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Ensino do jornalismo, pesquisa exploratória e zona de conforto

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

A Faculdade de Jornalismo da Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, acaba de criar um Centro de Inovação Jornalística e Engajamento Cívico, cuja missão é explorar novas formas de exercer o jornalismo em ambiente digital, especialmente aquelas vinculadas à relação entre profissionais e as comunidades sociais.

Trata-se de uma nova tentativa de recuperar a ideia de um jornalismo associado à causas sociais, responsável por um aguda polêmica no ambiente profissional durante os anos 1970 e 80, quando o professor Jay Rosen e o editor de jornais Davis Merritt lançaram a ideia do jornalismo cívico, logo em seguida apoiada financeiramente pelo hoje desativado Pew Center for Civic Journalism.

Trata-se de mais uma universidade americana que decide explorar novas áreas de exercício do jornalismo em ambiente digital, partindo de uma perspectiva de que é necessário experimentar, mesmo correndo o risco de insucesso. As universidades americanas estão empenhadas em explorar áreas pouco conhecidas do jornalismo em ambiente digital, enquanto as instituições de ensino superior no Brasil dedicam-se a uma interminável polêmica sobre normatização dos currículos acadêmicos.

Enquanto uns tentam entender a nova realidade a partir de experiências em campo, em especial na redescoberta do papel das pessoas na produção de notícias, outros se preocupam em definir e regulamentar algo que está reconhecidamente em processo de transição. O nosso grande desafio hoje é identificar o novo contexto da produção jornalística e não o de tentar definir algo que pode estar ultrapassado dentro de meses.

A preocupação exploradora das universidades americanas no campo do jornalismo provavelmente busca desenvolver estratégias editoriais para resolver os agudos problemas da imprensa local e depois exportá-las para o resto do mundo. Já no Brasil o empenho na discussão de normas e regulamentos talvez seja uma consequência da histórica dominação dos grandes conglomerados da imprensa brasileira sobre as faculdades de jornalismo, colocadas diante da opção de formar mão de obra para as redações ou produzir teóricos da comunicação.

Estamos perdendo uma oportunidade única de pesquisar a nova realidade comunicacional e informativa que está surgindo no Brasil sem a necessidade de grandes recursos financeiros. O ingrediente básico é o envolvimento com a comunidade, porque é aí que podem ser identificados os novos rumos do jornalismo. As novas tecnologias nivelaram profissionais e praticantes do jornalismo ao permitir que ambos possam comprar os equipamentos básicos a preços toleráveis. O diferencial está na postura diante da realidade social.

As faculdades de jornalismo no Brasil parecem temerosas de abandonar a zona de conforto de uma atividade acadêmica voltada para dentro de si própria ou para as empresas patrocinadoras. O desafio está nas ruas e nas comunidades sociais porque é nesses locais que estão os dilemas urbanos, ao contrário do que sucedia até agora nas coberturas jornalísticas com a predominância das fontes oficiais e os especialistas como interpretes da realidade que nos cerca.

Nos anos 1970-80, a ideia de jornalismo cívico não prosperou nos Estados Unidos porque estava ligada às campanhas eleitorais visando reduzir a apatia e abstenção, e preconizava o abandono do tradicional princípio da isenção jornalística diante de problemas sociais. Nos demais países a proposta não vingou porque esbarrou nos preconceitos ideológicos da, então vigente, dicotomia entre capitalismo e comunismo.

Quase 40 anos depois, o jornalismo cívico em estudo na Universidade de Oregon não parte mais de uma preocupação eleitoral, mas sim da visão de que é necessário desenvolver uma nova narrativa jornalística baseada na interatividade entre profissionais ou praticantes de atos jornalísticos e o público. O tão badalado “engajamento comunitário” é hoje um grande desafio para os pesquisadores americanos, que veem no relacionamento com o público também uma possibilidade de identificar novas estratégias de sustentabilidade econômica.

