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O ‘efeito Snowden’ e a massa crítica do jornalismo

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

As consequências das denúncias de espionagem eletrônica feitas por Edward Snowden e divulgadas pela imprensa mundial mostraram como um fato jornalístico pode alterar não só as rotinas de jornais, revistas, telejornais e sites noticiosos como deflagrar um processo político, diplomático e corporativo que vai muito além das redações.

A expressão “efeito Snowden” começou a ser usada em junho de 2013 numa matéria da revista Esquire sobre os desdobramentos políticos dos documentos secretos entregues pelo ex-funcionário da CIA ao jornalista Glenn Greenwald, na época colunista do jornal britânico The Guardian. Um mês mais tarde, o professor Jay Rosen, da Universidade Municipal de Nova York (CUNY) transformou o “efeito Snowden” em tema de estudos acadêmicos e, agora em dezembro, a revista eletrônica da Fundação Nieman colocou a continuidade do processo como um dos 10 principais desafios a serem enfrentados pelo jornalismo mundial em 2014.

Ao distribuir para a imprensa 1,milhão de documentos secretos da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (NSA) sobre espionagem em redes sociais e comunicações eletrônicas, Snowden confirmou algo que muitos suspeitavam mas nunca haviam conseguido provar. Deflagrou também um inédito movimento de cooperação entre jornais concorrentes, o compartilhamento aberto de informações entre repórteres e o primeiro desafio concreto de alguns grandes jornais às pressões dos governos norte-americano e britânico para que o assunto fossem esquecido.

Os jornais The New York Times, The Guardian e a revista alemã Der Spiegel se aliaram não só para montar uma estratégia comum de divulgação do conteúdo dos documentos vazados por Snowden, mas também para proteger o material contra ações da justiça e dos serviços de espionagem. Segundo Dan Gillmor, no artigo publicado na revista da Fundação Nieman, a imprensa está ganhando a batalha contra os governos interessados em enterrar o caso para que as pessoas continuem ignorando como sua vida pessoal é espionada, à margem da lei, por quem deveria impô-la.

Trata-se de um caso único em que a imprensa atuou como defensora do interesse público contra governos como o dos Estados Unidos e Inglaterra, duas das maiores potências mundiais. A questão é relevante e complexa porque envolve também outros interesses. A defesa da privacidade individual está sendo usada contra a Google por desafetos descontentes com o crescimento vertiginoso do banco de dados da empresa, hoje o maior do mundo. Há também quem esteja interessado em usar o “efeito Snowden” para quebrar o controle do governo chinês sobre a internet local.

Apesar disso, os desdobramentos do caso deflagrado pelo ex-funcionário da inteligência norte-americana podem servir de modelo para outros problemas que desafiam a sociedade contemporânea, como a corrupção governamental e privada, o problema da violência policial e o crime organizado. A lição mais importante do “efeito Snowden” talvez tenha sido a de mostrar que a colaboração aberta entre empresas jornalísticas e entre profissionais gera resultados e conteúdos muito mais relevantes para a sociedade do que a subserviência muda aos burocratas de plantão.

No seu artigo para a revista da Fundação Nieman, o professor e colunista Dan Gillmor sugere que os jornalistas passem a dar prioridade máxima ao desenvolvimento do que chamou de “massa crítica” do jornalismo. Trata-se de um conceito relacionado à investigação e produção colaborativa de dados, fatos, eventos e processos socialmente relevantes. Em vez de competir pelo furo, os profissionais do jornalismo passariam a focar seus esforços na elaboração conjunta de notícias e reportagens sobre os temas em agenda.

Foi o que aconteceu no caso Snowden. O material secreto da NSA foi passado aos jornalistas Glenn Greenwald e Laura Poitras, que por sua vez o compartilharam com outros colegas que usaram o mesmo material para identificar interesses nacionais, empresas específicas e personagens locais. Boa parte da imprensa mundial participou do “efeito Snowden”, mantendo o tema na agenda internacional por um semestre, causando sérios embaraços a governos como o dos Estados Unidos.

A ideia de massa crítica envolve o conjunto de conhecimentos, informações, notícias, dados e fatos acumulados por jornais locais e nacionais, grandes e pequenos, em todo mundo. Este é um patrimônio informativo precioso que a imprensa pode usar para romper a subserviência política e financeira em relação aos governos para voltar a valorizar o cidadão que paga para ter notícias que afetam seu quotidiano e seus direitos civis.

