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Por onde começar no jornalismo quando faltam empregos seguros

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

Qualquer conversa com um candidato ou estudante de um curso de jornalismo inevitavelmente passa pela pergunta: Por onde eu começo na profissão? São raros os que têm resposta para esta dúvida que na verdade é um desafio, inclusive para muitos profissionais que enfrentam a dura realidade do desemprego.

Na verdade não existe uma receita segura a ser seguida. É impossível tê-la na conjuntura atual onde tudo está mudando e o jornalismo passa pela sua maior transformação desde que Gutenberg inventou a impressão gráfica, há cinco séculos. Mas apesar da incerteza generalizada, uma observação das experiências de jornalismo online permite algumas constatações que podem amenizar a angústia de quem ainda não sabe o que fazer com o diploma ou precisa achar um novo sustento.

Quase todos os pesquisadores do jornalismo na internet, como o norte-americano Jay Rosen, coincidem que a busca de um nicho informativo é o destino inevitável da maioria dos recém-graduados em faculdades de jornalismo. Para os profissionais desempregados ou desiludidos com a imprensa convencional, a opção pela especialização noticiosa já é uma realidade. Não há mais possibilidade de sair da universidade e entrar imediatamente numa empresa jornalística de grande ou médio porte. O número de vagas oferecidas anualmente na imprensa é muito menor do que o de graduados em jornalismo no mesmo período, aqui ou no resto do mundo.

A variedade de nichos informativos é praticamente ilimitada, especialmente agora na era da internet, onde é possível encontrar informações sobre quase tudo o que se possa imaginar. Nos Estados Unidos ficou famoso o caso de um morador de uma microcidade no interior do estado de Alabama, obcecado por músicas de Frank Sinatra da década de 1940. Ele juntou todos os long plays possíveis de seu ídolo como hobby, e começou a ganhar dez mil dólares mensais a partir de 2010 vendendo versões digitais pela internet.

O segredo do fã de Sinatra foi seu esforço para reunir material e vendê-lo para um mercado planetário. Na sua cidade, ele talvez encontrasse um comprador. No Alabama possivelmente uns 50. Nos Estados Unidos, uns dois mil interessados por mês. Mas no mundo inteiro, ele acabou sendo descoberto por quase 10 mil clientes mensais, um mercado que ele nunca imaginou alcançar e que passou a lhe garantir o sustento. Isso tudo a partir de um vilarejo com não mais de cinco mil habitantes.

A estratégia do nicho se apoia em três bases: coletar informação (em texto, áudio ou imagens), digitalizar num computador e vender pela internet. As despesas iniciais são muito pequenas se comparadas às da abertura de um negócio convencional na área da informação. O principal investimento é em tempo e dedicação. Tempo para pesquisar o tema, o público-alvo e a forma de divulgar a iniciativa. Dedicação para suportar a falta de resultados imediatos.

Em princípio, qualquer tema pode se transformar em nicho jornalístico. O conceito de notícia não se restringe hoje apenas ao que está na agenda da imprensa, ou seja, política, esporte, economia e internacionais. A avalancha informativa da internet permitiu que o noticiário local e hiperlocal ganhasse visibilidade e interesse por parte das pessoas já saturadas com a mesmice do noticiário convencional.

Pessoas sem formação jornalística começaram a explorar, por simples gosto pela informação, nichos como, por exemplo, monitorar a variação de preços num mesmo supermercado, guardando as notas fiscais de suas compras domésticas semanais. Depois de alguns meses, os dados acumulados foram cruzados com os de outras pessoas que desenvolveram atividade idêntica noutros estabelecimentos, surgindo daí um banco de dados cujo conteúdo passou a ser disputado por jornais por ser uma expressão direta da experiência do consumidor com a inflação.

