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A violência na classe média, item diário da agenda da imprensa

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

O caso do porteiro esquartejado em São Paulo parece ser o candidato fácil ao título de crime monopolizador das atenções de jornais e telejornais da primeira semana de junho, seguindo fielmente a tristemente célebre regra do “se sangrar vira manchete” (adaptação da frase inglesa “if it bleeds, it leads”). Nem mesmo o frenesi pré-Copa foi capaz de tirar das primeiras páginas o crime protagonizado por um publicitário paulista.

Este é apenas o mais recente de uma série de assassinatos que ganharam projeção nacional graças à preocupação da imprensa em explorar delitos que envolvem famílias da classe média. Os crimes na classe C e D não despertam mais a mesa curiosidade dada a sua monótona frequência e motivos quase sempre ligados à precária situação econômica das vítimas e criminosos.

Antes do caso do porteiro morto por um morador do prédio onde trabalhava, assistimos durante mais de uma semana aos detalhes sórdidos do assassinato do menino Bernardo, de 8 anos, no Rio Grande do Sul. Retrocedendo mais no tempo encontraremos uma lista consistente de crimes em família, fato que leva a uma perturbadora dúvida: está aumentando a frequência de assassinatos na classe média brasileira, ou é a imprensa que está exagerando depois de descobrir um novo filão para atrair a atenção do público?

As estatísticas policiais podem oferecer elementos para atestar a veracidade ou não da primeira parte da pergunta, mas a observação crítica da imprensa mostra que a segunda parte é, pelo menos, parcialmente verdadeira. É óbvio que os jornais e telejornais não são os responsáveis pelos delitos cometidos entre pessoas da classe média, mas o fato de terem transformado dramas intrafamiliares em item de agenda noticiosa pode facilmente ser associado a uma preocupação com o faturamento.

A monotonia da cobertura jornalística sobre corrupção pública e privada, a crescente impopularidade e desinteresse pelo noticiário político, a sucessão de manifestações de protesto e o registro impotente dos assaltos, roubos e sequestros levaram a imprensa a buscar novos temas para reconquistar o interesse de um público cada vez mais viciado em redes sociais e no voyeurismo virtual.

A classe média urbana, antes protegida por uma cumplicidade da imprensa em relação aos seus conflitos domésticos, passou agora a principal protagonista de reportagens investigativas nas quais o voyeurismo e a solidariedade passional são os principais ingredientes da nova receita jornalística. Os segredos da vida privada tornam-se públicos e tema de intermináveis debates na imprensa sempre que coincidam com tragédias impactantes.

Por outro lado, em especial na TV, há um discreto incentivo à manifestação da ira comunitária e à cobrança de justiça a qualquer custo. Como jornais, revistas e televisão deixam de lado a investigação jornalística para privilegiar informações dadas por policiais, advogados, especialistas e magistrados, acabamos perdidos num mar de jargões, opiniões disfarçadas de verdades, silêncios cúmplices e dados distorcidos. Resultado: não conseguimos entender o que aconteceu, ficamos a espera de respostas, até que um novo crime monopolize as manchetes e, consequentemente, a nossa atenção.

A exploração comercial da violência nas famílias de classe média mostra tanto o estado de nervos de um segmento da sociedade até agora relativamente imune ao sensacionalismo,, como também o fato de a imprensa não conseguir romper a dependência das vendas como fator dominante da determinação da agenda de reportagens. Todos os crimes famosos dos últimos meses não produziram resultados conclusivos e permanece uma névoa de dúvidas sobre suas causas, implicados e consequências.

A classe média é o segmento mais dinâmico no contexto social contemporâneo do país. Todas as transformações verificadas desde que começou a política de distribuição de renda geram questões de enorme interesse público por conta das tensões e contradições que provocam. Mas a imprensa parece não ter se dado conta dos fenômenos sociais em curso e foca apenas no pior lado da ascensão da classe média, o seu descontrole emocional.

