Código Aberto

Jornalistas na faculdade, professores na redação

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

Esta pode ser a saída para um problema que já era grande antes da internet e aumentou ainda mais de intensidade na era digital. Academia e redações sempre tiveram uma relação tensa por conta de prioridades diferentes na forma de encarar o exercício do jornalismo. Agora, a crise no modelo de negócios das empresas jornalísticas e a preocupação dos profissionais em encontrar alternativas para o enxugamento das redações criaram uma situação em que a academia e as redações estão condenadas a buscar um novo relacionamento.

O programa “Back to Newsroom” (De Volta às Redações) é uma das raras experiências em curso no mundo da comunicação onde a meta é dar aos professores de jornalismo a oportunidade de conviver durante algum tempo com a dinâmica das redações na era digital. O projeto é uma iniciativa do International Center for Journalists (Centro Internacional de Jornalistas) e tem como objetivo, além da troca de experiências e perspectivas profissionais, buscar estratégias para ampliar a diversidade étnica e cultural nas redações norte-americanas.

Alguns professores que participaram das primeiras turmas do “De Volta às Redações admitiram que há uma grande defasagem entre o que é ensinado nas faculdades e o que é praticado nas redações em matéria de jornalismo em ambiente digital. Embora, por exemplo, o discurso da convergência de plataformas seja consensual nas faculdades, ele assume outra perspectiva na prática das redações. A maioria dos cursos ensina os alunos a usar o vídeo segundo técnicas da televisão e não conforme as condições para aplicação em telas pequenas como tablets e celulares.

Mas o retorno às redações pode ir muito além das questões técnicas na nova realidade digital do jornalismo. E a principal delas está na discussão das mudanças no contexto social, econômico e cultural no qual está inserido o jornalismo praticado na internet. Há um enorme descompasso entre as universidades e as redações na forma de encarar o jornalismo dentro da chamada sociedade da informação e do conhecimento. A academia avançou muito mais do que as redações na análise das mudanças estruturais e conjunturais da comunicação na era digital. Mas em compensação tem grande dificuldade em acompanhar o surgimento ininterrupto das chamadas TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação) e mais ainda de verificar as consequências sociais e econômicas da inovação tecnológica.

As redações tendem a encarar as TICs como meras ferramentas para agilizar o trabalho de repórteres e editores, deixando de ver que a chamada revolução digital é muito mais do que a substituição do telex e da máquina de escrever pela internet e pelo computador. A desatenção com as consequências sociais das TICs levou as redações a não perceber como a revolução digital está mudando a natureza do jornalismo praticado na era da digitalização e da computação.

O jornalismo está deixando de ser uma atividade predominantemente voltada para a produção da commodity notícia para se transformar num componente indispensável da produção de conhecimento – e, através dele, da geração de capital social, um item obrigatório para crescimento social e econômico de comunidades sociais. A notícia jornalística está perdendo a sua condição de mercadoria de troca por anúncios publicitários para ser o elemento gerador de informações, que por sua vez são a matéria-prima do conhecimento.

A troca temporária de papéis entre professores e profissionais no jornalismo é talvez a única forma disponível no momento para procurar eliminar, ou pelo menos reduzir, o descompasso entre redações e academia no que se refere às incompreensões mútuas sobre o papel da atividade jornalística na conjuntura atual.

O programa “Back to Newsroom” prioriza o intercâmbio entre redações e as faculdades de jornalismo, mas a atividade informativa é hoje cada vez mais interdisciplinar. É impossível desenvolver um jornalismo voltado para a produção de conhecimento sem uma interação com outras disciplinas. A velha técnica de “pescar” na economia, por exemplo, os dados para inserção no contexto da notícia commodity visando a audiência, afastou o jornalismo profissional dos centros de pesquisa acadêmica.

O jornalismo na era digital é uma atividade multi e interdisciplinar, ou seja, ela precisa de outras disciplinas para poder cumprir com a sua função de participar na produção de conhecimento socialmente relevante. A academia não é uma espécie de reserva intelectual do jornalismo, um banco de conhecimentos que é consultado em momentos de necessidade ou quando o jornalista precisa dividir a responsabilidade de uma informação com algum professor ou pesquisador. 

