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Nichos informativos como alternativa de emprego para jornalistas

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

Como começar no jornalismo? Há alguns anos esta pergunta teria uma reação imediata: procure um jornal. Mas, em tempo de crise na imprensa, a resposta não é mais rápida e muito menos fácil para mais de 50% dos estudantes diplomados anualmente por faculdades de jornalismo no Brasil. No entanto, algumas experiências aqui e no exterior já permitem apontar uma direção.

Duas pesquisadoras norte-americanas trabalham há um ano para mostrar que o futuro imediato dos novos profissionais – e também dos que perderam seus empregos – está no chamado jornalismo de nicho, especializado num único tema. As conclusões do estudo devem ser divulgadas em outubro e comprovam que a alternativa é viável e, mais do que isso, já produziu casos considerados de sucesso na imprensa norte-americana, a mais competitiva do mundo.

O jornalismo de nichos noticiosos é uma variante do jornalismo praticada há muitos anos, mas que ganhou notoriedade com a ampliação do uso da Web como plataforma para a veiculação de notícias. O custo de produção e distribuição na era analógica inviabilizavam as iniciativas focadas num único tema e voltadas para segmentos específicos do público. A digitalização e a internet mudaram radicalmente esse quadro porque o custo da distribuição caiu a quase zero ao mesmo tempo em que o da produção limita-se a um computador, alguns programas, tempo e acesso à internet.

Danny Sullivan conhece bem esta receita porque ele é considerado um dos mais bem-sucedidos jornalistas que optaram pela exploração de um nicho de notícias. Em 1997, ele criou o site Search Engine Watch com notícias e dicas sobre como fazer buscas na internet, um ano antes do Google ser oficialmente lançado. Em 2006, Danny vendeu o Search Engine Watch por 46 milhões de dólares e criou o Search Engine Land, que dirige até hoje.

Lara Setrakian, uma das responsáveis pela pesquisa promovida pelo Tow Center, da Universidade Columbia, em Nova York, é a criadora do site Deeply Syria, especializado na cobertura dos conflitos na Síria, que se transformou na grande fonte de informações para toda a imprensa norte-americana sobre a crise naquele país árabe. A opção por nichos informativos tornou-se uma mina de ouro para muitos profissionais experientes e mais recentemente passou a ser também a estratégia adotada pela maioria das escolas de jornalismo dos Estados Unidos na formação de novos jornalistas, como é o caso da Universidade de Nova York (CUNY).

A prática do jornalismo especializado autônomo não é muito diferente da desenvolvida em redações ou coletivos de profissionais, mas ela exige muito em matéria de pesquisa, reflexão, conhecimento e, principalmente, credibilidade. Lisa Williams, criadora um blog para ensinar programação para jornalistas, usou a sua experiência para sugerir quatro regras básicas para quem deseja aventurar-se no mundo dos nichos noticiosos. E nenhuma das quatro regras tem a ver com tecnologia ou jornalismo, e sim com comportamentos e atitudes pessoais.

As quatro regras de Lisa são:

1. Nunca ofereça grátis algo que você pretende cobrar mais tarde. Uma mudança de comportamento como esta, irrita e afasta quem acreditou e gosta do material que você publica;

2. Evite de todas as formas possíveis que um projeto comprometa suas relações afetivas. Os projetos podem ser substituídos, amigos e parentes, não. Eles são o principal apoio nos inevitáveis tempos difíceis no início do projeto;

3. Seja o mais amplo possível na sua especialização. Parece contraditório, mas não é. Um nicho precisa ser informativamente muito completo e diversificado para concorrer com sites generalistas já estabelecidos. Quem procura um nicho quer algo especial e único;

4. Procure descobrir: você pode tocar o projeto sozinho? Esta é uma pergunta considerada básica porque no início não será possível contratar ninguém e nenhum serviço. Começar endividado ou com compromissos fixos, como salários, é o caminho mais curto para a frustração.

