Código Aberto

A institucionalização do anonimato como fonte de notícias

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

O espantoso índice de seis bilhões de visitas mensais transformou o site norte-americano Whispers no foco de um intenso debate sobre o uso de informações anônimas para alimentar a pauta de notícias da imprensa. O site faz diariamente uma seleção do material que recebe e manda as postagens mais polêmicas e atrativas para jornais, revistas, emissoras de rádio e TV.

Whispers (“sussurros”, em português) é o mais bem sucedido caso de uma série de iniciativas similares como os sites Yik YakSecretWikileaks e SecureDrop. Todos usam estatísticas, fatos e eventos comunicados de forma anônima para jogá-los na arena da informação pública, concorrendo com a função jornalística.

Não é de hoje que o anonimato é um dos recursos mais usados pela imprensa, especialmente em grandes escândalos envolvendo autoridades públicas. Aqui no Brasil, todos os casos que mobilizaram a imprensa tupiniquim nos últimos dois anos contaram com a colaboração de informantes anônimos.

O sucesso do Whispers transformou o anonimato noticioso numa rotina e numa fonte de recursos, já que a avalancha de visitas é um atrativo irresistível para os anunciantes online. Trata-se de um fenômeno que radicaliza a mudança de padrões éticos e comportamentais gerada pela internet, porque o mundo das coisas privadas perde cada vez mais espaço no ambiente digital.

Os sites de informações anônimas atraem multidões porque expõem ao público dramas, sentimentos, projetos, neuroses e paranoias que até agora eram mantidas em sigilo por seus protagonistas por medo de represálias. O mesmo acontece com pessoas que por alguma razão foram contrariadas, punidas ou discriminadas em ambientes de trabalho, famílias, escolas ou organizações sociais e decidem “lavar a roupa suja” pela internet sem revelar nomes.

Esse tipo de comportamento também não é novo, mas ganhou uma relevância inédita por conta da multiplicação exponencial dos casos, graças às facilidades oferecidas pela internet. O outro fator inédito é a transformação do fluxo de segredos anônimos em fonte regular de suprimento de matéria prima para reportagens jornalísticas.

Segundo a American Journalism Review, quase todos os grandes jornais norte-americanos monitoram regularmente os sites de notícias anônimas em busca de inspiração para suas pautas diárias. Jornais como The Washington Post e The Guardian já incorporaram o aplicativo SecureDrop em suas versões online, como uma forma regular de captar rumores, boatos e fofocas.

O anonimato está deixando a área cinzenta do jornalismo para transformar-se numa ferramenta rotineira dos repórteres na era digital. O problema é que o uso deste tipo de material implica procedimentos complexos de verificação e checagem que podem levar semanas para serem completados. Nesses casos, o tempo desafia a ética profissional, já que a tentação de publicar algo sensacional, mas não checado, é grande demais para muitos jornais e jornalistas. Especialmente quando envolve políticos, governantes e empresários.

Como em muitas outras situações, a internet abriu novas oportunidades noticiosas para a imprensa, mas, em contrapartida, criou a necessidade de novos padrões de comportamento informativo, para evitar a generalização das difamações, desconstrução inescrupulosa da imagem pública de indivíduos e instituições, bem como danos irreversíveis à reputação pessoal.

A tentação do sensacionalismo e voyeurismo alimentada por sites como o Whispers vai exigir da imprensa uma espécie de pacto antifuro jornalístico, pois um veículo que publicar, sem verificação, um boato postado anonimamente na internet acabará servindo da pretexto para todos os demais adotarem atitude idêntica, alegando que o fato passou a ser de domínio público, especialmente quando o tema for político e em época de eleições.

Na atual cultura jornalística, ainda solidamente ancorada nos valores da imprensa analógica, um pacto como este é altamente improvável, porque a vontade de ser o primeiro a publicar ainda é mais forte do que a preocupação com as consequências da divulgação de um fato, dado ou evento não submetido à verificação prévia.

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P.S. – Este texto já havia sido inserido no Código Aberto quando o jornal britânico The Guardian publicou uma reportagem afirmando o site Whispers guardou dados de alguns usuários e os teria entregue ao Pentágono, nos Estados Unidos, violando o código de privacidade da empresa. A direção do Whispers, em Los Angeles, considerou falsos os dados publicados pelo jornal inglês, mas admitiu que colabora com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos num estudo sobre consequências de distúrbios mentais em ex-combatentes no Iraque e Afeganistão. 

