Código Aberto

Caminhoneiros: um sinal de alarme ignorado pela imprensa

Postado por: Carlos Castilho | 10 comentários

O governo de Salvador Allende começou a cair, em 1973, quando os caminhoneiros chilenos iniciaram uma greve reivindicatória que acabou se transformando num movimento político que colocou a classe média do país contra o primeiro presidente socialista eleito nas urnas.

Quem cobriu aquele protesto, ocorrido há 41 anos, inevitavelmente associa a greve chilena com a brasileira atual e sente um frio na espinha porque os desdobramentos apontam na direção de uma crise institucional de consequências imprevisíveis. Allende sabia que seu destino já estava traçado muito antes de um golpe militar do qual a maioria dos chilenos se arrepende até hoje. 

A greve dos caminhoneiros paralisou o abastecimento da população e o funcionamento da indústria, estrangulando a jugular da economia do país. A imprensa chilena da época, radicalizada política e ideologicamente, cobriu apenas o factual do protesto, deixando de lado as causas e principalmente as consequências do movimento. A desconstrução do governo Allende deu origem a um golpe militar que se transformou num capítulo trágico na história do país.

Tanto em 1973, no Chile, como agora no Brasil o protesto dos caminhoneiros não tem uma estrutura sindical e nem um comando central visíveis. Ele assume a forma de uma guerrilha rodoviária onde há apenas indícios de um comando centralizado porque há coordenação dos bloqueios de estradas. Se tudo ficasse apenas nas mãos dos motoristas, o movimento não mostraria tanta eficiência.

Os principais jornais brasileiros até agora não foram mais fundo nas origens e estrutura do protesto, o que revela uma decisão editorial e política que tem inevitáveis desdobramentos. O principal deles é ampliação do clima de incerteza na população e nos segmentos empresariais. Uma incerteza que vem crescendo desde as eleições do ano passado e que pode chegar a um ponto crítico se a greve dos caminhoneiros provocar a falta de alimentos, combustíveis e produtos essenciais (como remédios, por exemplo) nas principais capitais brasileiras.

Isso aconteceu no Chile em 1973 e levou, na época, a população do país a um estado de perplexidade quase catatônica que neutralizou preventivamente qualquer tipo de resistência a uma ruptura institucional. Este tipo de alerta não está sendo veiculado pela imprensa, o que deixa o público sem uma noção exata dos riscos a que ele poderá estar sujeito. Um dos papéis-chave da imprensa em situações de pré-crise é fornecer à população elementos para que ela avalie como lidar com o um possível desabastecimento alimentar, com a paralisação dos transportes públicos e privados, e o aumento da insegurança pessoal.

O que estamos assistindo agora aqui no Brasil é um paulatino agravamento das tensões que geram irritação progressiva e perda de controle emocional e político. Protestos podem rapidamente degenerar em pancadaria, depredações e vítimas pessoais por conta do clima de polarização e radicalização de posicionamentos político-ideológicos.

Ao não tratar estes temas como uma preocupação pública, a imprensa está brincando com fogo. A omissão informativa pode ser coerente com a oposição ao governo Dilma Rousseff, mas qualquer analista político ou sociológico sabe que o risco de descontrole cresce na medida em que a governabilidade é transformada em arma na luta pelo poder.

O escândalo HSBC coloca em xeque a liberdade de expressão

Postado por: Carlos Castilho | 15 comentários

No Brasil, o megaescândalo de lavagem de dinheiro na sucursal suíça do banco inglês HSBC passou em brancas nuvens apesar haver suspeitas sobre oito mil correntistas brasileiros. Mas na Europa o tema está provocando conflitos entre profissionais nas redações e a direção de jornais importantes como Le Monde, na França, e Daily Telegraph, na Inglaterra.

No Monde, que foi um dos jornais líderes na investigação do escândalo, os donos criticaram duramente repórteres e editores sob a alegação de que o noticiário prejudicou interesses financeiros da empresa editora do matutino de tendência liberal. Pierre Bergé, um dos dois principais controladores da empresa editora do Le Mondeacusou a redação do jornal de “populismo barato” e incentivo aos “instintos mais baixos” das pessoas.

Bergé é um dos três milionários franceses que em 2010 compraram o Le Monde para evitar que o jornal fechasse. Os demais sócios – Mathieu Pigasse, presidente do banco de investimentos Lazzard e Xavier Nigel, magnata das telecomunicações – apoiaram as declarações do fundador do grupo Yves Saint Laurent. Pigasse chegou a classificar a cobertura do escândalo HSBC como um “macartismo fiscal”.

