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Imprensa ‘morde e assopra’ o governo Dilma

Postado por: Carlos Castilho | 6 comentários

A imprensa parece ter-se dado conta da inevitabilidade da reeleição da presidente Dilma Rousseff e começou a mudar o tratamento dado à candidata do Partido dos Trabalhadores. Como aconteceu várias vezes no passado, principalmente na eleição e reeleição do ex-presidente Lula, a imprensa primeiro ecoou todos os temores e prognósticos pessimistas de políticos contrários ao PT, mas, depois da eleição do ex-líder metalúrgico, as manchetes mudaram radicalmente de tom. (P.S.  Este texto foi postado antes da derrota da seleção para a Alemanha. Depois disto a situação tornou-se imprevisivel como mostra o texto mais recente  Socialização da Vergonha...)

É uma estratégia usual de primeiro tentar evitar a vitória de concepções ideológicas contrárias aos interesses do cartel de empresas jornalísticas, mas quando isso não dá certo a rotina é mudar de estratégia porque, afinal de contas, o governo ainda é um dos principais anunciantes e contar com a publicidade oficial pode significar um sopro de vida para muitos jornais e emissoras de rádio ou TV, principalmente nos tempos bicudos que a imprensa vive atualmente.

A mudança de estratégia da imprensa é o resultado do jogo por influência política e seu inevitável corolário financeiro. Neste jogo a manipulação de percepções é a principal arma. Antes da Copa do Mundo, a imprensa se esmerou em criar no público brasileiro a ideia de que o torneio ia ser um fracasso porque o governo como um todo era ineficiente e corrupto.

É importante ter sempre em vista que o que a imprensa diz não é a expressão pura e acabada da verdade, mas sim a percepção daquilo que ela acha ser a verdade. A ciência já se cansou de provar que não existem verdades absolutas e sim percepções, ou formas de ver a verdade segundo a história, contexto, cultura e interesses da cada pessoa ou organização.

A estratégia de inculcar no leitor, ouvinte, telespectador e internauta a ideia de que a Copa não ia dar certo por culpa do governo, sempre foi intrinsecamente equivocada. Quem parasse um minuto para pensar, perceberia que a FIFA, que investiu bilhões de dólares no negócio do Mundial, não iria aceitar passivamente que o evento virasse um fiasco só porque os partidos de oposição no Brasil queriam faturar eleitoralmente uma humilhação do partido no poder.

Por erro de avaliação política, a imprensa comprou uma estratégia errada por puro interesse político-financeiro. Ela percebeu que havia dado um tiro no pé depois que a vaia ensaiada contra a presidente no jogo de abertura da Copa gerou mais críticas do que aplausos na opinião pública. Foi quando começou a ficar claro que os torcedores nacionais e estrangeiros transformaram o negócio da Copa numa grande festa. As esperadas manifestações de protesto foram relegadas ao esquecimento e ao ridículo justamente porque também estavam enquadradas na estratégia do quanto pior melhor.

O tratamento dado pela imprensa aos resultados da pesquisa do Datafolha divulgada na quarta-feira (2/7) já incorporou a fase “assopra”, depois das ”mordidas” do noticiário no governo Dilma. O apoio popular à Copa subiu, mesmo depois de todas as denúncias de superfaturamento e descontrole financeiro nas obras. A rejeição às vaias à presidente atingiu 76% dos eleitores consultados pelo Datafolha e os colunistas políticos globais passaram a afirmar candidamente que a “Copa ajudou Dilma”.

A imprensa tem todo o direito de mudar de estratégia em relação ao governo. Não há nada de errado nisso. O questionamento ético está no fato de ela adotar num novo posicionamento sem dizer claramente ao público por que mudou de posição. Afinal, muitos leitores, ouvintes, telespectadores e internautas ainda consideram a imprensa como uma referência em questões políticas, econômicas, sociais e culturais. Não justificar uma mudança de postura, procurar disfarçá-la ou ocultá-la para evitar explicações, é o mesmo que enganar quem ainda acredita na imprensa.

Este comportamento repetitivo e oportunista é que está minando a credibilidade da imprensa justo no momento em que ela mais precisa do apoio do público para superar os problemas financeiros gerados pela transição do modelo de negócios para a era digital. 