A mídia não deve deixar de cobrir os crimes, mas precisa situar o seu trabalho investigativo e documental num contexto de busca de soluções coletivas. Não adianta execrar assassinos e nem muito menos destruir reputações, se isto é promovido às custas do passionalismo e da curiosidade mórbida. A prisão não é o único e nem o mais eficiente desestímulo à banalização da violência na classe média. Saber por que e como o dinheiro, a busca de status, a conquista do poder e a competição desenfreada contaminaram as relações sociais é também uma missão da imprensa, porque afinal ela existe para servir ao cidadão e à sociedade. 

A boataria eleitoral assusta partidos e eleitores

Postado por: Carlos Castilho | 4 comentários

A boataria passou a fazer parte do nosso quotidiano e teremos que conviver com ela e suas consequências. Há pouco tivemos o caso do linchamento e morte de uma dona de casa em Guarujá (SP). Depois tivemos o caso do boato que acabou se tornando um dos responsáveis pela paralisação ilegal de um grupo de motoristas e cobradores de ônibus da capital paulista. E no dia 25 de maio a imprensa revelou que o PT, PSDB e PSB estavam preparando estratégias para conter a proliferação de boatos em redes sociais na internet, na campanha para as eleições presidenciais de outubro.

É o preço que estamos tendo que pagar pela conquista do poder de publicar opiniões na internet sem passar pelo crivo da imprensa. Há muita gente que lamenta este fato, mas é impossível voltar atrás. Seria o mesmo que tentar desinventar a televisão, o motor a combustão interna ou a roda. O jeito é aprender a conviver com a inevitabilidade de informações inverídicas ou distorcidas por meio de uma permanente leitura crítica do noticiário diário.

Embora ofuscada pela maciça propaganda em torno da Copa do Mundo, a campanha eleitoral para a sucessão presidencial de outubro surge como a grande arena para a boataria online. Os três partidos envolvidos diretamente na disputa presidencial criaram grupos especializados para lidar com os boatos, mas pelas informações divulgadas até agora todos eles pretendem travar a guerra na justiça em vez de fazê-lo no ambiente digital. 

Tudo indica que a estratégia dos principais aspirantes ao Palácio do Planalto será recorrer à legislação eleitoral, o que pode ser uma proposta arriscada, pouco eficiente e que em vez de acabar com os boatos poderá avivá-los mais ainda. Um boato não se proíbe, mas, sim, se neutraliza com informação veraz e confiável. Além disso, é muito complicado identificar o autor de uma informação falsa circulando na rede, já que ela é repassada centenas e até milhares de vezes entre usuários da internet.

É aí que parece estar a principal debilidade da estratégia dos políticos na previsível guerra de informações. Em campanhas anteriores, a grande preocupação era fazer propaganda do candidato, mas na era da internet o que vale é o tipo de dados e informações que os partidos fornecerão aos eleitores indecisos. A estratégia dos partidos era tentar convencer o eleitor, em vez de ajudá-lo a tomar uma decisão. Uma atitude impositiva em vez de uma postura colaborativa.

A conjuntura mudou porque aumentou o volume de informações disponíveis na internet, contribuindo para que o eleitor passasse a ter mais versões para um mesmo fato – o que aumentou o seu ceticismo e desconfiança em relação às promessas eleitorais. Com isso, tornou-se necessária uma nova estratégia para reconquistar a atenção das pessoas. 

É previsível a ocorrência de boatos grotescos que podem ser facilmente enquadrados na legislação eleitoral, mas o que provavelmente mais preocupa os partidos são os casos sofisticados, quando é difícil rotular o tipo de mensagem que está circulando na rede. O boato com aparência de verdade é o mais perigoso porque pode destruir reputações e o mais difícil de bloquear, porque se alimenta da dúvida, da curiosidade e da morbidez. 

