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A reinvenção dos telejornais

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

Os telejornais são um dos formatos jornalísticos que mais perderam densidade noticiosa com a popularização da internet. São raros os casos em que conseguem apresentar alguma notícia inédita, usam uma narrativa linear que mantém a mesma estrutura do jornal impresso, os apresentadores oscilam entre o formalismo e o estilo camelô de notícias; e os repórteres agarram-se à ultrapassada fórmula do stand-up.

As mudanças registradas nos telejornais brasileiros nos últimos anos limitam-se a trocar apresentadores, mudar o cenário e introduzir novos equipamentos eletrônicos. Nenhuma alteração significativa, por pequena que seja, foi feita no conteúdo noticioso, que ainda mantém o viés do ineditismo, embora a maioria dos fatos já tenha sido amplamente divulgada, inclusive pela própria televisão em boletins informativos.

Não é necessário ser um especialista em telejornais para apontar três áreas onde a necessidade de uma reinvenção das práticas usuais é mais urgente:

1. Acabar com o formalismo dos âncoras e introduzir um formato coloquial na apresentação do noticiário. Coloquial significa conversa, ou seja, um estilo onde é importante transmitir a sensação de que o locutor não é hierarquicamente superior ou está num plano mais elevado que o telespectador. A internet abriu a possibilidade de uma comunicação em mão dupla entre o jornalista e o público. A televisão não é internet, porque não oferece as mesmas facilidades para interação, mas apesar disso não pode ignorar que o público passou a ter novas expectativas em matéria de envolvimento no noticiário.

2. O uso exaustivo de stand-ups, o jargão para a participação de repórteres na apresentação de notícias fora do estúdio, é talvez o mais ultrapassado de todos os recursos para valorizar uma reportagem em vídeo. A quase totalidade das introduções ou passagens com repórter em reportagens na TV é feita em ambientes que nada acrescentam em termos de informação. São um gasto absurdo de dinheiro e tempo. Os repórteres acabam dedicando mais tempo para escolher o lugar e fazer o stand-up do que procurando fatos, números e depoimentos. Se não fosse por vaidade ou marketing para mostrar poderio financeiro, 95% dos stand-ups poderiam ser eliminados sem perda alguma no conteúdo da notícia. Alguns correspondentes estrangeiros narram de Buenos Aires, um evento ocorrido na Venezuela. A preocupação em editorializar acaba atropelando a procura de um efeito testemunhal, a justificativa básica para manter um profissional no exterior.

3. Os telejornais, inclusive os norte-americanos e europeus, continuam ignorando olimpicamente a convergência de plataformas viabilizada pela alternativa multimídia da internet. E televisão é uma das plataformas. Tem vantagens e desvantagens em relação a outros canais. Gera mais envolvimento sensorial dos telespectadores com as notícias, mas perde longe para a mídia impressa em matéria de facilidade de compreensão em temas complexos ou abstratos. Até agora havia uma concorrência entre as plataformas impressas (textuais) e audiovisuais (imagens e sons). A internet permitiu que ambas pudessem convergir e ao mesmo tempo incorporar a interatividade em tempo real com o público. É inevitável o surgimento de pressões do público na direção da convergência porque é muito mais fácil recorrer à pàgina Web do noticiário em caso de dúvida, para obter mais detalhes, para consultar especialistas ou trocar ideas com outros telespectadores, ou ainda fazer compras online.

defasagem editorial dos telejornais em relação às necessidades e expectativas informativas do público acabou por reduzir sua relevância como fonte de notícias e ampliar o seu papel no enquadramento político e publicitário dos números, fatos e eventos noticiados. O viés político passou a ser mais visível do que o caráter jornalístico, o que acaba gerando frustração no telespectador e desvirtua a função de apresentadores, editores, produtores e repórteres.