‘The New York Times’ desativa blogs e abre polêmica

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

O New York Times está desativando a maioria dos seus quase 40 blogs publicados regularmente, numa atitude que está sendo considerada uma importante e polêmica reviravolta na estratégia editorial do jornal.

Times não explicou claramente os motivos do fechamento de blogs – como o The Lede (sobre noticiário político) e Green (sobre ecologia) – e nem adiantou se, no médio prazo, todos serão extintos ou não. Só garantiu que a maioria será desativada, dando sequência a um processo iniciado em 2012.

A decisão do jornal reabre a velha discussão entre adeptos e críticos da prática do jornalismo no formato blog. Quando este tipo de plataforma surgiu na Web, entre 1997 e 1999, ele foi logo adotado pelos jovens e recebido com desconfiança pelos jornalistas. Depois da virada do século, vários profissionais começaram a publicar blogs pessoais surgindo questionamentos sobre a compatibilidade deste tipo de iniciativa com a prática do jornalismo. 

Não houve um consenso, mas a partir de 2010 quase todos os grandes jornais mundiais aderiram à onda dos blogs numa tentativa de atrair leitores mais jovens, pouco acostumados ao formato rígido do noticiário impresso. O Globo foi o jornal brasileiro que mais blogs criou (quase 50) enquanto o New York Times chegou a ter 48.

Apesar do hermetismo do Times sobre as razões para o abandono dos blogs como uma estratégia editorial, os comentários que circulam nos meios jornalísticos norte-americanos apontam a verdadeira causa como sendo conflitos de personalidades e de propostas editoriais.

Vários autores de blogs no NYT passaram a ter um protagonismo pessoal na medida em que se relacionam diretamente com os leitores. Isso teria gerado ciúmes e também o temor de perda de controle editorial, algo que os executivos de jornais impressos prezam acima de tudo.

Mas o que parece ser a razão principal é o aprofundamento do conflito entre duas culturas jornalísticas na redação do Times. De um lado estão os adeptos da formatação convencional numa publicação impressa diária, privilegiando a abordagem definida como impessoal, objetiva e imparcial. Do outro, os que defendem a narrativa jornalística estilo blog, mais informal, personalizada e mais propensa à opinião do que à imparcialidade e objetividade.

Se o problema editorial foi realmente o mais decisivo na mudança de orientação do Times, a questão deixa de ser exclusiva de uma publicação para afetar a todo segmento de jornais impressos que publicam blogs. A reavaliação do papel dos blogs dentro de uma estratégia editorial poderia sinalizar uma separação mais nítida entre a ideia do jornalismo de um para muitos (a modalidade convencional) e o jornalismo do tipo muitos para muitos (a modalidade interativa, da qual os blogs fazem parte).

Por envolver aspetos culturais, o problema dos blogs num jornal não pode ser visto apenas pelo lado administrativo (custo/beneficio) e nem só pelo ângulo tecnológico (qual o melhor software). Há valores profissionais em jogo e principalmente percepções sobre como o jornalismo deve ser praticado na era digital. 

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O maior desafio do jornalismo no início da era digital

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

A relação com os leitores, ouvintes, telespectadores e internautas passou a ser o principal objetivo estratégico em grandes empresas jornalísticas em luta pela sobrevivência no disputado mercado da audiência em jornais, revistas, telejornalismo audiovisual e páginas web de noticiário. É que as empresas já se deram conta de que não é mais viável apoiar o modelo de negócios apenas nas receitas publicitárias.

O novo objetivo marca também uma guinada radical na estratégia editorial dos veículos porque a busca de fidelização inevitavelmente implica a necessidade de retribuição, ou seja, a prestação de algum tipo de serviço. Até agora a imprensa usava a notícia com moeda de troca, mas esta matéria-prima se tornou tão abundante e onipresente que o seu preço despencou, tendendo a zero.

O relacionamento com o público, ou o engajamento comunitário (expressão traduzida do jargão inglês community engagement) é um desafio há pelo menos quatro anos para a maioria das páginas noticiosas online preocupadas em sobreviver na concorrência brutal entre projetos muito parecidos. O grande obstáculo sempre foi a questão dos comentários postados por leitores, uma forma de dar participação do público mas que funciona como uma faca de dois gumes, dada à forte incidência de intervenções agressivas, irresponsáveis e xenófobas.