A preocupação em usar a justiça para punir o adversário pode até dar certo em alguns casos, mas o que mais renderá votos é a preocupação em saber como o eleitor está reagindo aos boatos. A internet criou comportamentos políticos novos entre os eleitores diante da velocidade e amplitude da circulação tanto de informações verídicas como de rumores ou boatos. Com isso aumenta a possibilidade de mudanças súbitas e inesperadas no comportamento dos votantes. Para identificar esses movimentos é imprescindível estar atento ao tipo de preocupação do eleitor.

As grandes redes sociais já sabem que estarão no centro da polêmica e podem acabar como vilãs na boataria. Por isso tratam de minimizar os eventuais prejuízos a sua imagem corporativa, mas é evidente que elas não podem controlar seus usuários no caso de uma guerrilha de boatos digitais. O certo é que, à medida que avançamos na era digital, a disputa de votos em campanhas eleitorais passa a ser uma batalha informativa.

Os métodos tradicionais de valorizar a imagem pessoal ou o recurso ao corpo a corpo nas ruas para seduzir eleitores e conquistar simpatias perdem terreno para formas mais sutis de persuasão vinculadas ao uso da informação, um item imaterial e complexo que é fácil e barato para disseminar, mas muito difícil para avaliar, principalmente em situações emocionalmente carregadas – como uma eleição presidencial como a que nos espera no dia 5 de outubro. 

Greves colocam a imprensa contra a parede

Postado por: Carlos Castilho | 5 comentários

Greves de ônibus simultâneas em pelo menos 13 cidades brasileiras de médio e grande porte levantam suspeitas generalizadas, mas a imprensa ignora olimpicamente as dúvidas sobre os interessados nos movimentos e apenas faz um registro burocrático das paralisações, deixando a população duplamente confusa.

O papel da imprensa, em especial dos jornais das capitais e dos telejornais em rede nacional, não identificam quem são os grupos políticos que estão por trás de greves que tornaram ainda mais tensa e confusa a vida de milhões de brasileiros. As dúvidas que atormentam os usuários do transporte coletivo nas cidades afetadas pelos movimentos de cobradores e motoristas de ônibus variam desde a incerteza na hora de sair para o trabalho até as suspeitas sobre quem teria interesse num protesto que dá sinais de ser coordenado por alguém.

É difícil especular sobre os reais interessados nessas greves, mas a responsabilidade da imprensa parece bem clara. Ela não está contribuindo para resolver as dúvidas da população em São Paulo e dez outras cidades paulistas, em São Luiz, Cuiabá e Teresina.

O caso das greves em São Paulo foi exemplar. A paralisação dos dias 21 e 22/5 foi promovida por dissidentes do sindicato mas em momento algum eles foram identificados. Além disso, a Polícia Militar paulista se mostrou passiva e nenhuma autoridade estadual ou do Poder Judiciário resolveu aplicar a lei. A imprensa não cobrou nada, limitando-se a documentar ocorrências e relatos irritados de pessoas sem transporte.

Numa situação como a de uma greve de transportes públicos, milhões de pessoas são afetadas e consequentemente têm o direito de exigir uma solução rápida para a falta de ônibus. Mas, para fazer isso, as pessoas precisam de informação para poderem cobrar medidas pertinentes dos responsáveis pela situação, no caso funcionários e donos de empresas do transporte público. Quem deveria fornecer essas informações é a imprensa, porque ela é uma instituição cuja missão é oferecer dados para que o cidadão possa tomar decisões.

Quando a imprensa não fornece as informações que permitam às pessoas cobrar soluções, ela deixa de cumprir o seu papel social e passa a ser apenas um negócio. O papel social da imprensa é investigar situações confusas e complexas para dar ao público elementos para avaliar contextos, consequências e responsáveis. É o que está escrito em todos os manuais de redação e é mencionado sempre nos discursos dos donos de empresas jornalísticas.