A troca temporária de papéis é uma oportunidade única para buscar uma nova relação entre as redações e a academia. A experiência do “Back to Newsroom” sinaliza um caminho a ser percorrido, ampliado e diversificado. Caso isso não aconteça, os dois lados sairão perdendo.

A alternativa comunitária no jornalismo contemporâneo

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Cento e trinta profissionais perderam seus empregos na Rede Brasil Sul (RBS), parceira da Rede Globo no sul do Brasil. E nos Estados Unidos, a Associação Americana de Editores de Jornais (ASNE) revelou que 1.300 jornalistas norte-americanos foram demitidos por empresas jornalísticas durante o ano de 2013. 

Os dois fatos mostram a manutenção da tendência das empresas de comunicação em cobrir perdas operacionais com o enxugamento de redações, uma política que já foi comparada inúmeras vezes ao ato de dar um tiro no próprio pé. Já se tornou um lugar comum afirmar que a minimização das redações e a substituição de profissionais experientes por recém-formados implica uma queda de qualidade na produção jornalística, o que inevitavelmente se reflete na perda de leitores e redução da receita dos jornais e revistas.

No caso americano, o desemprego entre jornalistas no ano passado foi menor do que em 2012, quando chegou a 2.600 demitidos em 12 meses. Mas se tomarmos em conta os números desde 1989, a redução do número de empregos em redações jornalísticas nos Estados Unidos chega a espantosos 35%, um índice que a própria ASNE considera preocupante.

A insistência no recurso à redução da força de trabalho nas redações mostra a dificuldade dos executivos de empresas jornalísticas em aceitar o ajuste de expectativas financeiras nesta transição da era analógica para a digital no setor da informação e comunicação. Acostumados a lucros líquidos da ordem de até 30%, os donos de conglomerados jornalísticos qualificaram inicialmente como transitória a queda abrupta de lucratividade na virada do século; com isso, perderam tempo precioso para ajustar-se à nova realidade e agora ficaram sem reservas para enfrentar a mudança que é permanente e irreversível.

Ninguém tem ainda uma fórmula para resolver a crise do modelo de negócios das empresas, mas os jornalistas demitidos já começam a vislumbrar alternativas e elas se concentram em duas áreas: os nichos informativos especializados e o jornalismo comunitário. Nenhuma delas oferece salários milionários, mas pelos dados mais recentes, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, os profissionais estão mais preocupados em explorar novas oportunidades do que com o contracheque.

Os nichos informativos são atraentes na medida em que o profissional pode explorar de forma individual – ou com um reduzidíssimo número de parceiros – a experiência, dados, informações e contatos acumulados durante o trabalho em redações. Muitos estão vendendo matérias jornalísticas para as mesmas empresas que os demitiram. O problema é que a consolidação financeira de um nicho informativo demora tempo, o que vai exigir paciência e uma poupança prévia para sobreviver. Mas depois de consolidado, o nicho informativo é financeiramente estável, como demonstram os casos de profissionais que renunciaram a empregos sólidos para criar o seu próprio negócio.

Mas a maioria dos desempregados está procurando uma forma social de sobreviver à perda do emprego com garantias trabalhistas. Trata-se do jornalismo comunitário, uma tendência em franca ascensão na imprensa norte-americana, alimentada pela emergente preocupação das pessoas em resolver problemas locais diante da ineficiência e gigantismo da máquina administrativa estatal. O ressurgimento da pequena imprensa local, que está sendo estudado aqui no Brasil pelo projeto “Grande Pequena Imprensa”, do Instituto Projor/Observatório da Imprensa, gerou um aumento da vendagem das publicações locais da ordem de 2,78% em 2013, apesar da crise na indústria da comunicação jornalística.

Em agosto deste ano, a Columbia Journalism Review identificou um forte crescimento no número de iniciativas de jornalistas na captura, processamento e análise de dados municipais, um filão do jornalismo em base de dados que estava inexplorado. Esta emergente tendência revive a ênfase no patrulhamento das gestões municipais diante da preocupação dos cidadãos com a aplicação dos recursos pagos em impostos.

