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Checagem de informações, o dilema do jornalismo atual

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

Quando os norte-americanos Bill Kovacs e Tom Rosenstiel, publicaram o livro Elementos do Jornalismo [Geração Editorial, São Paulo, 2003 (esgotado)], eles definiram o que chamaram de “disciplina da verificação” como sendo o diferencial mais importante da profissão em relação a outras atividades como publicidade, marketing, literatura e cinema.

Doze anos após a publicação do livro, que para muitos é uma “bíblia” para a imprensa contemporânea, a “disciplina da verificação” está sendo colocada em xeque pelas inovações tecnológicas na área da comunicação e informação.

Do ponto de vista teórico, a verificação como procedimento padrão no exercício do jornalismo é irretocável e nunca foi questionada. Mas na prática a situação foi diferente. Já na publicação do seu livro, Kovacs e Rosenstiel reconheceram que a checagem de informações era um método “pessoal e idiossincrático” [The Elements of Journalism, Bill Kovacs & Tom Rosenstiel. Three Rivers Press, 2007, p. 79], ou seja, algo de dificilmente normalizável para o conjunto dos jornalistas. A ideia da verificação mostrou-se tão plausível que anos mais tarde surgiram os fact checkers (verificadores de fatos), um profissional incorporado às redações e encarregado de conferir dados, fatos, eventos e processos.

O grande problema é que os elementos factuais e concretos são fáceis de checar quando comparados aos elementos não factuais e contextuais de uma notícia ou informação. Verificar a data da independência da Argentina é bem menos complicado do que identificar as razões políticas e econômicas que conduziram ao ato.

Apesar disso, a verificação continuou sendo vista como a marca registrada do jornalismo e uma peça importante na retórica da indústria dos jornais. A crescente complexidade dos dados, fatos e eventos transformados em notícias alimentou uma crescente contestação do material publicado pela imprensa devido, principalmente, ao surgimento de versões contraditórias e conflitantes para uma mesma situação.

A situação se complicou ainda mais com a avalancha informativa que gerou uma fantástica cacofonia informativa na Web. A verificação de todas as versões tornou-se algo inviável para os jornalistas, ainda mais quando as empresas passaram a competir freneticamente na tentativa de sobreviver financeiramente. Checar informações exige tempo, o item cada vez mais escasso na produção jornalística.

O público, convencido ao longo de décadas de que o jornalismo era a expressão da verdade porque aplicava a “disciplina da verificação”, passou a ter que conviver com notícias divergentes, o que gerou desconfiança e, depois, descrédito. A impossibilidade material da checagem ampla e profunda, aliada às cobranças dos leitores, ouvintes, telespectadores e internautas tornaram necessária uma revisão do diferencial proposto por Kovacs e Rosenstiel em 2001.

Analisando o contexto informativo contemporâneo fica fácil perceber que as novas tecnologias de informação e comunicação mudaram quase tudo no jornalismo e eliminaram os principais diferenciais da atividade, mas a ideia da verificação continuou de pé. No meio da cacofonia midiática digital é cada vez mais indispensável separar o joio do trigo em matéria de notícias. As pessoas conquistaram o direito de publicar e isto se tornou uma realidade irreversível. Só que todos têm as suas ocupações e quase nenhum tempo para checar o que estão repassando como informação pelas redes sociais, chats, fóruns e correio eletrônico.

Alguém tem que se preocupar em checar as informações, mas principalmente contextualizá-las, porque uma notícia pode estar com dados e fatos corretos e mesmo assim contextualmente equivocada. Como hoje os contextos se tornaram tão ou mais importantes que os fatos, o jornalismo continua sendo uma função obrigatória só que seus métodos já não podem mais ser os mesmos da era pré-digital.

A nova realidade exige que os profissionais tenham mais conhecimentos do que habilidades. Sejam capazes de discernir e interpretar mais do que redigir ou editar notícias. Sejam mais curadores de informações do que participantes de uma linha de montagem de textos ou imagens. São condições ainda vagas, mas que no essencial mantêm o que Kovacs e Rosenstiel definiram como método essencialmente “pessoal e idiossincrático”.