Os profissionais do jornalismo ainda vacilam em optar pela atividade autônoma em nichos noticiosos porque ainda estão muito contagiados pelas rotinas das redações convencionais. Mas já existem experiências muito bem sucedidas como O TREM Itabirano, em Minas Gerais, a Voz de Rio das Pedras, no Rio de Janeiro, ou o Jornal Pessoal, de Belém do Pará. Na Grécia, a rádio Bubble, e na Espanha, o jornal online El Diario são projetos desenvolvidos por jornalistas profissionais demitidos em consequência da crise econômica na imprensa convencional.

condição obrigatória para o trabalho em nichos de informação é gostar muito, mas muito mesmo, do tema ou foco escolhido, porque os resultados financeiros demoram a surgir e, no período das vacas magras, só a paixão profissional manterá o projeto de pé. A maioria dos que optaram por iniciativas pessoais tiveram, ou têm, uma fonte paralela de renda porque a insegurança faz parte do negócio. O enorme afluxo de novos exploradores digitais muda constantemente o ambiente informativo com o surgimento sucessivo de novos nichos. A rotatividade de negócios na internet é muito grande.

O nicho informativo jornalístico é parte da teoria econômica chamada Cauda Longa (Long Tail), segundo a qual a internet viabilizou a venda de um grande número de produtos em pequenas quantidades, contrariando a técnica usual na produção industrial de vender poucos produtos muito populares em grandes quantidades. A opção pelo nicho não é fácil, mas é a mais viável num contexto de mudanças constantes no ambiente jornalístico. Ela é também o primeiro passo para a formação de futuras redes jornalísticas noticiosas, um desdobramento dos nichos já com uma base financeira e tecnológica muito mais sólida e estável. 

Notícia, ‘papo de botequim’ e capital social

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

Vários leitores têm me escrito perguntando por que escrevo mais sobre temas internacionais e questões teóricas do que sobre problemas diários da imprensa brasileira. O questionamento me levou a uma nova reflexão sobre o que é mais importante no momento para alcançarmos um modelo mais completo de comunicação jornalística.

A crítica do estado atual da imprensa brasileira está sendo feita de forma exemplar pelos meus colegas de Observatório da Imprensa. Minha preocupação é complementar o trabalho que já está sendo desenvolvido, explorando o que pode vir por aí em matéria de transformações no mundo da comunicação jornalística, sacudido por mudanças radicais desde o surgimento das tecnologias de informação e comunicação (TICs). Ter uma visão mínima do rumo que as coisas estão tomando nos permite participar do processo de mudança e, com isso, levá-lo à direção mais próxima possível dos desejos e necessidades da sociedade em que vivemos.

Esta preocupação levou à pergunta sobre qual o papel futuro da notícia num ambiente onde a geração de conhecimento e de capital social passam a ser fatores essenciais num novo modelo econômico – que os especialistas chamam de “produção comunitária colaborativa”. Alguns leitores podem achar que estou “viajando na maionese”, mas o volume cada vez maior de trabalhos e pesquisas de profissionais sérios nos obriga a, no mínimo, pensar sobre a questão.

Trabalhos como os dos norte-americanos Yochai Benkler, Jeremy Rifkin e Henry Jenkins, do belga Michel Bawnes, do italiano Alberto Melucci e do espanhol Manuel Castells mostram que o surgimento de um novo modelo econômico, que não é baseado nem no mercado e nem no centralismo estatal, deixou de ser apenas um sonho para ganhar cada vez mais ares de possibilidade real.

Este novo paradigma econômico tem como componente básico a informação, o que incorpora a notícia ao processo porque é a partir dela que muitos chegam a produzir informação. A notícia jornalística é um dado (fato, evento, número ou objeto) desconhecido por quem a recebe. Ao tomar conhecimento de um dado desconhecido, o leitor de jornal, ouvinte, telespectador ou internauta, na maioria dos casos, fica intrigado, curioso ou inseguro. 

