Código Aberto

Rolezinho, a profecia do presente

Postado por: Carlos Castilho | 3 comentários

Há 18 anos, o sociólogo italiano Alberto Melucci já dizia em seu livro Challenging Codes (Desafiando os Códigos, sem tradução para o português): “Os movimentos sociais contemporâneos são símbolos de mudanças que ainda não aconteceram... eles [os movimentos] falam antes do seu conteúdo, direção e organização serem conhecidos... são profetas de algo que já está acontecendo mas que não conseguimos identificar” (Challeging Codes, Introduction).

As ideias de Melucci, o primeiro grande teórico das ações coletivas na era digital, tornaram-se palpáveis quase duas décadas depois de terem sido publicadas e são uma evidência chocante de como a nossa imprensa e os nossos governantes foram incapazes de “ler” as mudanças em curso na sociedade. Pedir que os políticos leiam Melucci talvez seja demais, levando em conta a dimensão da cultura da maioria deles, mas os formadores de opinião na mídia não podem ficar reféns da agenda imediatista dos governantes.

O fenômeno do “rolezinho”, que tanta celeuma está provocando na imprensa, é algo previsível há tempos por quem observa o surgimento de ações coletivas sem líderes e nem heróis. Há quase 20 anos já está mais ou menos claro, desde a queda do Muro de Berlim, que o divisor de águas deixou de ser polÍtico/partidário para se tornar cultural. Além disso, a era digital acabou com as fronteiras físicas e reduziu as econômicas, pelo menos no segmento urbano. Por isso, quando os jovens da periferia das cidades invadem os shoppings, eles estão simplesmente seguindo a tendência da nova sociedade sem fronteiras, como prega o anúncio da operadora de telefonia celular Tim. Para quem procura entender as mudanças pelas quais estamos passando, o rolé é algo absolutamente natural e até inevitável.

Quem se assusta e alimenta, na imprensa, a teoria do medo, somos nós que não entendemos ou não queremos entender o que está acontecendo entre os jovens, um segmento social que só agora está rompendo fronteiras como as dos shoppings, descritos pela publicidade como templos de consumo. A classe média se apropriou dos shoppings e os transformou em bunkers da sociedade afluente, achando que as fronteiras econômicas e sociais seriam eternas.

Agora os jovens, que já nasceram na era digital, portanto não têm o mesmo respeito por barreiras como a geração anterior, entram nos shoppings não para comprar, mas para compartilhar o templo do consumo, alegando ter os mesmos direitos ao ar condicionado, praça de alimentação, cinemas e lan houses. O imaginário da classe média os associa a vândalos e aciona imediatamente o gatilho da repressão, o que não resolve o problema, mas aumenta ainda mais o desejo adolescente de derrubar fronteiras.

A imprensa está perdida no meio da polêmica, que na verdade tem um lado só: o da classe média, porque os adeptos do rolezinho não estão nem aí. O território deles é o das redes sociais e da internet. Como a maioria das pessoas que compram e leem os jornais e revistas é da classe média assustada, é inevitável que a mídia se preocupe mais com este segmento social, mas isso leva ao beco sem saída de olhar para trás, ignorando as profecias do presente.

Se a imprensa estivesse consciente de seu papel, ela estaria hoje tentando ajudar seus leitores, ouvintes e telespectadores a entender o que está acontecendo não com base na intensificação do medo e consequentemente da repressão, mas na análise das consequências das mudanças sociais geradas pela era digital. É urgente que a mídia perceba que estamos no meio de uma transição de modelos tão radical quanto a que ocorreu após a invenção da imprensa, seis séculos atrás. Adaptando o famoso bordão da campanha presidencial de Bill Clinton nos Estados Unidos, em 1992, (“It’s the economy, stupid”) para os tempos de rolezinho, teríamos: “É a história, estúpidos”.

A notícia como salvação do jornalismo na era digital

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

A constatação parece óbvia, porque o discurso dos executivos da imprensa convencional sempre colocou a notícia como o centro da atividade jornalística. Mas o avanço da tecnologia e do conhecimento humano acabaram mostrando que a notícia é muito mais do que um produto capaz de ser trocado por publicidade.

