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A internet é muito mais que uma rede de computadores

Postado por: Carlos Castilho | 4 comentários

O debate político e a cobertura da imprensa sobre a votação do Marco Civil da Internet não tocaram nas consequências mais importantes da expansão mundial da rede de computadores e que afetam diretamente a cada um de nós. A internet e sua interface visual – a Web – já estão conformando a sociedade do futuro ao surgirem como alternativa para grandes dilemas atuais, como a degradação do meio ambiente, o caos urbano e oagravamento das disparidades sociais em escala planetária.

A discussão travada aqui no Brasil se limitou a aspectos técnicos e estratégias comerciais, sem levar em conta que a internet vai permitir a descentralização econômica e populacional do país ao viabilizar empregos e empresas em regiões que hoje estão marginalizadas, mas que oferecem excelente qualidade de vida.

É cada vez maior o número de brasileiros que abandonam as grandes cidades castigadas pela lista infindável de problemas que hoje formam a pauta jornalística dos grandes jornais, revistas e emissoras de televisão do país. Esses brasileiros buscam cidades no interior porque a internet viabiliza a atividade econômica em regiões periféricas, coisa que antes era impossível porque as comunicações eram analógicas e de alto custo.

A digitalização e a rede de computadores permitiram uma fantástica circulação de informações por grandes distâncias e a um custo relativamente baixo se comparado com as linhas telefônicas físicas. Essa informação que circula pela internet é o motor de um novo empreendedorismo baseado em pequenas unidades descentralizadas, porque não é mais necessário concentrar um grande número de funcionários num espaço reduzido por causa dos custos de comunicação e de transportes.

Por isso, a internet é muito mais do que uma rede de computadores. Ela pode ser comparada ao papel que o petróleo teve na nossa sociedade e na economia durante a maior parte do século 20. A preservação da igualdade de acesso, também conhecida como a neutralidade da internet, garante que os brasileiros tenham maiores possibilidades de acesso à produção de bens e serviços imateriais, movidos à informação.

A internet não se resume a um ambiente para jogos eletrônicos online, voyeurismo no Facebook, egocentrismo via Twitter e fofocas em redes sociais. Esta é a parte menos importante, embora seja a mais badalada. Também não é apenas uma vitrina para a multiplicação de engenhocas tecnológicas. A nossa vida, nos próximos 20 ou 30 anos, estará condicionada pela rede, pois aumentará muito o número de brasileiros que dependerão dela para seu sustento, em maior ou menor intensidade.

Por isso é tão importante que a internet permita maior igualdade de oportunidades do que as oferecidas pelo modelo industrial. É preciso lembrar que a rede de computadores surgiu e cresceu como um projeto não lucrativo e descentralizado. Ninguém pode dizer que é dono da internet, embora os Estados Unidos exerçam um papel importante na gestão dos poucos órgãos centralizadores.

Pode parecer estranho, mas quanto mais livre for a internet, ou seja, quando mais o acesso e o uso não forem condicionados pelo fator econômico, mais ela poderá produzir inovações. Quanto maior a diversidade de conteúdos informativos circulando na rede, maior a possibilidade de pessoas criativas e empreendedores desenvolverem produtos e serviços inovadores por meio da recombinação de dados e informações.

A economia da era digital baseia-se na produção de bens e serviços imateriais, logo sem utilizar matérias-primas esgotáveis que geram perdas, algumas irreparáveis, no meio ambiente. A produção de riquezas, o famoso PIB, e a geração de empregos dependerão cada vez menos da produção industrial baseada em insumos esgotáveis. A informação é a primeira matéria-prima que, além de não ser esgotável, se reproduz e se valoriza com o uso e com a difusão.

Nada disso foi dito na nossa imprensa e nem pelos nossos governantes, o que deixa a maior parte do público vulnerável à desinformação e sem condições de avaliar a real importância do que é decidido em Brasília por políticos que, na sua maioria, não têm a mais pálida ideia do que está por trás do debate sobre o Marco Civil. Para deputados e senadores, o debate é parte de uma estratégia eleitoral.

Por isso, o futuro da internet brasileira, que hoje é também um componente-chave do sistema de comunicação móvel via smartphones, acabará tendo que ser decidido pelos seus usuários diretos. A conscientização e a mobilização já estão sendo feitas por sites como o Avaaz, que oferece uma oportunidade inédita de participação cidadã independente dos canais convencionais, e que só é viável porque existe a internet. 