É que a notícia recebida alterou o universo cognitivo do indivíduo, levando-o a procurar mais dados para poder contextualizá-la na perspectiva individual, para identificar causas, consequências, prejudicados e beneficiados. Também pode discutir com parentes, amigos, colegas de trabalho e vizinhos para trocar ideias, preocupações, temores ou esperanças. As duas iniciativas geram informações, ou seja, dados contextualizados que passam a ter significado, representar algo para o indivíduo, ou grupo de indivíduos.

Tanto a busca de novos dados como a troca de ideias com outras pessoas geram conhecimento – ou, de maneira genérica, decisões sobre o que fazer ou não fazer. E o conjunto desses conhecimentos acumulados em um grupo social, ou comunidade, tornou-se conhecido pelo nome de capital social, um termo já consagrado pelos economistas do Banco Mundial como um fator obrigatório na análise do grau de desenvolvimento de países e zonas geográficas.

Tudo isso começou com a notícia publicada num jornal, na rádio, TV ou página na Web. E para que a notícia jornalística cumpra a sua função ela passa a ter um papel determinado pela sua utilidade ou interesses sociais, e não pelo potencial que ela tem de atrair público capaz de consumir produtos oferecidos pela publicidade impressa ou audiovisual.

Isso não quer dizer que a publicidade em meios jornalísticos deixará de existir, afinal ela é um elemento importante na sustentação financeira de uma empresa jornalística. O importante, e novo, é que os jornalistas deixarão de avaliar uma notícia apenas em função de seu potencial de venda e poderão dar mais relevância ao papel que ela tem na produção de capital social, que no final das contas é o que garante o bem estar material e imaterial de uma comunidade.

Esta é uma mudança de perspectiva profissional que não acontecerá da noite para o dia, porque implica alterar padrões de comportamento, rotinas e valores entranhados há muito tempo nas redações de empresas jornalísticas. Mas quanto antes começarmos a pensar e conversar sobre a nova perspectiva da notícia num ambiente digital, mais chances teremos de que os seus resultados apareçam o mais cedo possível.

Esta é a minha preocupação e a minha contribuição para este grande “papo de botequim” sobre a notícia jornalística.

Crise na imprensa e os novos de paradigmas econômicos

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

Um livro que está sendo lançado em abril pelo economista Jeremy Rifkin tem a chave para que se possa entender, de forma estrutural , os dilemas enfrentados pelos jornais e revistas impressos . As novas tecnologias digitais permitiram ler o livro antes de ele chegar às livrarias e verificar como a questão do curso marginal zero é a responsável pela crise da imprensa escrita na maior parte do mundo.

Custo marginal é o custo econômico para reproduzir um bem, serviço ou ideia, descontados os gastos com a produção da primeira versão deste mesmo item. No caso do jornalismo, o custo de produção de uma reportagem inclui os investimentos em salários de jornalistas envolvidos no projeto, locomoção dos profissionais, produção de imagens e edição final do texto, áudio ou vídeo. Custo marginal são as despesas com a reprodução desta edição final em versões impressas ou audiovisuais.

No livro The Zero Marginal Cost Society: The Internet of Things, the Collaborative Commons, and the Eclipse of Capitalism (A sociedade do custo marginal zero: a internet das coisas, as comunidades colaborativas e o eclipse do capitalismo), Jeremy Rifkin mostra como a digitalização e a internet reduziram a quase zero o custo de reprodução de informações, afetando a disseminação das chamadas notícias duras, que se tornaram virtualmente gratuitas.

Este processo já era conhecido, mas o que poucos autores mencionaram foi como a redução do custo marginal é um fenômeno estrutural no capitalismo e como a crise do modelo de negócios da imprensa não é apenas o resultado de má gestão ou equívocos na aplicação de princípios teóricos da administração. Seguindo o raciocínio de Rifkin, a queda da rentabilidade dos jornais é uma das consequências da mudança de paradigmas econômicos em escala planetária.