Não há mais novidade alguma no fato de que a notícia perdeu valor de troca porque se tornou de tal forma abundante que o seu preço caiu a quase a zero. Os dogmas do capitalismo garantem que quando um produto perde valor ele deixa de ser atrativo como motor de uma atividade econômica. Se isso fosse totalmente verdade, as empresas jornalísticas já teriam desaparecido e o jornalismo seria uma atividade desprovida de sentido.

A revolução tecnológica materializada na digitalização e na telemática, se por um lado acabou com o conceito de notícia como produto comercial atrativo, por outro deu a ela um novo significado capaz de justificar não apenas a sobrevivência do jornalismo como também servir de base para um novo conceito de organização midiática.

O novo contexto da notícia a situa como fator deflagrador de processos de geração de conhecimento e consequentemente também de inovações, fatores vitais para o desenvolvimento da produção de bens e serviços na economia de base digital. A notícia é um dado (número, fato ou evento) cuja principal característica é o seu ineditismo. 

O fato de ser desconhecida pelo indivíduo receptor de uma notícia mexe com as certezas existentes, gerando dúvidas que levam à identificação de sua relevância, pertinência e confiabilidade, por exemplo. Esses fatores já existiam antes da internet, mas eram associados sempre à preocupação com a valorização da notícia na troca por publicidade, fonte de recursos que viabilizava o modelo industrial de negócios da imprensa.

A extinção da preocupação com o dinheiro criou as condições necessárias para que a produção de conhecimento passasse a ser a principal característica da notícia na era digital. Mudança é significativa porque altera a forma como consumimos o conteúdo de jornais, revistas, rádio, televisão e páginas informativas na internet. 

Até agora a notícia servia para conferir status social (pessoas bem informadas como referência), poder político e militar (pela capacidade de saber o que os outros não sabem e poder manipulá-los), voyeurismo social (curiosidade popular por escândalos e crimes) e secundariamente produção de conhecimento socialmente relevante.

No sistema comercial, a notícia era consumida e apenas marginalmente reutilizada na produção de novas notícias, porque a cultura vigente era a de que um produto valorizado deveria ser guardado como investimento visando troca futura. Na era digital o fluxo da notícia confere igual importância tanto à transmissão do emissor para o receptor como o caminho inverso. O importante não é mais guardar a informação, mas compartilhá-la – porque isso lhe agrega valor.

O raciocínio é simples. Se tenho uma maçã, eu só posso guardá-la com o risco dela apodrecer, saboreá-la , vendê-la ou trocá-la por outra fruta ou produto. Em qualquer hipótese eu deixo de possui-la. Agora, se eu tenho uma notícia eu posso guardá-la ou compartilhá-la. Na primeira hipótese ela se torna inútil quando perder a novidade, mas se eu a trocar com outras pessoas eu a conservo e, além disso, incorporo novas notícias ao meu acervo informativo. Quanto mais eu compartilhar uma notícia, mais informado vou ficar.

Isso significa que o fluxo de notícias passa a ser o elemento preponderante num projeto jornalístico ambientado na internet. É aí que surge o tal de jornalismo viral, cuja intenção é fazer com que a notícia circule em vez de ficar preocupado com os resultados que ela vai gerar. O fluxo de uma notícia depende da forma como um profissional ou praticante do jornalismo organiza os seus elementos de forma que ela seja entendida rápida e facilmente pelo público.

A rapidez na disseminação ou viralização de uma notícia é o grande diferencial no jornalismo em ambiente internet, porque está diretamente associado à produção de conhecimento. Este diferencial passa a ser a justificativa do jornalismo.

***

Aos leitores: Esta postagem faz parte de um conjunto de textos por meio dos quais procuro ofereceraos estudantes de comunicação, praticantes do jornalismo e profissionais nas redações elementos para reflexões sobre o futuro da profissão. Periodicamente, trocarei o dia a dia da observação crítica da mídia para explorar o papel futuro do jornalismo no novo ambiente informativo que já está sendo criado. São sugestões para discutir porque, como ninguém tem o dom da verdade, a troca de ideias é a única forma de construir algo.

