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O que ensinar aos novos candidatos ao jornalismo?

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

Uma das mais perturbadoras perguntas, das várias que tiram – ou deveriam tirar – o sono dos profissionais e professores é sobre o que transmitir aos milhares de jovens que ingressam em escolas de jornalismo. Parece uma pergunta óbvia, mas quem é do ramo é forçado a admitir que não há respostas prontas, ou as que possui não resolvem o dilema.

O ensino do jornalismo enfrenta os mesmos dilemas das empresas jornalísticas nesta transição de um modelo industrial e analógico para o modelo digital baseado na produção de conhecimento. Ensinar o uso de tecnologias de comunicação e informação ou transmitir aos alunos a preocupação com os novos valores emergentes na era digital no jornalismo? 

Sempre que essa polêmica surge, os resultados são inconclusivos, em parte por conta das divergências entre críticos e defensores da nova ordem na comunicação jornalística, mas, basicamente, porque como ninguém sabe o que vai acontecer com o jornalismo e com a imprensa, também não sabe qual será o perfil futuro do profissional.

O Instituto Poynter, de São Petersburg, Flórida (EUA), lançou no início de dezembro a última fase de uma pesquisa mundial sobre o futuro do ensino do jornalismo, depois de divulgar o relatório Estado do Ensino do Jornalismo - 2013, contendo as conclusões preliminares do estudo. A pesquisa via internet está dirigida basicamente a professores de jornalismo e a profissionais da imprensa, procurando identificar percepções e opiniões sobre o que ensinar para as novas gerações de jornalistas.

O relatório afirma que os administradores e professores em escolas de jornalismo estão sendo atropelados pela rapidez e intensidade das mudanças na área da imprensa e dos meios de comunicação. Afirma também que quem não mudar currículos e estratégias pedagógicas acabará caindo fora do mercado.

O conteúdo básico do documento é a comparação das percepções e posicionamentos de professores e profissionais, apontando a manutenção do fosso entre as opiniões de um lado e outro. Enquanto os educadores apresentam um otimismo moderado em relação às mudanças já realizadas, os profissionais mostram-se extremamente críticos na capacidade de as faculdades acompanharem as mudanças tecnológicas. .

Segundo os autores do relatório, as escolas de jornalismo estão perdendo alunos por conta da percepção de que o diploma ajuda muito pouco na busca de empregos numa indústria em crise. Os dados são mais relacionados ao mercado norte-americano porque a maioria dos participantes na fase inicial da pesquisa mora e trabalha nos Estados Unidos. Mas a tendência vale também para o Brasil, onde a evasão de candidatos ao jornalismo é menos intensa porque muitos interessados ainda acreditam que podem se tornar repórteres, apresentadores ou correspondentes das grandes redes de televisão do país.

Por aqui, as dúvidas sobre o futuro ainda não superam o ceticismo quando se trata de ingresso numa escola de jornalismo. Mas quem tem a responsabilidade de dirigir um curso de graduação não deve estar muito feliz com os prognósticos sombrios no setor.

A questão básica parece ser um impasse. As escolas esperam que as empresas mudem para adaptar seus currículos às possíveis novas oportunidades de emprego. Por seu lado, a indústria do jornalismo critica a lentidão das mudanças acadêmicas mostrando uma aparente segurança de que vai conseguir resolver sozinha os seus problemas e achar um novo modelo de negócios, antes que seja tarde demais.

Um está esperando pelo outro. As escolas, que durante décadas se colocaram na posição de supridoras de mão de obra qualificada para a imprensa, resistem a mudar suas estratégias de ensino porque terão que fazer uma aposta na incerteza. A inevitabilidade da mudança é uma sensação generalizada no ambiente jornalístico, mas o medo de errar continua mais forte do que a busca de alternativas.

Não deveria ser assim, porque afinal as universidades são instituições de pesquisa e não de capacitação de mão de obra. Pesquisa implica experimentação na preocupação de explorar o inédito, o desconhecido e o incerto. Quem teme errar não faz pesquisa. Mas a mentalidade comercial dos cursos de jornalismo levou-os a abandonar a experimentação em favor da reprodução de conteúdos e técnicas.

Evolução constante dos programas e equipamentos usados pelo jornalismo tornou inviável o recurso da repetição de aulas e treinamentos. Quando entra na faculdade o candidato a jornalista se defronta com uma realidade tecnológica e quando sai, quatro anos mais tarde, está tudo diferente. O que ele aprendeu tem pouca utilidade na procura de empregos em empresas que buscam a sobrevivência por meio da inovação tecnológica constante.

