Código Aberto

O direito de esquecer e o direito de saber

Postado por: Carlos Castilho | 2 comentários

A grande imprensa mundial mantém um intrigante silêncio sobre a decisão da justiça europeia de conceder a indivíduos o direito de exigir que os sistemas de buscas na internet eliminem de seus bancos de dados páginas cujo conteúdo possa ser considerado desonroso pelo envolvido.

Apenas o jornal inglês The Guardian tem dado cobertura ao tema que afeta diretamente todas as empresas que trabalham com indexação de documentos para fins de buscas na internet. Só a empresa Google já recebeu 70 mil solicitações de pessoas que não concordam com o teor de notícias, documentos e imagens publicadas a seu respeito e indexadas em bancos de dados dos sistemas de buscas.

O silêncio da imprensa pode ser motivado pela complexidade do tema, mas muito provavelmente é determinado pelo complicado dilema de ter que optar entre dois “direitos”: o de esquecer e de saber. O jornalismo acabou caindo na armadilha criada pela questão da transparência informativa na internet e agora está sendo obrigado a fazer uma escolha difícil.

Se aceitar a decisão judicial tomada com base em códigos, em sua maioria, elaborados antes da existência da internet, a imprensa terá que fazer um expurgo em seus arquivos e – o que é mais grave – terá que avaliar, antes de publicação, a possibilidade de sofrer represálias por parte de pessoas ou empresas mencionadas em reportagens. Isso equivale a uma opção entre a autocensura e a censura por parte dos tribunais que aceitarem o princípio da decisão europeia.

A imprensa sempre utilizou o argumento da liberdade de informação para combater interferências governamentais e privadas na sua atividade informativa. Na maioria dos casos, a liberdade de informação foi usada para defender privilégios corporativistas mas, como principio, era uma salvaguarda contra tentativas de submeter o noticiário a interesses setoriais em prejuízo do interesse dos cidadãos.

Sob o pretexto de evitar danos à imagem pessoal ou institucional por conta de supostos erros jornalísticos, qualquer pessoa ou instituição pode agora impor um veto não apenas a referências atuais a documentos e notícias considerados difamatórios, como também exigir o expurgo do material questionado em bancos de dados para evitar que ele seja recuperado em buscas futuras.

O silêncio da imprensa mundial é intrigante porque a decisão da justiça europeia bate de frente com tudo aquilo que os jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão defendiam até agora em materia de liberdade de publicação de notícias. Caso não seja encontrada uma solução para o problema, a imprensa estará colocada num beco sem saída.

Mas o problema afeta também a nós, consumidores de notícias. Mais cedo ou mais tarde teremos que escolher entre aceitar muros que protejam a nossa privacidade, mas impedem que nossos hábitos, comportamentos e conhecimentos sirvam para aumentar o capital social das comunidades onde vivemos, ou aceitar viver no que poderia se comparado a uma casa de vidro. Esta opção, que já é real, nos obrigará a rever valores, comportamentos e crenças vigentes há séculos.

Se o direito ao esquecimento prevalecer sobre o direito de saber, nós cidadãos poderemos ficar privados de dados e informações essenciais para tomar decisões que afetam nossas próprias vidas e as comunidades onde vivemos. Sem falar que a imprensa ficará restrita a publicar o que lhe é permitido em vez de funcionar como um serviço de utilidade social, imune a interesses particulares.

A decisão da justiça europeia se insere no contexto do conflito global entre uma ordem jurídica baseada na hegemonia dos valores e comportamentos da sociedade industrial e a emergente realidade social, econômica, política e jurídica da era digital. Os conservadores tentam impor a ideia de que o conflito é uma guerra com vencidos e vencedores, quando na verdade tudo indica que haverá uma convivência, às vezes conflitante, entre a cultura industrial/individualista/hierárquica e a digital/colaborativa/descentralizada. 

O público dá olé na imprensa durante a Copa

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

O rescaldo da Copa mostra dois fenômenos indiretamente relacionados ao futebol e que nos obrigam a refletir sobre eles devido a suas consequências futuras. Ambos têm a ver com o papel da imprensa na nossa sociedade e estão relacionados. O primeiro foi a decisão da imprensa de criar uma percepção negativa entre os brasileiros sobre a Copa, e o segundo fenômeno mostrou como a  população ignorou o fantasma do caos e transformou o Mundial numa grande festa, que chamou a atenção da imprensa internacional e de 600 mil turistas estrangeiros.

