdo acelerou a rotação da espiral de violência na Europa onde está cada dia mais difícil separar o que é causa e o que é consequência em matéria de conflitos sociais, étnicos, religiosos e políticos. 

A sucessão de irracionalidades acabou entrelaçando o radicalismo da extrema-direita islamofóbica e a militância bélica de grupos fundamentalistas surgidos dentro da comunidade de imigrantes árabes no Velho Mundo. Estamos no limiar de uma situação paradoxal onde um extremismo alimenta o outro, com o risco de tudo ficar fora de controle.

O encadeamento de atos de radicalismo político está gerando uma armadilha onde a população acabará refém da polarização entre extremistas da direita e os de grupos marginalizados, sejam eles de origem árabe, ou dissidentes ucranianos, ilegais africanos na Europa ou militantes afegãos.

Este fenômeno já está contaminando a Europa inteira, até mesmo países considerados idílicos em matéria de convivência social, como Suécia, Noruega e Dinamarca. A cada avanço político da extrema-direita neonazista e anti-imigrantes, corresponde mais um ato de irracionalidade por parte de segmentos sociais marginalizados que a cada dia que passa mostram uma rejeição mais forte ao modus vivendi do Velho Mundo.

É uma situação complexa diante da qual os julgamentos morais são irrelevantes porque tendem a justificar apenas os valores e crenças de um lado do conflito. A Europa paga hoje o mesmo preço que os Estados Unidos, pelo fato de ter se transformado numa ilha de prosperidade cercada por miséria. Os europeus não conseguirão mais impedir o fluxo de refugiados árabes e famintos africanos nem com a construção de muros de duvidosa eficácia, como o que tenta impedir a emigração ilegal de mexicanos para os Estados Unidos.

Também é pouco eficaz tentar submeter refugiados e imigrantes às regras jurídicas e institucionais da Europa porque árabes e africanos não as reconhecem como solução para seus problemas de discriminação e fome. Enquanto os governos continuarem justificando um endurecimento da repressão ao terrorismo como forma de manter o que chamam de paz social, mais eles se tornarão prisioneiros da armadilha montada pela extrema-direita e pelo inconformismo dos segmentos sociais marginalizados.

O problema é que os políticos se movem por uma lógica eleitoral e por uma irracionalidade estratégica que acaba funcionando como jogar gasolina para apagar um incêndio. Diante da radicalização social, a continuidade no poder passa a ficar cada vez mais dependente de votos da direita, civilizada ou não. No lado oposto, os aspirantes ao poder numa eleição são empurrados para a busca de apoio entre fundamentalistas, civilizados ou não.

Sobram dois segmentos sociais com capacidade de romper o nó górdio da espiral da violência: o setor empresarial e a opinião pública. Os empresários são diretamente afetados pela radicalização porque ela ameaça os seus negócios, mas o segmento é muito lento em reagir a crises sociais, e somente atua quando muitas vezes já é tarde demais. Sobra a opinião publica, e aqui aparece o papel da imprensa como fator de mudança.

Mas também aqui é clara a resistência das empresas jornalísticas em tomar um papel proativo para alertar a população sobre a necessidade de romper o nó da violência social, sob pena de todos acabarem perdendo a sua liberdade de pensar e agir.

A imprensa é no momento o setor que tem melhores condições de propor à sociedade uma mudança na forma de lidar com a espiral da violência, a partir de uma tentativa de compreensão das origens da radicalização direitista e da tendência ao uso do terrorismo por grupos marginalizados. A compreensão não significa cumplicidade e nem impunidade aos extremistas. Tentar compreender significa fornecer elementos para a reflexão coletiva e, com isso, impedir que o passionalismo, a xenofobia e o sectarismo acabem prevalecendo.

imprensa poderia assumir uma posição ponderada, em vez de aproveitar-se do impacto emocional causado pelo assassinato de jornalistas na revista Charlie Hebdo para endossar o clima de terror social promovido pela polícia e organismos de repressão. Uma atitude como esta pode ajudar às pessoas a assumir posições racionais a partir da publicação de abordagens jornalísticas minimamente balanceadas. A imprensa não perde nada, pelo contrário, só ganha porque ela passa a ser uma referência de equilíbrio numa situação critica, em vez de funcionar apenas como uma irresponsável banda de música para aprofundar o conservadorismo de governos, de políticos e aparelhos de segurança. 

A notícia local na lógica da descentralização do jornalismo

Postado por: Carlos Castilho | 2 comentários

A era da concentração da imprensa em um pequeno número de megaempresas está chegando ao fim, apesar da resistência e aparente invulnerabilidade dos grandes conglomerados midiáticos contemporâneos. Pode parecer um desejo ou um wishful thinking, como dizem os anglo-saxões, mas não é porque se trata de um novo processo econômico diante do qual o marketing e a propaganda podem retardar – mas não anular – o desdobramento dos fatos.