Insistir na reprodução de conteúdos pode ser cômodo para o professor, mas é fatal para o curso. As faculdades precisam dar-se conta de que sua continuidade depende do desenvolvimento de uma nova abordagem no ensino do jornalismo. E não podem esperar pela indústria porque esta busca hoje a sua sobrevivência em meio a uma incerteza jamais vista pelas empresas jornalísticas.

E essa nova abordagem está diretamente ligada à preocupação com os novos valores do jornalismo na era digital, uma área onde as faculdades, em teoria, têm muito mais vantagens do que as empresas. 

A polêmica sobre a ‘internet brasileira’

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

O projeto estabelecendo o chamado Marco Civil para a internet no Brasil tem um lado bom e um lado ruim, como quase tudo no mundo atual. O lado bom é que ele está provocando um debate mais do que necessário em se tratando de uma ferramenta de comunicação que tende a mudar a vida de todos nós, como indivíduos e como sociedade. O lado ruim é que os temas em debate são extremamente complexos e na sua esmagadora maioria fora do alcance cognitivo do brasileiro médio.

O debate é necessário porque hoje ninguém mais tem o dom da certeza, especialmente quando se trata de tecnologia, economia política da informação e comportamentos em redes sociais. Em campos como esses, em que a complexidade e a relatividade são parâmetros predominantes, o debate e a troca de opiniões são essenciais para o desenvolvimento de um conhecimento individual e coletivo que servirá de base para decisões de interesse coletivo.

Não há como fugir disso e principalmente da postura não sectária em relação a quem tem opinião oposta, porque a internet é um espaço que recém começou a ser explorado, logo o que desconhecemos supera, por larga margem, o que conhecemos sobre ele. O debate é essencial também porque o Marco Civil vai inevitavelmente entrar na campanha eleitoral de 2014.

O lado ruim é que a amplitude e complexidade do tema internet tendem a transformar o debate numa tertúlia, nem sempre amena, entre especialistas, lobistas e políticos, todos movidos mais por interesses corporativos e partidários do que pela necessidade de buscar soluções para os impasses atuais na internet no Brasil. Para afastar 90% dos brasileiros do debate basta alguns participantes do debate começarem a usar expressões cabalísticas como grandes dados, neutralidade da internet, crowdsourcing, algoritmos etc., etc. No Congresso Nacional seguramente assistiríamos a um festival de incongruências.

O Marco Civil, um conjunto normas ainda não definido integralmente, procura regulamentar o funcionamento da rede de computadores do Oiapoque ao Chui, especialmente no que se refere à privacidade e sigilo de dados dos usuários brasileiros. O tema privacidade ganhou relevância depois da denúncia de espionagem norte-americana nas comunicações virtuais entre brasileiros, incluindo a nossa presidente. 

Se não fossem os documentos secretos divulgados pelo ex-agente da CIA Edward Snowden, provavelmente o debate sobre Marco Civil da Internet estaria focado nos negócios e não na soberania nacional. O problema é que regulamentar a internet, aqui ou em qualquer outro país do mundo, é uma tarefa complicada porque significa aplicar princípios da era industrial a uma realidade digital. Nós não temos ainda nem conhecimento e nem regras minimamente consolidadas e provadas no espaço cibernético para apoiar uma decisão como essa.

A privacidade na internet não existe. Não adianta proibi-la, criar novos softwares, criptografias e outros recursos de segurança, porque cedo ao tarde algum cracker (programador especializado em quebrar códigos de segurança) vai descobrir e divulgar a chave. Teoricamente seria possível criar códigos digitais invulneráveis, mas acontece que ainda não dominamos toda a tecnologia, logo os softwares atuais são inevitavelmente frágeis. Basta perguntar a um programador experiente pelo antivírus perfeito. Ele vai balançar a cabeça e admitir que não existe.

O problema da ausência de privacidade total na internet não está na sua regulamentação, mas em saber conviver com essa nova realidade, o que implica um processo de educação coletiva. Mas os nossos legisladores e lobistas acham que basta criar uma lei para que o problema esteja resolvido. Se isso não funciona na maioria das situações que lidam com problemas tangíveis (concretos), imaginem o que acontecerá quando as questões forem tão intangíveis (imateriais) como bits, bytes, redes neurais, inteligência artificial e conhecimento.