O balanço da Copa mostrou que a imprensa não consegue condicionar atitudes do público quando ela ignora o que as pessoas sentem e pensam. No caso da estratégia do caos anunciado, a imprensa fez uma leitura errada das percepções do público porque estava determinada a impor uma derrota ao Partido dos Trabalhadores, nas eleições presidenciais de outubro. Colocou alianças ideológicas e financeiras acima da sua função social de oferecer aos cidadãos dados e informações para que eles possam tomar decisões de acordo com seus interesses e necessidades.

O fracasso da estratégia da imprensa é preocupante porque abala ainda mais a sua credibilidade junto aos brasileiros, num momento em que as empresas jornalisticas, mais do que nunca, precisam da confiança do público para sobreviver. A internet está cheia de pesquisas e teses mostrando que a sobrevivência dos jornais depende do surgimento de uma nova relação com os leitores, e que esta relação está diretamente ligada à oferta de conteúdos adequados às mudanças de comportamento em curso entre os consumidores de noticias e informações.

O que a imprensa brasileira fez no período pré-Copa foi recorrer a velhas estratégias baseadas em alianças partidárias que colocam o interesse de empresários e candidatos acima da realidade concreta na sociedade. A obsessão em derrotar o PT, em especial o ex-presidente Lula, pode até funcionar nas eleições de outubro, mas seu efeito pode acabar sendo reduzido pelo dano causado na confiança do público na imprensa.

Olhando pelo lado da audiência, a festa da Copa revelou um surpreendente comportamento que desprezou os prognósticos assustadores alimentados pelos jornais e pela televisão, e que acabaram inspirando a frase/hashtag “Imagina na Copa”. O público ignorou as preocupações da imprensa e nem mesmo o fracasso da seleção brasileira foi suficientemente forte para provocar explosões de revolta e descontentamento, salvo a inexpressiva vaia à presidente Dilma na partida final. Para a grande maioria dos brasileiros, a Copa foi o pretexto para uma festa, ao contrário do marketing de muitos patrocinadores que pintaram o evento como uma batalha patriótica.

A população mostrou uma maturidade política muito maior do que a da imprensa e até mesmo das autoridades. Os protestos de rua foram limitados e quase caricaturais, ao contrário do quadro aterrorizador montado pela imprensa antes da Copa. As pessoas mostraram que sabem separar o que desejam daquilo que a imprensa propõe. Em edições anteriores da Copa, a imprensa era o grande veículo para circulação de informações. Agora, ela passou a um segundo plano diante da massiva utilização das redes sociais como canal de comunicação entre as pessoas.

Milhões de brasileiros, especialmente os com menos de 30 anos, viram os jogos pela TV (sem som), mas conectados no Facebook  para trocar informações e opiniões com amigos, parentes, colegas de trabalho e quem tivesse vontade de conversar. (Ver texto Redes sociais bateram recorde de interações durante a partida).

A rápida evolução do comportamento do público neste início de era digital deve preocupar, e muito, a quem tem a responsabilidade de dirigir um veículo de comunicação impresso ou audiovisual. As empresas  jornalísticas arcam com o peso da herança de equipamentos analógicos, como rotativas e sistemas de distribuição que não produzem mais os lucros de antigamente. Mas, apesar disto, adotam uma postura olímpica diante das novas tendências no comportamento das pessoas em relação à noticia e à informação, preferindo seguir rotinas convencionais, mesmo sabendo que é o público que atrai os anunciantes.

Os jornais e a televisão devem ter faturado bastante durante a bolha publicitária da Copa do Mundo. Mas esta receita adicional, providencial em tempos de crise, pode acabar sendo parcialmente anulada pela perda de leitores, espectadores e ouvintes em consequência de estratégias editoriais equivocadas, como a do fantasma do caos durante os jogos. 