A televisão diante do desafio da reinvenção

Postado por: Carlos Castilho | 2 comentários

Com mais erros do que acertos, os jornais e revistas vem tentando encontrar novas fórmulas editoriais e corporativas para sobreviver ao impacto da internet; mas a televisão, aqui e no resto do mundo, permanece atada à um modelo que tem mais de 50 anos. 

A resistência à mudança é mais nítida no segmento dos telejornais, onde, descontadas as inovações tecnológicas e as mudanças no guarda-roupa, as emissoras seguem a mesma fórmula do Repórter Esso, da extinta TV Tupi, o primeiro noticiário em vídeo no Brasil. Trabalhei 11 anos no jornalismo da TV Globo e sou testemunha de que as mudanças no estilo de apresentar notícias foram apenas superficiais e formais.

A televisão está entrando na era digital sem ter conseguido livrar-se totalmente do pecado original de ter herdado o estilo narrativo do jornal impresso. Agora ela está diante do desafio da narrativa não linear e interativa da internet, mas continua agarrada ao estilo linear e unidirecional de contar histórias com imagens e sons.

O espectador permanece alheio às novas possibilidades de comunicação multimídia interativa porque segue hipnotizado pela sucessão de inovações tecnológicas e pelo fascínio da imagem. Os anunciantes, desconfiados da mídia impressa, mantém as verbas publicitarias na TV, garantindo às emissoras receitas que acabam estimulando o medo de arriscar mudanças na programação, apesar da queda das médias de audiência, em comparação aos anos 1980 e 90.

Os telejornais continuam agarrados à fórmula de apresentadores carismáticos e repórteres no local dos fatos, embora nem uns nem outros acrescentem diferenciais significativos ao conteúdo das notícias transmitidas. A regra de que os stand ups (repórter no vídeo) conferem credibilidade à reportagem continua sendo seguida ao pé da letra, embora os fatos mostrem que há pouca ou nenhuma relação entre o que o profissional viu e a realidade do evento noticiado. O deslocamento de equipes de jornalistas e a presença de correspondentes no exterior acabam funcionando mais como marketing dos telejornais do que como garantia de conteúdo original.

O uso intensivo da notícia como fator de atração de público levou à multiplicação de programas noticiosos, e como a capacidade de produção de novas reportagens é limitada, o recurso à repetição passou a ser onipresente. Os telejornais da noite repetem notícias e imagens já divulgadas nos noticiários da manhã e do meio-dia. Quem assiste ao Bom Dia Brasil muito provavelmente encontrara boa parte das matérias repetidas no Jornal Nacional e no Jornal da Globo.

A repetição em si não é um pecado. O problema é que o enfoque continua o mesmo, mostrando falta de criatividade dos editores, salvo quando um fato novo acontece entre um telejornal e outro. Outra causa da monotonia dos telejornais é o fato de todos eles seguirem a mesma agenda noticiosa. Como os manuais de redação são idênticos, a edição, estilo e apresentação das notícias acabam sendo quase iguais. As diferenças ficam apenas por conta dos gadgets eletrônicos ou do orçamento para financiar deslocamentos de repórteres.

As redes e emissoras independentes estão desperdiçando preciosos recursos financeiros ao não optarem por uma reinvenção da televisão em ambiente internet. A primeira coisa que os telejornais precisam esquecer é a preocupação em dar notícias que já circularam pela internet e estão em debate nas redes sociais. Também deixa de ser prioritária a regra de trazer a notícia pronta e supostamente completa. Com a multiplicação exponencial dos informantes online, cidadãos praticantes de atos jornalísticos, fica difícil ser inédito e, ainda mais, tentar condensar a diversidade de visões e opiniões numa única reportagem.

A tendência é a TV deixar de ser a referência obrigatória para as pessoas saberem o que está acontecendo porque elas estarão se atualizando por uma miríade de veículos, quase todos alimentados pela internet. Com isso, os telejornais tendem a se tornar menos atrativos e consequentemente menos valorizados em matéria de espaços publicitários. Para manter sua relevância diante do público, o telejornalismo precisa descobrir o que a TV tem de único em relação aos demais veículos de comunicação, algo que muitos sabem mas não aplicam.