Para obter a fidelização do público, por enquanto as empresas dependem de duas estratégias principais: oferecer serviços de interesse e utilidade para sua clientela ou admitir participação por meio de comentários. A prestação de serviços esbarra na relação custo/benefício, embora já existam várias experiências em curso, especialmente nos Estados Unidos. Mas a questão dos comentários ainda provoca discussões agudas nas redações.

Há duas linhas predominantes no que se refere à participação do público: a humanizada e a baseada em algoritmos. A humanizada pressupõe a mediação de jornalistas profissionais visando a formação de comunidades de leitores, ouvintes, telespectadores ou internautas por meio da troca de opiniões e dados sobre temas de atualidade. A experiência mostrou que o processo mediado é o mais eficiente em termos de fidelização, mas é de médio e longo prazo, além de exigir a especialização de um ou mais jornalistas.

O uso de softwares baseados em algoritmos é a opção preferida de quem busca resultados rápidos e com pouco envolvimento das redações. É o objetivo do projeto que acaba de ser anunciado pelos jornais norte-americanos The Washington Post e The New York Times, em parceria com a empresa Mozilla, criadora do navegador Firefox (ver, neste Observatório, “Jornalões se unem para melhorar sistema de comentários online”). O projeto conta com um financiamento de 3,9 milhões de dólares que serão gastos no desenvolvimento de uma plataforma gerenciadora de comentários, usando processos analíticos e de linguagem natural para selecionar as contribuições relevantes e eliminar os comentários agressivos, xenófobos e/ou contenham dados falsos.

O acordo entre o Post e o Times é original não apenas pelo fato de buscar uma solução tecnológica para uma questão de fundo social, psicológico e político, mas também porque marca uma inédita colaboração entre empresas concorrentes. Se dependesse apenas dos dois jornais, provavelmente a experiência não aconteceria dada a rivalidade passada, mas como ambos enfrentam agruras financeiras decorrentes da queda da receita publicitária, o financiamento por parte de uma fundação norte-americana funcionou como eliminador de velhas desconfianças.

O certo é que o relacionamento com a audiência passou definitivamente para os primeiros lugares na estratégia de sobrevivência das empresas jornalísticas. Após mais de um século de olímpico distanciamento em relação ao público, as corporações do setor da comunicação estão sendo obrigadas a rever modelos em consequência da generalização do uso das novas tecnologias de comunicação e informação. Não é uma mudança simples de rumo e os conflitos culturais da nova orientação mal começaram a ser identificados.

O grande desafio é como os jornalistas e executivos de jornais aceitarão um diálogo em pé de igualdade com o público. A imprensa sempre assumiu um certo ar de superioridade em relação aos leitores, ouvintes, telespectadores e internautas. Era uma comunicação unidirecional e hierárquica. A nova realidade digital está empurrando as redações para uma relação multidirecional e igualitária, que obriga os profissionais a ter que lidar com o ressentimento de uma parcela considerável do público. A experiência tem mostrado que isso exige paciência, tolerância, persistência e, principalmente, muita informação.

Multidirecional porque as redes sociais implantaram o sistema “muitos-para-muitos” ao descentralizar o tráfego de mensagens escritas, sonoras e visuais. Antes era um jornalista respondendo para muitos leitores, uma mesma carta. Agora os leitores tendem a ocupar os espaços e discutem entre si, independente do que propõe o jornalista ou o veículo de comunicação. Muitos comentaristas já se consideram donos dos espaços para reações do público.

Um sistema igualitário de comunicação porque o jornalista não pode mais dar conta sozinho da filtragem, seleção, agregação de valor e distribuição da massa de dados que passou a compor o fluxo diário de notícias. Os profissionais precisam da colaboração do público e, para que isso aconteça, é necessário um ambiente de parceria entre iguais, com responsabilidades, habilidades e competências diferentes.

A experiência tem mostrado também que o grande problema no chamado engajamento comunitário do jornalismo digital não é a tecnologia, embora ela seja um componente importante e indispensável. A questão crucial está no problema cultural, porque este depende de seres humanos, cuja adaptação às consequências da introdução de novas tecnologias é historicamente um processo complexo, lento e imprevisível. Este é talvez o maior de todos os dilemas do jornalismo do século 21.