A estratégia da socialização da vergonha nacional

Postado por: Carlos Castilho | 4 comentários

A goleada histórica sofrida no Mineirão talvez acabe mostrando que o improvável também pode acontecer fora do futebol. Terminada a partida contra a Alemanha, os comentaristas políticos na imprensa brasileira começaram a especular sobre as possíveis consequências eleitorais após o fracasso da equipe de Felipão.

As principais manchetes dos jornais brasileiros no dia seguinte ao adiamento do sonho do hexa batiam na tecla da vergonha nacional. Destacar um sentimento como este equivale a transformar todos os brasileiros em protagonistas de um fracasso, que na verdade foi basicamente da equipe técnica e cartolas da CBF, dos jogadores, das empresas que esperavam faturar muito, dos publicitários e executivos da mídia que levaram quase 200 milhões de brasileiros a dar como certa a conquista de uma sexta estrela na camiseta verde e amarela.

Socializar a vergonha e humilhação gera inevitavelmente acessos de mau humor e irritação que seguramente contaminarão o estado de espírito dos brasileiros nos próximos dois meses, justamente o período pré-eleitoral. Antes da Copa do Mundo, a imprensa se esmerou na tentativa de criar um clima de pessimismo diante da perspectiva de um caos materializado na expressão “Imagina na Copa” .

O pessimismo construído pela imprensa em torno da organização da Copa não contaminou a atuação de repórteres e comentaristas na cobertura dos preparativos da seleção. A equipe de Felipão foi blindada pela imprensa até o jogo contra a Alemanha. Mas o caos previsto pelos seguidores do espírito "Imagina na Copa" acabou não acontecendo. O Mundial acabou se transformando numa grande festa elogiada em todo o mundo, o que contribuiu para elevar a autoestima e o astral dos brasileiros.

Os sete gols sofridos no jogo da Alemanha provocaram uma reviravolta nesta situação. Os principais jornais brasileiros e a TV Globo abandonaram a cumplicidade com a equipe técnica da CBF ao mesmo tempo em que passaram a usar o argumento da humilhação para acabar com o efêmero bom humor do inicio da Copa. Esta não foi a única vez que fracassamos numa Copa do Mundo, mas é inegavelmente a primeira em que houve tamanha mobilização da opinião pública neste tipo de evento.

Até os mais remotos rincões do Brasil foram incorporados ao marketing massivo de empresas como a Ambev, que deslocou telões por mais de 700 vilarejos do interior para que as pessoas vissem os jogos do Brasil, sob o slogan “Onde tem Brasil tem Copa. E onde tem Copa tem que ter festa”.

Vamos começar a campanha eleitoral sob o estigma da baixa estima e da frustração, o que seguramente criará o caldo de cultivo para cobranças e protestos. Mensagens no Facebook logo depois da tragédia do Mineirão eram inequívocas: “Mas o pior ainda vem por aí. A campanha eleitoral”, dizia uma mensagem postada horas depois do fim do jogo.

Num clima como este, a corrida eleitoral passa a ser uma incógnita. A vantagem da presidente Dilma nas pesquisas de intenção de voto, que parecia sólida, pode virar fumaça, porque estamos numa era onde as convicções pessoais mudam ao sabor do conteúdo de mensagens na internet.

Derrotar a presidente Dilma não vai mudar quase nada na política brasileira, porque os políticos hoje se diferenciam mais pelo marketing do que pelos projetos. Nas promessas eleitorais eles podem até ser diferentes, mas, uma vez empossados, acabam todos rezando pela mesma cartilha, porque a estrutura da maquina burocrática estatal e da economia do país é muito mais forte do que a ideologia dos partidos.

Mas a catarse dos eleitores humilhados pode fazer com que o improvável e tido como inevitável aconteça também fora dos estádios. Esta é mais ou menos a mensagem que a imprensa está transmitindo à opinião pública nacional, como pode ser visto nos principais editoriais e análises de comentaristas políticos nos dias seguintes à goleada do Mineirão. 