A televisão é o melhor veículo para exposição da diversidade de perspectivas e opiniões, desde que os profissionais deixem as pessoas debater, sem impor condicionamentos ou direcionamentos. Os programas jornalísticos na TV em ambiente Web podem assumir duas características: espaços abertos para discussão ou espaços de opinião personalizada diversificada.

Dos dois espaços, a TV comercial, e também a estatal, usam apenas o ocupado por porta-vozes das opiniões ou projetos das respectivas direções. Na TV paga há mais debates do que na aberta, mas a razão fundamental não é o principio da livre discussão, mas o fato de que programas deste tipo são mais baratos, já que não envolvem produção sofisticada – bem como, quase sempre, encontram participantes interessados na visibilidade e marketing pessoal. 

Nos Estados Unidos, empresas surgidas na internet, com a Yahoo!, estão contratando profissionais da televisão convencional e mostrando interesse em ocupar espaços diante da demora das grandes redes de TV em mudar suas estratégias editoriais na era digital. Além disso, os grandes jornais, originalmente impressos, estão agora investindo pesado na multimídia, abrindo outro flanco de ataque aos territórios antes exclusivos da TV. Quase todos os grandes jornais norte-americanos, europeus e japoneses já têm hoje boa parte de suas notícias na internet editadas na forma de vídeos.

As receitas publicitárias da televisão também estão caindo, mas em ritmo muito menor do que na imprensa escrita. As margens de lucro ainda são compensadoras. O momento da mudança é agora, porque esperar mais significa a possibilidade de ter que tomar decisões complexas em clima de crise ou quase crise, quando a margem de erro aumenta muito. 

Notícia, dados, jornalismo e o cubo de Boisot

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

A relação entre estes quatro conceitos pode parecer meio esotérica e abstrata, mas ela está cada dia mais presente no quotidiano de quem trabalha em redações jornalísticas. Noticia e jornalismo são ideias que todo profissional da imprensa identifica e define com relativa facilidade. Já dados é um tema mais complicado e o cubo de Boisot parece uma imagem enigmática tirada de algum livro de física.

A relação entre os quatro conceitos tornou-se concreta em consequência da mudança radical ocorrida em nosso ambiente informativo a partir da digitalização da informação e do surgimento do fenômeno das redes virtuais interligando pessoas e bancos de dados. Para a maioria dos jornalistas, notícia e dado, até agora, eram coisas diferentes. Notícia é algo inédito e relevante. Dado é um número, fato ou evento.

Hoje a diferença está desaparecendo rapidamente, porque a notícia perdeu valor já que é fácil obtê-la, a custo quase zero, enquanto surgiu a corrida pela busca de dados capazes de alavancar decisões individuais e coletivas, públicas ou privadas. Antes da era digital, as notícias eram a matéria-prima para processamento de dados, ao passo que hoje ocorre o contrário: os dados processados servem de base para notícias jornalísticas. Esta inversão ainda não foi totalmente digerida pelas redações que ainda tratam o processamento de dados como uma atribuição de engenheiros, estatísticos e economistas.

Como a indústria do jornalismo era muito lucrativa no final do século passado (anos 1990), ela não deu muita atenção ao acelerado desenvolvimento das pesquisas sobre produção e processamento de dados. As redações se acomodaram a rotinas e valores que acabaram entrando em crise já na primeira década do século 21. Daí a surpresa que muitos profissionais ainda exibem quando confrontados com uma nova forma de exercer a atividade, e que passou a ser conhecida como jornalismo baseado em dados.

Esta modalidade ainda não teve tempo de desenvolver a sua própria base teórica; assim, para entendê-la é necessário recorrer às pesquisas desenvolvidas em torno da produção de conhecimento a partir do gerenciamento de dados e informações. [De forma muito simplificada: dado é um número ou fato bruto, sem contexto. Informação é um dado contextualizado (causas e consequências). Conhecimento é uma informação recombinada com outras informações gerando capacidade de interferir na realidade.]

