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‘Cascatas de rumores’, um desafio para o jornalismo e usuários da web

Postado por: Carlos Castilho | 5 comentários

Foi preciso acontecer uma tragédia para as pessoas descobrirem o caráter letal de um rumor transmitido em redes sociais sem uma verificação de sua veracidade. O caso da dona de casa linchada e morta em Guarujá (SP) é um sintoma dramático da urgência da sociedade tomar consciência de que ela precisa aprender a ser responsável no uso e transmissão de informações.

A internet reduziu drasticamente o papel dos filtros na transmissão de notícias e informações. Trata-se de um fato irreversível sobre o qual não adianta lamentar a ausência de intermediários como a imprensa, à qual até agora era atribuída a responsabilidade pela filtragem das notícias, separando a boataria e a fofoca dos fatos concretos.

A desintermediação da informação trouxe enormes vantagens na medida em que aumentou a diversidade de percepções individuais sobre um mesmo fato, dado numérico ou evento. Mas também tornou possível a proliferação descontrolada de rumores, infâmias, falsificações e distorções, algumas grotescas. É impossível implantar um controle total do fluxo de dados e informações na rede, o que faz da alfabetização informativa uma necessidade urgente e universal.

Embora o jornalismo ainda tenha uma parcela de culpa na disseminação do sensacionalismo, do grotesco e do bizarro, ele não tem mais condições de funcionar como um filtro noticioso. A quantidade de dados e informações jogados na internet a cada segundo tornou-se grande demais para ser filtrada por humanos. Nem os algoritmos (softwares processadores de dados digitalizados) são capazes de cumprir essa tarefa de forma plena porque são programados por técnicos, e estes não conseguem se atualizar na mesma velocidade da avalancha informativa virtual.

Estamos, portanto, condenados a ter que nos educar em matéria de uso e disseminação de notícias, assumindo uma responsabilidade que até agora delegávamos à imprensa e organismos reguladores estatais ou privados. Esta tarefa passa a ser de cada um de nós e as consequências passam a recair também sobre as comunidades das quais participamos.

A alfabetização informativa é um processo no qual os jornalistas têm um papel insubstituível porque foram treinados para trabalhar com informações, logo têm todas as condições para capacitar o cidadão comum a saber como separar o rumor do fato e como lidar com a difusão viral de informações não checadas. Esta é provavelmente uma das novas funções dos profissionais no jornalismo do futuro.

Mas os jornalistas também precisam aprender a lidar com o que já foi batizado de cascatas de rumores, a proliferação incontrolável de um boato pelas redes sociais na internet. Uma das fontes mais importantes de informações sobre o tema é o site norte-americano Snopes, que criou 51 categorias rumores, além de oferecer ajuda para quem está em dúvida sobre a veracidade de boatos circulando pelo Facebook, por exemplo.

Em um estudo intitulado “Rumor Cascades”, quatro pesquisadores norte-americanos seguiram 250 mil rumores que circularam no Facebook entre julho e agosto de 2013 e identificaram que 62% deles eram falsos, mas os 38% que foram provados como verdadeiros se espalharam com maior velocidade e atingiram mais pessoas. O estudo também mostrou que quando um internauta descobre que o rumor que ele espalhou na internet é falso, 90% deles apagam a mensagem. O arrependimento, no entanto, se mostra pouco eficaz, porque o rumor já se espalhou e menos de 1% dos que o receberam decide também eliminá-lo.

Além disso, foi comprovado que um único rumor falso pode circular durante longos períodos na internet, algumas vezes por até oito anos, sendo lido e repassado por até 150 mil usuários da rede. Fatos como este mostram que a solução para evitar tragédias como a da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, em Guarujá, está no início do processo de circulação de um boato. Depois que ele caiu na rede, não há mais solução. É como tentar recapturar uma a uma as penas de um travesseiro aberto em vento forte. É uma preocupação preventiva que deve mobilizar tanto os jornalistas como todos os que usam a internet.

Para detalhes sobre o linchamento e morte de Fabiane de Jesus, leia também:

Reflexões sobre o boato mortal – Luciano Martins Costa

O linchamento do jornalismo – L.M.C.

Linchadores por todos os lados– L.M.C.