Imprensa ‘morde e assopra’ o governo Dilma

Postado por: Carlos Castilho | 6 comentários

A imprensa parece ter-se dado conta da inevitabilidade da reeleição da presidente Dilma Rousseff e começou a mudar o tratamento dado à candidata do Partido dos Trabalhadores. Como aconteceu várias vezes no passado, principalmente na eleição e reeleição do ex-presidente Lula, a imprensa primeiro ecoou todos os temores e prognósticos pessimistas de políticos contrários ao PT, mas, depois da eleição do ex-líder metalúrgico, as manchetes mudaram radicalmente de tom. (P.S.  Este texto foi postado antes da derrota da seleção para a Alemanha. Depois disto a situação tornou-se imprevisivel como mostra o texto mais recente  Socialização da Vergonha...)

É uma estratégia usual de primeiro tentar evitar a vitória de concepções ideológicas contrárias aos interesses do cartel de empresas jornalísticas, mas quando isso não dá certo a rotina é mudar de estratégia porque, afinal de contas, o governo ainda é um dos principais anunciantes e contar com a publicidade oficial pode significar um sopro de vida para muitos jornais e emissoras de rádio ou TV, principalmente nos tempos bicudos que a imprensa vive atualmente.

A mudança de estratégia da imprensa é o resultado do jogo por influência política e seu inevitável corolário financeiro. Neste jogo a manipulação de percepções é a principal arma. Antes da Copa do Mundo, a imprensa se esmerou em criar no público brasileiro a ideia de que o torneio ia ser um fracasso porque o governo como um todo era ineficiente e corrupto.

É importante ter sempre em vista que o que a imprensa diz não é a expressão pura e acabada da verdade, mas sim a percepção daquilo que ela acha ser a verdade. A ciência já se cansou de provar que não existem verdades absolutas e sim percepções, ou formas de ver a verdade segundo a história, contexto, cultura e interesses da cada pessoa ou organização.

A estratégia de inculcar no leitor, ouvinte, telespectador e internauta a ideia de que a Copa não ia dar certo por culpa do governo, sempre foi intrinsecamente equivocada. Quem parasse um minuto para pensar, perceberia que a FIFA, que investiu bilhões de dólares no negócio do Mundial, não iria aceitar passivamente que o evento virasse um fiasco só porque os partidos de oposição no Brasil queriam faturar eleitoralmente uma humilhação do partido no poder.

Por erro de avaliação política, a imprensa comprou uma estratégia errada por puro interesse político-financeiro. Ela percebeu que havia dado um tiro no pé depois que a vaia ensaiada contra a presidente no jogo de abertura da Copa gerou mais críticas do que aplausos na opinião pública. Foi quando começou a ficar claro que os torcedores nacionais e estrangeiros transformaram o negócio da Copa numa grande festa. As esperadas manifestações de protesto foram relegadas ao esquecimento e ao ridículo justamente porque também estavam enquadradas na estratégia do quanto pior melhor.

O tratamento dado pela imprensa aos resultados da pesquisa do Datafolha divulgada na quarta-feira (2/7) já incorporou a fase “assopra”, depois das ”mordidas” do noticiário no governo Dilma. O apoio popular à Copa subiu, mesmo depois de todas as denúncias de superfaturamento e descontrole financeiro nas obras. A rejeição às vaias à presidente atingiu 76% dos eleitores consultados pelo Datafolha e os colunistas políticos globais passaram a afirmar candidamente que a “Copa ajudou Dilma”.

A imprensa tem todo o direito de mudar de estratégia em relação ao governo. Não há nada de errado nisso. O questionamento ético está no fato de ela adotar num novo posicionamento sem dizer claramente ao público por que mudou de posição. Afinal, muitos leitores, ouvintes, telespectadores e internautas ainda consideram a imprensa como uma referência em questões políticas, econômicas, sociais e culturais. Não justificar uma mudança de postura, procurar disfarçá-la ou ocultá-la para evitar explicações, é o mesmo que enganar quem ainda acredita na imprensa.

Este comportamento repetitivo e oportunista é que está minando a credibilidade da imprensa justo no momento em que ela mais precisa do apoio do público para superar os problemas financeiros gerados pela transição do modelo de negócios para a era digital. 

‘The New York Times’ desativa blogs e abre polêmica

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

O New York Times está desativando a maioria dos seus quase 40 blogs publicados regularmente, numa atitude que está sendo considerada uma importante e polêmica reviravolta na estratégia editorial do jornal.