A estas regras poderíamos somar mais algumas recomendações fruto de experiências pessoais. A principal delas é relativa à sustentabilidade financeira do jornalista que está começando um blog sobre um nicho informativo. Escolha uma área que você gosta muito. Algo que seja quase um hobby, porque você vai precisar muito do prazer para aguentar um bom tempo sem uma recompensa financeira animadora. Durante algum tempo será necessária uma fonte suplementar de renda que não pode, no entanto, tirar tempo do trabalho no nicho noticioso.

Outros profissionais que enveredaram pelo caminho do trabalho noticioso autônomo são unânimes em sugerir um relacionamento intenso com os leitores de seu blog ou página pessoal. Mantenha sempre aberta a área de comentários do blog ou página.

A relação de quem está começando com os leitores não pode ser unidirecional, e sim de mão dupla. Quando um jornalista escolhe um nicho noticioso para explorar é inevitável encontrar pessoas que sabem mais do que ele. Em situações como esta, o ideal é estimular a colaboração e a reciprocidade, porque quem conhece muito de um assunto normalmente tem amigos que compartilham o interesse e podem ser muito úteis na formação de uma comunidade de leitores.

A multiplicação de nichos informativos é um dos prováveis sustentáculos futuros dos grandes veículos de comunicação jornalística. Um jornal, por exemplo, não pode ter uma equipe de repórteres suficientemente grande para fazer a cobertura de assuntos locais numa grande cidade. É muito caro e, por isso, muitos já estão recorrendo a nichos jornalísticos hiperlocais sempre que algo ocorre na área de abrangência do projeto independente.

relacionamento entre empresas jornalísticas e profissionais autônomos ainda é instável, mas tende a se consolidar para atender necessidades de ambos os lados. Os jornais terão que contar com uma rede de nichos noticiosos autônomos para obter matéria-prima informativa, enquanto os blogs e páginas noticiosas autônomas terão que lograr um retorno financeiro compensador. 

2014, a eleição dos partidos ‘faz de conta’

Postado por: Carlos Castilho | 3 comentários

A eleição de 2014 marcará o auge de um processo de esvaziamento dos partidos brasileiros que sobrevivem apenas em função da burocracia do sistema jurídico e do corporativismo dos políticos. A miríade de siglas legalmente registradas configura um cenário fantasmagórico onde as identidades, programas, projetos e ideologias acabaram pasteurizadas a ponto de ninguém hoje conseguir distinguir quem é quem no sistema partidário.

As evidências estão materializadas no noticiário pré-eleitoral da imprensa, que é uma coadjuvante compulsória neste processo de alienação partidária no Brasil. A mídia esperneia, reclama, mas pouco faz para mudar o status quo.

Antigamente, os partidos se distinguiam mais pelos seus programas e ideologias do que pelos candidatos. Hoje é o contrário, os programas e ideologias são acomodados segundo os interesses do candidato.

A mais nova evidência dessa inversão de prioridades é o caso da ex-ministra Marina Silva, que surgiu na política às custas da inovadora ideia da sustentabilidade como parâmetro principal para o desenvolvimento econômico. Como não conseguiu que a Rede Sustentabilidade fosse reconhecida legalmente como partido, Marina correu para os braços do Partido Socialista Brasileiro para tentar se eleger vice-presidente da República. Com a morte do candidato Eduardo Campos, a ex-ministra do Meio Ambienta acabou na cabeça da chapa socialista.

O PT, cujo sucesso eleitoral no início do século foi alavancado pela imagem operária e pelo sonho de mudança, hoje se transformou num aglomerado de interessados em cargos públicos e na continuidade no poder. O PSDB não tem mais nada da ideologia socialdemocrata. O mesmo vale para o extinto trabalhismo no PTB. 

Até os herdeiros do comunismo no Brasil adotaram um discurso revisionista em relação aos princípios do marxismo-leninismo. O Partido Socialista Brasileiro (PSB), que é outra sigla surgida da socialdemocracia, não conseguiu se atualizar ideologicamente e perdeu identidade, processo similar ao do PDT, que na falta de Brizola se transformou numa legenda de ocasião.