As muitas causas da violência – L.M.C.

Os jornais diante do desafio do engajamento comunitário

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

Na era digital, a relação direta com o público passa a ter para os jornais um papel equivalente ao atribuído até agora às bancas e aos jornaleiros. A nova modalidade de relacionamento com o leitor passa também a ter mão dupla, já que o público tem hoje a possibilidade participar do processo de produção de notícias.

As consequências dessa mudança provocada pela internet motivaram o surgimento da preocupação com o que os norte-americanos chamam de engajamento comunitário (community engagement), uma estratégia baseada na interatividade e participação, que visa ao estabelecimento de uma nova relação com o leitor.

A redução da distância entre redações e leitores é vista como um objetivo essencial e inadiável pela maioria dos profissionais que passaram a se preocupar com o engajamento comunitário. Só que os mesmos jornalistas admitem que se trata de uma questão muito complexa e que ainda vai exigir muita reflexão e discussão, conforme ficou evidenciado no relatório final de uma reunião de 10 jornais norte-americanos, realizada em fevereiro deste ano, na Universidade do Texas.

Todos os participantes reconheceram a urgência na redefinição das relações com os leitores ao admitir que ela é o principal canal de circulação de notícias, já que a internet reduziu drasticamente o papel das bancas de jornais e da venda avulsa, hoje praticamente extinta. Mas salientaram que as incógnitas e incertezas são quase tão grandes quanto a certeza de que a reaproximação com o leitor é indispensável à sobrevivência das empresas jornalísticas na era digital.

Na era da escassez informativa, o público não tinha outra opção senão correr atrás da notícia. Hoje, a situação é inversa: a notícia de atualidade tornou-se onipresente e os jornais passaram a depender da busca ao leitor para se tornarem sustentáveis financeiramente. O engajamento comunitário é visto como a nova forma de criar bases econômicas para a sobrevivência da imprensa, em regiões com superoferta informativa.

Há o problema da herança cultural da era analógica/industrial, quando as redações assumiram uma postura superior e até paternalista em relação ao leitor, visto como um consumidor passivo de notícias. A exposição dos profissionais à crítica do público incomoda muitos profissionais e gera situações constrangedoras.

No encontro de profissionais na universidade do Texas, promovido pelo Engaging News Project, os participantes afirmaram que é indispensável dissociar a busca de uma nova relação com o público da herança deixada pelas seções de cartas de leitores, considerada um paradigma da relação desigual entre as redações e os compradores de jornais.

Mas há problemas muito mais complicados. O principal deles é o fato de que a internet cria condições para a segmentação e personalização dos interesses dos leitores, o que gera o dilema de identificar estes nichos para poder estabelecer uma relação interativa. Isto exige uma pesquisa e definição de perfis de leitores, coisa que os jornalistas não estão acostumados a fazer.

As temáticas locais e hiperlocais passaram a ter uma grande importância na relação do leitor com os veículos jornalísticos porque a internet criou canais para que esse tipo de notícia. Como a informação local gerada em comunidades sociais é muito diversificada, os jornais precisam da colaboração dos leitores para obter dados para produzir reportagens. Isto implica o desenvolvimento de uma parceria entre leitor e jornalista, onde o essencial é o reconhecimento mútuo de que uma parte não pode prescindir da outra, se o objetivo é a produção de notícias o mais objetivas, exatas e isentas possíveis.

Outra questão complexa é a da avaliação dos resultados da interação. As métricas usadas rotineiramente foram desenvolvidas pelo marketing ou pela publicidade e não servem para medir o grau de envolvimento do público com as redações. É uma questão técnica, que as redações preferem deixar com o pessoal do marketing, mas na era dos grandes dados é impossível pensar em informação sem considerar números e estatísticas.

A experiência passada mostrou que o relacionamento entre jornalistas e leitores na era da internet passa por momentos muito delicados, que exigem paciência e tolerância dos jornalistas diante de comentários hostis de leitores. Embora cada profissional tenha uma experiência diferenciada nessa área, o procedimento que tem se mostrado mais eficaz é evitar o bate-boca individualizado e procurar sempre envolver todos os leitores no debate das críticas e agressões para evitar a personalização do problema em questão. É uma estratégia de longo prazo, mas que dá resultados.