Times não explicou claramente os motivos do fechamento de blogs – como o The Lede (sobre noticiário político) e Green (sobre ecologia) – e nem adiantou se, no médio prazo, todos serão extintos ou não. Só garantiu que a maioria será desativada, dando sequência a um processo iniciado em 2012.

A decisão do jornal reabre a velha discussão entre adeptos e críticos da prática do jornalismo no formato blog. Quando este tipo de plataforma surgiu na Web, entre 1997 e 1999, ele foi logo adotado pelos jovens e recebido com desconfiança pelos jornalistas. Depois da virada do século, vários profissionais começaram a publicar blogs pessoais surgindo questionamentos sobre a compatibilidade deste tipo de iniciativa com a prática do jornalismo. 

Não houve um consenso, mas a partir de 2010 quase todos os grandes jornais mundiais aderiram à onda dos blogs numa tentativa de atrair leitores mais jovens, pouco acostumados ao formato rígido do noticiário impresso. O Globo foi o jornal brasileiro que mais blogs criou (quase 50) enquanto o New York Times chegou a ter 48.

Apesar do hermetismo do Times sobre as razões para o abandono dos blogs como uma estratégia editorial, os comentários que circulam nos meios jornalísticos norte-americanos apontam a verdadeira causa como sendo conflitos de personalidades e de propostas editoriais.

Vários autores de blogs no NYT passaram a ter um protagonismo pessoal na medida em que se relacionam diretamente com os leitores. Isso teria gerado ciúmes e também o temor de perda de controle editorial, algo que os executivos de jornais impressos prezam acima de tudo.

Mas o que parece ser a razão principal é o aprofundamento do conflito entre duas culturas jornalísticas na redação do Times. De um lado estão os adeptos da formatação convencional numa publicação impressa diária, privilegiando a abordagem definida como impessoal, objetiva e imparcial. Do outro, os que defendem a narrativa jornalística estilo blog, mais informal, personalizada e mais propensa à opinião do que à imparcialidade e objetividade.

Se o problema editorial foi realmente o mais decisivo na mudança de orientação do Times, a questão deixa de ser exclusiva de uma publicação para afetar a todo segmento de jornais impressos que publicam blogs. A reavaliação do papel dos blogs dentro de uma estratégia editorial poderia sinalizar uma separação mais nítida entre a ideia do jornalismo de um para muitos (a modalidade convencional) e o jornalismo do tipo muitos para muitos (a modalidade interativa, da qual os blogs fazem parte).

Por envolver aspetos culturais, o problema dos blogs num jornal não pode ser visto apenas pelo lado administrativo (custo/beneficio) e nem só pelo ângulo tecnológico (qual o melhor software). Há valores profissionais em jogo e principalmente percepções sobre como o jornalismo deve ser praticado na era digital. 

Leia também

Leitores reclamam por fim de blog sobre mortes por arma de fogo

O maior desafio do jornalismo no início da era digital

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

A relação com os leitores, ouvintes, telespectadores e internautas passou a ser o principal objetivo estratégico em grandes empresas jornalísticas em luta pela sobrevivência no disputado mercado da audiência em jornais, revistas, telejornalismo audiovisual e páginas web de noticiário. É que as empresas já se deram conta de que não é mais viável apoiar o modelo de negócios apenas nas receitas publicitárias.

O novo objetivo marca também uma guinada radical na estratégia editorial dos veículos porque a busca de fidelização inevitavelmente implica a necessidade de retribuição, ou seja, a prestação de algum tipo de serviço. Até agora a imprensa usava a notícia com moeda de troca, mas esta matéria-prima se tornou tão abundante e onipresente que o seu preço despencou, tendendo a zero.

O relacionamento com o público, ou o engajamento comunitário (expressão traduzida do jargão inglês community engagement) é um desafio há pelo menos quatro anos para a maioria das páginas noticiosas online preocupadas em sobreviver na concorrência brutal entre projetos muito parecidos. O grande obstáculo sempre foi a questão dos comentários postados por leitores, uma forma de dar participação do público mas que funciona como uma faca de dois gumes, dada à forte incidência de intervenções agressivas, irresponsáveis e xenófobas.