Esta é função da imprensa, que se transforma num mero sindicato de donos de empresas quando se omite em sua responsabilidade social. O governo, as empresas privadas e organizações corporativistas (incluindo sindicatos) têm outros interesses que devem ser identificados para que a população não seja enganada.

A informação pública é um serviço cada vez mais importante na emergente sociedade digital porque é a base para a produção de conhecimento, fator indispensável tanto para a produção econômica como para viabilizar as transformações sociais inevitáveis num período de transição de modelos.

A produção de conhecimento não é um atributo exclusivo dos intelectuais, pesquisadores, tomadores de decisões e empreendedores. No momento em que começamos assistir a um irreversível processo de descentralização política, administrativa e produtiva, os segmentos sociais da chamada base social passam a ser indispensáveis no desenvolvimento de soluções inovadoras para problemas locais. 

Fica cada vez mais claro que as grandes decisões sobre problemas, como transporte público urbano, não poderão mais ser tomadas apenas por burocratas de uma prefeitura de grandes cidades, mas também pelos usuários, que conhecem o problema de perto e sofrem diretamente as suas consequências. Mas para que isso seja possível é necessário ter informações, o que não acontece e nem aconteceu nas greves de ônibus pelo país.

Nós jornalistas exercemos uma função complexa porque somos orientados pela missão social da imprensa, mas ao mesmo tempo integramos uma estrutura industrial movida pela lógica dos negócios.

A convivência entre ambas funções é possível e viável, mas há conjunturas que as colocam em situações opostas, como a que está acontecendo agora com as greves no transporte público, movimentos de protesto que podem ter implicações eleitorais. Quando isso ocorre, os jornalistas acabam diante de um dilema: manter o emprego ou correr o risco de perder a credibilidade do público, o que pode ser fatal para o exercício da profissão.

A agenda alienante da imprensa

Postado por: Carlos Castilho | 4 comentários

Se alguém parar um minuto para pensar, se dará conta que a agenda de temas que a imprensa nos impõe é paranoica e desvinculada da realidade em que vivemos. Somos levados a discutir sobre temas que não têm impacto direto sobre o nosso quotidiano enquanto aqueles que realmente importam são mencionados superficialmente ou simplesmente esquecidos.

Pior do que isso, nós jornalistas induzimos o público a depender de decisões superiores quando boa parte dos problemas diários podem ser resolvidos, coletiva e colaborativamente, pelos próprios interessados. Alimentar a dependência é uma forma de subordinar as pessoas e ao mesmo tempo nutrir a onipotência de governantes.

Quem se preocupa em ir um pouco além das manchetes de jornais e revistas verá que os grandes problemas da população não são a CPI da Petrobras, se o José Dirceu vai ou não poder trabalhar fora da cadeia, se a presidente Dilma Rousseff sobe ou desce nas pesquisas etc., etc. O que nos tira o sono é o espectro da falta d’água, de uma previsível crise no abastecimento de energia elétrica, o quebra-cabeças da mobilidade urbana e o que fazer para termos direito aos serviços pelos quais pagamos impostos.

Esses são apenas alguns dos assuntos sobre os quais já deveríamos estar pensando, mas movidos por uma agenda noticiosa que leva em conta apenas o que é importante para os governantes de turno e os grandes empresários, acabamos deixando para depois, na expectativa de que os políticos e empreendedores operem o milagre impossível de resolver todos os nossos problemas. Trocamos a nossa omissão por votos na esperança de que eles tragam a solução que nunca vem.

Se a nossa imprensa quisesse, já teria como colocar o debate sobre a questão da energia tomando, por exemplo, o caso da Alemanha, onde 87% da produção de energia renovável estão nas mãos de indivíduos ou movimentos comunitários. Os especialistas em energia estão cansados de saber que o modelo concentrado em poucas megausinas não tem mais como crescer e que a descentralização é a única forma de criar sistemas sustentáveis que, operando em rede, podem resolver rapidamente eventuais falhas de unidades isoladas.