A notícia, uma área especifica do campo da informação, foi drasticamente atingida pelo fenômeno da digitalização porque a sua representação em bytes cria condições para a transmissão eletrônica de um texto de forma quase instantânea. Também permite a recombinação dos bytes para formar outros textos com uma rapidez muito maior do que se fossemos reescrever este mesmo texto usando uma máquina de datilografia.

A rapidez e versatilidade do texto eletrônico estão na origem da tendência ao custo marginal zero no segmento da comunicação jornalística. Este é um processo que veio para ficar e não tem mais volta. Logo, o dilema das empresas jornalísticas é buscar um novo paradigma econômico porque o que vigorou até agora não tem mais sustentabilidade prática e nem muito menos justificativa teórica.

Isto não significa que o texto impresso vá desaparecer. Ele continuará porque a redução do custo marginal não será idêntica para todos os tipos de notícias e informações. Os consumidores interessados em textos analíticos ou reportagens investigativas, obviamente pagarão pelo acesso exclusivo a este material cujo custo marginal será alto. Em compensação, as chamadas notícias duras (hard news) tenderão a ser gratuitas porque podem ser disseminadas rapidamente com um custo marginal próximo a zero.

Mas Rifkin, a exemplo do que fizeram outros teóricos do capitalismo como o polonês Oskar Lange, John Maynard Keynes e o ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos Lawrence Summers, adverte para um paradoxo insolúvel no capitalismo. Quando o custo marginal se aproxima do zero, desaparece o estímulo ao investimento em inovação porque a margem de lucro é mínima. Em compensação, quando empresas elevam o custo marginal por práticas monopolistas ou por protecionismo, o lucro cresce mas a inovação também sofre pela ausência do livre fluxo de dados e informações.

O autor do livro The Zero Marginal Cost Society afirma que essa contradição impede o capitalismo de continuar sendo o paradigma econômico hegemônico na sociedade digital e prevê o surgimento de outros paradigmas, como o da produção colaborativa comunitária para determinados tipos de produtos informativos, onde o interesse social passa a ser um motor de inovação mais atrativo do que o lucro financeiro. Exemplos desse possível modelo de produção informativa são a enciclopédia virtual Wikpédia e sistemas de classificação de notícias pela sua popularidade como o Reddit , todos baseados no processo colaborativo – ou crowdsouring.

Tudo isso ainda é muito novo e desafiador em matéria de esforços teóricos para tentar entender como as coisas estão mudando, em especial no segmento das empresas jornalísticas. Elas não devem desaparecer porque há nichos informativos especializados onde há demanda para produtos pagos. Mas é obvio que a posição hegemônica usufruída até agora pelos grandes conglomerados empresariais na área da comunicação jornalística se tornou insustentável.

A lucratividade das empresas estará mais na produção de conteúdos jornalísticos do que na sua distribuição, a grande fonte de receita da era analógica. Isto muda o foco das estratégias editoriais para os nichos em vez da produção em massa, onde as empresas obtinham lucros enormes mesmo com um custo marginal declinante. Este modelo foi quebrado pelas novas tecnologias que tornaram a distribuição quase gratuita.

A ascensão do modelo comunitário colaborativo em segmentos específicos do campo da informação jornalística deve gerar uma diversidade de paradigmas. O segmento não comercial do jornalismo tem como principal motor da inovação a produção de conhecimento por meio da recombinação de notícias visando a geração de capital social. O próprio Banco Mundial já reconheceu que o modelo comunitário colaborativo pode ser tão atraente quanto o modelo lucrativo. Tudo vai depender das circunstâncias em que cada um deles for aplicado. 

1964: faltou exorcizar os fantasmas do autoritarismo

Postado por: Carlos Castilho | 3 comentários

A imprensa e o Brasil perderam uma grande oportunidade para exorcizar o fantasma do autoritarismo durante a passagem dos 50 anos do golpe militar de 1964. Quase todas as reportagens e documentos jornalísticos a propósito da data primaram pela ênfase nas recordações, mas deixaram de lado a preocupação com a identificação dos processos e contextos que podem ameaçar novamente o nosso inacabado processo de redemocratização.