A imprensa com funções de partido político

Postado por: Carlos Castilho | 5 comentários

Sempre que o país enfrenta uma conjuntura delicada no terreno econômico, social ou político, ou ainda durante campanhas eleitorais acirradas, a imprensa se transforma na principal arena de confronto entre posições antagônicas, deixando em segundo plano os debates parlamentares. 

Este fenômeno não é fruto de uma conjuntura específica, mas um processo estrutural cujos efeitos tendem a se prolongar. A origem está no fato de que a busca visibilidade pública por políticos e governantes como parte da preocupação com apoios eleitorais tornou-se mais importante do que a busca por soluções para os problemas nacionais.

Como a imprensa é a instituição mediadora entre a massa da população e os seus dirigentes políticos, ela, inevitavelmente, acabou se tornando mais importante do que a tribuna parlamentar para deputados e senadores. Com isso, os legisladores e governantes passaram a pautar suas ações mais pela forma como elas são transmitidas pela mídia jornalística do que pelo conteúdo do problema em debate.

Esta transferência de funções partidárias foi intensificada pela perda de identidade ideológica das diferentes siglas representadas no poder legislativo federal, estadual e municipal. A miríade de partidos brasileiros não representa hoje nada além do que estratégias de permanência ou conquista do poder, sem falar nos egos.

Esta “desidratação” de partidos políticos já ficou evidente para o eleitorado a ponto de no primeiro turno das eleições deste ano terem se registrado resultados como o do Maranhão, onde o governador eleito é do Partido Comunista Brasileiro enquanto o seu companheiro de chapa é de um partido conservador. Quem ainda tem uma vaga ideia do que foi o marxismo deve ter levado um susto quando o novo governador maranhense anunciou que dará “um choque de capitalismo” em sua gestão.

A descaracterização da atividade partidária no país deveria ter sido um processo tratado pela imprensa como tema de interesse público, mas aconteceu justamente o contrário. Em vez de assumir um papel crítico em relação à utilização dos meios de comunicação com substitutos das tribunas legislativas, os jornais, revistas, emissoras de rádio, telejornais e páginas noticiosas na Web transformaram-se em peças de estratégias de marketing político baseado na mídia de massa.

Esta alteração de prioridades foi facilitada pela mudança estrutural na ação partidária, mas teve também os seus atrativos econômicos, nem sempre visíveis. É preciso levar em conta que toda a imprensa vive hoje um momento de profunda incerteza financeira porque seu modelo de negócios está sendo implodido pelo uso da internet como plataforma de distribuição massiva de notícias de atualidade.

As receitas com publicidade e vendagem minguaram e o futuro é cada vez mais sombrio para a imprensa. Uma das estratégias adotadas pelos donos de conglomerados jornalísticos é procurar algum tipo de apoio financeiro estatal e este, obviamente, está condicionado a favores políticos. Neste ponto uniram-se a fome com a vontade de comer – e a imprensa assumiu plenamente uma função partidária complementar às estratégias de interesses oposicionistas e oficialistas. A imprensa assume assim o risco de envolver-se no mesmo mecanismo corruptor de troca de favores políticos por benefícios financeiros que está na origem dos escândalos do “mensalão” e da Petrobras.

É bom lembrar que o ódio da revista Veja em relação ao lulopetismo tem origem no fim de um milionário contrato de impressão de livros didáticos pela Editora Abril, determinado durante o governo do ex-presidente Lula. Coincidência ou não, foi a partir do fim desse privilégio que começaram as agruras orçamentárias da editora, cuja revista semanal de informações assumiu, sem muitos disfarces, a função de um partido político oposicionista.

A mudança do papel político de muitos órgãos da imprensa ainda não foi percebida pela maioria dos leitores, ouvintes e telespectadores que continuam sob a influência da herança cultural criada pela ideia de independência dos meios jornalísticos de comunicação. Mas o quadro está mudando rapidamente – como fica expresso nas pesquisas de credibilidade na imprensa, que registram uma queda continuada, apesar dos índices de confiança ainda serem mais elevados do que noutros países, como os Estados Unidos.