Para obter a fidelização do público, por enquanto as empresas dependem de duas estratégias principais: oferecer serviços de interesse e utilidade para sua clientela ou admitir participação por meio de comentários. A prestação de serviços esbarra na relação custo/benefício, embora já existam várias experiências em curso, especialmente nos Estados Unidos. Mas a questão dos comentários ainda provoca discussões agudas nas redações.

Há duas linhas predominantes no que se refere à participação do público: a humanizada e a baseada em algoritmos. A humanizada pressupõe a mediação de jornalistas profissionais visando a formação de comunidades de leitores, ouvintes, telespectadores ou internautas por meio da troca de opiniões e dados sobre temas de atualidade. A experiência mostrou que o processo mediado é o mais eficiente em termos de fidelização, mas é de médio e longo prazo, além de exigir a especialização de um ou mais jornalistas.

O uso de softwares baseados em algoritmos é a opção preferida de quem busca resultados rápidos e com pouco envolvimento das redações. É o objetivo do projeto que acaba de ser anunciado pelos jornais norte-americanos The Washington Post e The New York Times, em parceria com a empresa Mozilla, criadora do navegador Firefox (ver, neste Observatório, “Jornalões se unem para melhorar sistema de comentários online”). O projeto conta com um financiamento de 3,9 milhões de dólares que serão gastos no desenvolvimento de uma plataforma gerenciadora de comentários, usando processos analíticos e de linguagem natural para selecionar as contribuições relevantes e eliminar os comentários agressivos, xenófobos e/ou contenham dados falsos.

O acordo entre o Post e o Times é original não apenas pelo fato de buscar uma solução tecnológica para uma questão de fundo social, psicológico e político, mas também porque marca uma inédita colaboração entre empresas concorrentes. Se dependesse apenas dos dois jornais, provavelmente a experiência não aconteceria dada a rivalidade passada, mas como ambos enfrentam agruras financeiras decorrentes da queda da receita publicitária, o financiamento por parte de uma fundação norte-americana funcionou como eliminador de velhas desconfianças.

O certo é que o relacionamento com a audiência passou definitivamente para os primeiros lugares na estratégia de sobrevivência das empresas jornalísticas. Após mais de um século de olímpico distanciamento em relação ao público, as corporações do setor da comunicação estão sendo obrigadas a rever modelos em consequência da generalização do uso das novas tecnologias de comunicação e informação. Não é uma mudança simples de rumo e os conflitos culturais da nova orientação mal começaram a ser identificados.

O grande desafio é como os jornalistas e executivos de jornais aceitarão um diálogo em pé de igualdade com o público. A imprensa sempre assumiu um certo ar de superioridade em relação aos leitores, ouvintes, telespectadores e internautas. Era uma comunicação unidirecional e hierárquica. A nova realidade digital está empurrando as redações para uma relação multidirecional e igualitária, que obriga os profissionais a ter que lidar com o ressentimento de uma parcela considerável do público. A experiência tem mostrado que isso exige paciência, tolerância, persistência e, principalmente, muita informação.

Multidirecional porque as redes sociais implantaram o sistema “muitos-para-muitos” ao descentralizar o tráfego de mensagens escritas, sonoras e visuais. Antes era um jornalista respondendo para muitos leitores, uma mesma carta. Agora os leitores tendem a ocupar os espaços e discutem entre si, independente do que propõe o jornalista ou o veículo de comunicação. Muitos comentaristas já se consideram donos dos espaços para reações do público.

Um sistema igualitário de comunicação porque o jornalista não pode mais dar conta sozinho da filtragem, seleção, agregação de valor e distribuição da massa de dados que passou a compor o fluxo diário de notícias. Os profissionais precisam da colaboração do público e, para que isso aconteça, é necessário um ambiente de parceria entre iguais, com responsabilidades, habilidades e competências diferentes.

A experiência tem mostrado também que o grande problema no chamado engajamento comunitário do jornalismo digital não é a tecnologia, embora ela seja um componente importante e indispensável. A questão crucial está no problema cultural, porque este depende de seres humanos, cuja adaptação às consequências da introdução de novas tecnologias é historicamente um processo complexo, lento e imprevisível. Este é talvez o maior de todos os dilemas do jornalismo do século 21.

Página 1 de 140, mostrando 6 registros no total de 840 registros.

<< anterior 123456789

Voltar