Edward Snowden pode ser tranquilamente do homem do ano da imprensa em 2013.

Caminhamos para um 'apartheid' informativo

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

Onde as pessoas buscam notícias? Até bem pouco tempo atrás a resposta era simples, mas desde a massificação do uso da internet a questão deixou de ser óbvia. Os jornais e a televisão perderam a hegemonia e as redes sociais ganharam um protagonismo inédito e inesperado. Não se trata apenas de trocar um veículo de comunicação por outro, mas de uma mudança de comportamento e de valores cujas consequências ainda não foram totalmente compreendidas.

Uma pesquisa feita nos Estados Unidos revelou que o site Reddit é o mais acessado por adultos norte-americanos procurando notícias, com 22,7 milhões de visitantes únicos por semana (dado fornecido pelo site), um total quase seis vezes maior do que a soma dos leitores das versões online e impressa do The New York Times, o mais importante jornal norte-americano.

O Reddit é uma microempresa digital criada em 2005 e integrada por 29 profissionais e oito estagiários. Já o Times tem 156 anos de existência, cerca de mil funcionários e uma receita operacional anual de 230 milhões de dólares (dado de 2011), enquanto a do Reddit mal consegue chegar ao 2 milhões de dólares.

Mas o mais importante de tudo não são os números e sim o tipo de notícia procurada pelos leitores do Reddit e do NYT. O Reddit é uma comunidade de usuários da web onde cada indivíduo pode publicar notícias (desde que seja usuário registrado) que por sua vez são avaliadas por outros usuários. Caso a notícia seja considerada válida, ela sai publicada na primeira página do site, obedecendo a uma hierarquia que leva em conta o número de votos recebidos do público em geral, o grau de atualidade e o número de comentários postados por leitores.

Estas características fazem com que a agenda noticiosa do Reddit seja radicalmente diferente da obedecida pelo Times. A comparação das duas agendas feita às 14h30 de sábado (14/12) mostra a seguinte relação das dez principais notícias nas respectivas edições online:

Reddit

1. Fac-símile da conta enviada por um hotel norte-americano para a mulher de um empresário que usava quartos para encontros com prostitutas;

2. Foto do degelo da neve numa cidade europeia mostrando a figura gigante de um homem na encosta da montanha;

3. Foto de um filhote recém-nascido de cachorro pendurado numa arvore de Natal;

4. Notícia do presidente da Islândia expulsando agentes do FBI que investigavam o Wikileaks. Legenda da foto: “Aqui prendemos banqueiros e não ativistas”;

5. Leitor pede publicação de fotos de eventos sobrenaturais;

6. Ator Christopher Lee lança disco heavy metal aos 91 anos;

7. Cantor Marylin Mason publica artigo polemico sobre o massacra na escola de Columbine;

8. Notícia do presidente do Uruguai rechaçando criticas norte-americanas à lei que legalizou o uso e cultivo da maconha no país;

9. Notícia sobre adolescente brasileira que se prostituiu para conseguir ingresso para a Copa do Mundo em São Paulo (detalhes aqui);

10. Google compra fábrica de robots eletrônicos.

The New York Times

1. Direita americana pressiona republicanos na questão do orçamento federal;

2. Desparecimento de espião norte-americano no Irã;

3. Polêmica sobre o fechamento de pista em ponte de acesso a Manhattan;

4. Balanço de um ano do tiroteio na escola de Newtown;

5. Fama e desgraça de um imitador do presidente afegão;

6. Velório de Mandela chega a etapa final;

7. Legalização da maconha nos estados de Washington e Colorado;

8. Polêmica sobre o milionário que usou fortuna pessoal para promover agenda político-eleitoral dos conservadores norte-americanos;

9. Disputa de terras nas Filipinas;

10. China coloca espaçonave na Lua.

Tirando o caso da legalização da maconha, não existe nenhuma notícia coincidente nas duas listas de manchetes principais no período pesquisado. O fato de as notícias do Reddit terem sido votadas pelos seus leitores mostra o grau de distanciamento entre as agendas dos dois veículos. Enquanto o site procura refletir os interesses de pessoas comuns, o jornal deixa evidente o alinhamento de sua agenda ao jogo de poder na política, diplomacia e economia.