A função partidária da imprensa é um tema complexo que precisa ser discutido com intensidade principalmente pelos cidadãos, já que eles são os mais afetados pela mudança no papel dos meios de comunicação. Este texto nem de longe pretende ser definitivo porque não sou um especialista na questão. Ele precisa ser complementado com percepções diversificadas e mais aprofundadas, porque envolve muitas outras áreas de estudo. O tema é um desafio para os jornalistas e para os cientistas políticos. Por isso, ele deve ser visto como um convite para o início de uma troca de ideias que será longa e complexa

Guerra noticiosa na campanha eleitoral pode ser um tiro no pé

Postado por: Carlos Castilho | 7 comentários

O segundo turno das eleições presidenciais tem tudo para ser uma guerra entre governo e os três maiores jornais do país, cujas simpatias pela candidatura oposicionista ficaram expressas claramente já na campanha para o primeiro turno. 

Os antagonismos entre governantes e donos de jornais não é uma novidade na América Latina, um continente onde a inexpressividade dos partidos acabou fazendo com que a luta política deixasse de ser travada na arena parlamentar para acontecer no espaço midiático. Trata-se de um confronto entre quem manipula as finanças e os empregos públicos contra os que controlam o fluxo de informações para a população.

Aparentemente trata-se de um confronto desigual porque os governos têm a força militar, ma,s se levarmos em conta que as autoridades precisam do apoio da opinião pública para atender egos e projetos políticos, a luta na arena midiática tende a ser mais equilibrada, porque a imprensa sabe como manipular fatos, versões e dados em seu favor.

A radicalização do conflito de interesses entre governos e empresas de comunicação tem seus exemplos mais recentes nos casos da Venezuela, Equador e Argentina. A fragmentação e a perda de consistência ideológica levaram os partidos a transferir boa parte de sua função oposicionista para a imprensa conservadora. Esta, por seu lado, dissimula a sua ação político-partidária por meio do discurso de defesa da liberdade de expressão, um conceito que as páginas editoriais transformaram em arma ideológico-partidária sem qualquer vinculação com o exercício de um direito fundamental das pessoas.

Nos últimos anos tive a oportunidade de acompanhar de perto a radicalização da batalha midiática na Venezuela e Equador na qualidade de consultor de organizações preocupadas com o desarmamento ideológico, e pude verificar in loco como o processo acaba empurrando os dois lados para um beco sem saída.

Para enfrentar a manipulação de notícias por parte dos jornais oposicionistas, os governos de tendência populista têm grande dificuldade para escapar do autoritarismo, o que acaba minando a sua imagem interna e externa. A imprensa, por seu lado, recusa-se a aceitar a perda de privilégios, alguns deles francamente ilegais, confundindo intencionalmente liberdade de empresa com liberdade de expressão

Nas circunstâncias atuais, a posição da imprensa está fragilizada pela crise por que passam jornais, revistas e telejornais em consequência das mudanças provocadas pela internet no modelo tradicional de negócios no segmento. Em muitos casos, a agressividade antigovernamental é também uma cortina de fumaça para encobrir dificuldades financeiras.

A primeira consequência, fácil de avaliar, é a mútua perda de credibilidade. Os cidadãos acabam confusos diante do tiroteio informativo, com fatos e versões contraditórios que tendem a transformar o debate numa batalha quase pessoal, enquanto o público vai lentamente refluindo para uma atitude passiva.

descrédito cobra seu preço no médio prazo na imprensa porque o refluxo do público se materializa na redução da vendagem, que somada à inevitável queda da publicidade causada pelo instinto de sobrevivência dos anunciantes acaba solapando as bases financeiras de jornais, revistas e emissoras de radio ou televisão. A vulnerabilidade econômica da imprensa torna-se ainda mais letal nesta fase de transição de modelos analógicos para os digitais, quando tudo é incerteza.

Na Venezuela, no Equador e na Argentina os grandes grupos midiáticos perderam força diante do embate contra governos interessados em quebrar a histórica hegemonia de grupos midiáticos familiares. Empresas fecharam, como no Equador, ou estão sendo vendidas a outros grupos econômicos, como na Venezuela.