Ainda segundo a CJR, jornais locais como o The Plain Dealer, da cidade de Cleveland, no estado de Ohio (EUA), já produzem quase metade de sua pauta diária de notícias a partir da análise de dados da prefeitura. A produção de notícias a partir de estatísticas está sendo realizada essencialmente por profissionais recém-formados e por jornalistas experientes, uma combinação de talentos que tem se revelado fundamental para o aumento dos acessos ao site do jornal e na vendagem em bancas.

Na Holanda, o jornal Dichtbij transformou-se num fenômeno do jornalismo local ao acumular lucros nos últimos dois anos, apesar do ceticismo dos executivos centrais do conglomerado Telegraaf Media Group (TMG), que controla a publicação. Criado em 2010, o Dichtbij, um dos 44 jornais locais do grupo, foi deficitário até 2012, quando passou a colher os frutos de uma controvertida estratégia publicitária. O jornal oferecia dois anos de publicação grátis para anunciantes se eles firmassem um contrato de cinco anos, os três últimos com pagamentos mensais.

Hoje o Dichtbij tem 30 funcionários, metade deles jornalistas, e deixou de ser um peso dentro das finanças do TMG, cujos executivos já começaram a copiar o mesmo esquema para outros jornais locais do grupo.

Aqui no Brasil o jornalismo comunitário ainda é pouco valorizado, apesar da experiências significativas como O TREM Itabirano, em Itabira, Minas Gerais ou o Voz de Rio das Pedras, no Rio de Janeiro. Há várias outras iniciativas que ainda não ganharam relevância nacional por falta de circulação de informações sobre o segmento. A troca de experiências neste segmento é vital para a sobrevivência das publicações porque todas podem aprender com os erros e sucessos mútuos.

Para os jornalistas desempregados no Brasil, a alternativa da imprensa comunitária pode ser bem mais do que a busca de uma nova fonte de renda. Pode ser a reinserção da profissão na utilização da notícia na produção de conhecimento socialmente relevante e com ele gerar mais capital social capaz de alavancar o desenvolvimento socioeconômico de comunidades sociais. 

Curadoria de notícias ganha espaço na grande imprensa

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O grupo News Corporation implantará nas próximas semanas em seus principais jornais um aplicativo de curadoria de notícias, seguindo uma tendência em ascensão na Europa e nos Estados Unidos. Antes do grupo News, o Washington Post lançou o aplicativo Trove, na sua página online. O New York Times fez o mesmo no início do ano com o programa Now e mais recentemente foi a vez a revista digital BuzzFeed engrossar a tendência de sugerir artigos para seus leitores.

Os aplicativos de curadoria de notícias estão programados para sugerir leituras complementares de material publicado pelo próprio veículo como também de outras publicações. Isso cria uma importante alteração nas rotinas editoriais da imprensa convencional, onde as menções a reportagens e notícias publicadas em veículos concorrentes eram mais uma exceção do que uma regra.

A popularização da curadoria de notícias na grande imprensa mundial assinala também uma mudança de políticas editoriais inédita na imprensa. Usar concorrentes como referências de qualidade informativa deixa de ser considerado um sinal de fraqueza e reconhecimento da competência alheia.

A modéstia nunca foi uma virtude dos grandes grupos jornalísticos mundiais, mas quando a crise aperta é melhor sacrificar os anéis para não perder os dedos. A News Corporation, o Washington Post e o New York Times tentam recuperar o público jovem perdido para a internet onde ele encontra maior flexibilidade e diversidade de fontes noticiosas, o que cria uma sensação de autonomia informativa maior do que a transmitida pelos veículos convencionais.

Independentemente dos motivos que levam tantos jornais importantes a optar pela curadoria de notícias, o fato é que este é um avanço significativo na busca de um novo modelo de negócios para a imprensa. A imprensa é hoje um imenso laboratório de experiências em alternativas empresariais na transição para a era digital. Cada empresa tenta fórmulas próprias e já existe um consenso de que a estratégia global tem três componentes básicos:

1. Reconquistar a fidelidade dos leitores, especialmente os mais jovens, por meio da reformulação das políticas editoriais responsáveis pela produção de notícias;

2. Reduzir o custo financeiro das instalações e passivo trabalhista herdados da época em que a informação era escassa e que só entrava no ramo da imprensa quem tinha muito dinheiro;

2. Gerar novas receitas por meio da reformulação das estratégias publicitárias tradicionais, em que os anunciantes não tinham outra alternativa senão comprar espaços em jornais, revistas, rádios e emissoras de TV.