Os telejornais do início da noite não ocupam mais aquele espaço mágico em que as pessoas paravam para saber o que aconteceu no mundo nas últimas 24 horas. Assisti-los ganhou mais características de hábito rotineiro do que de uma necessidade. Esta mudança de atitudes tornou os telespectadores mais críticos ou mais indiferentes. Ambas as posturas são pouco interessantes para uma emissora porque não ampliam a credibilidade no telejornal, o que no fundo não é um bom negócio, no sentido estrito. 

O questionamento da confiança na imprensa

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

Durante décadas a confiança do público na imprensa era uma questão acima de qualquer suspeita, mas desde a virada do século a quase unanimidade está desaparecendo rapidamente. Não se trata de uma discussão estatística sobre oscilações dos índices de confiança no noticiário, mas de verificar em que medida mudou o contexto que envolve o que é publicado ou transmitido.

A questão a ser vista não é se a cobertura de eventos como o da morte do cinegrafista Santiago Andrade está sendo isenta ou enviesada, mas de analisar a conjuntura em que o trabalho da imprensa vem sendo desenvolvido. O foco é menos uma preocupação com erros ou acertos e mais com a constatação de que os mesmos problemas que estamos sentindo em matéria de desorientação informativa, no caso do cinegrafista da TV Bandeirantes, tendem a se repetir sempre que um evento provocar comoção pública.

A identificação de manipulações do noticiário é essencial, mas as investigações da morte de Santiago ainda estão carregadas de muita emoção, o que aconselha mais cuidado e equilíbrio na hora de apontar os responsáveis e as consequências possíveis. O que, sim, já pode ser analisado é que cada fato, número ou evento noticiado pela imprensa contempla inevitavelmente várias versões – até porque o ditado popular garante: “Em cada cabeça, uma sentença”.

Na era da abundância noticiosa, onde cada versão pode se tornar viral na internet, não é mais possível falar de um único enfoque ou abordagem. A dúvida e incerteza passam a ser as sensações mais comuns em que assiste a telejornais, lê revistas, jornais e paginas Web. A maioria das pessoas não gosta de conviver com a dúvida e incerteza porque isso as obriga a pensar e admitir que os outros podem ter mais razão.

A imprensa alimentou durante décadas essa confortável posição de milhões de leitores e telespectadores ao prometer-lhes só a verdade e apenas a verdade. Era uma questão de princípio e também uma necessidade comercial, porque as pessoas pagam pela verdade, mas dificilmente fazem o mesmo com a dúvida.

Acontece que hoje é impossível oferecer a certeza absoluta. Não há como se prometer algo que não existe. O máximo que a imprensa pode oferecer são versões, que inevitavelmente são parciais, na reconstrução do que aconteceu. Se há um equívoco na postura da imprensa, este é o de induzir o público a acreditar que existe algo inquestionável quando o mais adequado seria assumir a relatividade de todos os depoimentos, fotografias e vídeos.

No caso da morte de Santiago Andrade, a única coisa certa é que ele pagou com a vida o preço de ser um profissional que não fugiu dos desafios de seu trabalho. Mas com relação às investigações, em especial a indicação de autoria, as empresas jornalísticas transmitem ao público a ideia de que tudo vai ser resolvido rapidamente quando de fato estão atropelando a dúvida e a incerteza.

A morte de mais um jornalista não está sendo aproveitada para discutirmos mais profundamente as causas e consequências das manifestações de rua que se espalharam de forma viral pelas cidades grandes e médias do país. A cobertura da imprensa está toda focada na apresentação de um ou mais culpados, num processo cirúrgico cuja preocupação é minimizar toda e qualquer controvérsia e apontar responsáveis exclusivos, num cenário onde o componente político eleitoral não pode ser desprezado.

A imprensa está perdendo uma oportunidade fundamental para transformar a morte de Santiago em algo realmente histórico. Em vez de empenhar-se na pressa por punições pouco convincentes e decidisse jogar o que lhe resta de confiança junto ao público para mostrar-lhe como conviver com a dúvida, com a controvérsia e com a incerteza, porque elas são a marca dos tempos que começamos a viver.