A utopia da verdade no exercício do jornalismo

Postado por: Carlos Castilho | 2 comentários

“Se a verdade fosse o teste principal para o funcionamento da imprensa, o jornalismo seria reprovado e chegaria a um impasse” [citação traduzida livremente do original em inglês do livro Informing the News, versão digital em plataforma Kindle (location 1261)]. A provocativa afirmação foi feita pelo professor da escola de governança da Universidade Harvard, Tom Patterson, também diretor do projeto Journalists Resource e autor do livro Informing the News, no qual ele questiona a ideia de que o que sai publicado na imprensa é a expressão da verdade.

Há alguns anos, negar a existência de uma verdade absoluta seria uma afirmação considerada ofensiva e chocaria muita gente, especialmente os leitores de jornais, educados na convicção de que tudo o que a imprensa publica é a expressão da verdade. Esta crença é uma herança dos tempos em que o mundo era muito menos complexo e onde as pessoas confiavam plenamente na imprensa, por falta de fontes alternativas de informação.

Tudo isso mudou, mas a associação entre imprensa e verdade ainda continua forte entre muitas pessoas e entre muitos profissionais. Para Patterson, trata-se de um comportamento determinado mais pela inércia e pela resistência à mudança do que uma aceitação consciente da complexidade da vida contemporânea.

O grande problema é que assumir a inexistência de uma verdade absoluta, coisa que a maioria dos cientistas sociais e pesquisadores já não discute mais, implica reconhecer que outras pessoas podem conhecer o que o jornalista não conseguiu entender ou descobrir. A profissão deixaria de assumir uma onipotência diante dos dados, fatos e eventos para situar-se num patamar menos pretensioso, mas ainda assim importante.

Nenhum jornalista poderia hoje dizer, em sã consciência, que compreende integralmente o funcionamento do governo federal ou conhece todos os meandros do mercado financeiro. Seria simplesmente ridículo assumir uma posição como essa porque a complexidade gerencial, política e social da administração pública tornou-se um axioma. Portanto, ao exercer sua função informadora, o jornalista deveria levar em conta a natureza complexa dos processos governamentais e assumir a relatividade da informação publicada.

A norma de ouvir os dois lados de um problema admite implicitamente a possibilidade de que o que se convencionou chamar de verdade poderia estar entre as duas versões. Só que, hoje, o nosso quotidiano se tornou muito mais complexo do que apenas duas versões. Qualquer notícia publicada na imprensa pode, em teoria, ter uma grande variedade de percepções e explicações. Isso afeta também os nossos conceitos de certo ou errado e justo ou injusto.

A maioria dos jornalistas não consegue conviver e muito menos adaptar os seus procedimentos profissionais ao que o sociólogo polonês Zygmund Baumann chamou de “realidade líquida” – e o pesquisador holandês Mark Deuze adaptou para “jornalismo líquido”. Os profissionais da comunicação estão sendo forçados a um duro aprendizado da convivência com a incerteza.

Na teoria trata-se de uma discussão fascinante, mas no dia a dia a situação é bem mais complicada, pois é necessário rever rotinas e valores entranhados há décadas no comportamento dos jornalistas. Conviver com a inevitabilidade do erro, por exemplo, é algo difícil nas redações, porque a cultura predominante é a da sanção a qualquer desvio de conduta ou procedimento equivocado.

Nós, os jornalistas, temos pavor do erro, mesmo admitindo teoricamente que falhar faz parte da atividade e que não existe acerto sem erro prévio. Mudar esse comportamento nas redações não é fácil porque a tolerância, fruto da consciência de que a realidade não se limita a uma versão certa e outra errada, pode dar origem à insegurança, o que é diferente da incerteza. Mas não há alternativa. A mudança é inevitável porque o mundo, a matéria-prima do jornalismo, já mudou.

O papel da imprensa na crise do sistema policial

Postado por: Carlos Castilho | 2 comentários

A multiplicação de matérias veiculadas em jornais, revistas e telejornais envolvendo a participação de policiais casos de crime cria as condições, e mais do que isso, a necessidade de a imprensa colocar na agenda dos debates públicos a questão da confiabilidade nos sistemas de segurança da população.

É um tema complexo e espinhoso, mas não podemos continuar adiando a busca de respostas para a perturbadora pergunta: é esta a polícia que queremos e precisamos? A julgar pelos resultados de recentes pesquisas de opinião, a resposta é não, mas a busca de soluções é bem mais complicada do que a simples expressão de uma percepção imediata.