Sem fazer nenhum julgamento de valor sobre as duas agendas, o que se nota é que elas podem estar refletindo duas formas de encarar a realidade quotidiana. Por um lado, há no Reddit uma perspectiva mais personalizada, paroquial e relacionada ao quotidiano das pessoas, como mostra a preferência pelo bizarro (conta do hotel e filhote na árvore de Natal) e pelo que contradiz a agenda formal da mídia (reação dos presidentes da Islândia e Uruguai, bem como o caso da adolescente).

Na agenda do Times predominam as questões políticas e econômicas, com destaque para a diplomacia (Afeganistão, China, África do Sul e Filipinas). Esta aguda divergência de agendas é natural levando em conta a diversidade crescente de posicionamentos das pessoas. O problema é que a imprensa convencional tende a considerar a sua agenda como mais relevante e a única a ser levada em conta nas decisões nacionais. Esta visão unilateral é a responsável por grandes erros de estratégia de comunicação cujas consequências afetam mais que fecha os olhos para a diversidade.

A imprensa já há algum tempo e deixou de ser a fonte principal de informações da maioria das pessoas. Também deixou de ser referência em matéria de tipo de notícia. Com isso temos uma virtual existência de dois mundos informativos diferentes, uma espécie de ‘apartheid’ noticioso

Mandela não merecia o show de políticos em busca de holofotes

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

O enterro de Nelson Mandela foi transformado num show cujos objetivos ainda não estão suficientemente claros, mas que mostraram a volúpia dos políticos e meios de comunicação em buscar visibilidade e a conversão de qualquer evento num espetáculo midiático.

A BBC inglesa foi alvo de severas críticas por parte de muitos de seus espectadores por conta da cobertura avassaladora, em que alguns de seus apresentadores tentaram induzir entrevistados a comparar o líder africano a Jesus Cristo. Simon Jenkins, veterano jornalista britânico, engrossou o coro dos críticos à cobertura do velório de Mandela afirmando que o evento foi “sequestrado por governantes estrangeiros e celebridades do showbiz”.

A montagem do espetáculo em torno do fim de vida do homem que os sul-africanos chamam de Madiba (pai) começou bem antes do anúncio de sua morte. Desde o final de 2011, quando a saúde de Mandela passou a dar sinais de debilidade, as principais organizações jornalísticas do mundo deflagraram uma verdadeira guerra em busca de posições privilegiadas no futuro velório.

Foi o início de um vale-tudo em que empresas como a Reuters e a Associated Press brigavam pelo posicionamento de câmeras na frente do líder africano, quase dois anos antes de ele morrer. A obsessão com a audiência atropelou a ética e principalmente o respeito pela imagem de um homem que passou a maior parte de sua vida na clandestinidade e na prisão. Houve até denúncias de espionagem telefônica por parte de redes de TV interessadas no impacto de um furo mundial.

Não há dúvidas que Mandela é um personagem ímpar na política mundial, mas a espetacularização do seu velório contagiou até chefes de Estado que posaram para selfies (autofotografias com telefones celulares) como se fossem tietes num show de rock. O ex-presidente sul-africano é o mais novo personagem a ser transformado pela mídia em ícone da cultura contemporânea, numa estratégia cujo alcance parece ser bem mais amplo do que o mero culto de uma personalidade.

A imprensa montou o cenário do espetáculo para que os protagonistas desenvolvam as piruetas mercadológicas adequadas às suas estratégias políticas e corporativas. A BBC inglesa dedicou mais tempo para registrar a presença de celebridades – como a modelo Naomi Campbell, a atriz Charlize Theron e o cantor Bono Vox – do que aos integrantes da cúpula do governo sul-africano sobre quem recai agora a responsabilidade de gerenciar a memória de Mandela.

Todo esse endeusamento da figura de “Madiba” talvez seja um tardio mea culpa pelo papel desempenhado pela imprensa na cobertura dos dramáticos eventos registrados no início da década de 1980, quando Mandela e seu partido, o Congresso Nacional Africano, eram tão demonizados pelos jornais europeus e norte-americanos quanto Osama Bin Laden o foi mais de duas décadas depois.