A curadoria de notícias é uma das experiências em curso no item 1, que trata da nova fidelização do público. Os executivos da imprensa sabem que ela não é uma tábua de salvação para todos os problemas financeiros do setor e as redações apresentam uma série de restrições à curadoria, porque ela implica a revisão de vários procedimentos editoriais consagrados em manuais de estilo.

A maioria dos profissionais do jornalismo ainda considera a curadoria e edição como sinônimos. Ambos os procedimentos têm muitas semelhanças e uma diferença fundamental. Na edição, o jornalista organiza informações inéditas e as formata num conjunto fechado para publicação na forma de texto, áudio ou imagem noticiosos. Já o curador de notícias seleciona um conjunto de conteúdos de referência e os transfere para um público-alvo definido na forma de recomendações abertas.

Ainda é impossível vislumbrar qual será o novo formato editorial dos jornais e revistas, impressos e online. Mas as experiências feitas até agora mostram que a curadoria é um dos componentes do mix de procedimentos editoriais a serem adotados na era digital. E sua grande virtude não está apenas na filtragem, seleção contextualização e distribuição das recomendações, mas na maior aproximação entre jornalistas e o público.

A curadoria de notícias tende a ser praticada preferencialmente na internet, onde há uma maior facilidade de personalização e customização das recomendações informativas. Além disso ela pode atender segmentos mais específicos e localizados de interesses por parte de leitores, ouvintes, telespectadores e internautas. Isso tende a transformar os jornalistas em referências obrigatórias para comunidades com preocupações particulares. E muitos acreditam que este pode ser o caminho para uma nova relação entre jornalistas e o público.

Uma outra imprensa é possível

Postado por: Carlos Castilho | 3 comentários

O site G1, a página da Rede Globo de TV na internet, lançou esta semana um blog diário com dicas para economizar água em cidades afetadas pela estiagem de meio de ano. É uma iniciativa importante e oportuna, mas insuficiente para enfrentar situações mais agudas como a de São Paulo.

Os paulistanos vivem uma situação em que medidas administrativas e paliativos só produzirão efeitos duradouros se forem acompanhados por algo mais permanente como a mudança de valores e comportamentos. Só que novos valores que permitem a automatização dos novos comportamentos levam tempo para serem substituídos por outros mais adaptados a novas realidades. É aí que entra a imprensa.

A mudança de valores quase sempre é vista como algo inviável ou utópico, principalmente pelos jornalistas acostumados a buscar resultados imediatos. É uma forma muito comum de jogar o problema para adiante sem resolvê-lo. Mas é bom lembrar que o hábito de fumar, um tabu na imprensa nos anos 1960 e 70, quando sua defesa foi comparada à preservação da liberdade de escolha, mudou 30 anos mais tarde. O mesmo aconteceu com outros valores como a limitação da natalidade, direitos iguais entre homens e mulheres e, mais recentemente, a questão da homossexualidade e do meio ambiente.

Na maioria desses casos, a imprensa resistiu até onde pôde à mudança de crenças, valores e comportamentos, mas depois alterou suas estratégias editoriais. Nem todos os veículos de comunicação acataram este aggiornamento, mas é inegável que até mesmo os mais conservadores já não se mostram tão resistentes à mudança.

A falta de água que afeta São Paulo atualmente é um caso extremo de um fenômeno que pode atingir os grandes conglomerados urbanos do país. As cidades cresceram desordenadamente, a população inchou geometricamente e a modernização da infraestrutura ficou amarrada a decisões burocráticas dos poderes públicos. O resultado é uma defasagem entre demanda e oferta de serviços públicos, especialmente os de saneamento e transporte.