Outra sugestão recolhida a partir da experiência de profissionais no relacionamento com o público é procurar sempre levar o debate para as questões contextuais e estruturais do problema, deixando que os leitores tragam sua percepção dos fatos. O jornalista passa a funcionar como uma espécie de mediador do debate entre os leitores, ajudando-os a entender melhor o que está acontecendo ao fornecer elementos para a contextualização do problema em pauta.

Mas, acima de tudo, o tal do engajamento comunitário passa pela necessidade de os profissionais ouvirem os leitores. Em vez de assumir o papel de juiz do que é bom ou mau para o público, a melhor atitude para chegar à parceria com o leitor parece mesmo ser o hábito de, antes de tudo, escutar o que ele tem a dizer. 

O que a ecologia tem a ver com o futuro dos jornais?

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

Até agora o debate sobre o futuro dos jornais vem sendo monopolizado pela preocupação em torno de um novo modelo de negócios, mas a sustentabilidade das empresas do ramo passou a depender também de fatores como energia e meio ambiente. É que o futuro da indústria dos jornais, bem como de todas as demais indústrias contemporâneas, não pode mais ser visualizado apenas no contexto imediato da atividade de cada empresa.

Os jornais e revistas impressas dependem de papel, que vem das árvores, cuja derrubada afeta o meio ambiente e consequentemente a termodinâmica do globo terrestre, da qual depende a geração de energia do planeta. A relação entre estes fatores diversos tornou-se palpável pela primeira vez na história humana graças ao fenômeno da globalização informativa, provocada pela globalização econômica e consolidado pela internet.

Se a sobrevivência dos jornais dependesse apenas do papel, o destino da indústria já estaria selado, pois ela inevitavelmente acabaria vítima da pressão mundial pela recuperação ambiental do planeta. A combinação da digitalização e da internet cria condições para a continuidade do negócio da imprensa, mas impõe a necessidade de mudança drástica no seu modelo de negócios.

O papel continuará a existir, mas o seu consumo passará a ser determinado por exigências ambientais que obrigarão os executivos da imprensa a pensar além do retorno financeiro com assinaturas, prestação de serviços e publicidade. A produção de jornais depende também do consumo de energia, fator que assume cada vez mais uma importância crítica não apenas em matéria de custos, mas principalmente em matéria de equilíbrio termodinâmico no planeta, um tema complexo que está deixando rapidamente de ser uma exclusividade dos físicos e matemáticos para cair na “boca do povo”.

A física ensina que a quantidade de energia acumulada na Terra é constante, mas ela muda de forma e cada mudança gera uma perda que é materializada num formato não utilizável pelo homem (são as famosas duas leis da termodinâmica). Quando fazemos uma fogueira transformamos a energia existente na lenha em calor, que é utilizado para cozinhar, iluminar ou aquecer. A energia calórica ou visual gerada pela queima da lenha é apenas uma fração do total da energia existente na madeira. O resto é o que chamamos de desperdício ou ineficiência, que não verdade é uma forma de energia que, hoje, não conseguimos reutilizar.

A indústria dos jornais nunca se preocupou com as leis da termodinâmica, mas agora terá que levá-las em conta porque a humanidade está entrando num contexto informativo inédito em sua história. O nosso universo informativo, que em épocas pré-históricas estava restrito à tribo, depois ampliou-se a aldeias, cidades e nações. A geografia sempre marcou os limites, mas agora o padrão, que está sendo implantado pela internet, passou a ser a identidade entre pessoas vinculadas a redes virtuais nas quais diminui drasticamente a importância da nacionalidade ou raça, por exemplo.

Fenômenos como o aquecimento global levaram a humanidade a se preocupar cada vez mais com a sua sobrevivência tanto imediata como futura. Este é o contexto dentro do qual os jornais buscarão o desenvolvimento de um modelo de sustentabilidade que lhes permita sobreviver não apenas como negócio, mas com projeto informativo socialmente relevante. Trata-se de um contexto ainda sujeito a muitas alterações e mudanças, o que obriga os executivos a pensarem na preservação do foco de sua atividade, porque é ele que cria o diferencial capaz de alavancar a sustentabilidade econômica.