As autoridades policiais estão preocupadas demais em evitar o colapso do sistema de segurança e cada vez mais fechadas num corporativismo alimentado pela inglória batalha quotidiana contra o aumento da criminalidade. Já os governos só sabem fazer promessas triunfalistas e oferecer desculpas esfarrapadas. Os poderes Judiciário e Legislativo lavam as mãos e deixam que a bomba estoure noutro lugar.

Sobra a imprensa como uma instituição que, mal ou bem, ainda preserva um pouco da credibilidade do cidadão e, portanto, tem condições de começar a propor o debate sobre alternativas. A omissão e desacertos dos organismos estatais estão empurrando os leitores, telespectadores e usuários da Web para dois becos sem saída: a indiferença, equivalente a jogar no lixo os impostos que pagamos e que remuneram as polícias; ou a autodefesa, o caminho mais curto para a justiça com as próprias mãos e para a xenofobia.

Não é preciso ser especialista em segurança pública para perceber que há muita coisa errada nas corporações e que não se trata apenas de desvios individuais de conduta, mas de problemas estruturais, sendo o maior de todos o fato de que as polícias colocaram os interesses e preocupações corporativas acima de suas responsabilidades sociais.

A expressão “desacato da autoridade” virou uma espécie de bordão para anular qualquer tentativa de argumentar com um policial. O cidadão acaba sendo colocado numa situação de impotência absoluta, sem possibilidade de recorrer à razão ou à lógica para defender o seu ponto de vista, quando ele diverge de uma decisão do policial. O recurso ao surrado argumento do desacato à autoridade equivale a um julgamento sumário e no ato.

Esse novo tipo de “autoritarismo” é uma herança do regime militar que ainda não foi conscientizada e nem extirpada pelos organismos de segurança pública. Faltou uma reflexão básica com oficiais, suboficiais e praças sobre o papel da polícia numa sociedade civil e democrática. A mesma cultura de tutela social imposta pelas forças armadas durante a ditadura foi mantida nas polícias, especialmente nas polícias militares estaduais.

Um policial em ronda nas ruas está a serviço dos cidadãos para resolver conflitos individuais e atender emergências. O problema é que as corporações substituíram esse comportamento pela norma da manutenção da ordem. Em vez da busca de consenso, os policiais foram imbuídos da missão de impor um tipo de conduta decidido por seus superiores. Ao decidir o que é ordem, o policial deixou de procurar entender o que ela significa para a comunidade para aplicar mecanicamente o que lhe foi determinado pela hierarquia.

Mas além de ser colocado na situação de culpado até prova em contrário, o cidadão é também levado à condição de protagonista passivo numa guerra urbana cujo visual passou a ser parte integrante da cultura policial. A prova mais evidente dessa distorção é a tendência dos uniformes e equipamentos policiais se assemelharem cada vez mais aos adotados por exércitos convencionais, cuja existência é justificada pela cultura bélica.

O recurso a símbolos atemorizadores como uniformes negros, caveiras, gritos, ruídos ensurdecedores, bem como viaturas desenhadas para combates, revelam a expansão da mentalidade bélica dentro das polícias. Essa preocupação era até agora uma marca registrada dos batalhões de operações especiais, mas está se tornando a identificação de qualquer policial.

A brutal rotina do combate ao crime organizado ajuda a entender porque as polícias acabaram incorporando a cultura da guerra no seu quotidiano e alterando a natureza de sua ação civil. Uma mudança de comportamentos muito influenciada pelo dilema imposto aos policiais por uma sociedade que cobra segurança contra uma criminalidade em expansão, mas não se preocupa em saber como esta segurança será alcançada. Não se trata de distribuir culpas e nem sanções, mas de entender a natureza do processo e tentar revertê-lo, antes que seja tarde demais.

É aí que entram jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão, e a internet. A imprensa precisa abandonar a cobertura da criminalidade como um produto a ser vendido num embrulho sensacionalista para atrair compradores e passar a tratar a segurança pública como um problema social, acima das conotações políticas, econômicas e corporativistas. 

A imprensa pode e deve fazer isso porque estará salvando a própria pele e recompondo sua relação com leitores, ouvintes, telespectadores e internautas. Salvando a própria pele porque os ataques a jornalistas durante os protestos de rua mostram que alguns segmentos sociais, contando com a omissão de muitos, já associam imprensa e repressão – o que é letal para a mídia como negócio e como missão.