Mas os três milionários foram ainda mais longe na verbalização de suas queixas contra o jornalismo praticado pela redação do Le Monde ao afirmar candidamente que “não foi para isso que decidiram assumir o controle do jornal”. Pouco depois que Bergé, Pigasse e Nigel compraram o Le Monde, eles assinaram um acordo pelo qual garantiam total independência editorial para os jornalistas, mas agora estão arrependidos do trato feito.

No britânico Daily Telegraph, o seu principal comentarista político, Peter Oborne, renunciou ao cargo e pediu demissão do jornal acusando os seus proprietários de “fraudar os leitores” ao deliberadamente omitir informações relacionadas às denúncias de que o HSBC ajudou cerca de 100 mil clientes a lavar 180 bilhões de euros (pouco mais de meio trilhão de reais) em sua agência de Genebra, na Suíça.

Oborne vinha criticando a direção do jornal desde 2013, quando o HSBC suspendeu a publicidade no Telegraph depois de ser apontado pelo jornal como cúmplice de nebulosas transações financeiras no paraíso fiscal da ilha Jersey, controlada pelo Reino Unido, no canal da Mancha. O jornalista informou que, na época , um dos executivos do Telegraph lhe disse que o banco “era um cliente importante demais para ser ignorado”.

No Brasil, os jornais GloboFolha Estadão deram uma cobertura microscópica ao escândalo HSBC, como já comentou neste Observatório o colega Luciano Martins Costa. A situação mais embaraçosa é a da Folha de S.Paulo, que participou da investigação sobre o HSBC coordenada pelo Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo, mas preferiu a omissão quando o problema esbarrou nos interesses comerciais da imprensa.

O caso HSBC tornou-se exemplar não apenas pelo fato de resultar de um esforço coletivo de um grupo de jornais, numa rara atitude de colaboração mútua, mas principalmente porque colocou na ordem do dia a independência das redações diante dos interesses comerciais dos donos de empresas jornalísticas. Patrões e empregados foram colocados em campos opostos num tema crítico como a lavagem de dinheiro e as suas óbvias ligações com a corrupção.

A retórica da independência editorial e da liberdade de expressão nas redações ficaram seriamente arranhadas com a reação pública ou dissimulada de muitos donos de jornais que não tiveram dúvidas em colocar o dinheiro acima da informação na hora de enfrentar as consequências de divulgação de um escândalo envolvendo corrupção em escala planetária.

Os mesmos jornais que mergulharam fundo na investigação das denúncias de caixa 2 na Petrobras, agora “olham para o outro lado” quando se trata de um banco que gasta por ano meio bilhão de dólares em publicidade em todo o mundo.

A reação dos donos colocou os profissionais nas redações numa situação difícil, conforme Roy Greenslade, principal analista da mídia no jornal inglês The Guardian. Para ele, o caso HSBC colocou dramaticamente em evidência o aforismo de que a liberdade de expressão na imprensa só funciona para os seus donos. Com exceção do Guardian, que é controlado por uma fundação, nos demais grandes jornais do mundo o caso HSBC está sendo tratado com panos quentes. Peter Oborne é, por enquanto, o único profissional de renome mundial a hipotecar o seu emprego na defesa da liberdade de expressão nas redações. 

Os leitores e a corrupção na Petrobras

Postado por: Carlos Castilho | 10 comentários

Mais de sete mil leitores do Código recomendaram a leitura do texto sobre a corrupção na Petrobras e uma parcela igualmente importante de outras pessoas deve ter assumido uma posição crítica conforme se pode inferir dos comentários publicados. O fato evidencia a aguda polarização que ganha corpo na opinião pública brasileira e torna inadiável uma reflexão sobre o fenômeno.

A grande questão é se caminhamos para um entrincheiramento de opostos em torno de duas posições ou se enfrentamos o desafio de assumir que somos diferentes, que ninguém conhece toda a verdade e que para nos aproximarmos dela a melhor alternativa é diversificar a troca de dados e informações sobre o problema.

As opiniões expressadas pelos leitores deste blog refletem esta polarização, fato que não tem nada de extraordinário ou condenável. É natural e necessário que haja divergência porque nenhum de nós tem capacidade de captar toda a realidade que nos cerca. Mas a divergência pode seguir dois caminhos opostos: a aglutinação de pessoas com pensamentos semelhantes ou a interação entre opostos.