As novas bases da credibilidade jornalística

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

Uma polêmica em curso na imprensa norte-americana permite vislumbrar uma mudança radical na forma como é avaliada a credibilidade de um jornalista profissional. O caso da reportagem investigativa da revista Newsweek sobre o descobridor da moeda virtual Bitcoin mostrou que a reputação de um repórter ou editor já não está mais no consenso de seus colegas, mas na massa indiferenciada de usuários da internet.

É uma mudança radical porque a credibilidade profissional não surge mais a partir do meio jornalístico, um universo bem mais restrito e ordenado do que o ambiente caótico e complexo dos milhões de internautas espalhados pelo planeta. É mais uma das grandes mudanças provocadas, no jornalismo e na imprensa, pela Word Wide Web, que completou 25 anos de existência na quarta-feira (12/3).

A identidade do criador do Bitcoin é um enigma que desafiava os repórteres investigativos até que Leah Goodman publicou uma matéria de capa da revista semanal Newsweek, apontando o engenheiro californiano Dorian Nakamoto como o inventor da moeda virtual que está provocando arrepios no mundo financeiro internacional. Nakamoto negou que fosse o inventor e o semanário norte-americano acabou envolvido num delicado imbróglio jornalístico, pois Leah Goodman, uma experimentada repórter investigativa, passou a discutir com internautas que contestavam os dados inseridos na sua reportagem.

A repórter baseou a sua defesa em sua experiência profissional reduzindo a importância dos fatos apresentados pelos seus críticos virtuais, entre os quais surgiram também vários jornalistas. O caso mostra como um profissional formado no chamado jornalismo industrial pré-internet pode acabar como um peixe fora d’água no jornalismo pós-industrial da era digital. A reportagem de Goodman foi produzida seguindo os parâmetros tradicionais da imprensa norte-americana.

A revista Newsweek, por seu lado, ao apostar no impacto da revelação da identidade do inventor do Bitcoin, pretendia atrair leitores para alavancar um projeto de recuperação da receita publicitária. Outro exemplo da estratégia convencional de produzir matérias da capa chamativas em revistas semanais de atualidade para aumentar tiragens e vendas.

Essas duas posturas induziram a repórter e a revista a não levarem em conta a chamada blogosfera, milhões de pessoas que publicam na Web, não compram a Newsweek e que opinaram com base em cópias da reportagem distribuídas por redes sociais, blogs e outros sites da internet. O universo dos compradores tradicionais é muito menor, mais uniforme do ponto de vista cultural e pouco inclinado a bater boca pela rede.

O mundo da internet é diferente e o professor de jornalismo Jay Rosen, da Universidade Municipal de Nova York (CUNY), foi direto ao ponto ao assinalar que a revista cometeu um erro na sua estratégia editorial, que serve de alerta para todas as demais publicações online. Segundo Rosen, a repórter Leah Goodman apresentou os resultados de sua investigação como um fato irretorquível, quando na verdade deveria tê-los publicado como uma tese sujeita à discussão. Sua longa vivência no meio impresso levou-a a não perceber a mudança de público leitor.

Os repórteres formados na era pré-internet tendem a apresentar uma reportagem como um produto acima de qualquer dúvida, fato para o qual contribui a limitada capacidade de correção por parte do público, cuja participação só era aceita quando o erro era realmente grave. Na era digital, a postura mudou porque é impossível a um jornalista sintetizar em sua reportagem toda a complexidade dos fatos, números, processos e objetos sobre os quais ele trabalhou. E, assim sendo, ele sempre estará sujeito a correções, adendos e críticas, nem sempre amenas, de milhares de internautas que tomaram conhecimento da reportagem.

Por prudência e principalmente por assumir a mudança de contexto na internet, os jornalistas não podem mais adotar ares de donos da verdade, mesmo com base numa longa experiência e na respeitabilidade dos colegas de profissão, para evitar situações embaraçosas como as vividas por Leah Goodman e a revista Newsweek

A reputação de um jornalista depende agora de um consenso ampliado e principalmente de sua capacidade de recolher os dados, sugestões e críticas construtivas geradas pela sua reportagem para ampliar o conhecimento da sociedade sobre o tema abordado. O produto jornalístico deixa de ser o ponto final num trabalho informativo para ser o ponto de partida para um debate e para o compartilhamento de dados, informações e conhecimentos. 