Como o foco do jornalismo é a comunicação, o estudo dos fluxos de informação desenvolvido pelo britânico Max Boisot (ver aqui um perfil na Wikipedia) é talvez o que melhor ajude a mostrar como as novas teorias sobre conteúdos digitais alteram o trabalho da imprensa e dos profissionais autônomos.

Boisot estudou como uma informação circula de um emissor para um receptor dentro de um ambiente que ele chamou de Espaço Informativo. Neste espaço, que ele materializou num cubo tridimensional, para que um dado bruto possa ser difundido pelo processo da comunicação ele precisa ser estruturado por meio de dois procedimentos – codificação e abstração –, ambos realizados tanto por humanos como por softwares (algoritmos). O processo de estruturação de um dado (codificação e categorização) e sua difusão é cíclico, ou seja, se repete num formato elíptico, dando origem a um Ciclo de Aprendizagem Social (Social Learning Cycle, ou SLC).

A codificação consiste em associar o dado (número, fato ou evento) ao maior número possível de códigos ou conceitos escritos, imagens ou sons. Esta associação permite desenvolver categorias, que são conceitos abstratos e abrangentes que ajudam a situar o dado num contexto mais amplo. Por exemplo, quando um repórter vai cobrir um acidente de trânsito, a primeira percepção é a de um veículo destroçado e vítimas. A codificação começa quando ele associa o veículo a uma determinada marca ou característica e conta o número de feridos ou mortos. A categorização ocorre quando ele, com base nos fatos e números, conclui que o acidente foi grave (categoria abstrata) e provocado por embriaguez do motorista (outra abstração resultante da interpretação dos dados do bafômetro).

O fluxo dos dados dentro de um Espaço Informativo depende da relação dinâmica entre a codificação e a categorização, com consequências diretas na difusão (comunicação). Quanto mais rápida e detalhada for a codificação, mais fácil será identificação de categorias abstratas e, consequentemente, mais ampla a difusão do dado. Dito assim, não é difícil associar esses procedimentos às rotinas jornalísticas. Quanto mais bem investigada (codificada) uma história, mais rápida é a sua contextualização (categorização), ou seja, associação a conceitos e valores de domínio comum, o que facilita e amplia a sua disseminação (difusão) entre o público-alvo.

O procedimento jornalístico se esgota na produção e publicação da notícia ou reportagem em algum veículo comercial de comunicação. A pesquisa de Boisot foi além porque sua preocupação era saber como os fluxos de informação dentro de Ciclos de Aprendizagem Social participam da nova Economia Política da Informação, um projeto que monopoliza as atenções de dezenas de cientistas porque visa criar um framework (marco ou enquadramento) para as relações econômicas e políticas no meio ambiente digital.

Se os jornalistas como um todo estivessem mais antenados no que ocorre nos círculos pensantes da internet, eles poderiam constatar que a amplitude de difusão de uma notícia é muito mais relevante por conta de suas consequências sociais do que o resultado financeiro da venda da commodity notícia. Quanto mais ampla a circulação de uma informação, maior o número de pessoas que a incorporam nas suas decisões diárias.

A realidade atual está mostrando que a corrida atrás da notícia já não permite mais a sobrevivência prolongada de empresas e profissionais autônomos. Os novos tempos impõem ao jornalista a necessidade de trabalhar mais com dados do que notícias – e aí a academia pode ensinar algumas coisas capazes de ajudar a sair do beco sem saída em que a imprensa se meteu.

 

O desafio da complexidade no exercício do jornalismo

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

Produzir uma reportagem está ficando cada vez mais difícil e a complicação tende a aumentar ainda mais se levarmos em conta que a avalancha informativa gerada pela internet não para de crescer. Este é talvez o mais angustiante desafio enfrentado pelo jornalismo contemporâneo, cujas rotinas e valores surgiram numa era em que tudo era mais simples, porque bastava identificar os bons e os maus numa notícia.