A maioria absoluta dos partidos políticos brasileiros transformou-se em meros trampolins para personalidades interessadas num emprego parlamentar. Cumprem uma função burocrática determinada pela Justiça Eleitoral como parte da legislação vigente. Entre elas, o polêmico loteamento do horário eleitoral gratuito, que de tanto ser regulamentado para atender a egos e interesses se transformou numa caricatura da ribalta eleitoral.

Como os programas passaram a depender das estratégias eleitorais e dos interesses dos candidatos, os conteúdos ideológicos e programáticos divergem apenas nos detalhes, quase sempre de difícil compreensão pelo eleitor. Outra consequência é a formação de alianças partidárias materializadas em coligações esdrúxulas, que contribuem ainda mais para a perda de credibilidade dos partidos.

A mística ideológica responsável pelo passionalismo de pleitos passados foi substituída pela magia do marketing eleitoral, cujos meandros são conhecidos apenas por uns poucos especialistas contratados a peso de ouro. Eles trabalham em função de resultados e migram para quem paga mais ou a quem dedicam maior simpatia, sem se importar muito com os princípios teóricos.

O sistema partidário brasileiro é um cadáver insepulto, cujo óbito os políticos não têm coragem de atestar porque isso ameaçaria posições e vantagens conquistadas. Passamos a viver uma ficção alimentada por fantasmas cuja existência nos obriga a refletir até que ponto o público e a imprensa acabaram se acostumando com o faz de conta partidário, protagonizado por 32 siglas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O desafio não é acabar com os partidos políticos, mas sim o de evitar que desvirtuem o exercício da democracia, da qual eles, teoricamente, são uma peça básica.

O jornalista como profissional do conhecimento

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

A revolução digital ampliou e diversificou o protagonismo dos indivíduos na comunicação interpessoal em ambientes sociais, conferindo uma importância crítica à organização deste monumental fluxo de mensagens contendo dados e informações. O jornalista é parte insubstituível neste ordenamento, mas as regras que orientam a sua atividade diária já não são mais as mesmas.

O crescimento exponencial da oferta de dados e informações tornou obsoleta a função de coletar, formatar e distribuir notícias, que caracterizou o trabalho dos jornalistas durante os últimos 200 anos. A nova realidade digital está impondo ao jornalista a missão de dar significado às notícias, mais do que simplesmente passá-las adiante. Noutras palavras, gerar fluxos de notícias para alimentar a produção de conhecimento que permitam às pessoas evoluir social e economicamente.

Até agora o jornalista era um operário na linha de montagem das notícias que servem de moeda de troca com a publicidade e, com isto, viabilizavam o negócio da imprensa. Na hora em que é levado a se transformar num profissional do conhecimento, o jornalista necessita rever sua rotina de trabalho, valores profissionais e comportamentos sociais.

Mas a grande mudança está nos objetivos da atividade profissional. Embora a indústria dos jornais, revistas e audiovisual não vá desaparecer, o jornalista passará a trabalhar pensando cada vez menos na rentabilidade do negócio e mais nas necessidades e desejos dos receptores de notícias. Em vez do patrão, a referência básica passa a ser a comunidade de leitores, ouvintes e telespectadores. 

Os jornalistas já ouviram muitas vezes esta mesma frase na boca dos executivos da imprensa, mas agora ela tende a se transformar no mantra do dia a dia da atividade, ao orientar o comportamento do profissional no chamado engajamento comunitário. Este engajamento permite que o jornalista identifique na comunidade à qual está vinculado os dados que serão estruturados como notícias, que por sua vez provocarão debates sobre os quais será construído o conhecimento individual e coletivo.

A agenda da imprensa sempre deu um tratamento diferenciado às notícias conforme o seu objetivo. Algumas são consideradas utilitárias porque estão orientadas para:

1. A melhoria do desempenho pessoal e a eficiência nas atividades exercidas pelo leitor, ouvinte ou telespectador;

2. Ampliar a qualidade e quantidade no consumo individual;

3. Oferecer opções diversificadas de lazer.

São notícias onde é fácil estabelecer a relação custo/beneficio porque a demanda e a oferta são claramente identificadas. Em compensação, as notícias relacionadas ao que genericamente é conhecido como interesse social recebem menos atenção da imprensa porque, em geral, tratam de temas complexos como meio ambiente, programas energéticos, saneamento básico, drogas ou atenção à velhice, por exemplo. A diferença básica está entre as notícias que o público quer ler e aquelas necessárias ao exercício da cidadania. As primeiras são reguladas pelo mercado (oferta e procura), ao passo que as de interesse público dependem de motivação intelectual que nem sempre encontra uma compensação financeira.