A imprensa e uma população à beira de um ataque de nervos

Postado por: Carlos Castilho | 4 comentários

A sociedade brasileira está ingressando num período tenso, como mostra a repetição de protestos, manifestações, greves, conflitos e vandalismo. Tudo isso ocorre em meio a muita controvérsia sobre as vítimas, responsáveis e beneficiados, o que gera uma desorientação geral e aumenta a complexidade do papel da imprensa nesta conjuntura.

Uma porta enguiçada de vagão de metrô é suficiente para deflagrar uma sucessão de eventos que quase paralisaram a maior metrópole do país. A população cansada e esgotada por tantas dificuldades no seu quotidiano parte para o confronto com a polícia, ataca prédios governamentais e agências bancárias, revelando uma tolerância quase de zero com relação descalabro nos serviços públicos.

A insatisfação generalizada e a desorientação informativa criam o ambiente adequado para agentes infiltrados agirem no meio dos manifestantes provocando situações que depois serão exploradas politicamente, diante de uma população perplexa.

Estamos muito perto de uma situação onde uma pequena faísca pode provocar um grande incêndio ou explosão. As pessoas estão irritadas e com reduzida capacidade de refletir diante de situações obscuras e complexas. O ambiente está propício a ações fruto do impulso, paixão e raiva. Qualquer episódio ganha imediatamente versões antagônicas, o que contribui para aumentar a incerteza e a confusão.

Tudo isso ocorre tendo como pano de fundo as eleições presidenciais deste ano. A campanha eleitoral começou de forma disfarçada, com os partidos de oposição partindo para um perigoso vale-tudo político diante do espectro de mais uma vitória do PT. A população ainda não se deu conta, mas qualquer protesto ou manifestação vira imediatamente uma peça de um jogo político manipulado por partidos que dissimulam suas reais intenções por meio de uma retórica moralista e legalista.

Quando os políticos só pensam em manter empregos por meio de eleições e com uma população à beira de um ataque de nervos, a imprensa passa a ter um papel de importância crítica na busca de uma racionalidade mínima na percepção da crise. Repórteres e editores começam a ter que caminhar sobre ovos porque um pequeno deslize pode acabar provocando um grande conflito com desfecho impossível de ser previsto. Um escorregão editorial pode criar uma situação que seguramente vai exigir arrependimentos futuros, como aconteceu com os jornais e emissoras que apoiaram o golpe de 1964.

É em conjunturas como a que estamos vivendo atualmente que o papel da mídia pode ser avaliado. Se a imprensa levar em conta apenas seus compromissos políticos e interesses financeiros, a população ficará numa situação de orfandade noticiosa e incapacitada para avaliar areal dimensão da crise. Os conglomerados jornalísticos nacionais estarão repetindo os mesmos erros cometidos há cinquenta anos

 

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O jornalismo diante da agenda negativa da imprensa – C.C.

O jornalismo diante da agenda negativa da imprensa

Postado por: Carlos Castilho | 7 comentários

Quem acompanha o noticiário pela televisão, em especial o da TV Globo, certamente já se impressionou com o predomínio de notícias sobre violência, corrupção, tragédias, acidentes, declínio econômico, aumento de preços, congestionamentos e por aí vai. A lista de mazelas públicas e privadas exibida pelo menos quatro vezes ao dia nos telejornais poderia ser ampliada ainda mais dando margem a duas suposições: os editores e repórteres passaram a ver apenas um lado da realidade ou então existe uma predeterminação para que o pessimismo também contamine a população, pelo menos até as eleições.

Meu colega Luciano Martins Costa já abordou a agenda pessimista da imprensa a partir das manchetes dos grandes jornais brasileiros. Suas análises deixam claro que, deliberadamente ou não, existe uma tendência a priorizar o negativo seja por questões políticas ou para explorar o voyeurismo e morbidez para vender jornais. Pretendo ir um pouco além para explorar a atitude de repórteres e editores diante desta tendência.