O chamado quarto poder se tornou influente politicamente e forte economicamente porque a tecnologia mecanizada indispensável à impressão de jornais, livros, revistas e à instalação de emissoras de rádio e televisão exigia investimentos milionários e a centralização industrial para viabilizar uma produção em massa para baixar o custo marginal e garantir lucros crescentes. Num contexto como este era previsível a formação de grandes conglomerados, centralizados, hierarquizados e burocratizados. 

Organizações desse tipo inevitavelmente tinham que produzir informações generalistas porque um mesmo veículo precisava atender a públicos muito diferenciados, cultural e geograficamente. Em paralelo, a publicidade veiculada pela imprensa precisava criar mercados consumidores globalizados para gerar clientelas fiéis.

Com a chegada da era da digitalização, a espinha dorsal do modelo concentrador foi golpeada porque surgiram tecnologias baratas de produção, edição e difusão de conteúdos jornalísticos, o que viabilizou o aparecimento de milhares de microempresas e projetos individuais de produção de notícias e reportagens. O baixo custo facilitou o surgimento de iniciativas voltadas para públicos com interesses e necessidades específicas, ou seja, o caminho inverso ao da globalização informativa. O campo onde a segmentação noticiosa mais cresceu foi o do interesse por nichos informativos, criados em torno a espaços sociais físicos e virtuais, porque as pessoas finalmente conseguiram superar as limitações tecnológicas que as impediam de publicar o que sabiam.

Visto por esta ótica, o jornalismo praticado em comunidades está longe de ser um modismo ou uma excentricidade de recém-formados ou profissionais desempregados. Ele responde à lógica de um novo modelo de produção de notícias já não mais determinado apenas pelo mercado consumidor, mas também pela produção de conhecimento necessário para viabilizar a sobrevivência de comunidades sociais.

A produção de notícias locais é uma área pouco valorizada pelo jornalismo desde que o processo concentrador ganhou força na imprensa, a partir de meados do século 19. São raros os casos de jornais comunitários que conseguiram relevância nacional no Brasil e até mesmo nos países ricos. O poder político e econômico da grande imprensa criou a falsa ideia de que para ser importante é preciso ser grande e poderoso. Por isso a maioria dos jornalistas ignora o que é produzir notícias para a população de uma pequena cidade.

O chamado jornalismo cidadão, praticado na maioria das vezes por amadores, começou a mostrar que existem temas capazes de aproximar profissionais e moradores criando uma simbiose informativa onde as fronteiras entre produtores e consumidores de informações vão se tornando cada vez mais tênues.

A notícia local ganha agora um novo significado porque ela passa a ser essencial para o desenvolvimento de comunidades sociais numa era de grandes transformações, na qual projetos econômicos podem mudar rapidamente diante do frenesi das inovações tecnológicas. E se as pessoas não dispuserem de notícias que as permitam tomar decisões rápidas e coletivas, o seu bem-estar futuro poderá estar em risco. Sem noticiário jornalístico local fica muito mais difícil desenvolver o que os economistas chamam de capital social, ou seja, o conjunto dos conhecimentos acumulados por uma comunidade e que se reflete na capacidade coletiva de encontrar soluções sociais e econômicas em beneficio de todos. Não é por acaso que as regiões mais desenvolvidas são também as que apresentam maiores índices de capital social.

Na era digital, o jornalismo local tende a ocupar muito mais espaço e relevância informativa dentro do conjunto da imprensa, porque os grandes conglomerados, além de sofrerem os efeitos da crise de transição do modelo analógico para o digital, já se deram conta de sua incapacidade material de atender à crescente diversificação das necessidades informativas da população, movida pelo crescimento da internet.

A lógica da notícia local torna-se cada vez mais nítida para quem acompanha a evolução do jornalismo na era digital, mas isso não quer dizer que o sucesso está garantido para quem apostar nesta alternativa. O cemitério de experiências de jornalismo local em países como os Estados Unidos mostra que a taxa de mortalidade prematura no ramo é altíssima porque se trata de um espaço inexplorado onde, no início, os erros são mais frequentes do que os acertos, como acontece em qualquer tipo de aprendizado.

O sintoma mais evidente de que não se trata de um modismo é que, apesar dos inúmeros fracassos, o surgimento de novas experiências é cada vez mais intenso. Reflexo disto é o crescimento da literatura sobre jornalismo praticado em comunidades. A livraria virtual Amazon tem atualmente em oferta 40 livros em inglês publicados nos últimos quatro anos nos Estados Unidos, Europa e Austrália sobre noticiário local. Outros cinco devem ser lançados nos próximos três meses. 

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