Não se trata de uma mudança provocada por preferências individuais ou empresariais, mas pela nova realidade criada pelas novas tecnologias de comunicação e informação que passaram a condicionar irreversivelmente o mundo em que vivemos. 

A importância da observação crítica dos telejornais

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

O papel da televisão no fornecimento de notícias ao público brasileiro é ainda maior do que se imaginava, o que amplia extraordinariamente a importância da observação crítica dos telejornais e programas jornalísticos. O telejornalismo atraiu a atenção de 77,5% dos 18.312 entrevistados na pesquisa nacional de hábitos informativos, realizada pela Secretaria da Comunicação da Presidência da República (Secom) com apoio técnico do Ibope (ver Pesquisa Brasileira de Mídia 2014 – Hábitos de consumo de mídia pela população brasileira).

Se projetarmos os percentuais para o conjunto da população brasileira – estimada pelo IBGE em 202,76 milhões de habitantes em 2014 – teríamos um total de 196,62 milhões de brasileiros dependentes da televisão como a sua principal fonte de informação, e que nada menos que 157,92 milhões deles assistiriam regularmente a telejornais e programas noticiosos na TV.

A pesquisa, que ouviu pessoas em 848 municípios de todos os estados brasileiros mais o Distrito Federal , concluiu que 45% dos telespectadores de telejornais (total estimado em 71 milhões de pessoas) sintonizam regularmente o Jornal Nacional, da TV Globo, e 16% ( estimativa de 25,2 milhões de pessoas ) assistem diariamente ao Jornal da Record, da TV Record.

Somando-se os totais estimados para apenas dois telejornais teríamos uma audiência possível de quase 97 milhões de brasileiros, ou seja 48% da população nacional dependente de apenas dois telejornais para formar a sua imagem de sua região, de seu país e do mundo. Trata-se de uma enorme concentração da oferta informativa cuja principal consequência é uma forte redução da diversidade de enfoques e perspectivas, algo que já é do domínio comum.

A questão que se coloca agora é a necessidade de submeter a produção jornalística das emissoras de televisão ao mesmo juízo crítico que já é exercido por organizações como o Observatório da Imprensa em relação aos jornais e revistas impressas. Não se trata de patrulhamento no sentido vulgar do termo, mas de uma observação do conteúdo dos telejornais para identificar vieses, intencionais ou não, no tratamento das informações transmitidas aos telespectadores.

Esta é uma missão que supera a capacidade, técnica e humana, de monitoramento televisivo da maioria das organizações e indivíduos que se dedicam à leitura crítica da imprensa impressa e audiovisual. Com dependemos cada vez mais das notícias recebidas da imprensa para tomar decisões, desde as mais simples até as mais complexas, estamos diante de um desafio que atinge a todos nós. A informação que desejamos e necessitamos depende de nós, porque as emissoras de TV, assim como o resto da mídia jornalística, têm seus próprios interesses determinados pela necessidade de sobreviver financeiramente.

A forte dependência em relação ao noticiário produzido por duas emissoras de televisão é um elemento que influi decisivamente na conformação do universo cognitivo dos brasileiros. Cada notícia que recebemos gera uma reflexão individual e comunitária cujos resultados alteram a forma como vemos a realidade do nosso bairro, cidade, país e planeta. Trata-se de uma responsabilidade imensa para as emissoras comerciais de televisão que, no entanto, não conseguem dar conta dela porque precisam impor um ritmo industrial na produção de notícias, visando baratear o seu custo.

Assim, a maioria das notícias que saem num telejornal são aquelas cuja edição e transmissão resultam mais econômicas para a empresa ou atendem a seus interesses comerciais. A lógica empresarial dos telejornais é movida por índices de audiência que, por sua vez, determinam o valor do minuto nos intervalos publicitários. Temas que custam caro para ser transformados em notícia televisiva, como temas comunitários, ou não se situam dentro das preocupações editoriais da empresa, como movimentos políticos alternativos, ou ainda não geram audiências, como reivindicações setoriais, dificilmente entram num telejornal, embora possam ser de interesse de muitos brasileiros.