É claro que a alternativa de só dar notícias boas, como ocorria na imprensa durante o regime militar, é tão equivocada quanto só dar as ruins. Não se trata de fazer uma escolha, mas de ter em mente que a sociedade em que vivemos é complexa, dinâmica e diversificada. Às vezes com um pouco mais de otimismo, noutras de pessimismo. É impossível um equilíbrio estático e não há uma fórmula única para avaliar os dados do dia a dia. O desafio do jornalista é achar a dose certa.

É aí que reside a especificidade da profissão. A principal função do jornalismo é a prestação de serviços de interesse público mediante a produção de notícias capazes de gerar debate e, com isso, ampliar o conhecimento coletivo e individual. O noticiário ocupa neste cenário um papel fundamental, pois é ele que alimenta a reflexão entre as pessoas e, consequentemente, as suas decisões. 

Produzir pessimismo é uma forma de induzir a decisões equivocadas porque todo mundo sabe que o quotidiano é feito de coisas ruins e coisas boas. Logo, a ênfase no negativismo, ou no ufanismo, é um sinônimo de mau jornalismo porque ignora a realidade social e engana o público ao lhe fornecer um quadro distorcido do mundo em que vivemos.

Também não se trata de adotar uma estratégia salomônica: dar uma notícia ruim e outra boa. É uma técnica ultrapassada porque a realidade é dinâmica e não adianta querer transmitir uma ideia de equilíbrio porque a mudança é permanente. Os extremos (pessimismo ou ufanismo) são mais confortáveis porque o jornalista não precisa viver a dúvida permanente se está ou não levando em conta os demais dados da realidade. Mas podem ser um erro fatal se considerarmos a sua credibilidade pública.

Para manter uma sintonia mínima com a dinâmica social, os profissionais da imprensa não têm outra alternativa senão pesquisar, duvidar, conferir e compartilhar dados, informações e conhecimentos. Isso toma tempo, o que gera um conflito inevitável com o ritmo industrial de produção jornalística adotada pelas empresas de comunicação. É aí que possivelmente reside uma das causas da atual distorção do noticiário oferecido ao público.

Uma consequência prática, fácil de perceber entre telespectadores, especialmente nas grandes cidades, é o crescente ceticismo em relação ao noticiário. As pessoas começam a mostrar cansaço em relação à insistência na ênfase negativista. Não há uma rejeição clara dos números, fatos ou eventos transmitidos, o que revelaria uma atitude proativa, mas uma tendência a não levá-los em conta como elemento essencial para a tomada de decisões. As pessoas consultam cada vez mais parentes, amigos e as redes sociais na hora de fazer uma opção.

As pessoas também se queixam que a imprensa costuma omitir nomes e marcas envolvidos em questões polêmicas. A atitude é uma compreensível precaução preventiva de empresas e profissionais contra ações judiciais dos suspeitos, mas o público acaba ficando diante de uma situação difícil: duvidar de tudo ou especular sobre o que não foi revelado. Nem uma nem outra opção atendem às necessidades dos leitores, ouvintes, telespectadores ou internautas.

O resultado é o distanciamento crescente entre as pessoas e a imprensa, que passa a ser vista cada vez mais como uma distração ou voyeurismo social, em vez de ser, prioritariamente, um fator de geração de conhecimento coletivo e individual voltado para a consolidação de relações comunitárias. 

‘Mancheteiros’ e ‘explicadores’

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

Uma nova migração de grandes nomes do jornalismo norte-americano sinaliza uma tendência inovadora, alimentada pela internet, no mercado da notícia. Trata-se de uma segmentação das prioridades editoriais em duas áreas diferentes: a da noticia dura (números, fatos ou eventos), base de manchetes que atraem o público; e a dos “explicadores”, profissionais experientes que acumularam conhecimentos em temas específicos.

Nos últimos meses, pelo menos doze grandes nomes do jornalismo impresso nos Estados Unidos migraram para projetos nascidos na internet, trocando salários altos e estabilidade por risco e liberdade de criação. A troca de emprego pode ter sido determinada por interesses puramente pessoais, mas ela revela uma mudança mais profunda e que altera o panorama da imprensa tradicional pré-internet.