 

Facebook atropela jornais na oferta de notícias

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A esmagadora maioria dos jornais, revistas e telejornais sempre encarou o Facebook como um lugar para fofocas, confidências e exibicionismo, mas pesquisas recentes mostraram que a maior rede social do planeta já é a fonte de notícias para 30% da população adulta dos Estados Unidos (cerca de 72 milhões de pessoas), o único país a ter estudos detalhados sobre o tema.

pesquisa divulgada na penúltima semana de outubro pelo Pew Research Center, dos Estados Unidos, sinaliza duas questões ainda mais relevantes para a imprensa do que os dados numéricos. Em primeiro lugar indica uma mudança radical na forma como as pessoas chegam até a notícia, especialmente os jovens com menos de 25 anos. Em segundo lugar mostra o surgimento de uma dependência mútua entre jornais e a rede Facebook, algo impensável até pouco tempo atrás.

Com pouco mais de um bilhão de usuários e caminhando rapidamente para o bilhão e meio, a rede Facebook transformou-se numa espécie de grande aldeia virtual graças aos relacionamentos interpessoais e agora também aos negócios que estão se instalando na rede criada em 2004 num dormitório de estudantes na Universidade Harvard. Era inevitável que, atraindo tanta gente, ela acabaria servindo também para circular notícias, quebrando o monopólio da imprensa.

O papel das redes sociais na maneira como as pessoas se informam ainda é um assunto pouco estudado e quase um tabu entre os jornalistas. Mas os dados revelados pela pesquisa do Pew, embora relativos apenas à realidade norte-americana, servem como um indicador de tendências, inclusive para o Brasil, que está hoje entre os três países do mundo com maior numero de usuários do Facebook. As últimas estimativas nacionais apontam um total de 65 milhões de brasileiros vinculados à rede.

As pessoas já não saem mais à cata de notícias, mas esbarram nelas quando estão navegando na internet, especialmente quando circulam virtualmente em ambientes visitados por milhares de pessoais ao mesmo tempo, como é o caso do Facebook. Interesses específicos sobre algum tema, produto ou pessoa são o principal alvo dos usuários da internet. O acesso notícia jornalística passou a ficar condicionado a esses interesses, salvo nos casos de algum acontecimento extremamente importante para a coletividade.

Trata-se de uma mudança relevante no comportamento da média dos consumidores de notícias. Até agora estar bem informado era uma qualidade muito valorizada e um status adquirido pela leitura minuciosa de jornais, revistas e livros. Na era digital, estar bem informado já não é mais tão importante. Essencial mesmo é estar integrado em redes sociais porque é nelas que se sabe de tudo.

Nas redes sociais, a notícia é algo coletivo e colaborativo, graças à predominância das recomendações e referências, mas ao mesmo tempo individual, já que normalmente as sugestões são feitas de pessoa a pessoa. É uma situação diferente da mídia convencional, onde a notícia era produzida e publicada visando atingir o maior número possível de indivíduos – justo o oposto do que acontece no Facebook, por exemplo.

As redes sociais, como o Facebook, estão rapidamente se transformando em parceiras da imprensa. Redes e jornais tendem a uma dependência mútua porque elas são imbatíveis da disseminação de notícias, mas a imprensa ainda é, e provavelmente continuará tendo, um grande peso na seleção, checagem e contextualização de dados, fatos e eventos dotados de relevância social.

A gigantesca capilaridade e a interatividade interpessoal nas redes sociais virtuais viabilizam uma distribuição rápida e a custo quase nulo das notícias, condições que se tornaram inacessíveis para a imprensa convencional devido ao alto custo operacional. Além disso, as redes permitem que os jornalistas possam exercer uma função curadora ao filtrar e selecionar a enorme quantidade e variedade de dados dotados de noticiabilidade, ou seja, de ineditismo, relevância, pertinência e confiabilidade.

Redes como o Facebook tendem a ser, simultaneamente, fonte e ferramenta de disseminação de material jornalístico. Mas para que a parceria redes-imprensa funcione, o jornalismo terá que se adaptar à nova realidade, na qual ele não é mais a referência absoluta em matéria de noticia, mas uma parte do processo. A realidade do quotidiano está condenando os jornalistas a trabalhar com as redes e em rede. Já no andar de cima, o dos executivos da imprensa e das redes, a parceria pode demorar muito a acontecer porque estão em jogo egos e fortunas.

Protestos de rua: o círculo vicioso

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Os acontecimentos das últimas semanas nas principais cidades brasileiras mostram que entramos num círculo vicioso em que os protestos de rua geram reação da polícia cujos excessos e desorientação realimentam a revolta dos manifestantes, gerando uma cadeia de retaliações que tendem a aumentar de intensidade.