Se formos esmiuçar a missão dos jornais verificaremos que eles são comprados porque as pessoas acreditam que eles darão informações isentas, exatas, relevantes e atuais. A confiança é a matéria-prima mais importante de um jornal, em qualquer formato e em qualquer contexto. O ritmo industrial e a inserção comercial da mídia impressa levaram muitas empresas a se preocupar mais com a lucratividade do que com a manutenção da credibilidade.

A crise de confiança gerou a perda massiva de leitores, especialmente nos Estados Unidos, criando a sensação de que os jornais podem desaparecer. É muito arriscado fazer previsões sobre a continuidade ou não da imprensa escrita, mas tudo indica que ela não deixará de existir porque a leitura é e será sempre uma forma de transmissão de dados, informações e conhecimentos.

Há um enorme debate sobre o que os jornais devem fazer, como mostrou o estudo feito pelo meu colega Caio Tulio Costa, aqui do Observatório, uma leitura obrigatória para quem se preocupa com o futuro da imprensa. Um dos temas deste debate e a questão da confiança, item imaterial, mas que está associado a algo concreto, a marca de um jornal.

A marca de um jornal é independe das plataformas usadas para pela publicação. Pode ser impressa, audiovisual ou pela internet. É talvez a única forma o item menos vulnerável às inevitáveis mudanças e contramudanças que ainda vão acontecer na transição entre modelos predominantes na economia. O investimento na marca é quase uma obrigação na hora de pensar em continuidade dos jornais. Acontece que marca sem credibilidade, não serve para nada.

A guerra da internet está apenas começando

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A internet passou a ser um tema diário na agenda da imprensa mundial ao se tornar parte quase obrigatória em conflitos étnicos, militares, econômicos e legais, bem como assunto do quotidiano doméstico. A rede deixou de ser um assunto exclusivo dos admiradores das novas tecnologias para monopolizar as atenções de juristas, governantes, militares, políticos, empresários e pais de família.

Prova disso é o fato de governos trocarem farpas e ameaças de retaliações digitais, dos políticos dizerem asneiras a granel sobre a internet, dos juristas e magistrados baterem cabeça para achar soluções para intrincados dilemas legais, enquanto as empresas partem para a guerra aberta por posições de força no mercado de usuários e o cidadão comum mostra uma crescente aflição por estar no meio de um bate-boca sobre um tema que ele só conhece a partir de informações dadas por filhos e netos. 

Querendo ou não, nossa vida já está condicionada pela internet. Entramos, gostando ou não, na era da cultura digital, da perda de privacidade, dos crimes online, da militarização dos bytes e bits, da batalha entre empresas novas e antigas pela sobrevivência econômica num ambiente que ainda é desconhecido pela maioria dos empresários, de polêmicas judiciais difíceis de entender e mais ainda de julgar. Tudo isso em meio à sensação de que não há mais certezas e que tudo passou a ser fluido, mutável.

O Brasil aprovou uma lei chamada Marco Civil da Internet com o objetivo de tentar organizar o ambiente cibernético, ao mesmo tempo em que, em São Paulo, acontecia uma reunião mundial para resolver quem manda e como manda na rede, um tema que ainda vai dar muito pano para manga. Nos Estados Unidos, os internautas entraram em pé de guerra por conta da possibilidade de o governo acabar com a chamada neutralidade da internet, uma norma vigente desde o surgimento da rede e que estabelecia a igualdade direitos de acesso e navegação entre todos os usuários. 

A batalha na opinião pública sobre a neutralidade está apenas começando e vai longe porque está em jogo o princípio que deu origem à rede mundial de computadores, o da liberdade de navegação virtual. Se não bastasse tudo isso, o americano médio ainda está sob o impacto da revelação de que suas conversas por celular e pela rede foram monitoradas pela Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês) e descobre que a CIA está usando redes sociais virtuais para promover manifestações antigovernamentais em Cuba.

Na Rússia, o presidente Wladimir Putin assoprou as cinzas da Guerra Fria ao afirmar que a internet é uma invenção da CIA, dando a entender que vai usar a força para impedir que dissidentes usem a rede para veicular críticas ao autoritarismo do Kremlin. A aversão de Putin ao mundo digital foi aguçada com o uso intensivo da internet na crise da Ucrânia e nas esporádicas demonstrações de rebeldia antiautoritarismo noutras antigas repúblicas da extinta União Soviética.