Jornalistas espanhóis apostam na web para fugir do desemprego

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Nos últimos dois anos surgiram na Espanha cerca de 300 novas páginas jornalísticas online formadas por profissionais que foram levados ao desemprego pelo drástico enxugamento das redações de grandes jornais como El MundoEl País e La Vanguardia. A opção ainda não pode ser considerada uma solução definitiva para o desemprego no setor jornalístico da Espanha, mas sinaliza o papel que a Web exerce na consolidação de um segmento noticioso alternativo em relação à imprensa convencional.

A inesperada ascensão de páginas como El Confidencial (conservadora) e El Diario (centro-esquerda) coincidiu com a perda de qualidade editorial dos três grandes da imprensa espanhola, obrigados a demitir jornalistas, inclusive editores experientes, para reduzir despesas e lograr renegociar dívidas bancárias. Alguns jornais passaram a ser controlados por bancos que impuseram controles sobre o teor das notícias econômicas publicadas.

O desânimo de uns e a esperança de outros marcou uma reviravolta na imprensa espanhola cujas consequências ainda são imprevisíveis. Os empresários, políticos e governantes ainda mantêm-se fiéis aos jornais tradicionais, mas o público em geral inclina-se cada vez mais pela mídia online, não só pelo fato de que é gratuita, mas principalmente porque desperta mais interesse, conforme atestam especialistas na imprensa espanhola, como o professor Ramon Salaverría.

A segmentação do público consumidor de notícias jornalísticas ameaça as publicações tradicionais porque será muito difícil reconquistar leitores, ainda mais num ambiente marcado pela abundância noticiosa. A reversão de tendências não significa que os jornais impressos desaparecerão e nem que as empresas que os publicam fecharão as portas. Mas o que parece certo é que não haverá mais espaço para grandes conglomerados industriais no jornalismo.

Erros estratégicos passados e a avalancha informativa gerada pelo internet obrigaram as empresas jornalísticas a reduzir ao mínimo as suas margens de lucro para tentar sobreviver no ambiente digital. Não há mais condições para grandes redações e enormes máquinas administrativas. A sobrevivência agora implica pessoal reduzido, altamente qualificado e especializado. Mas não é só isso. A sobrevivência dos jornais tradicionais depende também de uma parceira como as novas iniciativas individuais ou comunitárias no jornalismo online, com as que estão se multiplicando na Espanha.

As empresas podem estabelecer relações bilaterais com profissionais independentes, muitos dos quais já publicam blogs que são reproduzidos em jornais como Globo, Folha de S.PauloEstado de S.PauloZero Hora e também no exterior, como The New York Times e The Washington Post. Por enquanto os jornais apenas hospedam blogs numa política de atrair leitores para a sua página Web, mas não vai demorar muito para surgirem parcerias na produção de matérias, especialmente em áreas do noticiário da cobertura local e internacional.

As parcerias podem ser uma opção natural para um duplo dilema. As empresas não têm mais receitas para serem autossuficientes em matéria de profissionais do jornalismo, enquanto os blogs e projetos noticiosos na Web ainda não encontraram, e talvez demorem a encontrar, uma solução para a subsistência econômica autônoma. Nenhum dos novos projetos online na Espanha alcançou, até agora, uma base econômica estável. Muitos não conseguirão sobreviver, mas cada insucesso será uma lição aprendida e uma potencial correção de erros.

Para que uma parceria desse tipo dê certo não basta apenas que ambas as partes estejam sem alternativas econômicas. São necessárias mudanças de comportamento e de valores. As empresas estão perdendo gradativamente o poder e a arrogância que tiveram, e muitas ainda têm, enquanto os exploradores do jornalismo online serão levados a desenvolver um novo relacionamento com as comunidades de informantes às quais estão ligados.

Os novos blogs jornalísticos espanhóis estão aprendendo, da forma mais dura possível, o preço da mudança de comportamentos e de valores. Para eles não se trata de uma aventura cibernética, mas da sobrevivência pura e simples. 

Nosso dilema eleitoral

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Todo mundo só fala de Copa na mídia e o que não é futebol está vinculado a denúncias de possíveis atos de corrupção ou então sinais pessimistas de que a economia estaria indo para o brejo. Só que ninguém informa que tudo o que não é Copa, na verdade, é campanha eleitoral disfarçada.