A primeira é uma tendência imediata fruto da facilidade com que se criam zonas de conforto entre opiniões similares. É uma tendência social gerada por uma educação familiar que prioriza afinidades. Já a segunda é mais complicada porque exige uma série de virtudes que muitas vezes vão contra os valores predominantes em nossa cultura. Dialogar com pessoas de pensamento contrário ao nosso requer tolerância, interesse e paciência, entre outras virtudes.

A tensão entre as duas tendências aumenta quando as questões em foco são complexas porque os argumentos em conflito não conseguem explicar de forma clara e imediata a natureza do problema. A incapacidade de impor pontos de vista de forma irrefutável e os naturais ruídos de comunicação geram impaciência e frustração, diante das quais ganha força a tendência à polarização e a formação de grupos beligerantes.

O nosso dilema atual diante da crise comportamental, econômica e política gerada pelos escândalos de propina e lavagem de dinheiro na Petrobras é evitar a opção fácil pela formação de facções e enfrentar o difícil desafio de buscar soluções reais para a corrupção no país por meio da troca de dados entre pessoas e instituições com percepções diferentes do contexto no qual está inserida a empresa.

Buscar a diversidade de opiniões como parte do esforço para achar uma solução não é uma atitude idílica e nem utópica. Ela é determinada pela própria realidade e seria aceita com muito mais facilidade se não fosse a luta pelo poder. É aí que o problema complica e onde o cidadão acaba virando peça de um jogo sobre o qual ele não tem controle e nem participação. A polarização só favorece quem tem interesses em jogo na política partidária. O eleitor não ganha nada com ela. Pior ainda, só perde.

Os leitores do Código estão vivendo este dilema. O blog é um espaço para conversas e troca de dados, percepções e opiniões. Eu sou apenas um motivador e moderador. Assumir uma postura facciosa na polêmica em torno do caso Petrobras é ir contra a complexidade dos fatos. Uma complexidade que vai muito além dos rótulos “culpado” ou “inocente”, porque envolve fundamentalmente perguntas como por que isto aconteceu, como foi possível, que fatores contribuíram para a generalização da prática da propina, qual a relação do escândalo com o sistema eleitoral brasileiro. São todas perguntas com respostas complexas e que ninguém as tem de forma completa.

Este texto dirige-se tanto aos que elogiaram a postagem anterior quanto aos que a criticaram. Não importa a posição que tenham assumido. Somos diferentes e o mundo em que vivemos não é menos diversificado. A unanimidade é desaconselhável porque conduz a visões distorcidas que alimentam a xenofobia e o sectarismo, não importa se contra ou a favor.

Nós, leitores, e a Petrobras

Postado por: Carlos Castilho | 20 comentários

O público brasileiro está sendo submetido a um verdadeiro massacre informativo envolvendo a corrupção na Petrobras. A intensidade do noticiário já deixou de ser uma opção questão meramente jornalística para se transformar num caso típico de campanha movida pelos principais órgãos de imprensa do país.

Os fatos passaram a ser menos importantes do que as versões e o que era inicialmente a cobertura de um escândalo de corrupção desdobrou-se numa trama de problemas que no seu conjunto procura transmitir aos consumidores de notícias a percepção de que o país caminha para o caos.

O caso das propinas na Petrobras acabou vinculado pela imprensa à crise energética quando o uso de combustíveis para amenizar os efeitos da redução da capacidade de geração hidrelétrica do país provocou uma disparada nos preços ao consumidor. O link entre Petrobras e a crise hídrica permitiu criar a sensação de instabilidade e insegurança econômica entre as pessoas que já não sabem mais quando e como começará o racionamento de energia e se a inflação vai disparar ou não.

A análise da estratégia noticiosa adotada pela imprensa aponta claramente na direção de um acúmulo, intencional ou não, de problemas. Os casos Petrobras e crise hídrica serviram de pretexto para que instituições internacionais de credibilidade duvidosa, como a agência Moody’s, rebaixassem o Brasil nos mercados financeiros internacionais, o que provocou um efeito cascata da desvalorização do real e o fantasma da fuga de investidores externos.

Esse conjunto entrelaçado de notícias sem a devida contextualização tende a aumentar a orfandade do público, e há duas alternativas possíveis: uma é o cansaço e exaustão do público em relação a repetição exaustiva no noticiário de depoimentos, documentos, acusações, explicações canhestras envolvendo tanto o caso da Petrobras como o da crise hídrica. O desdobramento seria a perda de interesse.