O ato de reavivar episódios que deixaram cicatrizes profundas em milhares de brasileiros é uma faca de dois gumes, como mostram vários outros episódios da história mundial. Se por um lado faz com que as novas gerações descubram algo que não presenciaram, por outro remexe com ressentimentos e ódios que o tempo não curou. Para os jovens, o golpe de 1964 é um evento suficientemente distante para não provocar grandes emoções, enquanto para quem viveu o medo e a dor física recordar traumas pode despertar uma raiva inútil.

Este é o dilema enfrentado por todo jornalista quando colocado diante da cobertura de uma data associada ao sofrimento de muita gente. Mas, em geral, a imprensa sempre opta pela saída mais fácil, que é a de relembrar o passado. As datas são um item da agenda do chefe de reportagem ou do editor, mas a rotina frenética das redações impede que os profissionais percebam que, mais do que fatos e imagens, estão em jogo sentimentos associados ao calendário.

Os protagonistas e testemunhas da história podem hoje tirar da própria experiência e sofrimento as indicações para que os mais jovens não repitam os mesmos erros e nem revivam os mesmos traumas. A grande contribuição da imprensa poderia ter sido a de valorizar o aprendizado com a história, em vez de apenas recordá-la. Perde-se uma oportunidade tentar entender o contexto de meio século atrás e ver quais as coincidências e discrepâncias em relação ao que vivemos hoje.

A derrubada do presidente João Goulart foi um movimento contra mudanças sociais e econômicas que ocorreu num contexto contraditório. Os reformistas, paradoxalmente, defendiam a continuidade do Estado de direito, enquanto os conservadores romperam com a ordem democrática para preservar o status quo econômico e a estratificação social.

Há algumas semelhanças na situação atual. A partir de 2002, o país passou a viver em clima de mudanças sociais e de redistribuição de renda. Passados doze anos, o impulso reformista perdeu força e passou a identificar-se com a ordem vigente, enquanto a oposição promete mudanças para voltar ao modelo econômico vigente até o início do governo Lula.

Novamente estamos vivendo um impasse entre reformas sociais e econômicas que enfrentam inevitáveis dificuldades em conciliar propósitos teóricos com realidades complexas, e setores políticos interessados na reconquista do poder. Quem testemunhou os tensos meses que antecederam o golpe militar, pode estar vivendo hoje, com alguma preocupação, sensações parecidas às de 50 anos atrás.

A história dificilmente se repetirá porque o tempo se encarregou de eliminar contextos como o que associou a crise de 1964 à Guerra Fria entre Estados Unidos e a então União Soviética. Também é muito pouco provável que os militares voltem a servir de guarda pretoriana para políticos e empresários. Mas o fantasma do autoritarismo continua presente na ostentação de força por efetivos policiais em nível federal, estadual e municipal, bem como nas milícias e serviços privados de segurança. 

A violação dos direitos individuais que em 1964 se expressou pelas prisões arbitrárias, tortura e eliminação física sumária, manifesta-se agora com as escutas ilegais, intimidação generalizada nas favelas, terror urbano e rural, bem como pela rotinização da violência nas cidades. São evidências de processos que continuaram, apesar dos anos, e cuja identificação seria mais útil para as gerações pós-64 do que relembrar histórias de uma época difícil.

A imprensa e as universidades são as únicas instituições que teriam possibilidade de evitar a contaminação pelas paixões e ódios para aprender com o passado e oferecer elementos para a reflexão dos atuais tomadores de decisões. A imprensa perdeu uma grande oportunidade para cumprir o seu papel e contribuir para possamos tirar do passado as lições que o presente nos está cobrando. Mas ainda é possível corrigir a falha.