Megacidades como São Paulo já são inadministráveis porque a gestão municipal está toda concentrada na prefeitura, cujo orçamento e efetivo humano estão muito aquém das necessidades da população. Mas ninguém discute a descentralização porque isso não interessa ao prefeito de plantão e nem aos seus adversários, que esperam apenas a chance de tomar o poder, para que tudo continue igual.

Decisões como essas dificilmente serão tomadas pelos administradores atuais porque elas implicam quebrar modelos e rotinas, coisa que os políticos têm horror dado o risco de perder votos em futuras eleições. Nenhuma dessas decisões será tomada sem que a população tome consciência de sua necessidade e urgência. E esta consciência só pode ser alimentada por informações.

A imprensa seria a única instância à qual o cidadão poderia recorrer para obter dados sobre a situação de sua cidade, porque as demais instituições, inclusive a universidade, têm seus interesses próprios e tratam de defendê-los na mídia. O papel da imprensa seria propor temas que afetam a comunidade e identificar os interesses, abertos e ocultos, dos diferentes setores envolvidos em cada problema em debate. É o que o cidadão espera, mas não é o que ele obtém. O que assistimos hoje é a população levantar os problemas nas ruas e só depois disso é que a imprensa, políticos e governantes correm atrás – não para resolver, mas para livrar a própria responsabilidade, jogando preferencialmente a culpa nos desafetos.

Se a imprensa cumprisse apenas o papel de identificar interesses e contextos de forma honesta já estaria prestando um serviço inestimável ao cidadão, que poderia ter elementos minimamente confiáveis para tomar decisões. Os jornais, revistas, telejornais e sites noticiosos na Web não precisam se proclamar paradigmas da independência, isenção e imparcialidade. Todos sabemos que isso é materialmente impossível. Mas se procurassem, pelo menos, chegar perto da isenção, isto já seria um antídoto poderoso contra a desinformação e deformação informativa.

O cidadão é forçado a engolir maciças doses diárias de violência, tragédias e crimes cuja divulgação ocupa espaços que poderiam ser usados para a busca de soluções de problemas que estão na porta da casa de cada um de nós. Nada contra a divulgação do incêndio do ônibus que matou 34 crianças no interior da Colômbia, das enchentes na Sérvia ou da cabeça de bebê encontrada decapitada em Caxias do Sul (RS).

Mas os editores de jornais e telejornais precisam ter uma noção mais precisa daquilo que afeta ou vai afetar o quotidiano das comunidades onde está a sua clientela de usuários. Claro que é mais fácil reproduzir a notícia de uma tragédia distante que já vem formatada para o vídeo ou basta copiar e colar na página impressa. Investigar temas locais dá trabalho, toma tempo e mexe com interesses de pessoas que em geral estão muito próximas do jornal ou emissora.

A valorização da periferia é um fenômeno global que veio para ficar porque dele depende a sustentabilidade econômica e social do planeta. A imprensa ignora olimpicamente o que ocorre na periferia de nossas cidades e só acorda quando acontece alguma tragédia. Os empresários e economistas já fizeram as contas, muito antes dos políticos e administradores, e começaram a migração para a periferia e para o interior, onde os custos são menores e a qualidade de vida, muito melhor.

Mas a imprensa continua aferrada a um patriarcalismo político baseado em promessas eleitorais impossíveis de cumprir, atitude que mantém os cidadãos domesticados na esperança de que algo vá acontecer. Só que este modelo de jornalismo está se desgastando rapidamente e, se não for revisto no curtíssimo prazo, a própria sobrevivência de muitos veículos de comunicação estará ameaçada. 