A maioria absoluta das reportagens publicadas na imprensa dificilmente consegue uma unanimidade de pontos de vista. Isto já era comum nos tempos pré-internet quando os jornais, por exemplo, eram uma fonte insubstituível de notícias. Mas agora a maioria das notícias vira pretexto para polêmicas, nem sempre amenas, que envolvem todos os canais de comunicação, sem falar no crescente protagonismo do público. O consenso parece utópico porque somos confrontados diariamente com uma quantidade cada vez maior de percepções e pontos de vista diferentes, trazidos pela Babel eletrônica, na internet. 

O trabalho dos jornalistas, nessas circunstâncias, tornou-se extremamente difícil porque é impossível reproduzir as diversas versões de um mesmo fato, mesmo filtrando as mais verossímeis e relevantes. Os profissionais da imprensa foram treinados para serem os porta-vozes da verdade, objetividade, isenção e exatidão, objetivos que a cada dia parecem mais longínquos e inalcançáveis.

Nós jornalistas, vivemos uma situação quase esquizofrênica. Nossa formação nos empurra para analisar os dados, fatos e eventos com a preocupação central de identificar quem é o bom e quem é o mau; o que é justo e o injusto, o legal e o ilegal. Mas a realidade nos impõe um quadro diferente diante do qual ficamos perplexos – e a tendência é nos refugiar no terreno que consideramos seguro e conhecido. Mas como o mundo caminha na direção da complexidade, da mutação constante e da diversidade, acabamos sendo levados a criar um mundo próprio onde conseguimos exercer a nossa profissão com um mínimo de segurança e estabilidade.

É por isso que a imprensa acabou optando, entre outras razões, por cobrir o dia a dia dos acusados no mensalão em vez que trazer para a discussão pública o submundo do caixa 2 nas campanhas eleitorais. A cobertura do julgamento dos acusados foi feito de acordo com os mesmos princípios dicotômicos da justiça brasileira, onde o essencial é buscar culpados que possam transmitir para a sociedade a impressão de que o problema está resolvido, e que agora podemos dormir em paz porque não há mais superfaturamento e lavagem de dinheiro.

Mas quando admitimos a complexidade dos fatos e versões, verificamos que a situação é bem diferente. Estamos entrando numa nova campanha eleitoral e os indícios são de que tudo continuará como antes, porque sem caixa 2 fica quase impossível financiar campanhas eleitorais. O chamado “por fora” tornou-se estrutural na política brasileira e não um desvio temporário de conduta. É este o fato que deveria preocupar a sociedade e não se José Dirceu vai ganhar dois ou vinte mil reais num emprego, ou se o coração de José Genoino precisa de cuidados especiais ou não.

Discutir se um preso tem direito ou não a prisão domiciliar é simples e fácil porque só há duas posições: contra ou a favor. Já investigar e denunciar a prática do caixa 2 e da lavagem de dinheiro implica avaliar situações e comportamentos em que às vezes é quase impossível separar o legal do ilegal, o que é socialmente aceitável ou inaceitável, até onde vai a ética e a transparência.

O mundo criado pelas manchetes de jornais, revistas e telejornais está cada dia mais distante do mundo real das pessoas na rua. Elas se mostram igualmente perplexas com a complexidade dos fatos, dados e eventos. A tendência na população é dar cada vez menos atenção à agenda da imprensa e concentrar-se no seu bairro, sua rua ou associações. Surge aí a tentação também de criar um ambiente exclusivo, delimitado pelas informações locais e hiperlocais.

O espectro da uma fragmentação informativa, que já foi comprada a um apartheid noticioso, reforça o desafio criado pela complexidade do mundo contemporâneo ao exercício do jornalismo. É inútil ignorar a mudança, pois isto só atrasa a reformulação de rotinas e valores da profissão, além de prolongar a crise no modelo de negócios das empresas de comunicação jornalística.

O ‘efeito Snowden’ e a massa crítica do jornalismo

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

As consequências das denúncias de espionagem eletrônica feitas por Edward Snowden e divulgadas pela imprensa mundial mostraram como um fato jornalístico pode alterar não só as rotinas de jornais, revistas, telejornais e sites noticiosos como deflagrar um processo político, diplomático e corporativo que vai muito além das redações.