A agonia lenta e aparentemente irreversível dos grandes impérios jornalísticos em vários países latino-americanos deixará transitoriamente um vácuo informativo na população, porque a mão forte do governo, endurecida durante a batalha midiática, tende a preservar a centralização e o controle. É uma consequência da inércia gerencial e da incompreensão do papel da diversidade informativa no desenvolvimento de percepções e conhecimentos.

cegueira provocada pelo passionalismo político na batalha eleitoral tende a provocar prejuízos graves na imagem dos governantes, na estabilidade empresarial dos veículos de comunicação e também no público, que fica privado de uma informação confiável, diversificada e orientada para os seus interesses. 

Mobilidade informativa e as novas estratégias editoriais

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Os mais recentes estudos dos hábitos de acesso às notícias mostram uma preferência cada vez mais acentuada pelo uso de celulares inteligentes (smartphones) e tablets como veículos para informação pública. Um estudo da Associação Nacional de Jornais dos Estados Unidos (NAA, na sigla em inglês) mostrou um crescimento de 18% no uso de equipamentos móveis para acessar notícias, índice superior ao de todas as demais plataformas (impressos, rádio , telejornais e até mesmo o acesso via computadores fixos ou notebooks).

O resultado consolida a preocupação com a mudança dos padrões editoriais adotados pela maioria das empresas jornalísticas do mundo, inclusive a brasileira, que, apesar de não divulgar dados tão precisos como nos EUA, enfrenta o mesmo dilema. A tendência à atualização noticiosa com o uso de smartphones e tablets aumenta a urgência na definição de estratégias editoriais baseadas na prioridade dada à notícia dura (hard news) ou à contextualização interpretada.

Gera também a introdução de um item novo nos procedimentos de produção e publicação de notícias: o tempo de leitura, audição ou visualização. Até agora, o primeiro parágrafo de uma notícia escrita ou a primeira imagem concentravam a atenção dos editores de notícia porque eram considerados os grandes “ganchos” para chamar a atenção do público. Agora, sites como Medium e Slate começaram a publicar o tempo médio de leitura ou visualização num quadro próximo ao título principal. Com este dado, os editores online pretendem ajudar o leitor, ouvinte ou telespectador a achar novos nichos de tempo para acessar notícias.

A notícia dura é menos afetada pela questão tempo do que os conteúdos contextualizados publicados por páginas informativas online. A notícia dura é a principal matéria-prima jornalística dos equipamentos móveis por causa das limitações da tela de exibição e pelo fato de o usuário estar quase sempre fazendo outra coisa enquanto acesso um noticiário online. Se a notícia dura cumprir a sua função de levar o interessado a procurar mais dados sobre o tema noticiado, aí o tempo passa a ser um fator de estímulo ou desestímulo da leitura, audição ou visualização.

Os conteúdos contextualizados (informação) são o ponto forte das páginas online construídas pela leitura em computadores fixos, onde o usuário sofre menos a influência da divisão de atenções. Se ele tiver pouco tempo disponível, será atraído para a leitura de um texto curto, o que gera um outro dilema: como evitar que ele pare no meio a abandone tudo ou deixe de ver outras informações importantes, simplesmente pela pressa?

A preferência pela mobilidade informativa vai obrigar os jornalistas a acelerar a implantação da estrutura não linear que se caracteriza basicamente pela produção de blocos de dados relacionados a uma mesma notícia – e que serão acessados segundo os interesses e necessidades do usuário. Será uma forma de interligar o material publicado em smartphones e tablets com o inserido em páginas web acessadas preferencialmente por usuários de computadores fixos.

A formatação de uma notícia online deixa de ser feita a partir de padrões fixos estabelecidos em normas redacionais para tomar em conta, prioritariamente, o contexto do público. Isso muda a rotina nas redações porque o jornalista, ao escrever uma notícia, tem que ter um olho na relevância, atualidade, pertinência bem como na credibilidade do material a ser publicado, e o outro olho nos hábitos e comportamentos de quem vai ler. Nos jornais impressos e na televisão comercial isso não acontecia de uma forma tão intensa e constante.

Outra constatação da pesquisa revela que as mulheres são o grande fenômeno novo no acesso as notícias online. Nada menos que 92% das mulheres norte-americanas entre 25 e 34 anos acessam notícias por tablets e smartphones, formando o grupo etário com o crescimento mais rápido (38% ao ano) entre todos os analisados pelos pesquisadores. Trata-se de um fenômeno surpreendente porque o público feminino, especialmente as mulheres mais jovens, era pouco representativo na audiência global. 