A outra alternativa é o fim da paciência dos leitores, que passariam a exigir medidas drásticas – o que criaria o ambiente adequado para mudanças institucionais tanto na estatal petrolífera como no próprio governo. A imprensa, obviamente, nega esta intenção mas sua estratégia na produção e veiculação de notícias envolvendo a crescente associação entre a corrupção na Petrobras e a crise hídrica torna quase inevitável uma radicalização política que pode vir tanto pelas ruas como por maquinações legislativas ou judiciais.

O que nós, leitores, ouvintes, telespectadores ou internautas estamos perdendo é a noção de onde estão os fatos reais. O caso da Operação Lava Jato tende a transmitir para a população a ideia de que a Petrobras está quebrada por conta das estimativas bilionárias da corrupção interna, mas o respeitado comentarias da Folha de S.Paulo Janio de Freitas aponta, com dados, justamente o contrário (ver “Reino do ‘nonsense’”). Janio tem um histórico de integridade profissional intocável e não arriscaria seu prestígio numa informação sem fundamento.

O mesmo acontece com a crise de falta d’água, onde a avalancha de dados a favor e contra o racionamento se avolumam com um claro predomínio das percepções pessimistas. A gente só descobre que há um outro lado na questão hídrica quando vai para as redes sociais, blogs e páginas web alternativas. Nenhum lado chega a ser 100% convincente porque a crise hídrica é tão complexa quanto as investigações do escândalo de Petrobras.

A confusão informativa cresce na proporção direta da intensificação do bombardeio noticioso que funciona como uma espécie de preparação do estado de espírito do público em relação a medidas futuras mais radicais. Referências à privatização da Petrobras e ao impeachment da presidente Dilma Rousseff já circulam nas redações e lobbies político-empresariais.

Não há dúvida de que sempre existiu corrupção na Petrobras porque o superfaturamento e as propinas são instrumentos institucionais na política brasileira há décadas e sem eles a maioria esmagadora dos políticos com mandato não teria sido eleita. Também não há dúvida de que a falta de chuvas agravou o problema energético do país. São questões recorrentes que foram transformadas pelo noticiário da imprensa em crises terminais da politica energética vigente no país.

A solução para ambas teria que surgir num ambiente tranquilo de reflexão, debate e experimentação, envolvendo uma participação crescente da sociedade brasileira que, no fundo, é a principal e maior interessada. Mas o que a imprensa e os políticos estão fazendo é criar um clima de agitação, instabilidade, insegurança e imprevisibilidade para dissimular a luta pelo poder. Nós, leitores, somos as principais vítimas desse processo, porque não sabemos o que está acontecendo. Os porta-vozes do governo estão desacreditados por sua insistência numa visão rósea da realidade nacional, enquanto a oposição e os interesses corporativos adotam o discurso pessimista.

A conjuntura atual está claramente vinculada ao início da batalha eleitoral para a sucessão de Dilma. Depois que o escândalo do mensalão cortou um dos mananciais de financiamento ilegal de campanhas eleitorais do PT e aliados, a Petrobras passou a ser a grande torneira para irrigar a o projeto da volta de Lula ao poder. A Operação Lava Jato está fechando também esta fonte de recursos para o caixa 2 eleitoral, com o claro objetivo de asfixiar financeiramente o Partido dos Trabalhadores. É uma estratégia editorial vinculada a uma estratégia eleitoral, só que a imprensa procura induzir o público a achar que o objetivo é exclusivamente moralizador.

Estamos hipotecando nosso futuro ao Arquivo Internet

Postado por: Carlos Castilho | 4 comentários

Todos nós somos atraídos pelos temas de agenda atual porque eles alteram a nossa maneira de ver as coisas. Existem, no entanto, assuntos que só vão afetar o nosso quotidiano daqui a alguns anos, mas estão sendo decididos hoje sem que a gente se dê conta. Quando percebermos já será tarde demais e, se for necessário corrigir algum erro, o custo será muito maior, na melhor das hipóteses.

A internet está criando o maior acervo de dados e informações já reunido na história da humanidade. Não se trata de um arquivo inerte, uma espécie de museu da informação, mas algo vivo que se altera sempre que alguém buscar algum dado. Não é só um lugar onde se guardam números, histórias e documentos. Sua principal e fundamental utilidade é alimentar o processo de criação de novos conhecimentos, a base sobre a qual se apoia a produção de inovações tecnológicas e sociais, o motor da economia digital.