O festival Copa está ofuscando todo o processo eleitoral e quando chegar agosto, em plena ressaca futebolística, o eleitorado brasileiro terá que enfrentar 90 dias de campanha eleitoral sob um intenso bombardeio de informações desencontradas, descontextualizadas, incompletas e nem sempre verídicas.

É com esse material que teremos que decidir nosso voto, o que desde já surge como uma tarefa nada fácil porque a sensação geral é de confusão diante do noticiário da imprensa. Já não dá mais para saber se a seca em São Paulo é mais ou menos importante do que as enchentes no Acre. Se a economia caminha para o precipício ou está tudo sob controle. Se devemos temer mais a polícia do que os bandidos. Se uma eventual derrota de Dilma Rousseff muda tudo ou continua tudo igual.

São apenas algumas das inúmeras perguntas que povoam a nossa mente e para as quais não achamos respostas e nem muito menos ajuda na imprensa para entendê-las. Fica claro que existe um esforço conjunto na mídia para reverter a vantagem da presidente Dilma na pesquisa pré-eleitorais. Trata-se de uma clara manobra política, mas que não aparece associada à campanha para a sucessão presidencial. Desconfiamos mas não temos certeza.

Por outro lado, o governo bate na tecla de que tudo está sob controle e que não há razão para pânico – nem econômico e nem político. Mas também não dá uma resposta clara às denúncias levantadas pela oposição. A impressão que transmitem os porta-vozes oficiais é de que o mundo político do governo se resume a Brasília, Rio e São Paulo, e que o resto do país não precisa de explicações detalhadas. Resultado: desconfiamos de que nem tudo está bem, mas mais uma vez não temos certeza

Esta e todas as demais incertezas resultantes de perguntas sem respostas aumentam a suspeição de que seremos empurrados para uma eleição sem ter as informações mínimas sobre o que realmente estará em jogo, e como deveremos votar. O velho apanágio de que a imprensa era nossa conselheira já não tem mais o menor fundamento. O noticiário é tão enviesado quanto o discurso dos políticos e as explicações oficiais. Não nos transmite confiança alguma.

Por enquanto, a Copa ofusca as nossas preocupações e adia o choque da insegurança para agosto. Depois serão 90 dias de correria eleitoral que poderiam ser comparados a um “salve-se quem puder”, porque o que não foi articulado silenciosamente sob o rugido das torcidas do campeonato mundial será jogado de qualquer jeito na arena da opinião publica nacional, por falta de tempo e de condições para articular ideias e projetos.

Seguramente teremos uma eleição atípica, não só pelo fato de a campanha eleitoral ter sido ofuscada pela euforia comercial e esportiva da Copa, mas principalmente porque o divórcio entre eleitores e políticos alcançará um patamar ainda mais amplo. Uns dirão que isso é péssimo para a democracia, mas o fato é que não é o regime que está em crise, mas sim os que dizem representá-lo. As dúvidas do público não são sobre a democracia e o divórcio eleitoral não envolve o abandono do sistema político. Quem está da berlinda são os formadores da opinião. O eleitor só tem dúvidas e incertezas

A internet é muito mais que uma rede de computadores

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O debate político e a cobertura da imprensa sobre a votação do Marco Civil da Internet não tocaram nas consequências mais importantes da expansão mundial da rede de computadores e que afetam diretamente a cada um de nós. A internet e sua interface visual – a Web – já estão conformando a sociedade do futuro ao surgirem como alternativa para grandes dilemas atuais, como a degradação do meio ambiente, o caos urbano e oagravamento das disparidades sociais em escala planetária.

A discussão travada aqui no Brasil se limitou a aspectos técnicos e estratégias comerciais, sem levar em conta que a internet vai permitir a descentralização econômica e populacional do país ao viabilizar empregos e empresas em regiões que hoje estão marginalizadas, mas que oferecem excelente qualidade de vida.