Tendências no jornalismo: sola de sapato ou neurônios?

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

Na era analógica, pré-internet o senso comum no jornalismo apontaria o esforço físico como a prioridade, mas na era digital é o trabalho intelectual que começa a exigir mais dedicação dos profissionais da comunicação.

Antes da internet, os repórteres precisavam correr atrás da informação onde ela estivesse, o que exigia gastar um bocado de sola de sapato, sem que isto significasse que os neurônios deixassem de ser indispensáveis. As novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) inverteram as prioridades no trabalho jornalístico, fato que muitos profissionais experientes ainda não lograram assimilar.

O uso intensivo do intelecto tornou-se a principal exigência para os jornalistas da era digital por dois motivos:

1. As TICs deram às pessoas a possibilidade de transmitir ou publicar notícias (dados inéditos) fazendo com que os fatos, números e eventos cheguem até o repórter numa velocidade, intensidade e diversidade nunca vistos antes. As versões sobre uma mesma notícia chegam aos borbotões via blogs, redes sociais, micromensagens, correio eletrônico chats etc.

2. O problema não está mais em buscar notícias, mas em selecioná-las, filtrá-las e contextualizá-las. E isto é um trabalho basicamente intelectual, onde os neurônios são ativados de forma intensiva e constante. Para que um profissional dê conta dessa tarefa ele precisa ter cultura informativa – ou literacia, uma expressão anglófona para identificar a capacidade de trabalhar o conteúdo de uma informação e não apenas as técnicas de redação e formatação para publicação.

A cultura de valorizar o esforço físico e a obediência estrita às normas redacionais cedem espaço à exigência de estar bem informado, em vez de ter informações, e à valorização da versatilidade intelectual. A combinação desses fatores indica uma exigência de qualificação profissional muito superior a do jornalismo praticado nos moldes convencionais.

Estar bem informado não significa apenas ter fontes confiáveis e nem um nutrido caderno de telefones e e-mails. Significa ser capaz de recombinar notícias, dados, fatos, eventos e processos, bem como situá-los no contexto do público-alvo do jornalista. Os manuais são ótimos para normatizar a formatação de textos e narrativas audiovisuais, mas eles não servem para orientar o processo de remixagem de conteúdos informativos. Isto é um trabalho individual ou de grupo, onde as regras são menos importantes que a criatividade e inovação.

O trabalho numa redação jornalística está deixando de ser fordista (estratégia de produção baseada em linhas de montagens) para ganhar características de brain storm permanente. Isso não quer dizer que até agora os jornalistas não usavam o intelecto. O problema é que o esforço físico para ir buscar as notícias era tão intenso que acabava ganhando mais importância dos repórteres e editores porque atendia à necessidade de enfrentar a concorrência.

A dificuldade é que muitos professores de jornalismo e donos de empresas jornalísticas ainda lidam com o computador como se ele fosse um máquina de escrever mais rápida e versátil, bem como encaram a internet como um telégrafo inteligente e instantâneo. Está em curso uma mudança cultural mais ampla do que simplesmente adotar novos formatos, normas, equipamentos e processos.

O jornalista e o jornalismo estão imersos num ambiente informativo marcado pela avalancha de dados e informações. O trabalho com o sistema de buscas Google é obrigatório porque ele é um auxiliar indispensável para a filtragem e seleção de dados a serem usados numa reportagem.

Mas só o Google não resolve porque é necessário ver os números, fatos e eventos no seu contexto de origem e também no contexto do público-alvo. Para isso o repórter ou editor deve estar informado sobre o contexto original e sobre o do leitor, ouvinte ou telespectador. Um mesmo dado pode ter um significado na origem e outro completamente diferente no destino, e só quem pode fazer esta distinção é o jornalista.

Outra mudança importante. Os futuros jornalistas terão obrigatoriamente que saber lidar com dados porque estamos caminhando para uma sociedade movida a números. A digitalização permitiu transformar quase tudo em dígitos que podem ser processados sinalizando tendências e correlações. Caberá ao jornalista digital descobrir, na profusão de números, os sentidos e significados relevantes para o público.