O jornalismo voltado para a produção de conhecimento preenche a lacuna criada pelas deficiências do mercado na satisfação das necessidades informativas de interesse público porque pode atender interesses e demandas altamente segmentadas. Esta possibilidade está apoiada no uso de internet e da computação, que permitem uma personalização do fluxo de notícias em espaços informativos de dimensões reduzidas – como uma rua, um bairro ou uma especialidade profissional.

A mídia de massa só consegue equilíbrio financeiro quando atende a públicos pouco diferenciados, o que impede a atenção às necessidades informativas de grupos sociais numericamente reduzidos. A monetização tradicional dos conteúdos jornalísticos é inviável no ambiente online porque a avalancha informativa reduziu a zero o custo marginal da notícia (custo de reprodução de uma notícia). Por isso, o jornalista que optar pelo trabalho na internet precisa apostar na produção de conhecimento para buscar uma relação custo/benefício capaz de assegurar a sua sobrevivência.

Esta aposta não é apenas uma questão econômica, mas é essencialmente a recuperação do princípio da função pública do jornalista, perdida ao longo dos anos, por conta da sua inserção da atividade na linha de produção das indústrias de produção de notícias. O lado financeiro continua essencial à sobrevivência dos profissionais, mas ele não é mais o fator determinante no exercício da atividade. O jornalista é um protagonista indispensável para as pessoas desenvolverem conhecimento e com isso aumentar o capital social das comunidades onde vivem. 

Notícia líquida, jornalismo fluido

Postado por: Carlos Castilho | 2 comentários

Parece jogo de palavras, mas não é. A notícia deixou de ser algo estático, definitivo e acabado. A avalancha informativa na internet permite agregar novos detalhes, de forma ininterrupta. A notícia torna-se assim algo, por natureza, mutável, líquida como a água. Isso faz com que o jornalismo acabe assumindo também características fluidas, sem verdades definitivas, sem categorias fixas e, sobretudo, assumindo a dúvida e a relatividade como constantes no ato de informar.

Esta nova forma de caracterizar a notícia e conceber a atividade jornalística tem a ver com a nova realidade que estamos vivendo, onde dicotomias tipo bom/mau, bonito/feio, verdadeiro/falso ou justo/injusto são cada vez mais relativizadas na medida em que a diversidade de dados veiculados pela internet permite multiplicar as visões de um mesmo fato, número ou evento.

Nessas circunstâncias, o leitor, ouvinte, telespectador ou internauta acaba tendo que revisar seus comportamentos e seus valores gerando dois tipos de postura: assumir a fluidez do ambiente informativo ou agarrar-se aos comportamentos e valores conhecidos e seguros, apesar de questionados pela realidade que nos cerca.

A imprensa brasileira, e também a de outros países, vive hoje o dilema de abandonar rotinas, valores e procedimentos tidos como seguros para aventurar-se no terreno desconhecido e inseguro do novo, daquilo que ainda não foi testado e experimentado. Isso reflete um divisor de águas de toda a sociedade contemporânea, que vive um momento de transição de modelos, que lembra o início da revolução informativa provocada pela descoberta dos tipos móveis, por Gutenberg, na metade do século 15.

A atual campanha eleitoral não é apenas uma corrida entre candidatos e uma disputa entre grupos políticos e econômicos pela conquista de mais quatro anos de controle da máquina estatal. Ela é também um laboratório para as empresas de comunicação e para os jornalistas, onde está sendo posta à prova a relação entre a imprensa e os leitores.