Os protestos de junho mostraram como o descontentamento de segmentos da população rompeu as barreiras do temor e do conformismo. Os, na época, isolados episódios de violência serviram de pretexto para ações violentas da polícia, ao mesmo tempo em que as autoridades e a mídia tentavam neutralizar os protestos por meio da associação ao vandalismo.

A estratégia não funcionou e os mascarados passaram a se tornar figuras quase obrigatórias em qualquer manifestação. A violência da polícia, bem como a incessante divulgação de episódios envolvendo policiais e ex-policiais com o crime organizado, com casos de corrupção financeira e com tortura de cidadãos, minaram o poder intimidador dos organismos de repressão.

O surgimento da figura dos mascarados e o recurso à depredação de bens públicos e privados são um sintoma de como os manifestantes já não temem mais a ação da polícia, chegando mesmo a desafiá-la. A fronteira entre protestos pacíficos e ações violentas está cada vez mais tênue, o que sinaliza uma situação complexa e caracterizada por uma dinâmica imprevisível, pois a reconstrução da imagem policial inevitavelmente será um processo demorado.

Os protestos encontram sua motivação principal na realidade socioeconômica do país, enquanto a polícia passa cada vez mais a ser movida pela raiva e frustração. O problema é que está cada dia mais difícil haver um recuo tanto dos manifestantes como da polícia. Os manifestantes já não encontram mais razões para dar um passo atrás na medida em que descobriram que podem expressar sua revolta, apesar da polícia. Esta, por sua vez, perdeu a oportunidade de esfriar a crise se tivesse adotado condutas mais serenas nas ruas e mais inteligentes nas salas de comando. Agora, um recuo policial seria extremamente constrangedor e provavelmente inaceitável pela tropa.

O recurso à demonização do Black Bloc não funcionou porque o uso de máscaras tornou-se um adereço para muitos manifestantes, sem nenhuma ligação direta ou indireta com o Black Bloc. Assim como pintar o rosto foi a forma de protestar contra Fernando Collor de Mello em 1992, hoje a ocultação do rosto tornou-se o símbolo dos novos indignados. A mídia insiste em qualificar os mascarados como uma escória política, mas esta generalização não tem assustado a juventude da classe C acostumada com a arrogância policial.

O novo do círculo vicioso de ação e reação entre polícia e manifestantes é marcado pela redução da desigualdade entre os dois lados, algo inédito nas últimas décadas, quando a presença dos batalhões de choque e dos blindados era suficiente para intimidar os participantes em protestos de rua. Este equilíbrio instável gera uma situação em que as manifestações tendem a crescer em escala horizontal enquanto a ação policial tende a aprofundar a repressão.

É uma situação muito perigosa porque é muito pouco provável que o aparelho policial decida jogar a toalha, a não ser que ele se divida em facções opostas. Assim, o mais provável é que a tenhamos mais violência, o que pode nos levar a tempos duros e difíceis que a geração com mais de 40 anos prefere esquecer.

Governantes e políticos teriam um papel-chave no rompimento da irracionalidade da ação e reação, mas eles estão todos em cima do muro por conta das eleições do ano que vem. Não querem se queimar nem com o aparelho de segurança e nem com os manifestantes. Agem como se estivessem num jogo de pôquer, esperando para ver quem vacila primeiro. É uma aposta perigosa demais para ser levada a sério. 

Déficit de conhecimento ameaça exercício do jornalismo

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

A maioria dos jornalistas contemporâneos apresenta um déficit pessoal de conhecimentos capazes de assegurar condições mínimas para informar sobre a complexidade e diversidade dos fatos, dados e eventos deste início da era digital.

Esta é a conclusão, preocupante, do livro Informing the News: The Need for Knowledge-Based Journalism, do professor Thomas Patterson, da Escola Kennedy de Governança, na Universidade Harvard, e que foi lançado em meados de outubro nos Estados Unidos (versão eletrônica disponível na livraria virtual Amazon). 

A ideia central de Patterson é a de que a observação, entrevistas e checagem já não conseguem mais dar conta da necessidade de lidar com fatos, dados e eventos cada vez mais complexos, para os quais a exigência de contextualização se tornou mais importante do que a descrição factual ou reprodução de opiniões e percepções de entrevistados.