Estamos diante de uma eventual quebra do paradigma “90% transpiração, 10% inspiração”.

Copa, a comercialização do patriotismo

Postado por: Carlos Castilho | 2 comentários

O futebol mobiliza paixões nacionais, entre elas a ideia do patriotismo ao qual está associada a noção de solidariedade. Esta é a tecla predominante da avassaladora operação de marketing deflagrada a propósito da Copa do Mundo e que serve para mimetizar um gigantesco negócio montado pela Fifa em parceria com pelo menos 20 conglomerados empresariais nacionais e estrangeiros.

Nós vamos torcer pela seleção brasileira, mas ao mesmo tempo estamos também participando de um empreendimento que levará 4 bilhões de dólares para os cofres da Fifa e deixará uma conta estimada em 14 bilhões de dólares a ser paga por nós. O futebol perdeu a condição de ser apenas um esporte para se tornar também, e às vezes majoritariamente, um grande negócio.

Como esporte, ele faz parte da nossa vida desde a infância. Está associado às nossas emoções, comportamentos, sonhos e desenvolvimento físico. O esporte é isso, mas a lógica do mercado o transformou numa ferramenta fantástica para gerar lucros, empreitada na qual a imprensa de todo o planeta é uma entusiasmada parceira.

A Fifa protagonizou uma verdadeira intervenção branca no Brasil a propósito da Copa do Mundo. Da administração dos estádios, organização de shows, segurança, publicidade, comercialização de ingressos até as arrogantes cobranças feitas ao governo brasileiro nos meses que antecederam o início do torneiro  torneio. Tudo passou pelo crivo da entidade com sede na Suíça, cuja contabilidade, há muitos anos, é objeto de um sigilo tão intenso quanto o dos depósitos em bancos suíços.

O fato do contribuinte brasileiro acabar arcando com uma conta de 31 bilhões de reais deveria ter sido um pretexto suficiente para que a imprensa fizesse um escrutínio sistemático dos gastos e principalmente da participação privada no orçamento da Copa de 2014. Um levantamento feito pela agência Pública indica que o investimento privado nas obras da Copa foi muito menor do que o anunciado inicialmente e que para não pagar mico, o governo brasileiro teve que bancar o grosso das despesas.

Faltou coragem à imprensa e ao governo Dilma para contar à população os detalhes da puxada de tapete dos antes entusiasmados patrocinadores privados das obras da Copa. A imprensa, porque sua preocupação com os lucros gerados pela avalancha publicitária nos meios de comunicação forneceu elementos suficientes para ela “olhar para o outro lado”, omitindo o tema. Já o Palácio do Planalto ficou mais preocupado com eventuais prejuízos eleitorais decorrentes de uma crítica direta a siglas relevantes no universo empresarial privado nacional e internacional.

Mas o que mais importa aqui é destacar que a confusão deliberada entre esporte e negócios no futebol não é de hoje e nem vai acabar tão cedo. É uma forma de enganar as pessoas, associando uma atividade esportiva – essencial ao corpo humano e ao convívio social – à busca do lucro. É uma associação complexa em que não adianta pintar um lado como bonzinho e ingênuo, e o outro como maquiavélico e ganancioso.

Essa confusão aparece a todo instante quando nos interessamos pelo campeonato brasileiro, pelos torneios de tênis, vôlei e nas competições de atletismo, só para citar algumas. O esporte está quase que totalmente mercantilizado e a imprensa assumiu um papel protagônico na promoção da indústria das competições. O problema não está em que ela participe do negócio, mas sim em que ela faça só isto, esquecendo que o esporte é, desde a sua origem grega, uma atividade não comercial.

A avassaladora preocupação com o lucro na Copa de 2014 mostrou o extremo a que pode chegar a corrida atrás do dinheiro que corrompe até mesmo os atletas, cujo desempenho passa a ser condicionado mais pelas vantagens financeiras do que pela identificação com a paixão dos torcedores. A Copa do Mundo deixou de ser uma competição sadia entre nações para se transformar num laboratório de negócios, da mesma forma em que foi transformado em arma política nos tempos da antiga União Soviética.