A “onda” Marina mostrou que existe um movimento difuso, sem líderes, sem propostas estruturadas e fora dos padrões ideológicos convencionais que, volta e meia, emerge no cenário político nacional, como aconteceu nas manifestações de junho do ano passado e na eleição de Lula, em 2002. São manifestações de uma bolha de inconformismo social que a imprensa não consegue entender e, por isso, é sempre apanhada de surpresa, adotando geralmente a posição conservadora ao não conseguir enquadrar o fenômeno dentro do seu modelo de análise da realidade.

A ‘ola’ Marina e a cobertura da imprensa

Postado por: Carlos Castilho | 3 comentários

A onda Marina surgiu como as olas tradicionais em estádios de futebol. Ninguém sabe quem começou tudo, mas o certo é que ela assumiu logo a proporção de um tsunami ao catapultar a candidata socialista dos 9% aos 34%  29% das intenções de voto, segundo o Ibope. A única explicação possível para um desempenho tão espetacular é uma identificação espontânea dos eleitores desiludidos, especialmente os mais jovens, com a enigmática Marina Silva.

Foi o suficiente para os três maiores jornais do país (Folha de S.PauloEstado de S.Paulo e O Globo) mudarem de estratégia assumindo os receios temores da elite política do país, temerosa de que a ola Marina sinalizasse uma perda de controle sobre o processo eleitoral graças à participação não estruturada de grupos jovens, muitos dos quais se identificam com as manifestações de rua de junho do ano passado.

A imprensa adotou uma posição sutilmente crítica a Marina insistindo na questão da controvertida posse do avião que matou Eduardo Campos e na igualmente discreta referência às contradições da plataforma e das alianças partidárias por trás da candidatura socialista. É o método de plantar dúvidas para colher posicionamentos, estratégia que deu resultados com a campanha do pessimismo para colocar Dilma Rousseff na defensiva.

A imprensa não ataca diretamente porque isso violaria a imagem de independência e isenção na campanha eleitoral, que serve de escudo contra acusações de subordinação a alguma das candidaturas. Mas semeia suposições, insinuações, informações sem contexto definido, denúncias vagas e, com isso, vai sedimentando uma desconfiança difusa que impregna o modelo mental dos eleitores na definição de voto.

Por mais que a propaganda eleitoral seja regulamentada e regulada nos mínimos detalhes, ela não consegue atingir os meandros do complexo processo de captação dos insumos informativos que alimenta a formação do que os psicólogos chamam de mapa mental, o conjunto de informações arquivadas na memória de curto prazo do indivíduo e que servem de base para a tomada de decisões.

É difícil, quase impossível, parar uma ola, porque ela é alimentada por predisposições muitas vezes ignoradas pelos próprios participantes. Parar uma ola num estádio de futebol equivale a ser antipatizado e hostilizado imediatamente pelos demais torcedores. No caso Marina, vale a mesma regra e a estratégia é plantar dúvidas e incertezas, como vem fazendo a grande imprensa, ao insinuar que as ondas passam e que muita coisa ainda vai acontecer até o dia das eleições.

ola Marina pode não aguentar até o dia 5 de outubro, assim como as manifestações de junho do ano passado não chegaram até a Copa do Mundo com o vigor mostrado nas ruas de São Paulo, Rio, Brasília e outras cidades brasileiras. Mas o fato de ser não estruturada, pois até os adeptos de Marina foram surpreendidos pela disparada nas pesquisas, mostra que há muitas outras razões por trás do fenômeno.

O enigma Marina desafia a imprensa da mesma forma que os jornais e as emissoras de televisão foram apanhados de surpresa nos protestos, há um ano. É que a nossa mídia está de tal forma condicionada pelo pensamento da elite política do país que tem dificuldade em interpretar fenômenos que fogem às regras tradicionais de comportamento eleitoral.

A massa difusa de desiludidos políticos que alimentava o voto nulo ou branco e a abstenção parece agora se materializar na ola em torno da frágil figura da ex-senadora acreana. Politicamente é um fenômeno relevante, porque um alto percentual de votos nulos e brancos sinaliza um protesto marginal, mas o crescimento da simpatia popular por Marina traz a incerteza e a insegurança para dentro do sistema.

ola Marina é um processo independente da candidatura e não necessariamente tem os mesmos objetivos. É bem provável que ocorra um divórcio, em algum momento, antes ou depois das eleições, porque a dinâmica dos desiludidos e indignados é bem diferente da dos militantes partidários da coligação liderada pelo Partido Socialista. A ola é ao mesmo tempo a grande força e a principal debilidade da candidata Marina Silva. 