A questão é urgente e não pode esperar décadas, como aconteceu na questão do fumo. A pressa torna compulsória a participação da imprensa no esforço para mudar o comportamento da população com respeito ao uso da água e a proteção aos mananciais onde ela é captada para consumo urbano. É claro que os governos têm muito a fazer em matéria de racionalizar a distribuição e reorganizar a gestão do saneamento urbano. Mas as autoridades não podem, e nem seria desejável, comandar o processo de atualização dos valores que orientam os comportamentos da população em matéria de uso da água.

A solução do problema do abastecimento de água torna inevitável a troca do individualismo pelo espírito comunitário na conduta diária das pessoas, não importa o seu status social. Sem uma nova mentalidade baseada na preocupação com o bem estar coletivo não adiante baixar normas, punições, racionamentos e reajustes nas tarifas. 

Como há urgência e o desafio é complexo, a imprensa tem uma responsabilidade da qual ela não pode fugir, não só por uma questão de coerência com sua retórica de defesa do interesse público, mas principalmente porque a reconquista da fidelidade dos leitores, ouvintes e telespectadores é fundamental para a sobrevivência com negócio nesta traumática busca de um novo modelo de negócios na era digital.

É possível, sim, abandonar a prioridade histórica dada à agenda noticiosa orientada por interesses político/eleitorais e financeiros, e trocá-la por uma estratégia editorial que enfatize a desenvolvimento de uma nova mentalidade urbana em relação a itens escassos como água, saneamento básico, transporte e segurança pública. 

Iniciativas como o blog do G1 poderiam associar a divulgação de dicas para economia de água à necessidade de mudar comportamentos vigentes entre os moradores de São Paulo, por exemplo. Na hora em que os jornais colocassem esta preocupação nas manchetes da primeira página algo poderia começar a mudar na cabeça e no quotidiano das pessoas. Um dos maiores especialistas mundiais em mudança de valores sociais, o norte-americano Daniel Yankelovich, garante que a mudança acontece quando o fluxo de notícias é sequencial e cumulativo. Não é uma notícia que muda comportamentos e valores, mas uma sequência de notícias.

Yankelovich, que se especializou no estudo das mudanças de comportamentos, crenças e valores entre os norte-americanos, lamentou em seu livro Coming to Public Judgment:Making Democracy Work in a Complex World  que a inércia da imprensa tenha colaborado para que mudanças importantes como a questão da igualdade de sexos no mercado de trabalho tenham demorado tanto a consolidar-se.

Na era digital, a imprensa tem enormes possibilidades de acelerar o processo porque ela é uma das responsáveis pela deflagração de processos virais na disseminação de dados e informações. O público da imprensa encolheu porque os jovens migraram para o Facebook e Twitter, mas ela ainda tem o poder de alimentar a agenda pública e provocar debates nas redes sociais onde o conhecimento é gerado.

A imprensa não perde nada se mudar de foco na estratégia editorial. Pode até correr o risco de sair ganhando porque o público dá sinais de saturação em relação a monotonia dos escândalos, violência, tragédias e maquinações político-eleitorais. Leitores e especialistas podem contribuir com casos concretos e experiências em curso em matéria de economia de água em grandes cidades, como fez o leitor deste blog, Toninho Belo, que comentou sobre a importância da população proteger os mananciais que abastecem as cidades.

Mas cabe à imprensa situar as dicas e conselhos dentro da perspectiva da mudança de valores e comportamentos para que as sugestões contribuam para a consolidação de novas rotinas no modo de vida urbano em grandes megalópoles. 

O jornal como mídia do conhecimento

Postado por: Carlos Castilho | 9 comentários

Estamos de tal forma condicionados pela preocupação comercial e política dos jornais que tornou-se difícil imaginar como eles podem servir para nos ajudar a resolver problemas pessoais e das comunidades onde vivemos. Quase todas as manchetes diárias estão preocupadas com a política dos partidos, interesses empresariais, tragédias, violência, guerras e manobras diplomáticas das grandes potências.

Mas há dezenas de problemas locais que só aparecem nas primeiras páginas quando estão vinculados a uma ou mais das questões mencionadas acima. Se a gente tomar o exemplo de São Paulo, o problema do abastecimento de água tornou-se um problema crucial, mas os jornais insistem em tratá-lo como uma questão de governo ou de empresas, o que inevitavelmente acaba escorregando para o terreno da política ou do interesse corporativo.