O mesmo acontece com as iniciativas para proteger os dados brasileiros contra invasões cibernéticas estrangeiras. Se os muros físicos não funcionam, que dizer das cercas virtuais. As senhas digitais dificultam, mas não oferecem garantias totais de inviolabilidade dos bancos de dados. Balcanizar a internet (criar redes nacionais autônomas) pode parecer justificável diante de uma invasão do tipo da denunciada por Snowden e despertar compreensivelmente os brios nacionais, mas é inviável em termos da nova economia política da era digital, que começa a ser construída.

Mais uma vez, a questão não se resolve apenas com normas, mas basicamente com o que alguns chamam de cultura digital, um conjunto de novos comportamentos e valores associados à mudança de paradigmas sociais, econômicos e políticos suscitados pela generalização do uso da internet. Pode parecer uma preocupação utópica e idílica, mas não temos outra alternativa se a preocupação for enfrentar o problema da terra de ninguém da internet, onde ele realmente está, e não onde políticos, lobistas e formadores de opinião acham que está.

A realidade da internet nos obriga a buscar soluções que não rendem votos eleitorais. 

Personagem do ano ou escândalo do ano?

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

A revista Time incluiu o site Twitter como um dos canais usados para escolher o personagem do ano, uma tradição mantida há 86 anos, mas, como já aconteceu anteriormente, o voto popular não garante a eleição. Em 2012, o público elegeu o dirigente norte-coreano Kim Jong-un, mas os editores acabaram escolhendo o presidente Barack Obama, que ficou em 18º lugar na consulta popular.

Este ano o ex-analista da CIA Edward Snowden é o favorito nas pesquisas populares para o homem do ano, mas mesmo que ganhe no Twitter sua escolha não é garantida, uma vez que dependerá do crivo político dos editores da Time, uma revista tradicionalmente conservadora.

Independente do resultado, Snowden já tem o seu lugar na galeria dos personagens de 2013 porque mexeu numa abelheira que ninguém antes havia tocado. A divulgação de dados sobre monitoramento de comunicações pessoais na internet provocou um terremoto político ao envolver personalidades como a chanceler alemã Angela Merkel e a presidente Dilma Rousseff.

Mas também abalou o mundo dos negócios porque a garantia de sigilo, um ícone do mundo corporativo, virou fumaça. A denúncia de violação ilegal da privacidade individual e organizacional criou também um fosso entre os sistemas de segurança e o poderoso setor de negócios digitais, em que corporações como Google, Facebook e Yahoo reagiram com irritação porque a “arapongagem” da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (NSA) pôs em xeque sua confiabilidade diante dos milhões de usuários da internet que depositam sua privacidade nos sistemas de correio eletrônico e redes sociais.

Os governantes espionados reagiram indignados alegando violação da soberania nacional, um princípio que já é ficção na internet, mas que continua sendo uma norma importante nas burocracias estatais. Cresceu também a pressão para reduzir a influência norte-americana nos órgãos dirigentes da internet, um movimento polêmico porque abriga também interessados em “balcanizar” a rede mundial de computadores – ou seja, transformá-la numa colcha de retalhos de núcleos autônomos.

Snowden provavelmente nem se deu conta de que ao entregar documentos da CIA ao jornalista Gleen Greenwald estaria deflagrando um tsunami político tão amplo e diversificado. Ele acabou se transformando num personagem incômodo que poucos governos desejam abrigar por medo de retaliações norte-americanas. 

Mesmo que não seja escolhido o homem do ano da Time, Snowden já entrou para os anais como o autor do escândalo do ano. O presidente Barack Obama tenta minimizar as consequências do ato do ex funcionário da CIA para evitar maiores embaraços, até porque a espionagem envolveu principal aliados políticos dos Estados Unidos. Mas o vírus da desconfiança já contaminou a diplomacia mundial e este é um processo irreversível.

A sofisticação dos métodos de espionagem digital revelados por Snowden sepultou o sonho da privacidade ingênua na internet. 