O livro discute as abordagens tradicionais tanto da natureza como do exercício do jornalismo e mostra como os manuais de redação e estudos teóricos sobre a atividade estão defasados em relação à realidade surgida após a avalancha informativa e a generalização do uso das novas tecnologias de informação e comunicação (TICs).

A maioria dos repórteres atuais já se deu conta que cobrir notícias econômicas, políticas e relacionadas à ciência ou tecnologia exige um conhecimento maior sobre os temas em pauta porque não só as questões se tornaram mais complexas, como também aumentou a sofisticação dos entrevistados no uso de técnicas de construção de imagem e marketing de ideias.

As ferramentas tradicionais de observação, entrevista e checagem já não conseguem mais uma rápida e eficiente identificação de vieses informativos nas declarações de um político ou de um consultor financeiro. Transmitir a informação bruta equivale muitas vezes a disseminar uma mentira deslavada, com o consequente descrédito do profissional e do veículo após a identificação do equívoco.

Quando o ritmo informativo era menos frenético do que o existente hoje, era possível corrigir e reduzir os efeitos negativos, especialmente em matéria de danos a reputações. Mas depois da avalancha informativa na web, a disseminação das notícias e boatos é tão rápida e ampla que o recurso ao “erramos” tornou-se meramente protocolar.

A contextualização da informação permite condições mínimas para identificar quando e como alguém está distorcendo um fato, dado ou descrição de um evento. Só que contextualizar exige duas condições muito escassas no ambiente jornalístico contemporâneo: conhecimento e tempo.

O conhecimento requer estudo, pesquisa, investigação e especialização. A complexidade da vida atual mostrou aos jornalistas como quase tudo está hoje interligado e, principalmente, como os valores tradicionais como verdade, objetividade, imparcialidade e exatidão tornaram-se relativos. As certezas estão se evaporando enquanto as dúvidas se multiplicam, tornando a tarefa de informar extremamente fluida e sujeita a um elevado grau de incerteza.

Como desvendar o jogo embutido no marketing político adotado pela maioria esmagadora dos nossos parlamentares ou ocupantes de cargos públicos? Como perceber que dados revelados por um empresário ou economista são menos importantes do que os não divulgados? Como identificar interesses associativos em iniciativas de organizações sociais? Todas estas são preocupações capazes de minar a segurança profissional de repórteres quando confrontados com a pauta diária de coberturas.

Na falta de condições para contextualizar o material colhido, os jornalistas recorrem ao cinismo como forma de se distanciar do viés embutido em cada entrevista ou informação. O professor Patterson critica duramente o recurso ao cinismo ao afirmar que ele funciona apenas como uma cortina de fumaça, porque não consegue passar ao leitor a informação que ele realmente procura e que está na contextualização do fato, dado ou evento.

O livro destaca que a preocupação com o déficit de conhecimento apresentado pela maioria dos jornalistas é fruto do ritmo industrial imposto pelas empresas de comunicação na produção de material para publicação e divulgação. Mostra também como o menosprezo das empresas pela necessidade de reduzir o déficit de conhecimento nas redações é anterior às TICs. Patterson reproduz as reações dos principais executivos da imprensa norte-americana após a divulgação do famoso Relatório Hutchins sobre Liberdade de Imprensa, no qual os seus autores criticavam duramente a superficialidade do noticiário jornalístico da época.

Quase todos os jornais, com exceção do New York Times, criticaram as conclusões do informe afirmando que ele era uma divagação teórica de um grupo de professores. Vinte anos mais tarde, o ex-repórter Phillip Meyer, que abandonou a profissão para se tornar professor universitário, desenvolveu um estudo sobre o que ele chamou de jornalismo de precisão, no qual destacava a necessidade de usar métodos das ciências sociais para informar sobre fenômenos urbanos. A proposta foi elogiada, mas sua aplicação nunca chegou à dimensão proposta por Meyer.

O que o professor Patterson propõe é o fim do mito do jornalismo mais preocupado com a ação, e em gastar sola de sapato, e a valorização do conhecimento como ferramenta fundamental da profissão. Ele sugere que repórteres e editores explorem duas vertentes do conhecimento jornalístico: o conhecimento dos conteúdos e o conhecimento do processo de comunicação. O primeiro visa conhecer o contexto dos fatos, dados e eventos para evitar distorções na notícia; e o segundo para entender melhor os interesses do público e buscar formas mais eficientes de transmitir notícias e informações pela web. 

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