O fenômeno dos “explicadores” resulta da combinação da crescente complexidade dos fatos noticiados em manchetes e com a frustração de profissionais capazes de explicar o contexto ampliado do que anunciamos nos veículos de comunicação jornalística. Perplexo e desorientado pelo bombardeio diário de notícias, o público começa agora a procurar referências capazes de ajudá-lo a entender o caos informativo da era digital.

Trata-se de um novo nicho de mercado surgindo na área jornalística que, curiosamente, está sendo mais explorado por independentes e por empresas de base tecnológica do que pela imprensa convencional. Os explicadores, em sua quase totalidade, foram formados nas redações de grandes jornais, revistas ou emissoras de televisão.

As empresas onde trabalhavam, ou ainda trabalham, bem que tentaram se adaptar aos novos tempos da interatividade e da avalancha informativa, mas a rigidez e a centralização vertical das estruturas corporativas entraram em conflito com o individualismo e com o deslumbramento dos novos profissionais/empreendedores diante das novas tecnologias de comunicação e informação. O resultado foi a migração de nomes como David Pogue, Nate Silver, Andrew Sullivan e agora Ezra Klein para projetos na internet.

O crescimento do setor dos “explicadores” na mídia sinaliza o surgimento de um novo paradigma na imprensa, tanto online como offline. O novo segmento não tem a agilidade, a amplitude e imediatismo informativo das redações voltadas para a cobertura das chamadas notícias duras (hard news). Assim, a tendência é a complementaridade entre “mancheteiros” e “explicadores”, uma divisão de tarefas e responsabilidades em pé de igualdade.

A notícia dura é tão importante quanto a contextualização e a explicação. A notícia dura chama a atenção do público porque altera o universo cognitivo de um indivíduo ao introduzir um número, fato ou evento novo e desconhecido. As alterações do universo cognitivo provocadas pelo noticiário diário geram incertezas ou curiosidade que alimentam a necessidade de contextualização para entender o que está acontecendo.

Até agora, os veículos tradicionais de comunicação jornalística procuraram atender, num único ambiente, tanto a demanda por notícias duras como a busca de explicações. Tudo indica que, agora, o público vai diversificar as suas fontes de informação. O hard news já está onipresente na internet, redes sociais, smartphones, tablets, outdoors, emissoras de rádio e de TV. Contrastando com a concentração da produção de notícias duras em poucos veículos, começa a se esboçar uma pulverização dos “explicadores”, tanto entre jornalistas de grife, famosos por seus conhecimentos e estilo personalizado, como entre os curadores de informações (jornalistas profissionais e praticantes do jornalismo) que recomendam fontes e abordagens para temas específicos.

O projeto Vox Media investe forte na atração de explicadores para seu site afirmando: “Queremos redatores obcecados por sua área de conhecimento, que sejam capazes de noticiar, explicar e também de investigar. Precisamos de hackers [programadores] e outros gênios em processamento de dados que possam explicar as notícias de um jeito melhor do que as palavras. Precisamos de produtores de vídeo que possam fazer animações de dois minutos sintetizando temas complexos. Precisamos de designers que possam construir o primeiro projeto híbrido combinando notícia e enciclopédia” [texto original aqui].

O dilema diário de lidar com notícias e informações

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

Há 17 anos, o Observatório da Imprensa se propôs a oferecer ao público uma nova forma de ler jornais. Na época, foi uma decisão ambiciosa e visionária pois estávamos saindo de duas ditaduras: uma militar e outra da autocensura jornalística. Quase duas décadas depois, o novo jeito de ler jornais tornou-se numa virtual obrigação provocada pela necessidade de separar o joio do trigo no meio da avalancha informativa gerada pela internet.