Não aguento mais a agenda da imprensa

Postado por: Carlos Castilho | 8 comentários

Você leitor(a) vai me desculpar o desabafo e o uso da primeira pessoa no texto, mas não aguento mais a agenda de notícias da imprensa brasileira. É impressionante a mesmice, o viés e a alienação da pauta diária de jornais, emissoras de rádio, telejornais e até as páginas noticiosas na Web. Todos giram em torno dos mesmos temas, os telejornais se repetem em horários diferentes e nas principais notícias fica estampado o viés político-partidário que orienta toda a produção de textos e imagens.

Somos obrigados a conhecer detalhes mínimos da situação coronária do deputado José Genoino, somos informados da troca do juiz responsável pelo cumprimento das penas impostas aos mensaleiros, mas não se esclarece o porquê da relevância atribuída a esses temas. Se a noticia é tão importante assim para merecer manchetes e preciosos minutos na TV, o elementar seria explicar a causa da troca de magistrados e da preocupação com o estado de saúde do ex-presidente do PT. Na falta de esclarecimentos, sobram suspeitas sobre o viés da notícia.

O caso do mensalão é exemplar. Uma cobertura avassaladora digna de um grande desastre natural mostrando que a vingança política superou a lógica do marketing político. O lógico, segundo os manuais, seria minimizar o episódio após a condenação para evitar que a população acabe tendo pena dos detidos. Mas a imprensa, movida pelo desejo cego de tirar o PT do poder, esqueceu de tudo o que é obvio em matéria de cobertura política voltada para o interesse publico.

Enquanto isso a velha bomba relógio do sistema prisional continua no limbo informativo. O caso mensalão teria sido uma oportunidade ótima para que a imprensa resolvesse investigar e mobilizar a opinião pública para a busca de soluções para um problema que é de todos. Mas o que os jornais, revistas e telejornais mais fazem é buscar o escandaloso, distribuir culpas e quase sempre deslocar a questão para envolvimentos político-partidários. Trata-se de um desprezo olímpico pelo que a população sente e deseja.

O caso da saúde pública é outro item que mostra o distanciamento entre o mundo das redações e a realidade das ruas, bairros e favelas. O internamento de uma personalidade recebe tratamento VIP, mas as filas, corredores empilhados de doentes e instalações precárias viraram pé de página.

O caso dos médicos estrangeiros é emblemático. Foi dado mais destaque na imprensa ao corporativismo das associações de classe do que à busca de soluções para o problema das comunidades sem médicos. Agora que as previsões apocalípticas não se concretizaram, o assunto sumiu da pauta quando seria urgente e essencial saber se está funcionando e, em caso positivo, como a torná-lo permanente. Se a medida não funcionou, precisamos saber por quê.

Todo mundo acabou suspeitando que no problema dos médicos estivessem embutidos interesses eleitorais de ambos os lados, mas a imprensa nunca tratou o tema abertamente. Ela poderia ter assumido a posição do público para buscar soluções duradouras e efetivas, por meio de um esforço sistemático e prolongado de produção de informações sem viés partidário ou empresarial.

O trânsito nas grandes capitais é outra questão onde a espetacularização dos congestionamentos já se tornou maçante, por conta da repetição. É um problema nacional, mas só saem reportagens sobre São Paulo, onde o caso é mais grave, mas nem de longe o único. A imprensa está cansada de saber que não adianta só cobrar das autoridades e já deveria ter verificado que ela tem que “meter a mão na massa”, ou seja, partir para a busca de soluções junto com a população, em vez de promover desfiles de especialistas nas páginas e no vídeo.

A sensação de cansaço em relação à agenda da imprensa é causada tanto pela escolha de temas como pela forma de abordá-los por meio da batida técnica do “fulano disse, sicrano disse” (ver “A praga do jornalismo declaratório”). As notícias acabam se transformando numa inócua sucessão de declarações pouco esclarecedoras, algumas flagrantemente falsas mas não contestadas pelo repórter e no geral seguindo um roteiro onde a famosa regra de ouvir os dois lados serve apenas para tentar conferir credibilidade à reportagem , texto ou sonora.

Já deixei de assinar jornais, passo os olhos sobre as páginas noticiosas na Web e assisto aos telejornais mais por rotina do que por interesse. Tento não me irritar com o tipo de noticiário que nos é oferecido, mas nem sempre consigo me conter. Casos como, por exemplo, a repetição de notícias em telejornais, nas edições matutinas, ao meio-dia, no fim da tarde e no início da madrugada. O ritmo industrial de produção de notícias nas principais redes de televisão atropela a necessidade de buscar enfoques diferenciados – e aí caímos na mesmice rotineira.