Quem perde é o cidadão comum, que ao assistir a uma partida de futebol ou comprar um tênis não sabe mais se está satisfazendo um impulso ou necessidade, ou se está sendo um inocente útil de uma campanha de marketing de um banco, cerveja, sabonete, operadora telefônica ou montadora de veículos. O problema não está na campanha, mas no fato dela esconder-se atrás da preocupação com o patriotismo e a paixão clubística. 

O Brasil é maior do que a sua imprensa

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

Parece frase de efeito ou afirmação de político em véspera de eleição, mas é verdade. A gente se dá conta disso ao ler o noticiário sobre a situação econômica do país, quando ora vemos dados e prognósticos otimistas e logo em seguida somos bombardeados com fatos e previsões totalmente pessimistas. O leitor fica confuso porque foi educado a achar que a imprensa é a expressão da verdade e da realidade.

Mas o que lemos, ouvimos e vemos é apenas a expressão de uma parte do país em que vivemos, e mesmo assim uma parte pequena porque temos uma população de quase 200 milhões de observadores da realidade enquanto a soma de todas as redações jornalísticas dificilmente chega a 50 mil profissionais. [Não tenho certeza deste número. Todas as fontes que consultei tinham apenas estimativas gerais.] A imprensa é o segmento mais qualificado para levar percepções da realidade até o público, mas ela é estruturalmente limitada nesta função, pois não maneja todos os dados e é obrigada a publicar versões e opiniões de outras fontes, que geralmente têm seus próprios interesses.

Por isso soa como um absurdo a pretensão de jornais, revistas e telejornais de apresentar o que publicam como se fosse expressão fiel da realidade global do país. Evidentemente a imprensa admite este absurdo, tanto que não afirma textualmente ser um espelho da vida que nos cerca. Mas de fato ela pratica esse tipo de distorção ao omitir dados, fatos e eventos que não se enquadram na sua política editorial e empresarial.

O mundo está se dando conta de sua incapacidade de perceber a realidade como um todo porque ela depende da soma e da recombinação das percepções de um número cada vez maior de seres humanos. Depois da avalancha informativa e da internet, estamos descobrindo a complexidade do mundo em que vivemos e as dificuldades para entendê-lo. Por isso, os cientistas e intelectuais que já se deram conta desse fenômeno assumem que sabem apenas uma parte da verdade e que outros conhecem o que eles ignoram.

Isso cria uma situação inédita entre nós, que é a de reconhecer nossa limitação cognitiva e de que precisamos do conhecimento de outras pessoas para identificar problemas e buscar soluções. O que nos leva inevitavelmente a um mundo com menos desequilíbrios informativos e a uma relativização generalizada do papel da imprensa como fonte de notícias para o nosso quotidiano.

Esse tipo de reflexão se torna necessário no momento em que interesses eleitorais empurram a imprensa e muitos jornalistas para situações do tipo “bom ou mau”, “contra ou a favor”, “justo ou injusto”. A realidade é bem mais complexa e tem mais do que apenas dois lados. Reduzir o mundo a apenas isso equivale a transmitir uma visão falsa e distorcida do ambiente que nos cerca e, portanto, criar condições para que o eleitor corra o risco de fazer opções equivocadas.

A economia brasileira foi eleita pela imprensa como o principal parâmetro eleitoral para o pleito de outubro. A economia é, por natureza, uma área muito complexa do conhecimento humano e, portanto, sujeita a percepções equivocadas, omissões comprometedoras e afirmações generalizantes e enganadoras. Os economistas sérios sabem disso e procuram se precaver, mesmo lidando com números que, supostamente, são um símbolo da exatidão.

Mas quando a economia cai na arena eleitoral, as distorções e absurdos ganham dimensões desproporcionais e geram consequências imprevisíveis. A imprensa tem uma enorme responsabilidade nesse processo e a obrigação de saber as limitações de sua função e dos temas com os quais está lidando. 

É difícil aos jornalistas identificar as complexidades das informações que transmitem, principalmente quando os profissionais fazem parte de verdadeiras linhas de montagem industrial de notícias em grandes jornais ou telejornais. Também não se pode fazer um julgamento dicotômico de quem trabalha num veículo de comunicação, mas isso não serve como desculpa para ignorar que a realidade do país é muito mais ampla e complexa do que a transmitida por sua imprensa.

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