Os jornais também não conseguem libertar-se da tendência de publicar prioritariamente as propostas de soluções vindas de cima para baixo, eternizando o paternalismo governamental e o passividade das pessoas afetadas pelo problema. Mas quem decidir pensar um pouco sobre a falta d’água em São Paulo logo verá que a população tem uma boa parte da solução do problema, só que ela não age de forma mais propositiva por falta de informação. Não da informação sobre o que o governo diz que vai fazer, mas a sobre o que cada pessoa pode fazer para amenizar o seu problema e o do seu bairro, rua, associação ou local de trabalho.

Quando se fala em falta de informação, as pessoas são levadas a responsabilizar a imprensa, e com razão, porque é ela que serve o menu diário de dados da realidade que nos cerca. Muito pouco ou quase nada foi produzido pela imprensa em termos de fornecer à população elementos sobre como reduzir os efeitos da falta d’água, salvo reproduzir as burocráticas instruções oficiais como não lavar calçadas e carros, não regar jardins etc.

A imprensa tem um papel – de fornecer insumos para que as pessoas desenvolvam conhecimentos – que foi atropelado pelo interesse comercial e pelas alianças partidárias dos donos de veículos de comunicação jornalística. Contribuir para a produção de conhecimento é uma missão essencial dos jornais, revistas, rádios, televisões e sites noticiosos. 

A produção de conhecimento, uma atividade que passa a ser cada dia mais importante na era digital, não se limita à atividade produtiva, à pesquisa científica ou ao planejamento econômico de médio e longo prazos. Ela tem a ver também com o dia a dia das pessoas comuns. A racionalização do orçamento doméstico só pode acontecer por meio de informações que geram o conhecimento sobre como aplicar instruções gerais para a realidade específica de cada família. As regras gerais são apenas uma orientação que, por definição, são amplas, mas só funcionam efetivamente quando reinterpretadas num contexto bem definido como, por exemplo, uma necessidade individual, uma preocupação familiar ou comunitária.

Mas essa necessidade de reinterpretação de informações gerais para contextos específicos precisa ser comunicada pela imprensa para que possa ser discutida e compartilhada pelos leitores de um jornal, ouvintes de um emissora de rádio, pelos telespectadores ou internautas. É a imprensa que deve levar às pessoas a preocupação em captar dados da realidade geral e como aplicá-los à sua realidade especifica.

Esta é apenas uma das formas de os jornais, por exemplo, participarem da produção de conhecimento socialmente relevante. Até agora a imprensa, por interesses político- partidários, limita a sua preocupação com a produção de conhecimento a uma suposta capacidade de os cidadãos fazerem escolhas eleitorais. A produção de conhecimento tem a ver com a vida e não apenas com o voto.

Na era digital, produzir conhecimento passa a ser uma tarefa quase diária das pessoas porque estamos sendo obrigados a decidir sobre um conjunto cada vez maior de opções, em que o risco de uma escolha errada pode causar grandes prejuízos. Só para dar um exemplo: se você for comprar um novo telefone celular, a variedade de modelos é tão grande que uma pesquisa mostrou que 90% das pessoas compram o tipo errado por não ter analisado concretamente as suas necessidades individuais reais e como elas se encaixam nas características do aparelho.

A imprensa poderia colaborar com a produção de conhecimento pelas pessoas se passar a se preocupar com elas, em primeiro lugar. A maioria dos indivíduos ainda raciocina condicionada pela realidade da escassez de oferta e limitação na variedade de opções. As pessoas precisam receber informações sobre as mudanças em curso em nossa forma de viver. Trata-se de um objetivo vasto e complexo que por si só já daria para mobilizar todas as energias criativas das redações. 

Mas para que isso aconteça de fato, a imprensa tem que abandonar a sua ultrapassada agenda político/eleitoral/empresarial/ideológica. Não se trata de transformar o conhecimento em mais um modismo, mas na base de uma nova estratégia editorial que pode não atrair anunciantes de imediato, mas reconquistará a confiança das pessoas, e com ela novas alternativas publicitárias. Colocar a produção de conhecimento socialmente relevante como prioridade editorial é também uma forma de a imprensa buscar novas formas de sobrevivência empresarial e de vinculação ao interesse público.