Estudo prevê a invisibilidade da internet

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

O avanço da internet e da digitalização será tão acelerado e intenso nos próximos 20 anos que ambas se tornarão comuns como a eletricidade, a roda e os motores de combustão interna, perdendo o glamour e a visibilidade atuais. É o que prevê uma pesquisa feita pelo Pew Research Center Internet Project, dos Estados Unidos, com base em entrevistas com 1.867 pesquisadores, programadores e empresários para marcar a passagem do 25º aniversário da criação da Web.

O trabalho, que será desdobrado em quatro outros relatórios a serem divulgados até dezembro, foca especialmente na chamada “internet das coisas” (Internet of Things) , a denominação genérica dada à interação entre processadores eletrônicos instalados em quase todos os equipamentos que nos cercam e também em nossos próprios organismos.

O documento afirma que apesar do ceticismo de muitos integrantes de gerações mais velhas, a internet e a digitalização estão mudando irreversivelmente a nossa forma de viver ao provocar mudanças drásticas, especialmente em áreas como finanças, entretenimento, comunicação (jornalismo, publicidade e literatura) e educação. É um novo marco na história da humanidade, cujas consequências nós estamos apenas começando a sentir.

Os participantes da pesquisa destacaram o fato de que em 2008 o número de processadores interconectados superou o total de habitantes do planeta, iniciando um crescimento exponencial que em 2013 chegou a 13 bilhões e vai passar dos 50 bilhões em 2020, segundo projeções feitas por engenheiros da empresa Cisco, fabricante de 90% dos equipamentos de interconexão entre chips eletrônicos.

Como todas as inovações tecnológicas ao longo da história da humanidade, a mudança de paradigmas sempre gera resistências por pessoas pouco informadas ou que temem sair da sua zona de conforto. Se o estado atual da internet já provoca tantas resistências, a situação tende a se complicar ainda mais com o avanço da “internet das coisas”, que nos levará a um ambiente no qual a separação entre o mundo material e o imaterial se tornará ainda mais difusa e fluida.

O jornalismo está no meio de tudo isso como um dos setores mais afetados pelas mudanças tecnológicas em curso. O avanço da digitalização e da telemática na comunicação humana tende a criar um novo padrão informativo no qual o mercado deixará de ser a referência principal na produção de notícias para ceder lugar à preocupação prioritária com a geração de conhecimentos socialmente relevantes.

A natureza imaterial da digitalização fez com que os segmentos econômicos que também lidam com matérias-primas não palpáveis acabassem sendo os mais afetados, como é o caso do jornalismo. Não é apenas a indústria da comunicação que teve o seu modelo de negócios afetado drasticamente pela eliminação de intermediários como os jornais, editoras, gravadoras e empresas distribuidoras de filmes.

A mão de obra nesses setores também está tendo que mudar comportamentos e valores, o que nem sempre é um processo tranquilo e isento de atritos e frustrações pessoais. A principal mudança é a demanda de atualização constante do acervo individual de conhecimentos para acompanhar a inovação dos processos tecnológicos. Se até agora gastávamos muito tempo na produção mecânica de um texto, vídeo ou áudio, os novos equipamentos digitais permitem que a criatividade passe a ser o grande diferencial .

A divulgação dos resultados da pesquisa do Centro Pew de Pesquisas sobre o Projeto da Internet incomoda os que têm dificuldade em digerir os efeitos das mudanças que estamos testemunhando, ao mesmo tempo que alimenta a excitação futurológica dos que esperam ganhar muito dinheiro com as novas tecnologias. Mas sua principal virtude está em fornecer material para quem acha que deve refletir sobre os dados e depoimentos publicados.

Leia também

Internet das coisas vai prosperar em 2025 – Pew Research Center [em inglês]

‘Cascatas de rumores’, um desafio para o jornalismo e usuários da web

Postado por: Carlos Castilho | 5 comentários

Foi preciso acontecer uma tragédia para as pessoas descobrirem o caráter letal de um rumor transmitido em redes sociais sem uma verificação de sua veracidade. O caso da dona de casa linchada e morta em Guarujá (SP) é um sintoma dramático da urgência da sociedade tomar consciência de que ela precisa aprender a ser responsável no uso e transmissão de informações.