Bem, tudo isto para conversar sobre o Internet Archive (Arquivo Internet) um projeto iniciado em 1996 por um visionário chamado Brewster Kahle (desculpem, mas o perfil dele está em inglês porque é o mais completo) e que está hoje no centro de uma polêmica sobre sua sobrevivência como iniciativa independente, descentralizada e diversificada. 

Provavelmente muitos leitores estarão se perguntando: o que é que eu tenho a ver com isso? A pergunta faz sentido porque todos nós temos que tomar decisões sobre o que vai acontecer amanhã, como lidar com o aumento do preço da gasolina ou o que fazer com a nossa poupança. Mas o arquivamento das nossas mensagens de correio eletrônico, transações bancárias ou de nossas preferências em matéria de buscas na web são parte de um megaprocessamento de dados que sinaliza tendências que influirão nas nossas decisões sobre consumo e comportamento.

O futuro do Arquivo Internet está sendo decidido hoje porque ele cresceu muito e vai crescer ainda mais com o fenômeno dos Grandes Dados e a Internet das Coisas. A estrutura que viabilizou, até agora, a existência do projeto do engenheiro Kahle enfrenta uma crise de crescimento que pode causar o seu desaparecimento como projeto isento de pressões econômicas e politicas.

O Arquivo Internet já não consegue mais quantificar o volume de dados que são acumulados por dia em toda a rede. Um número estimativo minimamente confiável é de 3,28 exabytes a cada 24 horas, o que equivale a 3,28 bilhões de gigabytes por dia ou quase cinco pilhas de CD-ROMs da altura da distância entre a Terra e a Lua.

É uma quantidade inimaginável de dados e informações que transforma a primeira biblioteca planetária, a Biblioteca de Alexandria, num grão de areia comparado ao que temos hoje em acervo documental. O Arquivo Internet foi criado por Kahle justamente para ser a versão 2.0 da biblioteca incendiada no Egito numa data imprecisa, possivelmente entre os anos 48 antes de Cristo e 640 depois de Cristo.

O crescimento vertiginoso do acervo do Arquivo Internet superou a capacidade das 32 universidades e instituições vinculadas ao projeto de administrar e gerenciar o armazenamento de dados. A solução que começou a ganhar adeptos foi a terceirização do processamento para organização Archive.It , vinculada ao Arquivo Internet.

O problema é que se a tendência se consolidar, o acervo planetário de informações ficará sob um controle centralizado – o que vai contra o princípio adotado por Brewster Kahle, para quem a descentralização e diversificação do armazenamento e acesso eram a condição indispensável para que o versão 2.0 da Biblioteca de Alexandria cumprisse a sua função de viabilizar a produção de conhecimento em todo o planeta.

A existência de um acervo mundial de dados e informações digitalizadas é condição obrigatória para que os pesquisadores de todo o mundo tenham acesso a dados que permitam recombinar conhecimentos para criar novos produtos, serviços, processos e teorias. O processo de inovação se expande em ritmo inédito na história da humanidade justamente porque dispõe de um manancial também inédito de dados para alimentar a criatividade humana, a principal matéria-prima da economia digital.

A tarefa de centralizar ou descentralizar o armazenamento e processamento dos dados e informações produzidos no planeta é uma decisão extremamente complexa, e suas consequências são tão relevantes que é extremamente arriscado deixá-la nas mãos de uma única organização, por mais idônea que seja. O sistema de buscas Google já controla boa parte desse acervo e o comercializa em benefício próprio.

Todos nós temos dezenas de problemas imediatos a resolver e só um número mínimo de leitores de jornal, telespectadores e internautas consegue achar alguns minutos para refletir sobre o uso futuro dos dados que nós estamos diariamente entregando ao Arquivo Internet. Trata-se do maior capital já transferido gratuitamente a uma empresa ou organização, em toda a história de humanidade. Um capital que alimentará as decisões planetárias nos próximos decênios e que definirá o nosso futuro, provavelmente sem que tenhamos a mínima participação.