A indústria da distorção da notícia assusta até os jornais

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A infiltração de interesses políticos e econômicos disfarçados de informação no noticiário jornalístico deixou de ser uma exceção para transformar-se numa regra que já preocupa até os grandes jornais e revistas como o The New York Times e The Economist.

A preocupação resulta do fato de que é cada vez mais difícil distinguir dados de interesse público de fatos, números e interpretações de interesse privado, o que compromete a credibilidade do noticiário e consequentemente o faturamento das empresas jornalísticas de todos os tipos e tamanhos.

Os mais novos protagonistas no esforço para moldar a opinião pública por meio de notícias apresentadas como jornalísticas são os chamados think tanks, expressão inglesa que poderia ser traduzida como grupos de estudo e pesquisa. Eles passaram a ocupar o lugar dos lobistas e dos chamados spin doctors, outra expressão inglesa muito usada no submundo da distorção informativa. Os spin doctors são especialistas em interpretar um dado de acordo com as conveniências de quem o contratou.

Os think tanks já existem há muito tempo e muitos deles surgiram associados a instituições acadêmicas, que lhes conferiram credibilidade e respeitabilidade. Mas com a intensificação da guerra pelo controle do noticiário, os grupos de pesquisa passaram a ser usados pelos lobistas para produzir estudos financiados por empresas e governos. Em alguns casos, os think tanks chegam até a contratar jornalistas para produzir reportagens e informes, também financiados por alguém, como é o caso de algumas organizações não governamentais como Save the Children e Oxfam.

O sistema funciona da seguinte maneira: a instituição recebe um financiamento para produzir um estudo analítico ou uma pesquisa sobre um tema de interesse do financiador; as conclusões do trabalho são levadas aos jornais, revistas e telejornais como material inédito e relacionado a algum tema de atualidade. A partir da publicação, as conclusões passam a ser citadas por políticos, empresários e governantes para justificar ou refutar alguma questão em debate no Parlamento.

Esta prática tornou-se tão comum que os próprios jornais começaram a tentar encontrar maneiras de reduzir o mercado de notícias sob encomenda. Há casos claros em que a empresa participa como cúmplice dessa estratégia de vender gato por lebre, mas aumentou enormemente o número de casos em que jornais e revistas são manipulados sem saber. Algumas publicações passaram a exigir que os autores de artigos de opinião declarem empregos e posições ocupadas anteriormente. Quando se trata de relatórios ou informes, discute-se a exigência de identificação de financiadores.

Só que isso é restrito a algumas poucas organizações jornalísticas, nos Estados Unidos e Europa. Aqui no Brasil o tema ainda é tabu na grande imprensa, embora algumas tímidas iniciativas de buscar mais transparência sobre a autoria tenham sido feitas pela Folha de S.Paulo. O grande obstáculo é a complexidade da questão porque a ocultação de interesses pode obrigar jornais, revistas e telejornais a publicarem extensas explicações bem como investigações trabalhosas sobre o que está embutido numa reportagem ou notícia. Os executivos da imprensa reclamam muito do alto custo e do escasso beneficio imediato desta busca pela credibilidade por meio da transparência da autoria.

Agora o pobre do leitor passa a ter que avaliar não apenas o conteúdo da informação, mas também o seu autor, o que complica ainda mais a já difícil tarefa de separar o joio do trigo no dia a dia do noticiário. Isto reforça a necessidade de o público desenvolver o hábito da leitura crítica, algo que o Observatorio da Imprensa vem promovendo há 18 anos. Como o tempo disponível pela maioria das pessoas é limitado, não há outro jeito senão apelar para o compartilhamento de leituras críticas, por meio de redes sociais, o que pode gerar a formação de comunidades de informação.

Alguns jornais começam também a avaliar a possibilidade de incluir informações de leitores na composição da ficha sobre autorias, interessados e financiadores de estudos e pesquisas, mas segundo o editor chefe do britânico The Guardian isso só poderá ser feito em casos específicos porque é inviável para todas as notícias e reportagens publicadas pelo jornal. Outra possibilidade é a colaboração entre órgãos da imprensa para reduzir a distorção e o viés nas notícias, dados e estudos. Mas isso esbarra na tradicional autossuficiência de empresas.