A expressão “efeito Snowden” começou a ser usada em junho de 2013 numa matéria da revista Esquire sobre os desdobramentos políticos dos documentos secretos entregues pelo ex-funcionário da CIA ao jornalista Glenn Greenwald, na época colunista do jornal britânico The Guardian. Um mês mais tarde, o professor Jay Rosen, da Universidade Municipal de Nova York (CUNY) transformou o “efeito Snowden” em tema de estudos acadêmicos e, agora em dezembro, a revista eletrônica da Fundação Nieman colocou a continuidade do processo como um dos 10 principais desafios a serem enfrentados pelo jornalismo mundial em 2014.

Ao distribuir para a imprensa 1,milhão de documentos secretos da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (NSA) sobre espionagem em redes sociais e comunicações eletrônicas, Snowden confirmou algo que muitos suspeitavam mas nunca haviam conseguido provar. Deflagrou também um inédito movimento de cooperação entre jornais concorrentes, o compartilhamento aberto de informações entre repórteres e o primeiro desafio concreto de alguns grandes jornais às pressões dos governos norte-americano e britânico para que o assunto fossem esquecido.

Os jornais The New York Times, The Guardian e a revista alemã Der Spiegel se aliaram não só para montar uma estratégia comum de divulgação do conteúdo dos documentos vazados por Snowden, mas também para proteger o material contra ações da justiça e dos serviços de espionagem. Segundo Dan Gillmor, no artigo publicado na revista da Fundação Nieman, a imprensa está ganhando a batalha contra os governos interessados em enterrar o caso para que as pessoas continuem ignorando como sua vida pessoal é espionada, à margem da lei, por quem deveria impô-la.

Trata-se de um caso único em que a imprensa atuou como defensora do interesse público contra governos como o dos Estados Unidos e Inglaterra, duas das maiores potências mundiais. A questão é relevante e complexa porque envolve também outros interesses. A defesa da privacidade individual está sendo usada contra a Google por desafetos descontentes com o crescimento vertiginoso do banco de dados da empresa, hoje o maior do mundo. Há também quem esteja interessado em usar o “efeito Snowden” para quebrar o controle do governo chinês sobre a internet local.

Apesar disso, os desdobramentos do caso deflagrado pelo ex-funcionário da inteligência norte-americana podem servir de modelo para outros problemas que desafiam a sociedade contemporânea, como a corrupção governamental e privada, o problema da violência policial e o crime organizado. A lição mais importante do “efeito Snowden” talvez tenha sido a de mostrar que a colaboração aberta entre empresas jornalísticas e entre profissionais gera resultados e conteúdos muito mais relevantes para a sociedade do que a subserviência muda aos burocratas de plantão.

No seu artigo para a revista da Fundação Nieman, o professor e colunista Dan Gillmor sugere que os jornalistas passem a dar prioridade máxima ao desenvolvimento do que chamou de “massa crítica” do jornalismo. Trata-se de um conceito relacionado à investigação e produção colaborativa de dados, fatos, eventos e processos socialmente relevantes. Em vez de competir pelo furo, os profissionais do jornalismo passariam a focar seus esforços na elaboração conjunta de notícias e reportagens sobre os temas em agenda.

Foi o que aconteceu no caso Snowden. O material secreto da NSA foi passado aos jornalistas Glenn Greenwald e Laura Poitras, que por sua vez o compartilharam com outros colegas que usaram o mesmo material para identificar interesses nacionais, empresas específicas e personagens locais. Boa parte da imprensa mundial participou do “efeito Snowden”, mantendo o tema na agenda internacional por um semestre, causando sérios embaraços a governos como o dos Estados Unidos.

A ideia de massa crítica envolve o conjunto de conhecimentos, informações, notícias, dados e fatos acumulados por jornais locais e nacionais, grandes e pequenos, em todo mundo. Este é um patrimônio informativo precioso que a imprensa pode usar para romper a subserviência política e financeira em relação aos governos para voltar a valorizar o cidadão que paga para ter notícias que afetam seu quotidiano e seus direitos civis.

Edward Snowden pode ser tranquilamente do homem do ano da imprensa em 2013.

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