Os leitores não são idiotas

Postado por: Carlos Castilho | 6 comentários

Vocês já notaram que quando alguém é atingido por uma bala perdida, a polícia invariavelmente atribui o fato a um tiroteio entre facções rivais do narcotráfico? A explicação até pode ser verdadeira em casos pontuais, mas a frequência com que é usada gera algumas suspeitas de que passou a ser um clichê para explicar o que dá trabalho justificar, ou esconder a participação de PMs no incidente.

O exemplo é apenas um dos que aparecem com regularidade suspeita nos nossos noticiários envolvendo episódios de violência urbana, que hoje são a base dos telejornais e páginas web de empresas jornalísticas. O crime só não bate o escândalo da Operação Lava Jato, o pessimismo econômico e as fofocas anti-Dilma no noticiário dos jornais impressos, que se especializaram no jogo do poder deixando para as televisões o filão do sensacionalismo.

O recurso regular a explicações batidas e quase automatizadas põe em evidência o fato de que a questão central não é buscar uma solução para o problema, mas simplesmente dar uma satisfação ao leitor, ouvinte, telespectador ou internauta. O público passou a ser um conjunto de idiotas a serem anestesiados por explicações triviais, para não dizer simplesmente enganosas.

Explicar uma bala perdida na cabeça de um menino de dez anos dá trabalho para a polícia porque vai exigir investigar um entre 13 casos do mesmo tipo registrados em menos de quatro dias no Rio de Janeiro, por exemplo. É claro que a polícia não tem condições de checar os detalhes de cada um desses episódios, mas recorrer a uma explicação simplista reproduzida incondicionalmente pela imprensa é sacramentar um procedimento burocrático que não mexe uma vírgula no problema da insegurança urbana.

A imprensa também não tem condições de resolver o problema, mas sua função seria investigar os casos mais representativos e tirar deles as lições sobre como preveni-los. Um caso bem investigado pode fornecer dezenas de lições para a polícia e para os nossos gestores municipais, hoje mais preocupados em arrecadar votos do que em resolver o drama de quem foi alvo de uma bala perdida ao sair de uma pizzaria, por exemplo.

A contabilidade macabra da imprensa sobre as vítimas de balas perdidas em cidades como Rio e São Paulo não acrescenta nada ao dia a dia dos sobreviventes, salvo a sensação de que em algum momento a paciência vai acabar. Se e quando isto acontecer, a imprensa vai reproduzir declarações de governantes, políticos e policiais culpando os vândalos de sempre, os radicais do PT ou, com alguma imaginação, até eventuais seguidores do Estado Islâmico ou da Al Qaeda.

O que se nota é que a reserva de tolerância está acabando, mas ninguém nos círculos tomadores de decisões parece que estar levando a sério os sinais de irritação do público, especialmente nas grandes metrópoles como Rio, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador e Recife.

A imprensa deveria funcionar como alarma avançado da exaustão social, mas prefere ficar apostando neste ou naquele protagonista do jogo do poder. Nossos editores, salvo raras exceções, preferem não olhar para o que rola na periferia e tratam a maior parcela do público leitor, ouvinte, telespectador ou navegador virtual como pessoas desprovidas de capacidade crítica. Eu não sei até que ponto eles estão enganados, mas tudo indica que o que chamamos de audiência finge que concorda, mas no fundo tem seus próprios pontos de vista – que só se manifestam de forma emocional e pouco estruturada nas chamadas explosões populares. Quando o circo pega fogo e o vale-tudo substitui a razão.

Um público como o carioca e o paulista, cujo contato com a violência urbana deixou de ser esporádico para ser institucional, pode ser tratado como idiota durante algum tempo, mas não o tempo todo. Quando a paciência acaba, aí já é tarde demais e a espiral suicida da violência gerando violência passa a vigorar irremediavelmente.

A rotinização da violência pela imprensa tem um limite psicológico determinado pela para capacidade de tolerar o insuportável. Quando este limite é alcançado, quem primeiro recorrer ao autoritarismo assume o poder, porque oferece à sociedade a ordem e a paz que ela procura, não importa se ela for inspirada pela direita ou pela esquerda. A história está cheia desses exemplos e não é preciso ser nenhum teórico para saber disso.

O papel da imprensa numa conjuntura difícil como a que estamos vivendo é não tratar as pessoas como idiotas incapazes de pensar, mas oferecer a elas os elementos para que possam tomar decisões. Mas se a preocupação com a sobrevivência financeira determina as alianças políticas e as estratégias editoriais, a imprensa perdeu seu papel como fator de equilíbrio social e passa a ser um agente da desestabilização política. 

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