É cada vez maior o número de brasileiros que abandonam as grandes cidades castigadas pela lista infindável de problemas que hoje formam a pauta jornalística dos grandes jornais, revistas e emissoras de televisão do país. Esses brasileiros buscam cidades no interior porque a internet viabiliza a atividade econômica em regiões periféricas, coisa que antes era impossível porque as comunicações eram analógicas e de alto custo.

A digitalização e a rede de computadores permitiram uma fantástica circulação de informações por grandes distâncias e a um custo relativamente baixo se comparado com as linhas telefônicas físicas. Essa informação que circula pela internet é o motor de um novo empreendedorismo baseado em pequenas unidades descentralizadas, porque não é mais necessário concentrar um grande número de funcionários num espaço reduzido por causa dos custos de comunicação e de transportes.

Por isso, a internet é muito mais do que uma rede de computadores. Ela pode ser comparada ao papel que o petróleo teve na nossa sociedade e na economia durante a maior parte do século 20. A preservação da igualdade de acesso, também conhecida como a neutralidade da internet, garante que os brasileiros tenham maiores possibilidades de acesso à produção de bens e serviços imateriais, movidos à informação.

A internet não se resume a um ambiente para jogos eletrônicos online, voyeurismo no Facebook, egocentrismo via Twitter e fofocas em redes sociais. Esta é a parte menos importante, embora seja a mais badalada. Também não é apenas uma vitrina para a multiplicação de engenhocas tecnológicas. A nossa vida, nos próximos 20 ou 30 anos, estará condicionada pela rede, pois aumentará muito o número de brasileiros que dependerão dela para seu sustento, em maior ou menor intensidade.

Por isso é tão importante que a internet permita maior igualdade de oportunidades do que as oferecidas pelo modelo industrial. É preciso lembrar que a rede de computadores surgiu e cresceu como um projeto não lucrativo e descentralizado. Ninguém pode dizer que é dono da internet, embora os Estados Unidos exerçam um papel importante na gestão dos poucos órgãos centralizadores.

Pode parecer estranho, mas quanto mais livre for a internet, ou seja, quando mais o acesso e o uso não forem condicionados pelo fator econômico, mais ela poderá produzir inovações. Quanto maior a diversidade de conteúdos informativos circulando na rede, maior a possibilidade de pessoas criativas e empreendedores desenvolverem produtos e serviços inovadores por meio da recombinação de dados e informações.

A economia da era digital baseia-se na produção de bens e serviços imateriais, logo sem utilizar matérias-primas esgotáveis que geram perdas, algumas irreparáveis, no meio ambiente. A produção de riquezas, o famoso PIB, e a geração de empregos dependerão cada vez menos da produção industrial baseada em insumos esgotáveis. A informação é a primeira matéria-prima que, além de não ser esgotável, se reproduz e se valoriza com o uso e com a difusão.

Nada disso foi dito na nossa imprensa e nem pelos nossos governantes, o que deixa a maior parte do público vulnerável à desinformação e sem condições de avaliar a real importância do que é decidido em Brasília por políticos que, na sua maioria, não têm a mais pálida ideia do que está por trás do debate sobre o Marco Civil. Para deputados e senadores, o debate é parte de uma estratégia eleitoral.

Por isso, o futuro da internet brasileira, que hoje é também um componente-chave do sistema de comunicação móvel via smartphones, acabará tendo que ser decidido pelos seus usuários diretos. A conscientização e a mobilização já estão sendo feitas por sites como o Avaaz, que oferece uma oportunidade inédita de participação cidadã independente dos canais convencionais, e que só é viável porque existe a internet. 

As novas bases da credibilidade jornalística

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Uma polêmica em curso na imprensa norte-americana permite vislumbrar uma mudança radical na forma como é avaliada a credibilidade de um jornalista profissional. O caso da reportagem investigativa da revista Newsweek sobre o descobridor da moeda virtual Bitcoin mostrou que a reputação de um repórter ou editor já não está mais no consenso de seus colegas, mas na massa indiferenciada de usuários da internet.