Nessas condições, o papel da observação crítica passa a ser transcendental para que a sociedade perceba quais as notícias que não recebe nos telejornais. E o tipo de imagem que as emissoras projetam da cidade e do país em que vivemos. 

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O jornal como conversa ou como discurso?

Postado por: Carlos Castilho | 4 comentários

Depois do surgimento do fenômeno das redes sociais, a produção de informações tornou-se um processo cada vez mais parecido com uma conversa entre indivíduos que fazem e recebem notícias. Trata-se de uma mudança importante e inédita na comunicação de massa, porque o público passa a ser protagonista das notícias – não como entrevistado, vítima ou herói, mas como colaborador.

A transformação do jornalismo em grande conversa entre profissionais e o público só não é mais rápida porque tanto um lado como o outro ainda não se deram conta das reais dimensões da mudança. Os jornalistas resistem à perda do controle do fluxo das informações porque foram treinados para dizer para as pessoas o que eles acham importante elas saberem ou não saberem. Como o público também foi educado no sistema um para muitos, ele não sabe que pode participar da produção de informações.

Até agora, o jornalista fazia um discurso descrevendo fatos, eventos, objetos e processos que eram transmitidos em sistema de mão única na forma de notícias para milhares de leitores, ouvintes e telespectadores. Por isso, ainda desconhecem a maior parte das vantagens da coprodução de informações junto com o público.

A institucionalização da conversa ou sistema de mão dupla na relação entre jornalistas e público é inevitável porque os profissionais não conseguem mais dar conta do cada vez mais intenso fluxo de informações circulando na internet.

Os jornais, por exemplo, tem cada vez mais dificuldade para funcionar como filtros de notícias porque não conseguem captar contextos sociais, econômicos, políticos, culturais e psicológicos cada vez mais complexos. Por mais competente que seja o editor, é muito complicado escrever sobre a crise na Ucrânia porque são muitas as variáveis em jogo e quase todas elas desconhecidas por nós, brasileiros.

Assim, em vez de assumir a quase impossível tarefa de entender para explicar a crise venezuelana, por exemplo, o mais eficiente seria compartilhar esta responsabilidade com cidadãos venezuelanos, onde o jornalista brasileiro seria uma espécie de mediador e identificador de fatos, eventos ou dados que possam ajudar o público brasileiro a entender o que está acontecendo no país vizinho.

Não é uma tarefa fácil porque dificilmente um único órgão da imprensa conseguirá sozinho explicar crises complexas – pois ele tenderá, naturalmente, a privilegiar abordagens com as quais simpatiza. Para que a diversidade da situação possa ser compreendida pelo público é inevitável que a conversa envolva a participação de mais de um veículo de comunicação jornalística.

Princípios como a diversidade de perspectivas, a mediação isenta e a objetividade já integram os manuais de Redação, sendo praticados com maior ou menor intensidade em todas elas. A diferença é que os jornalistas e os veículos assumiam que podiam fazer a síntese de tudo para oferecer um produto único, de forma unidirecional para muitas pessoas.

Hoje, a situação se tornou muito mais complexa: além de os veículos, individualmente, não poderem mais ter pretensões a esta síntese, eles precisam do público e até mesmo dos concorrentes para produzir informação dentro das exigências contidas em seus manuais de Redação. Na verdade, estamos falando de várias conversas. Entre uma Redação e seu público, entre os veículos porque o que um descobre pode ser fundamental para a investigação que outro desenvolve, e entre o próprio público, por meio das redes sociais, blogs, chats e micromensagens.

Quanto mais rápida for a substituição do jornalismo/discurso pelo jornalismo/conversa, maior o benefício para todos, profissionais e público, porque a colaboração ocupará espaços tomados hoje pela concorrência entre redações, empresas e as audiências. A competição feroz está diretamente associada ao formato do discurso porque visa oferecer um produto apresentado como único e melhor do que todos os demais do gênero. Só que este produto não é sabão, e sim notícias, cuja importância depende do contexto, algo imaterial e que não pode ser representado em sua plenitude por uma fotografia, desenho, filme ou gráfico.