O governo chinês há muito tempo vem tentando domesticar os internautas do país para evitar sustos como uma eventual “primavera chinesa”. A Turquia é outro país que olha a internet com profunda desconfiança e já bloqueou temporariamente o acesso ao YouTube e Twitter por não gostar de opiniões hostis emitidas por internautas locais. E no Oriente Médio, Israel e os palestinos incorporaram o espaço cibernético ao teatro de operações militares.

Além disso, há uma sucessão de batalhas econômicas entre projetos surgidos na internet e empresas convencionais inconformadas com a perda de clientela e receitas. Os juízes da Suprema Corte de Justiça dos Estados Unidos têm nas mãos, há mais de mês, a batata quente de resolver se uma pequena empresa, chamada Aereo, pode ou não veicular pela internet a programação das grandes redes de TV. A decisão afetará todo o bilionário negócio da computação em nuvem, segmento que mobiliza a atenção de todas as grandes empresas da internet como Google, Facebook, Microsoft, Cisco, Apple, Samsung e Oracle.

Outras duas batalhas legais nos Estados Unidos mostram que chegou ao fim a coexistência pacífica entre empresas de estrutura analógica e as de estrutura digital. O site AirBnB , o grande sucesso em matéria de aluguéis de curta temporada via internet, está sendo processado pelas imobiliárias e pela prefeitura de Nova York por ignorar uma obscura lei que impede locações com prazo inferior a 30 dias. E o site Uber, que provocou um terremoto entre os taxistas norte-americanos, está sendo investigado a pedido dos sindicatos inconformados por perderem a exclusividade no atendimento de clientes.

Daqui para frente teremos cada vez mais notícias sobre conflitos de interesses sendo encaminhados para os tribunais ou para a diplomacia da força. É o sinal mais evidente de que a internet está mexendo para valer nas estruturas políticas, sociais, econômicas e militares do mundo em que vivemos. Os interesses afetados pela mudança e pela inovação reagem usando as instituições e leis que ainda não foram adaptadas aos novos tempos.

Os conflitos em torno da internet estão embaralhando os parâmetros políticos convencionais. Personalidades e empresas consideradas antes como progressistas passaram a resistir à inovação quando seus interesses foram afetados; enquanto outras, tradicionalmente conservadoras, apostam no digital por conta da expectativa de lucros. Estamos realmente no limiar de uma era de dúvidas e perplexidades muito mais profundas do que as previstas por John Kenneth Galbraith no seu famoso livro, a Era da Incerteza

Novas tecnologias dividem redações e universidades

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Uma pesquisa feita nos Estados Unidos envolvendo professores de Jornalismo  jornalismo e profissionais de redações apontou algumas questões que podem ajudar a entender porque a academia e as empresas jornalísticas têm pontos de vista tão diferentes sobre o futuro da imprensa, em especial sobre o papel da internet na produção, edição e publicação de notícias.

A pesquisa Core Skills for the Future of Journalism (Habilidades Fundamentais para o Jornalismo do Futuro) organizada pelo Instituto Poynter, de São Petersburgo, Flórida, revela que, nos Estados Unidos, os profissionais das redações são mais resistentes às novas tecnologias do que os professores de Jornalismo  em universidades quando perguntados sobre o papel da internet no jornalismo atual e futuro.

O pomo de discórdia entre acadêmicos e profissionais é a questão das novas tecnologias. Os professores acham que as empresas deveriam dar mais importância à narrativa jornalística multimídia e ao relacionamento com os leitores. Já os profissionais afirmam que os novos jornalistas só deveriam trabalhar com novas tecnologias depois de se familiarizarem com os valores tradicionais do jornalismo – como objetividade, independência, exatidão e verificação.

A pesquisa entrevistou professores, executivos da imprensa e jornalistas profissionais para identificar as habilidades e competências necessárias para o exercício do jornalismo. As redações chegaram até mesmo a superar os executivos em matéria de resistência a inovações como narrativa usando recursos multimídia. Os profissionais foram os que menos valorizaram habilidades como edição de fotos, vídeos e áudios.