Poderia continuar desfiando aqui as mazelas do noticiário quotidiano, mas acabaria também me tornando repetitivo e monocórdio. Há dezenas de outros problemas sociais implorando uma ação mais comprometida da imprensa. O mesmo empenho dedicado ao projeto Criança Esperança poderia ser aplicado em questões bem mais complexas como saúde, segurança pública, aposentadorias e mobilidade urbana. É só a imprensa trocar o pedestal político pela sola de sapato, tão decantada nos manuais de redação. 

A praga do jornalismo declaratório

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

Os desdobramentos da matéria publicada pelo jornal Estado de S.Paulo na sexta feira (22/11) sobre o escândalo dos trens em São Paulo ofereceram uma prova a mais do batido recurso do “ele disse, ela disse” que engana o leitor ao divulgar uma declaração como se ela fosse um dado, quando na realidade é apenas a desculpa canhestra de suspeitos de corrupção.

A maioria dos jornais que repercutiu a matéria do Estadão se limitou a publicar negativas e explicações sem aprofundar um milímetro nas investigações sobre as denúncias feitas pelo ex-funcionário da Siemens, Everton Rheinheimer, contra dirigentes de partidos oposicionistas como PSDB, DEM e PPS.

O uso extensivo da técnica declaratória dá uma falsa impressão de imparcialidade ao leitor ou telespectador, que acaba ainda mais confuso depois de ler ou assistir ao noticiário sobre o caso. Os envolvidos obviamente negam tudo porque a consulta do repórter foi burocrática, do tipo “o que o senhor tem a dizer sobre a denúncia?” O leitor que se vire para entender a notícia.

Mas os excessos no uso do “ele disse, ela disse” têm um aspecto ainda pior, pois tratam, como fato ou dado, declarações às vezes flagrantemente falsas ou distorcidas, sem que o leitor ou telespectador seja alertado pelo texto, áudio ou imagens do repórter ou editor.

Tudo isso configura uma clara omissão de grande parte das redações, que preferem seguir procedimentos burocráticos em vez de meter a cara na investigação cumprindo a missão que todos os leitores, ouvintes, telespectadores e internautas esperam dos jornalistas: dados, fatos e notícias capazes e facilitar a tarefa de entender o que está acontecendo.

A investigação de tantos escândalos e denúncias simultâneas complica extraordinariamente o trabalho dos jornalistas, ainda mais se levarmos em conta que os suspeitos ou acusados usam, rotineiramente, técnicas de omissão ou distorção de fatos. Mas a complexidade das situações não é desculpa, pois quando o noticiário não vai mais a fundo nos problemas quem sai beneficiado é quase sempre quem está sob suspeita.

Muitos profissionais alegam, com razão, que o jornalista não dispõem dos mesmos recursos materiais e legais atribuídos à policia e ao ministério público para fazer investigações ou esclarecer denúncias. Mas o fato de não poder indiciar suspeitos não elimina a responsabilidade dos jornalistas em ajudar os leitores, ouvintes, telespectadores e internautas a compreender o que acontece à sua volta.

O compromisso dos jornalistas é com o público, e não com as autoridades ou com quem estiver envolvido nas denúncias. Se as versões dos implicados, da polícia, juízes ou advogados são incompletas, incoerentes, contraditórias ou distorcidas, a função do jornalista é dar conhecimento ao público dessas questões.

Os problemas com coberturas de escândalos, cada vez mais frequentes, impõem aos jornalistas uma obrigação adicional de estar sempre bem informado para poder fazer avaliações das declarações. A maioria dos entrevistados sempre sabe mais do que o jornalista. É uma situação normal porque é justamente por esse maior conhecimento que está sendo consultado. Isto cria um desequilíbrio informativo em que o entrevistado sempre tem maior capacidade para manipular ou criar contextos verossímeis para fatos, eventos e dados.

Para neutralizar esse desequilíbrio, o profissional depende de seu conhecimento e experiência. É um risco enorme usar intensivamente repórteres muito jovens ou inexperientes para entrevistar “raposas” da política, porque normalmente o resultado será o recurso ao “ele disse, ela disse” como padrão para a reportagem. É a forma de o repórter inexperiente salvar a sua pele, mas a responsabilidade é de quem o destacou para o trabalho.