Até agora, jornalistas e órgãos da imprensa podiam individualmente tentar reconstruir minimamente os contextos de acontecimentos relevantes e complexos. O número de dados disponíveis e as expectativas do público eram reduzidos. Hoje a situação mudou radicalmente e não há mais como aplicar métodos, equipamentos e valores da era analógica na era digital.

O jornalismo diante do assassinato de reputações

Postado por: Carlos Castilho | 4 comentários

O jornalismo está sendo colocado diante de um novo e pra lá de complexo dilema. Trata-se do delicado problema da gestão de reputações pessoais e institucionais na internet, uma área da comunicação pública que passou a ser considerada estratégica pelos principais organismos de segurança de nações, como os Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Inglaterra. [Estes países formam a Five Eyes Alliance (Aliança dos Cinco Olhos); detalhes aqui.]

Documentos confidenciais do ultrasecreto JTRIG (Joint Threat Research Intelligence Group – Grupo Conjunto de Pesquisas e Inteligência sobre Ameaças) revelam como já está desenvolvida a estratégia de desmoralizar pessoas e organizações por meio da “fabricação” de informações para veiculação em redes sociais – e daí para a imprensa. O documento foi publicado pelo site Intercept e integra o material entregue por Edward Snowden ao jornalista Glenn Greenwald.

Trata-se de mais um front da guerra cibernética onde os objetivos estratégicos são cada vez mais de natureza imaterial, ou seja, a eliminação física está sendo substituída pelo chamado “assassinato” de reputações graças à manipulação de dados e informações. A nova estratégia, embora incruenta, não é menos letal, já que destrói a imagem e a credibilidade pública de pessoas e instituições sem a necessidade de processo criminal prévio.

A imprensa, consciente ou inconscientemente, é parte essencial nesse processo porque é ela que leva até as pessoas as notícias sobre as quais serão construídas decisões e opiniões. Esta não é uma função nova, só que na era da internet a forma como fatos, dados e eventos passam a circular em redes sociais, por exemplo, é muito menos transparente do que antes, e a mídia acaba pescando matéria-prima informativa em ambientes muitas vezes nebulosos.

Isso torna extremamente difícil a identificação da origem e reais objetivos de uma informação que é inserida num blog irrelevante, de onde vai para o Twitter ou Facebook, e daí para o correio eletrônico de algum repórter, editor ou de um jornalista blogueiro. Este processo pode ser instantâneo, dependendo da natureza e formatação do material veiculado. 

É quase impossível fazer uma distinção clara e efetiva do material voltado para o assassinato de reputações das informações de genuíno interesse social. O certo é que ambos passam pela imprensa, apesar de atualmente eles estarem cada vez mais circulando sem mediação jornalística. Muitos lamentam o fato de a imprensa ter perdido o monopólio da certificação de origem de notícias, mas isdo já não é mais materialmente possível diante da superoferta informativa gerada pela internet.

A reputação e imagem pessoais passaram a ser o alvo mais estratégico na política cibernética depois que grupos de crackers [programadores que destroem senhas para invadir ilegalmente bancos de dados; não confundir com hackers, que são pesquisadores em computação, geralmente jovens] passaram a usar seus conhecimentos em computação e telemática para invadir bancos de dados, extrair informações comprometedoras e publicá-las nas redes sociais de forma anônima. Foram eles os responsáveis pelo surgimento do Anonymous, um grupo sobre o qual se tem muito pouca informação e que pode ser considerado uma síntese das contradições da política na internet: visibilidade e anonimato ao mesmo tempo.

O Anonymous , objeto de uma pesquisa da antropóloga norte-americana Gabriela Coleman, professora da Universidade McGill, ganhou o status de um fantasma cibernético – perfil que, paradoxalmente, acabou sendo adotado também pelos serviços de inteligência da Aliança dos Cinco Olhos. Ambos procuram visibilidade para seus atos porque estão interessados no efeito midiático dos mesmos, já que usam intensamente um elemento que a imprensa supervaloriza: o segredo. Mas mostram uma preocupação obsessiva com o anonimato porque estão conscientes de que seus métodos são socialmente condenáveis.

Tanto um quanto outro busca a destruição de reputações. O Anonymous revelando os segredos sujos de governos, empresas e personalidades, enquanto organizações como a JTRIG criam perfis falsos, dados incorretos, versões adulteradas e notícias inverídicas para confundir o público e neutralizar adversários por meio do descrédito. Matar implica um alto custo social, ao passo que o descrédito rende juros altos.