O resultado é que entramos decididamente na era da complexidade noticiosa, onde o hábito de ler jornais, ouvir noticiários radiofônicos ou assistir a telejornais deixa de ser algo simples e prazeroso para ser uma tarefa árdua e muitas vezes frustrante. Basta ver o que acontece hoje com o noticiário sobre a campanha eleitoral brasileira.

P.S. Gostaria de recomendar a leitura dos dois comentários do colega José Antonio Meira da Rocha. Ele menciona o caso de uma organização brasileira envolvida  em práticas idênticas às mencionadas no texto. C.C. 

Jornalismo e democracia, uma nova relação na era digital

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Bastião da democracia, patrulheiro do governo, formador de bons cidadãos, defensor do interesse público. Os leitores de jornais estão acostumados com estas definições, ou caracterizações da atividade jornalística, repetidas constantemente tanto pelos donos de empresas como por teóricos da comunicação. Mas estes conceitos estão começando a mudar.

Em 1995, James Carey, um dos ícones da cultura jornalística norte-americana afirmou: “O jornalismo é um sinônimo de democracia, ou, noutras palavras, você não pode ter jornalismo sem democracia” [extraído do texto “Where journalism education went wrong”, de James Carey, disponível aqui]. A frase de Carey, um dos pioneiros no estudo da relação entre jornalismo, comunicação e cultura, acabou se transformando na base de uma percepção do jornalismo como um componente do contexto político institucional, desde o início do século 20.

A associação entre jornalismo e democracia foi triplamente útil. Aos donos de empresas, porque ofereceu uma justificativa ideológica para seu negócio. Para os profissionais, um escudo ético para o seu quotidiano, enquanto os pesquisadores acadêmicos passaram a buscar uma resposta para o dilema: “Qual o grau de democracia necessário para o exercício do jornalismo?”

Estudos citados pela pesquisadora australiana Beate Josephi, em seu artigo “How much Democracy Needs Journalism?”, contestam a afirmação de que o jornalismo só poderia existir em países em plenamente democráticos. Um dado numérico contradiz também o suposto cordão umbilical entre a democracia e o jornalismo. Segundo um informe da Associação Mundial de Jornais (World Association of Newspapers), a imprensa cresceu mais em países onde a entidade aponta restrições ao fluxo de informações, como os situados na Ásia e na África. [No informe divulgado em 2010, com base em dados do período 2004/2009, a imprensa asiática, em especial a chinesa e a indiana, cresceu 30%, enquanto nos EUA e Europa a queda foi de respectivamente 10,6% e 7,9%.]

O paradoxo indica que mesmo com limitações impostas por governos, castas, empresas ou grupos políticos, o jornalismo é capaz não apenas de sobreviver como de crescer em circunstâncias adversas. Mostra também que a hegemonia da cultura informativa ocidental está cedendo terreno a outras culturas como parte da globalização noticiosa. E deixa transparente a defasagem nos processos de transição da era analógica para a digital na base social de países ricos, pobres e em desenvolvimento.

A prova talvez mais evidente da quebra dos paradigmas de associação entre jornalismo e democracia é o caso da rede de televisão árabe Al Jazeera, um dos fenômenos mais controvertidos na comunicação mundial. A rede registra um surpreendente crescimento para públicos muito diferentes, inclusive o norte-americano, mesmo sendo controlada por um governo conservador e que restringe o livre fluxo de informações domésticas no emirado do Catar.

A ideia central por trás da associação entre democracia e jornalismo é a de que a função da imprensa é formar cidadãos capazes de fazer o sistema político funcionar eficientemente. Esta ideia está perdendo o seu caráter hegemônico na medida em que as novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) conferiram relevância crescente à produção de conhecimento como elemento-chave para o desenvolvimento social, econômico e político.

O novo parâmetro não é mais prioritariamente o funcionamento de um sistema político, mas a forma como o jornalismo contribui para a produção de conhecimento socialmente relevante por meio da diversificação de dados, percepções e informações. A política não deixará de existir, mas ela cumprirá uma função mais relacionada à comunicação interpessoal do que ao exercício do poder.

Trata-se de uma mudança de paradigmas que está ainda em fase incipiente, mas que promete muita discussão em todos os níveis. A liberdade no fluxo de informações já não é mais apenas uma reivindicação libertária, mas passa a ser também uma exigência econômica para a produção de conhecimento voltado para a inovação tecnológica.

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