Ensino do jornalismo, pesquisa exploratória e zona de conforto

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

A Faculdade de Jornalismo da Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, acaba de criar um Centro de Inovação Jornalística e Engajamento Cívico, cuja missão é explorar novas formas de exercer o jornalismo em ambiente digital, especialmente aquelas vinculadas à relação entre profissionais e as comunidades sociais.

Trata-se de uma nova tentativa de recuperar a ideia de um jornalismo associado à causas sociais, responsável por um aguda polêmica no ambiente profissional durante os anos 1970 e 80, quando o professor Jay Rosen e o editor de jornais Davis Merritt lançaram a ideia do jornalismo cívico, logo em seguida apoiada financeiramente pelo hoje desativado Pew Center for Civic Journalism.

Trata-se de mais uma universidade americana que decide explorar novas áreas de exercício do jornalismo em ambiente digital, partindo de uma perspectiva de que é necessário experimentar, mesmo correndo o risco de insucesso. As universidades americanas estão empenhadas em explorar áreas pouco conhecidas do jornalismo em ambiente digital, enquanto as instituições de ensino superior no Brasil dedicam-se a uma interminável polêmica sobre normatização dos currículos acadêmicos.

Enquanto uns tentam entender a nova realidade a partir de experiências em campo, em especial na redescoberta do papel das pessoas na produção de notícias, outros se preocupam em definir e regulamentar algo que está reconhecidamente em processo de transição. O nosso grande desafio hoje é identificar o novo contexto da produção jornalística e não o de tentar definir algo que pode estar ultrapassado dentro de meses.

A preocupação exploradora das universidades americanas no campo do jornalismo provavelmente busca desenvolver estratégias editoriais para resolver os agudos problemas da imprensa local e depois exportá-las para o resto do mundo. Já no Brasil o empenho na discussão de normas e regulamentos talvez seja uma consequência da histórica dominação dos grandes conglomerados da imprensa brasileira sobre as faculdades de jornalismo, colocadas diante da opção de formar mão de obra para as redações ou produzir teóricos da comunicação.

Estamos perdendo uma oportunidade única de pesquisar a nova realidade comunicacional e informativa que está surgindo no Brasil sem a necessidade de grandes recursos financeiros. O ingrediente básico é o envolvimento com a comunidade, porque é aí que podem ser identificados os novos rumos do jornalismo. As novas tecnologias nivelaram profissionais e praticantes do jornalismo ao permitir que ambos possam comprar os equipamentos básicos a preços toleráveis. O diferencial está na postura diante da realidade social.

As faculdades de jornalismo no Brasil parecem temerosas de abandonar a zona de conforto de uma atividade acadêmica voltada para dentro de si própria ou para as empresas patrocinadoras. O desafio está nas ruas e nas comunidades sociais porque é nesses locais que estão os dilemas urbanos, ao contrário do que sucedia até agora nas coberturas jornalísticas com a predominância das fontes oficiais e os especialistas como interpretes da realidade que nos cerca.

Nos anos 1970-80, a ideia de jornalismo cívico não prosperou nos Estados Unidos porque estava ligada às campanhas eleitorais visando reduzir a apatia e abstenção, e preconizava o abandono do tradicional princípio da isenção jornalística diante de problemas sociais. Nos demais países a proposta não vingou porque esbarrou nos preconceitos ideológicos da, então vigente, dicotomia entre capitalismo e comunismo.

Quase 40 anos depois, o jornalismo cívico em estudo na Universidade de Oregon não parte mais de uma preocupação eleitoral, mas sim da visão de que é necessário desenvolver uma nova narrativa jornalística baseada na interatividade entre profissionais ou praticantes de atos jornalísticos e o público. O tão badalado “engajamento comunitário” é hoje um grande desafio para os pesquisadores americanos, que veem no relacionamento com o público também uma possibilidade de identificar novas estratégias de sustentabilidade econômica.