O problema é que tudo isso acaba se transformando em matéria-prima para o jornalista, que se torna corresponsável por crimes de imagem e reputação, sobre os quais ele, na maioria dos casos, não tem a menor consciência. 

As distorções do jornalismo político em período eleitoral

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

Muitos podem ainda não ter percebido, mas já estamos em campanha eleitoral para a sucessão presidencial no segundo semestre. Tudo o que é feito em Brasília e nas principais capitais do país está orientado por estratégias partidárias de comunicação cuja única meta é criar contextos informativos favoráveis aos respectivos presidenciáveis.

Este é o universo onde atuam os jornalistas que cobrem temas políticos e cuja função sofreu uma mudança radical em consequência da profissionalização da política, um eufemismo para expressar a transformação da política num negócio rentável. A distorção do papel da política na sociedade não é responsabilidade dos jornalistas, mas sim a forma como o processo é apresentado ao público.

O chamado jornalismo político transformou o leitor, ouvinte, telespectador ou internauta numa espécie de cobaia para os políticos, conforme assinala o professor de jornalismo da Universidade Municipal de Nova York (CUNY) Jay Rosen, no seu blog PressThink. A política deixou de ser tratada como notícia de interesse do eleitor para se tornar uma peça publicitária dos candidatos.

A concorrência entre veículos de comunicação e o desejo dos candidatos de manipular o noticiário acabaram fazendo com que o jornalismo político se transformasse num jogo de especialistas, voltado para detalhes das estratégias eleitorais. Neste xadrez sutil onde é quase impossível identificar os objetivos reais, os jornalistas políticos viraram uma casta de detentores de informações confidenciais (insiders).

Isso lhes deu um papel estratégico na cobertura eleitoral, numa função que o sociólogo Max Weber, o pai da moderna ciência política, definiu como viver “da” política em vez de “para”. Em vez de produzir informações para que as pessoas possam tomar decisões de acordo com seus interesses e necessidades, o jornalismo político transformou a atividade partidária num fim em si, numa espécie de ganha pão ou precondição para empregos públicos.

O bilhete de entrada no clube dos que estão por “dentro das coisas na política” é a posse de algum tipo de informação confidencial. Quem tem esta informação tem um capital que pode ser negociado com outros detentores de informações confidenciais. A partir de um determinado ponto, não interessa mais o conteúdo das informações e sim a sua troca. O jornalista bem sucedido é aquele que consegue fazer as melhores trocas em transações das quais participam outros jornalistas, candidatos e a controvertida figura dos spin doctors (jargão inglês para denominar os especialistas em distorcer contextos em favor de um candidato).

Esta distorção do noticiário político virou uma norma consciente e inconsciente nas redações, convertendo-se num dos fatores que contribuem para que o público se mostre cada vez mais desinteressado na cobertura eleitoral. Repórteres, editores e comentaristas passaram a dedicar uma atenção quase obsessiva ao jogo interno de interesses dentro dos partidos e grupos de pressão. O público se tornou voyeur de um espetáculo, muitas vezes pouco recomendável para menores de 18 anos, ao mesmo tempo em que os profissionais, deliberadamente ou não, tornaram-se peças do jogo que deveriam cobrir.

Além de isolar o eleitor da política ao transformá-la num jogo de cartas marcadas, os insiders geraram outra distorção informativa. Como passaram a viver num ambiente noticioso onde é difícil distinguir o falso do verdadeiro, o real do fictício, eles adotaram o cinismo como uma espécie de autodefesa contra acusações de cumplicidade com interesses eleitoreiros.

O cinismo se somou ao elitismo do jogo de informações privilegiadas para aumentar a indiferença e desconfiança do leitor, ouvinte, telespectador e internauta em relação ao noticiário eleitoral. Perdem o sistema político e principalmente as empresas de comunicação, porque aumenta o fosso que separa eleitos de eleitores, num momento em que a urgência de reformas sociais, econômicas e administrativas exige um diálogo intenso entre ambos.

Seduzida pelo jogo do poder, a imprensa perde de vista que o seu negócio depende hoje mais de leitores do que de políticos. 

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