Por que o horário eleitoral gratuito é tão chato?

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

A resposta é simples: porque os indivíduos que aparecem na TV e no rádio estão prioritariamente preocupados com seus objetivos pessoais, ou do partido onde estão hospedados. Assim, o eleitor não tem o menor interesse em deixar o que está fazendo para ouvir uma sequência monótona de promessas e currículos pessoais. E nessas condições, o horário eleitoral não cumpre, nem de longe, a sua missão teórica de preparar as pessoas para votar.

Na verdade, o espaço gratuito para propaganda política virou um teatro e uma arena. Teatro porque por ele desfilam personagens que tentam atrair a atenção dos poucos espectadores e ouvintes mais pelo histrionismo do que pelas propostas. Arena porque os candidatos disputam segundos de visibilidade como uma questão de vida ou morte, onde a preocupação com a concorrência dos demais candidatos pesa mais do que a com o interesse do público.

Pesquisas acadêmicas mostraram que as pessoas procuram notícias que lhes permitam produzir mais, consumir melhor e ter mais opções de prazer. Estes são os três elementos mais importantes no poder de atração de uma notícia, do ponto de vista dos leitores e audiências. A política não se encontra entre essas prioridades, o que é um grande paradoxo, porque é por meio dela que são tomadas decisões que afetam a vida das pessoas.

A política só ingressa na agenda de interesses do público quando é associada a escândalos, violência, ou quando ganha, durante processos eleitorais, características que a assemelham a uma corrida de cavalos. Quando isso não acontece é muito pouco provável que um indivíduo decida ir a uma sessão da Câmara Municipal, Assembleia Legislativa ou da Câmara de Deputados para ver o que está sendo discutido e votado. Só vai, em grupo, para fazer lobby por alguma questão corporativa.

A política, como prática social, é algo complexo – o que a coloca de imediato fora das preocupações da imprensa cuja sobrevivência financeira depende da publicação de notícias de consumo fácil para servirem de chamariz para a publicidade. O debate de questões como política salarial envolve uma diversidade enorme de dados, conhecimentos, contextos, interesses e procedimentos. 

A imprensa deveria traduzir toda essa gama de fatores num formato comunicativo compreensível por diferentes segmentos da população, procurando alimentar debates em grupos sociais para que estes possam participar melhor na solução de seus desejos e necessidades. Mas como a política é um item noticioso de vendagem difícil para os anunciantes, o resultado é um arremedo de cobertura que cumpre uma função burocrática formal, mas profundamente entediante para o eleitor.

Como a maioria dos candidatos usa a política para manter ou conquistar empregos e poder, enquanto a imprensa sabe que a mistura de negócios e eleições sempre acaba atropelando a ética, fica fácil perceber como o eleitor se transformou num personagem descartável na propaganda eleitoral pelo rádio e televisão.

Os políticos só mudam de comportamento sob pressão porque isto ameaça seus empregos. Quem pode alavancar esta pressão é a imprensa, se ela resolver apostar em quem realmente garante a sua sobrevivência, o leitor. Os jornais e a televisão começaram a alimentar esse processo com as denúncias de corrupção e mau uso do poder pelos políticos. Mas a estratégia ainda não conseguiu provar que seu objetivo é a mudança da cultura política e não um instrumento para que partidos e políticos promovam retaliações recíprocas.

Enquanto a imprensa não vestir a camiseta do esforço para mudar a cultura política por meio de um processo longo e inevitavelmente complexo, ela ficará na incômoda posição de ter que aguentar um horário eleitoral gratuito que afugenta o público, e ao mesmo tempo contribuir para a chatice da propaganda ao tornar-se cúmplice de um sistema que aumenta a tentação do voto em branco, nulo e abstenção

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