Mas é principalmente uma prova de como o sistema midiático mundial está levando a limites inimagináveis a transformação da notícia em espetáculo. As causas e consequências acabam soterradas na avalancha de imagens espetaculares, fotografias inusitadas e personalidades atrás de holofotes. A informação fica soterrada pelo consumo. 

O que ensinar aos novos candidatos ao jornalismo?

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Uma das mais perturbadoras perguntas, das várias que tiram – ou deveriam tirar – o sono dos profissionais e professores é sobre o que transmitir aos milhares de jovens que ingressam em escolas de jornalismo. Parece uma pergunta óbvia, mas quem é do ramo é forçado a admitir que não há respostas prontas, ou as que possui não resolvem o dilema.

O ensino do jornalismo enfrenta os mesmos dilemas das empresas jornalísticas nesta transição de um modelo industrial e analógico para o modelo digital baseado na produção de conhecimento. Ensinar o uso de tecnologias de comunicação e informação ou transmitir aos alunos a preocupação com os novos valores emergentes na era digital no jornalismo? 

Sempre que essa polêmica surge, os resultados são inconclusivos, em parte por conta das divergências entre críticos e defensores da nova ordem na comunicação jornalística, mas, basicamente, porque como ninguém sabe o que vai acontecer com o jornalismo e com a imprensa, também não sabe qual será o perfil futuro do profissional.

O Instituto Poynter, de São Petersburg, Flórida (EUA), lançou no início de dezembro a última fase de uma pesquisa mundial sobre o futuro do ensino do jornalismo, depois de divulgar o relatório Estado do Ensino do Jornalismo - 2013, contendo as conclusões preliminares do estudo. A pesquisa via internet está dirigida basicamente a professores de jornalismo e a profissionais da imprensa, procurando identificar percepções e opiniões sobre o que ensinar para as novas gerações de jornalistas.

O relatório afirma que os administradores e professores em escolas de jornalismo estão sendo atropelados pela rapidez e intensidade das mudanças na área da imprensa e dos meios de comunicação. Afirma também que quem não mudar currículos e estratégias pedagógicas acabará caindo fora do mercado.

O conteúdo básico do documento é a comparação das percepções e posicionamentos de professores e profissionais, apontando a manutenção do fosso entre as opiniões de um lado e outro. Enquanto os educadores apresentam um otimismo moderado em relação às mudanças já realizadas, os profissionais mostram-se extremamente críticos na capacidade de as faculdades acompanharem as mudanças tecnológicas. .

Segundo os autores do relatório, as escolas de jornalismo estão perdendo alunos por conta da percepção de que o diploma ajuda muito pouco na busca de empregos numa indústria em crise. Os dados são mais relacionados ao mercado norte-americano porque a maioria dos participantes na fase inicial da pesquisa mora e trabalha nos Estados Unidos. Mas a tendência vale também para o Brasil, onde a evasão de candidatos ao jornalismo é menos intensa porque muitos interessados ainda acreditam que podem se tornar repórteres, apresentadores ou correspondentes das grandes redes de televisão do país.

Por aqui, as dúvidas sobre o futuro ainda não superam o ceticismo quando se trata de ingresso numa escola de jornalismo. Mas quem tem a responsabilidade de dirigir um curso de graduação não deve estar muito feliz com os prognósticos sombrios no setor.

A questão básica parece ser um impasse. As escolas esperam que as empresas mudem para adaptar seus currículos às possíveis novas oportunidades de emprego. Por seu lado, a indústria do jornalismo critica a lentidão das mudanças acadêmicas mostrando uma aparente segurança de que vai conseguir resolver sozinha os seus problemas e achar um novo modelo de negócios, antes que seja tarde demais.

Um está esperando pelo outro. As escolas, que durante décadas se colocaram na posição de supridoras de mão de obra qualificada para a imprensa, resistem a mudar suas estratégias de ensino porque terão que fazer uma aposta na incerteza. A inevitabilidade da mudança é uma sensação generalizada no ambiente jornalístico, mas o medo de errar continua mais forte do que a busca de alternativas.

Não deveria ser assim, porque afinal as universidades são instituições de pesquisa e não de capacitação de mão de obra. Pesquisa implica experimentação na preocupação de explorar o inédito, o desconhecido e o incerto. Quem teme errar não faz pesquisa. Mas a mentalidade comercial dos cursos de jornalismo levou-os a abandonar a experimentação em favor da reprodução de conteúdos e técnicas.