Leitura crítica, contextualização, curadoria e observação da mídia deixaram de ser acessórios para se transformarem em ferramentas indispensáveis para todos nós, desde os que apenas desejam saber o que está acontecendo até os tomadores de decisões, profissionais liberais, educadores, funcionários e pesquisadores. Os riscos para quem não sabe lidar com a informação variam desde tomar a direção errada no trânsito até prejuízos milionários em projetos equivocados, sem falar no letal assassinato de reputações.

Lidar com a informação tende a se tornar uma disciplina obrigatória em qualquer processo de aprendizagem, pois este significa o contato com o novo e desconhecido, o que implica risco de erro ou fracasso. O que antes era uma recomendação para evitar ser enganado, agora é uma exigência compulsória para quem precisa reduzir ao máximo as consequências de erros por falta de informação adequada.

O tratamento da informação tornou-se uma indústria multibilionária conforme indicam o fenômeno dos Grandes Dados (Big Data) e os investimentos de empresas jornalísticas na digitalização de suas edições passadas. Os megabancos de dados lidam com volumes incomensuráveis de números, fatos, eventos e notícias, que só têm valor se forem filtrados conforme as necessidades e desejos do cliente, que hoje não tem mais tempo organizar informações e muito menos cacife financeiro para bancar decisões desinformadas.

O cidadão comum só agora começa a se dar conta da importância do trato da informação para uso pessoal. Ainda estamos vivemos a era da confiança cega, típica do período pré-internet. Mas os tempos mudaram e não dá mais para confiar numa única fonte de informação, por melhor que ela seja. É impossível saber tudo, logo sempre haverá algo desconhecido, o que nos leva à necessidade de pesquisar, conferir e aprender.

Quem lê jornal ou assiste à televisão, por exemplo, não pode mais tomar uma notícia ou informe de um correspondente no exterior como a materialização da verdade. Por melhor e mais competente que seja o jornalista é humanamente impossível esperar que ele transmita todos os detalhes da crise na Ucrânia ou sobre as razões do aumento da taxa Selic. É pedir demais, mas é justamente isso que a maioria dos leitores de jornais e telespectadores fazem todos os dias ao consumir notícias .

A nova realidade, baseada numa enorme diversidade informativa, mostra que o lógico seria tomar as notícias de jornais, reportagens de revistas e o conteúdo dos telejornais como uma fonte de informações entre várias possíveis e não como a nossa única referência. Parece obvio do ponto de vista teórico, mas na realidade não agimos assim. Na verdade, teríamos que situar os dados, fatos, eventos e notícias lidos, vistos ou ouvidos num contexto mais amplo para verificar sua credibilidade, exatidão, relevância e relação com o nosso quotidiano.

O problema é que isso toma tempo, o que inviabiliza a rotina da verificação para quase todos nós. Restam então duas alternativas: ação coletiva ou assumir a complexidade dos fatos, dados ou eventos. Ação coletiva significa trocar percepções e opiniões com outras pessoas para avaliar dados e informações. Muitas pessoas e empresas já fazem isso diante de situações complicadas. 

Assumir a complexidade da vida moderna significa incorporar na rotina pessoal a consciência de que não temos condições de captar toda a diversidade de percepções da realidade e que, portanto, nossas opiniões e posicionamentos são sempre relativos, ou seja, não somos donos da verdade e por isso não temos condições de impor nada a outras pessoas. As notícias captadas em jornais, revistas e telejornais devem ser avaliadas e comparadas com outras fontes.

Cada vez mais surgem ferramentas para nos ajudar a separar o joio do trigo em matéria de noticiário quotidiano. A maioria delas combina softwares e a ação de indivíduos chamados curadores, ou seja, pessoas que ajudam outras pessoas a fazer a triagem de dados e informações. Outros atuam na base das comunidades de curadoria em que integrantes compartilham notícias e recomendações.

Tudo isso indica que a informação por meio da imprensa tende a ser cada vez mais uma ação coletiva e social em vez de um ato solitário, de uma pessoa. Isto muda muito não só o nosso posicionamento diante da mídia como, principalmente, a forma como ela passará a produzir notícias. 

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