Jornalistas espanhóis apostam na web para fugir do desemprego

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Nos últimos dois anos surgiram na Espanha cerca de 300 novas páginas jornalísticas online formadas por profissionais que foram levados ao desemprego pelo drástico enxugamento das redações de grandes jornais como El MundoEl País e La Vanguardia. A opção ainda não pode ser considerada uma solução definitiva para o desemprego no setor jornalístico da Espanha, mas sinaliza o papel que a Web exerce na consolidação de um segmento noticioso alternativo em relação à imprensa convencional.

A inesperada ascensão de páginas como El Confidencial (conservadora) e El Diario (centro-esquerda) coincidiu com a perda de qualidade editorial dos três grandes da imprensa espanhola, obrigados a demitir jornalistas, inclusive editores experientes, para reduzir despesas e lograr renegociar dívidas bancárias. Alguns jornais passaram a ser controlados por bancos que impuseram controles sobre o teor das notícias econômicas publicadas.

O desânimo de uns e a esperança de outros marcou uma reviravolta na imprensa espanhola cujas consequências ainda são imprevisíveis. Os empresários, políticos e governantes ainda mantêm-se fiéis aos jornais tradicionais, mas o público em geral inclina-se cada vez mais pela mídia online, não só pelo fato de que é gratuita, mas principalmente porque desperta mais interesse, conforme atestam especialistas na imprensa espanhola, como o professor Ramon Salaverría.

A segmentação do público consumidor de notícias jornalísticas ameaça as publicações tradicionais porque será muito difícil reconquistar leitores, ainda mais num ambiente marcado pela abundância noticiosa. A reversão de tendências não significa que os jornais impressos desaparecerão e nem que as empresas que os publicam fecharão as portas. Mas o que parece certo é que não haverá mais espaço para grandes conglomerados industriais no jornalismo.

Erros estratégicos passados e a avalancha informativa gerada pelo internet obrigaram as empresas jornalísticas a reduzir ao mínimo as suas margens de lucro para tentar sobreviver no ambiente digital. Não há mais condições para grandes redações e enormes máquinas administrativas. A sobrevivência agora implica pessoal reduzido, altamente qualificado e especializado. Mas não é só isso. A sobrevivência dos jornais tradicionais depende também de uma parceira como as novas iniciativas individuais ou comunitárias no jornalismo online, com as que estão se multiplicando na Espanha.

As empresas podem estabelecer relações bilaterais com profissionais independentes, muitos dos quais já publicam blogs que são reproduzidos em jornais como Globo, Folha de S.PauloEstado de S.PauloZero Hora e também no exterior, como The New York Times e The Washington Post. Por enquanto os jornais apenas hospedam blogs numa política de atrair leitores para a sua página Web, mas não vai demorar muito para surgirem parcerias na produção de matérias, especialmente em áreas do noticiário da cobertura local e internacional.

As parcerias podem ser uma opção natural para um duplo dilema. As empresas não têm mais receitas para serem autossuficientes em matéria de profissionais do jornalismo, enquanto os blogs e projetos noticiosos na Web ainda não encontraram, e talvez demorem a encontrar, uma solução para a subsistência econômica autônoma. Nenhum dos novos projetos online na Espanha alcançou, até agora, uma base econômica estável. Muitos não conseguirão sobreviver, mas cada insucesso será uma lição aprendida e uma potencial correção de erros.

Para que uma parceria desse tipo dê certo não basta apenas que ambas as partes estejam sem alternativas econômicas. São necessárias mudanças de comportamento e de valores. As empresas estão perdendo gradativamente o poder e a arrogância que tiveram, e muitas ainda têm, enquanto os exploradores do jornalismo online serão levados a desenvolver um novo relacionamento com as comunidades de informantes às quais estão ligados.

Os novos blogs jornalísticos espanhóis estão aprendendo, da forma mais dura possível, o preço da mudança de comportamentos e de valores. Para eles não se trata de uma aventura cibernética, mas da sobrevivência pura e simples. 

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