É uma mudança radical porque a credibilidade profissional não surge mais a partir do meio jornalístico, um universo bem mais restrito e ordenado do que o ambiente caótico e complexo dos milhões de internautas espalhados pelo planeta. É mais uma das grandes mudanças provocadas, no jornalismo e na imprensa, pela Word Wide Web, que completou 25 anos de existência na quarta-feira (12/3).

A identidade do criador do Bitcoin é um enigma que desafiava os repórteres investigativos até que Leah Goodman publicou uma matéria de capa da revista semanal Newsweek, apontando o engenheiro californiano Dorian Nakamoto como o inventor da moeda virtual que está provocando arrepios no mundo financeiro internacional. Nakamoto negou que fosse o inventor e o semanário norte-americano acabou envolvido num delicado imbróglio jornalístico, pois Leah Goodman, uma experimentada repórter investigativa, passou a discutir com internautas que contestavam os dados inseridos na sua reportagem.

A repórter baseou a sua defesa em sua experiência profissional reduzindo a importância dos fatos apresentados pelos seus críticos virtuais, entre os quais surgiram também vários jornalistas. O caso mostra como um profissional formado no chamado jornalismo industrial pré-internet pode acabar como um peixe fora d’água no jornalismo pós-industrial da era digital. A reportagem de Goodman foi produzida seguindo os parâmetros tradicionais da imprensa norte-americana.

A revista Newsweek, por seu lado, ao apostar no impacto da revelação da identidade do inventor do Bitcoin, pretendia atrair leitores para alavancar um projeto de recuperação da receita publicitária. Outro exemplo da estratégia convencional de produzir matérias da capa chamativas em revistas semanais de atualidade para aumentar tiragens e vendas.

Essas duas posturas induziram a repórter e a revista a não levarem em conta a chamada blogosfera, milhões de pessoas que publicam na Web, não compram a Newsweek e que opinaram com base em cópias da reportagem distribuídas por redes sociais, blogs e outros sites da internet. O universo dos compradores tradicionais é muito menor, mais uniforme do ponto de vista cultural e pouco inclinado a bater boca pela rede.

O mundo da internet é diferente e o professor de jornalismo Jay Rosen, da Universidade Municipal de Nova York (CUNY), foi direto ao ponto ao assinalar que a revista cometeu um erro na sua estratégia editorial, que serve de alerta para todas as demais publicações online. Segundo Rosen, a repórter Leah Goodman apresentou os resultados de sua investigação como um fato irretorquível, quando na verdade deveria tê-los publicado como uma tese sujeita à discussão. Sua longa vivência no meio impresso levou-a a não perceber a mudança de público leitor.

Os repórteres formados na era pré-internet tendem a apresentar uma reportagem como um produto acima de qualquer dúvida, fato para o qual contribui a limitada capacidade de correção por parte do público, cuja participação só era aceita quando o erro era realmente grave. Na era digital, a postura mudou porque é impossível a um jornalista sintetizar em sua reportagem toda a complexidade dos fatos, números, processos e objetos sobre os quais ele trabalhou. E, assim sendo, ele sempre estará sujeito a correções, adendos e críticas, nem sempre amenas, de milhares de internautas que tomaram conhecimento da reportagem.

Por prudência e principalmente por assumir a mudança de contexto na internet, os jornalistas não podem mais adotar ares de donos da verdade, mesmo com base numa longa experiência e na respeitabilidade dos colegas de profissão, para evitar situações embaraçosas como as vividas por Leah Goodman e a revista Newsweek

A reputação de um jornalista depende agora de um consenso ampliado e principalmente de sua capacidade de recolher os dados, sugestões e críticas construtivas geradas pela sua reportagem para ampliar o conhecimento da sociedade sobre o tema abordado. O produto jornalístico deixa de ser o ponto final num trabalho informativo para ser o ponto de partida para um debate e para o compartilhamento de dados, informações e conhecimentos. 

Não se trata de uma mudança provocada por preferências individuais ou empresariais, mas pela nova realidade criada pelas novas tecnologias de comunicação e informação que passaram a condicionar irreversivelmente o mundo em que vivemos. 