A pesquisa não procura explicar esta discrepância de percepções, mas é possível apontar algumas razões. A principal delas se refere às competências. Um profissional para se adaptar às novas tecnologias digitais e à convergência de plataformas de comunicação necessita sair de uma zona de conforto criada pela acomodação às rotinas determinadas pelo ritmo industrial na produção de notícias impressas ou audiovisuais.

Os executivos da imprensa valorizam as inovações porque elas oferecem a possibilidade de reduzir despesas e se mostram pouco inclinados a investir na recapacitação de profissionais quando o mercado está cheio de jovens cuja intimidade com as novas tecnologias é total. Já os educadores tendem a valorizar a digitalização e a internet pelos desafios teóricos que ambas geram e pelo seu potencial de mudança de paradigmas na comunicação.

A divulgação da pesquisa norte-americana aumenta a curiosidade sobre como reagiriam aqui no Brasil os profissionais, executivos e professores de Jornalismo se defrontados com as mesmas questões colocadas pelos pesquisadores Howard Finberg e Lauren Klinger, coordenadores do informe que procura orientar as faculdades sobre o que ensinar a seus alunos.

Não é difícil perceber que os profissionais do jornalismo nos Estados Unidos usam a defesa dos valores tradicionais da profissão para retardar o avanço frenético das inovações digitais e, assim, preservar o pouco de estabilidade no emprego. É também uma forma de barganhar mínimas condições de adaptação às mudanças provocadas pelo contexto digital. Nas respostas ao questionário da pesquisa norte-americana, os profissionais mais experientes afirmam que os novos jornalistas devem primeiro absorver os valores éticos e comportamentais da profissão e só depois entrar em contato com as novas tecnologias de informação e comunicação (TICs).

No Brasil, os professores de Jornalismo também apostam na inovação, mas seu entusiasmo pelas novas tecnologias talvez não seja tão grande quanto o de seus colegas norte-americanos devido às diferenças de apoio financeiro por parte das indústrias de base tecnológica. Na verdade, apenas uma pesquisa do mesmo porte da realizada pelo Instituto Poynter pode identificar o estado das relações entre as empresas brasileiras e a nossa universidade no que se refere ao futuro do jornalismo.

Até agora, as nossas empresas e o governo exercem uma verdadeira tutela sobre o jornalismo tupiniquim, porque ele depende estruturalmente de patrocínios e privilégios políticos. Com as novas tecnologias, a publicidade deixou de ser a base de apoio principal da imprensa nacional e os governos perderam força diante do maior protagonismo das redes sociais na formação da agenda noticiosa da mídia. 

O jornalismo do futuro tende a depender mais da tecnologia do que do poder político e econômico. Isto muda consideravelmente a relação dos profissionais, dos executivos e dos educadores em relação ao exercício da profissão. 

Por onde começar no jornalismo quando faltam empregos seguros

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Qualquer conversa com um candidato ou estudante de um curso de jornalismo inevitavelmente passa pela pergunta: Por onde eu começo na profissão? São raros os que têm resposta para esta dúvida que na verdade é um desafio, inclusive para muitos profissionais que enfrentam a dura realidade do desemprego.

Na verdade não existe uma receita segura a ser seguida. É impossível tê-la na conjuntura atual onde tudo está mudando e o jornalismo passa pela sua maior transformação desde que Gutenberg inventou a impressão gráfica, há cinco séculos. Mas apesar da incerteza generalizada, uma observação das experiências de jornalismo online permite algumas constatações que podem amenizar a angústia de quem ainda não sabe o que fazer com o diploma ou precisa achar um novo sustento.

Quase todos os pesquisadores do jornalismo na internet, como o norte-americano Jay Rosen, coincidem que a busca de um nicho informativo é o destino inevitável da maioria dos recém-graduados em faculdades de jornalismo. Para os profissionais desempregados ou desiludidos com a imprensa convencional, a opção pela especialização noticiosa já é uma realidade. Não há mais possibilidade de sair da universidade e entrar imediatamente numa empresa jornalística de grande ou médio porte. O número de vagas oferecidas anualmente na imprensa é muito menor do que o de graduados em jornalismo no mesmo período, aqui ou no resto do mundo.