A internet reduziu drasticamente o papel dos filtros na transmissão de notícias e informações. Trata-se de um fato irreversível sobre o qual não adianta lamentar a ausência de intermediários como a imprensa, à qual até agora era atribuída a responsabilidade pela filtragem das notícias, separando a boataria e a fofoca dos fatos concretos.

A desintermediação da informação trouxe enormes vantagens na medida em que aumentou a diversidade de percepções individuais sobre um mesmo fato, dado numérico ou evento. Mas também tornou possível a proliferação descontrolada de rumores, infâmias, falsificações e distorções, algumas grotescas. É impossível implantar um controle total do fluxo de dados e informações na rede, o que faz da alfabetização informativa uma necessidade urgente e universal.

Embora o jornalismo ainda tenha uma parcela de culpa na disseminação do sensacionalismo, do grotesco e do bizarro, ele não tem mais condições de funcionar como um filtro noticioso. A quantidade de dados e informações jogados na internet a cada segundo tornou-se grande demais para ser filtrada por humanos. Nem os algoritmos (softwares processadores de dados digitalizados) são capazes de cumprir essa tarefa de forma plena porque são programados por técnicos, e estes não conseguem se atualizar na mesma velocidade da avalancha informativa virtual.

Estamos, portanto, condenados a ter que nos educar em matéria de uso e disseminação de notícias, assumindo uma responsabilidade que até agora delegávamos à imprensa e organismos reguladores estatais ou privados. Esta tarefa passa a ser de cada um de nós e as consequências passam a recair também sobre as comunidades das quais participamos.

A alfabetização informativa é um processo no qual os jornalistas têm um papel insubstituível porque foram treinados para trabalhar com informações, logo têm todas as condições para capacitar o cidadão comum a saber como separar o rumor do fato e como lidar com a difusão viral de informações não checadas. Esta é provavelmente uma das novas funções dos profissionais no jornalismo do futuro.

Mas os jornalistas também precisam aprender a lidar com o que já foi batizado de cascatas de rumores, a proliferação incontrolável de um boato pelas redes sociais na internet. Uma das fontes mais importantes de informações sobre o tema é o site norte-americano Snopes, que criou 51 categorias rumores, além de oferecer ajuda para quem está em dúvida sobre a veracidade de boatos circulando pelo Facebook, por exemplo.

Em um estudo intitulado “Rumor Cascades”, quatro pesquisadores norte-americanos seguiram 250 mil rumores que circularam no Facebook entre julho e agosto de 2013 e identificaram que 62% deles eram falsos, mas os 38% que foram provados como verdadeiros se espalharam com maior velocidade e atingiram mais pessoas. O estudo também mostrou que quando um internauta descobre que o rumor que ele espalhou na internet é falso, 90% deles apagam a mensagem. O arrependimento, no entanto, se mostra pouco eficaz, porque o rumor já se espalhou e menos de 1% dos que o receberam decide também eliminá-lo.

Além disso, foi comprovado que um único rumor falso pode circular durante longos períodos na internet, algumas vezes por até oito anos, sendo lido e repassado por até 150 mil usuários da rede. Fatos como este mostram que a solução para evitar tragédias como a da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, em Guarujá, está no início do processo de circulação de um boato. Depois que ele caiu na rede, não há mais solução. É como tentar recapturar uma a uma as penas de um travesseiro aberto em vento forte. É uma preocupação preventiva que deve mobilizar tanto os jornalistas como todos os que usam a internet.

Para detalhes sobre o linchamento e morte de Fabiane de Jesus, leia também:

Reflexões sobre o boato mortal – Luciano Martins Costa

O linchamento do jornalismo – L.M.C.

Linchadores por todos os lados– L.M.C.

As muitas causas da violência – L.M.C.

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