Evolução constante dos programas e equipamentos usados pelo jornalismo tornou inviável o recurso da repetição de aulas e treinamentos. Quando entra na faculdade o candidato a jornalista se defronta com uma realidade tecnológica e quando sai, quatro anos mais tarde, está tudo diferente. O que ele aprendeu tem pouca utilidade na procura de empregos em empresas que buscam a sobrevivência por meio da inovação tecnológica constante.

Insistir na reprodução de conteúdos pode ser cômodo para o professor, mas é fatal para o curso. As faculdades precisam dar-se conta de que sua continuidade depende do desenvolvimento de uma nova abordagem no ensino do jornalismo. E não podem esperar pela indústria porque esta busca hoje a sua sobrevivência em meio a uma incerteza jamais vista pelas empresas jornalísticas.

E essa nova abordagem está diretamente ligada à preocupação com os novos valores do jornalismo na era digital, uma área onde as faculdades, em teoria, têm muito mais vantagens do que as empresas. 

A polêmica sobre a ‘internet brasileira’

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

O projeto estabelecendo o chamado Marco Civil para a internet no Brasil tem um lado bom e um lado ruim, como quase tudo no mundo atual. O lado bom é que ele está provocando um debate mais do que necessário em se tratando de uma ferramenta de comunicação que tende a mudar a vida de todos nós, como indivíduos e como sociedade. O lado ruim é que os temas em debate são extremamente complexos e na sua esmagadora maioria fora do alcance cognitivo do brasileiro médio.

O debate é necessário porque hoje ninguém mais tem o dom da certeza, especialmente quando se trata de tecnologia, economia política da informação e comportamentos em redes sociais. Em campos como esses, em que a complexidade e a relatividade são parâmetros predominantes, o debate e a troca de opiniões são essenciais para o desenvolvimento de um conhecimento individual e coletivo que servirá de base para decisões de interesse coletivo.

Não há como fugir disso e principalmente da postura não sectária em relação a quem tem opinião oposta, porque a internet é um espaço que recém começou a ser explorado, logo o que desconhecemos supera, por larga margem, o que conhecemos sobre ele. O debate é essencial também porque o Marco Civil vai inevitavelmente entrar na campanha eleitoral de 2014.

O lado ruim é que a amplitude e complexidade do tema internet tendem a transformar o debate numa tertúlia, nem sempre amena, entre especialistas, lobistas e políticos, todos movidos mais por interesses corporativos e partidários do que pela necessidade de buscar soluções para os impasses atuais na internet no Brasil. Para afastar 90% dos brasileiros do debate basta alguns participantes do debate começarem a usar expressões cabalísticas como grandes dados, neutralidade da internet, crowdsourcing, algoritmos etc., etc. No Congresso Nacional seguramente assistiríamos a um festival de incongruências.

O Marco Civil, um conjunto normas ainda não definido integralmente, procura regulamentar o funcionamento da rede de computadores do Oiapoque ao Chui, especialmente no que se refere à privacidade e sigilo de dados dos usuários brasileiros. O tema privacidade ganhou relevância depois da denúncia de espionagem norte-americana nas comunicações virtuais entre brasileiros, incluindo a nossa presidente. 

Se não fossem os documentos secretos divulgados pelo ex-agente da CIA Edward Snowden, provavelmente o debate sobre Marco Civil da Internet estaria focado nos negócios e não na soberania nacional. O problema é que regulamentar a internet, aqui ou em qualquer outro país do mundo, é uma tarefa complicada porque significa aplicar princípios da era industrial a uma realidade digital. Nós não temos ainda nem conhecimento e nem regras minimamente consolidadas e provadas no espaço cibernético para apoiar uma decisão como essa.

A privacidade na internet não existe. Não adianta proibi-la, criar novos softwares, criptografias e outros recursos de segurança, porque cedo ao tarde algum cracker (programador especializado em quebrar códigos de segurança) vai descobrir e divulgar a chave. Teoricamente seria possível criar códigos digitais invulneráveis, mas acontece que ainda não dominamos toda a tecnologia, logo os softwares atuais são inevitavelmente frágeis. Basta perguntar a um programador experiente pelo antivírus perfeito. Ele vai balançar a cabeça e admitir que não existe.