A variedade de nichos informativos é praticamente ilimitada, especialmente agora na era da internet, onde é possível encontrar informações sobre quase tudo o que se possa imaginar. Nos Estados Unidos ficou famoso o caso de um morador de uma microcidade no interior do estado de Alabama, obcecado por músicas de Frank Sinatra da década de 1940. Ele juntou todos os long plays possíveis de seu ídolo como hobby, e começou a ganhar dez mil dólares mensais a partir de 2010 vendendo versões digitais pela internet.

O segredo do fã de Sinatra foi seu esforço para reunir material e vendê-lo para um mercado planetário. Na sua cidade, ele talvez encontrasse um comprador. No Alabama possivelmente uns 50. Nos Estados Unidos, uns dois mil interessados por mês. Mas no mundo inteiro, ele acabou sendo descoberto por quase 10 mil clientes mensais, um mercado que ele nunca imaginou alcançar e que passou a lhe garantir o sustento. Isso tudo a partir de um vilarejo com não mais de cinco mil habitantes.

A estratégia do nicho se apoia em três bases: coletar informação (em texto, áudio ou imagens), digitalizar num computador e vender pela internet. As despesas iniciais são muito pequenas se comparadas às da abertura de um negócio convencional na área da informação. O principal investimento é em tempo e dedicação. Tempo para pesquisar o tema, o público-alvo e a forma de divulgar a iniciativa. Dedicação para suportar a falta de resultados imediatos.

Em princípio, qualquer tema pode se transformar em nicho jornalístico. O conceito de notícia não se restringe hoje apenas ao que está na agenda da imprensa, ou seja, política, esporte, economia e internacionais. A avalancha informativa da internet permitiu que o noticiário local e hiperlocal ganhasse visibilidade e interesse por parte das pessoas já saturadas com a mesmice do noticiário convencional.

Pessoas sem formação jornalística começaram a explorar, por simples gosto pela informação, nichos como, por exemplo, monitorar a variação de preços num mesmo supermercado, guardando as notas fiscais de suas compras domésticas semanais. Depois de alguns meses, os dados acumulados foram cruzados com os de outras pessoas que desenvolveram atividade idêntica noutros estabelecimentos, surgindo daí um banco de dados cujo conteúdo passou a ser disputado por jornais por ser uma expressão direta da experiência do consumidor com a inflação.

Os profissionais do jornalismo ainda vacilam em optar pela atividade autônoma em nichos noticiosos porque ainda estão muito contagiados pelas rotinas das redações convencionais. Mas já existem experiências muito bem sucedidas como O TREM Itabirano, em Minas Gerais, a Voz de Rio das Pedras, no Rio de Janeiro, ou o Jornal Pessoal, de Belém do Pará. Na Grécia, a rádio Bubble, e na Espanha, o jornal online El Diario são projetos desenvolvidos por jornalistas profissionais demitidos em consequência da crise econômica na imprensa convencional.

condição obrigatória para o trabalho em nichos de informação é gostar muito, mas muito mesmo, do tema ou foco escolhido, porque os resultados financeiros demoram a surgir e, no período das vacas magras, só a paixão profissional manterá o projeto de pé. A maioria dos que optaram por iniciativas pessoais tiveram, ou têm, uma fonte paralela de renda porque a insegurança faz parte do negócio. O enorme afluxo de novos exploradores digitais muda constantemente o ambiente informativo com o surgimento sucessivo de novos nichos. A rotatividade de negócios na internet é muito grande.

O nicho informativo jornalístico é parte da teoria econômica chamada Cauda Longa (Long Tail), segundo a qual a internet viabilizou a venda de um grande número de produtos em pequenas quantidades, contrariando a técnica usual na produção industrial de vender poucos produtos muito populares em grandes quantidades. A opção pelo nicho não é fácil, mas é a mais viável num contexto de mudanças constantes no ambiente jornalístico. Ela é também o primeiro passo para a formação de futuras redes jornalísticas noticiosas, um desdobramento dos nichos já com uma base financeira e tecnológica muito mais sólida e estável. 

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