O jornalismo declaratório começa a se tornar endêmico nos jornais, revistas, telejornais e páginas Web causando uma grande irritação entre leitores, ouvintes, telespectadores e internautas que, ao não conseguirem entender o que realmente está acontecendo, acabam diante de um dilema: ignorar tudo ou passar a não acreditar na imprensa

Checagem de informações, o dilema do jornalismo atual

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

Quando os norte-americanos Bill Kovacs e Tom Rosenstiel, publicaram o livro Elementos do Jornalismo [Geração Editorial, São Paulo, 2003 (esgotado)], eles definiram o que chamaram de “disciplina da verificação” como sendo o diferencial mais importante da profissão em relação a outras atividades como publicidade, marketing, literatura e cinema.

Doze anos após a publicação do livro, que para muitos é uma “bíblia” para a imprensa contemporânea, a “disciplina da verificação” está sendo colocada em xeque pelas inovações tecnológicas na área da comunicação e informação.

Do ponto de vista teórico, a verificação como procedimento padrão no exercício do jornalismo é irretocável e nunca foi questionada. Mas na prática a situação foi diferente. Já na publicação do seu livro, Kovacs e Rosenstiel reconheceram que a checagem de informações era um método “pessoal e idiossincrático” [The Elements of Journalism, Bill Kovacs & Tom Rosenstiel. Three Rivers Press, 2007, p. 79], ou seja, algo de dificilmente normalizável para o conjunto dos jornalistas. A ideia da verificação mostrou-se tão plausível que anos mais tarde surgiram os fact checkers (verificadores de fatos), um profissional incorporado às redações e encarregado de conferir dados, fatos, eventos e processos.

O grande problema é que os elementos factuais e concretos são fáceis de checar quando comparados aos elementos não factuais e contextuais de uma notícia ou informação. Verificar a data da independência da Argentina é bem menos complicado do que identificar as razões políticas e econômicas que conduziram ao ato.

Apesar disso, a verificação continuou sendo vista como a marca registrada do jornalismo e uma peça importante na retórica da indústria dos jornais. A crescente complexidade dos dados, fatos e eventos transformados em notícias alimentou uma crescente contestação do material publicado pela imprensa devido, principalmente, ao surgimento de versões contraditórias e conflitantes para uma mesma situação.

A situação se complicou ainda mais com a avalancha informativa que gerou uma fantástica cacofonia informativa na Web. A verificação de todas as versões tornou-se algo inviável para os jornalistas, ainda mais quando as empresas passaram a competir freneticamente na tentativa de sobreviver financeiramente. Checar informações exige tempo, o item cada vez mais escasso na produção jornalística.

O público, convencido ao longo de décadas de que o jornalismo era a expressão da verdade porque aplicava a “disciplina da verificação”, passou a ter que conviver com notícias divergentes, o que gerou desconfiança e, depois, descrédito. A impossibilidade material da checagem ampla e profunda, aliada às cobranças dos leitores, ouvintes, telespectadores e internautas tornaram necessária uma revisão do diferencial proposto por Kovacs e Rosenstiel em 2001.

Analisando o contexto informativo contemporâneo fica fácil perceber que as novas tecnologias de informação e comunicação mudaram quase tudo no jornalismo e eliminaram os principais diferenciais da atividade, mas a ideia da verificação continuou de pé. No meio da cacofonia midiática digital é cada vez mais indispensável separar o joio do trigo em matéria de notícias. As pessoas conquistaram o direito de publicar e isto se tornou uma realidade irreversível. Só que todos têm as suas ocupações e quase nenhum tempo para checar o que estão repassando como informação pelas redes sociais, chats, fóruns e correio eletrônico.

Alguém tem que se preocupar em checar as informações, mas principalmente contextualizá-las, porque uma notícia pode estar com dados e fatos corretos e mesmo assim contextualmente equivocada. Como hoje os contextos se tornaram tão ou mais importantes que os fatos, o jornalismo continua sendo uma função obrigatória só que seus métodos já não podem mais ser os mesmos da era pré-digital.

A nova realidade exige que os profissionais tenham mais conhecimentos do que habilidades. Sejam capazes de discernir e interpretar mais do que redigir ou editar notícias. Sejam mais curadores de informações do que participantes de uma linha de montagem de textos ou imagens. São condições ainda vagas, mas que no essencial mantêm o que Kovacs e Rosenstiel definiram como método essencialmente “pessoal e idiossincrático”.

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