P.S. Vou voltar mais vezes a este tema porque ele é complexo mas fundamental para o público e para a imprensa. E para que o assunto se torne objetivo é necessária a participação de vocês, leitores, por meio de comentários, críticas e sugestões. 

O direito de esquecer e o direito de saber

Postado por: Carlos Castilho | 3 comentários

A grande imprensa mundial mantém um intrigante silêncio sobre a decisão da justiça europeia de conceder a indivíduos o direito de exigir que os sistemas de buscas na internet eliminem de seus bancos de dados páginas cujo conteúdo possa ser considerado desonroso pelo envolvido.

Apenas o jornal inglês The Guardian tem dado cobertura ao tema que afeta diretamente todas as empresas que trabalham com indexação de documentos para fins de buscas na internet. Só a empresa Google já recebeu 70 mil solicitações de pessoas que não concordam com o teor de notícias, documentos e imagens publicadas a seu respeito e indexadas em bancos de dados dos sistemas de buscas.

O silêncio da imprensa pode ser motivado pela complexidade do tema, mas muito provavelmente é determinado pelo complicado dilema de ter que optar entre dois “direitos”: o de esquecer e de saber. O jornalismo acabou caindo na armadilha criada pela questão da transparência informativa na internet e agora está sendo obrigado a fazer uma escolha difícil.

Se aceitar a decisão judicial tomada com base em códigos, em sua maioria, elaborados antes da existência da internet, a imprensa terá que fazer um expurgo em seus arquivos e – o que é mais grave – terá que avaliar, antes de publicação, a possibilidade de sofrer represálias por parte de pessoas ou empresas mencionadas em reportagens. Isso equivale a uma opção entre a autocensura e a censura por parte dos tribunais que aceitarem o princípio da decisão europeia.

A imprensa sempre utilizou o argumento da liberdade de informação para combater interferências governamentais e privadas na sua atividade informativa. Na maioria dos casos, a liberdade de informação foi usada para defender privilégios corporativistas mas, como principio, era uma salvaguarda contra tentativas de submeter o noticiário a interesses setoriais em prejuízo do interesse dos cidadãos.

Sob o pretexto de evitar danos à imagem pessoal ou institucional por conta de supostos erros jornalísticos, qualquer pessoa ou instituição pode agora impor um veto não apenas a referências atuais a documentos e notícias considerados difamatórios, como também exigir o expurgo do material questionado em bancos de dados para evitar que ele seja recuperado em buscas futuras.

O silêncio da imprensa mundial é intrigante porque a decisão da justiça europeia bate de frente com tudo aquilo que os jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão defendiam até agora em materia de liberdade de publicação de notícias. Caso não seja encontrada uma solução para o problema, a imprensa estará colocada num beco sem saída.

Mas o problema afeta também a nós, consumidores de notícias. Mais cedo ou mais tarde teremos que escolher entre aceitar muros que protejam a nossa privacidade, mas impedem que nossos hábitos, comportamentos e conhecimentos sirvam para aumentar o capital social das comunidades onde vivemos, ou aceitar viver no que poderia se comparado a uma casa de vidro. Esta opção, que já é real, nos obrigará a rever valores, comportamentos e crenças vigentes há séculos.

Se o direito ao esquecimento prevalecer sobre o direito de saber, nós cidadãos poderemos ficar privados de dados e informações essenciais para tomar decisões que afetam nossas próprias vidas e as comunidades onde vivemos. Sem falar que a imprensa ficará restrita a publicar o que lhe é permitido em vez de funcionar como um serviço de utilidade social, imune a interesses particulares.

A decisão da justiça europeia se insere no contexto do conflito global entre uma ordem jurídica baseada na hegemonia dos valores e comportamentos da sociedade industrial e a emergente realidade social, econômica, política e jurídica da era digital. Os conservadores tentam impor a ideia de que o conflito é uma guerra com vencidos e vencedores, quando na verdade tudo indica que haverá uma convivência, às vezes conflitante, entre a cultura industrial/individualista/hierárquica e a digital/colaborativa/descentralizada. 

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