A importância da observação crítica dos telejornais

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O papel da televisão no fornecimento de notícias ao público brasileiro é ainda maior do que se imaginava, o que amplia extraordinariamente a importância da observação crítica dos telejornais e programas jornalísticos. O telejornalismo atraiu a atenção de 77,5% dos 18.312 entrevistados na pesquisa nacional de hábitos informativos, realizada pela Secretaria da Comunicação da Presidência da República (Secom) com apoio técnico do Ibope (ver Pesquisa Brasileira de Mídia 2014 – Hábitos de consumo de mídia pela população brasileira).

Se projetarmos os percentuais para o conjunto da população brasileira – estimada pelo IBGE em 202,76 milhões de habitantes em 2014 – teríamos um total de 196,62 milhões de brasileiros dependentes da televisão como a sua principal fonte de informação, e que nada menos que 157,92 milhões deles assistiriam regularmente a telejornais e programas noticiosos na TV.

A pesquisa, que ouviu pessoas em 848 municípios de todos os estados brasileiros mais o Distrito Federal , concluiu que 45% dos telespectadores de telejornais (total estimado em 71 milhões de pessoas) sintonizam regularmente o Jornal Nacional, da TV Globo, e 16% ( estimativa de 25,2 milhões de pessoas ) assistem diariamente ao Jornal da Record, da TV Record.

Somando-se os totais estimados para apenas dois telejornais teríamos uma audiência possível de quase 97 milhões de brasileiros, ou seja 48% da população nacional dependente de apenas dois telejornais para formar a sua imagem de sua região, de seu país e do mundo. Trata-se de uma enorme concentração da oferta informativa cuja principal consequência é uma forte redução da diversidade de enfoques e perspectivas, algo que já é do domínio comum.

A questão que se coloca agora é a necessidade de submeter a produção jornalística das emissoras de televisão ao mesmo juízo crítico que já é exercido por organizações como o Observatório da Imprensa em relação aos jornais e revistas impressas. Não se trata de patrulhamento no sentido vulgar do termo, mas de uma observação do conteúdo dos telejornais para identificar vieses, intencionais ou não, no tratamento das informações transmitidas aos telespectadores.

Esta é uma missão que supera a capacidade, técnica e humana, de monitoramento televisivo da maioria das organizações e indivíduos que se dedicam à leitura crítica da imprensa impressa e audiovisual. Com dependemos cada vez mais das notícias recebidas da imprensa para tomar decisões, desde as mais simples até as mais complexas, estamos diante de um desafio que atinge a todos nós. A informação que desejamos e necessitamos depende de nós, porque as emissoras de TV, assim como o resto da mídia jornalística, têm seus próprios interesses determinados pela necessidade de sobreviver financeiramente.

A forte dependência em relação ao noticiário produzido por duas emissoras de televisão é um elemento que influi decisivamente na conformação do universo cognitivo dos brasileiros. Cada notícia que recebemos gera uma reflexão individual e comunitária cujos resultados alteram a forma como vemos a realidade do nosso bairro, cidade, país e planeta. Trata-se de uma responsabilidade imensa para as emissoras comerciais de televisão que, no entanto, não conseguem dar conta dela porque precisam impor um ritmo industrial na produção de notícias, visando baratear o seu custo.

Assim, a maioria das notícias que saem num telejornal são aquelas cuja edição e transmissão resultam mais econômicas para a empresa ou atendem a seus interesses comerciais. A lógica empresarial dos telejornais é movida por índices de audiência que, por sua vez, determinam o valor do minuto nos intervalos publicitários. Temas que custam caro para ser transformados em notícia televisiva, como temas comunitários, ou não se situam dentro das preocupações editoriais da empresa, como movimentos políticos alternativos, ou ainda não geram audiências, como reivindicações setoriais, dificilmente entram num telejornal, embora possam ser de interesse de muitos brasileiros.

Nessas condições, o papel da observação crítica passa a ser transcendental para que a sociedade perceba quais as notícias que não recebe nos telejornais. E o tipo de imagem que as emissoras projetam da cidade e do país em que vivemos. 

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Um retrato da mídia no Brasil – Luciano Martins Costa

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