O problema da ausência de privacidade total na internet não está na sua regulamentação, mas em saber conviver com essa nova realidade, o que implica um processo de educação coletiva. Mas os nossos legisladores e lobistas acham que basta criar uma lei para que o problema esteja resolvido. Se isso não funciona na maioria das situações que lidam com problemas tangíveis (concretos), imaginem o que acontecerá quando as questões forem tão intangíveis (imateriais) como bits, bytes, redes neurais, inteligência artificial e conhecimento.

O mesmo acontece com as iniciativas para proteger os dados brasileiros contra invasões cibernéticas estrangeiras. Se os muros físicos não funcionam, que dizer das cercas virtuais. As senhas digitais dificultam, mas não oferecem garantias totais de inviolabilidade dos bancos de dados. Balcanizar a internet (criar redes nacionais autônomas) pode parecer justificável diante de uma invasão do tipo da denunciada por Snowden e despertar compreensivelmente os brios nacionais, mas é inviável em termos da nova economia política da era digital, que começa a ser construída.

Mais uma vez, a questão não se resolve apenas com normas, mas basicamente com o que alguns chamam de cultura digital, um conjunto de novos comportamentos e valores associados à mudança de paradigmas sociais, econômicos e políticos suscitados pela generalização do uso da internet. Pode parecer uma preocupação utópica e idílica, mas não temos outra alternativa se a preocupação for enfrentar o problema da terra de ninguém da internet, onde ele realmente está, e não onde políticos, lobistas e formadores de opinião acham que está.

A realidade da internet nos obriga a buscar soluções que não rendem votos eleitorais. 

Personagem do ano ou escândalo do ano?

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

A revista Time incluiu o site Twitter como um dos canais usados para escolher o personagem do ano, uma tradição mantida há 86 anos, mas, como já aconteceu anteriormente, o voto popular não garante a eleição. Em 2012, o público elegeu o dirigente norte-coreano Kim Jong-un, mas os editores acabaram escolhendo o presidente Barack Obama, que ficou em 18º lugar na consulta popular.

Este ano o ex-analista da CIA Edward Snowden é o favorito nas pesquisas populares para o homem do ano, mas mesmo que ganhe no Twitter sua escolha não é garantida, uma vez que dependerá do crivo político dos editores da Time, uma revista tradicionalmente conservadora.

Independente do resultado, Snowden já tem o seu lugar na galeria dos personagens de 2013 porque mexeu numa abelheira que ninguém antes havia tocado. A divulgação de dados sobre monitoramento de comunicações pessoais na internet provocou um terremoto político ao envolver personalidades como a chanceler alemã Angela Merkel e a presidente Dilma Rousseff.

Mas também abalou o mundo dos negócios porque a garantia de sigilo, um ícone do mundo corporativo, virou fumaça. A denúncia de violação ilegal da privacidade individual e organizacional criou também um fosso entre os sistemas de segurança e o poderoso setor de negócios digitais, em que corporações como Google, Facebook e Yahoo reagiram com irritação porque a “arapongagem” da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (NSA) pôs em xeque sua confiabilidade diante dos milhões de usuários da internet que depositam sua privacidade nos sistemas de correio eletrônico e redes sociais.

Os governantes espionados reagiram indignados alegando violação da soberania nacional, um princípio que já é ficção na internet, mas que continua sendo uma norma importante nas burocracias estatais. Cresceu também a pressão para reduzir a influência norte-americana nos órgãos dirigentes da internet, um movimento polêmico porque abriga também interessados em “balcanizar” a rede mundial de computadores – ou seja, transformá-la numa colcha de retalhos de núcleos autônomos.

Snowden provavelmente nem se deu conta de que ao entregar documentos da CIA ao jornalista Gleen Greenwald estaria deflagrando um tsunami político tão amplo e diversificado. Ele acabou se transformando num personagem incômodo que poucos governos desejam abrigar por medo de retaliações norte-americanas. 

Mesmo que não seja escolhido o homem do ano da Time, Snowden já entrou para os anais como o autor do escândalo do ano. O presidente Barack Obama tenta minimizar as consequências do ato do ex funcionário da CIA para evitar maiores embaraços, até porque a espionagem envolveu principal aliados políticos dos Estados Unidos. Mas o vírus da desconfiança já contaminou a diplomacia mundial e este é um processo irreversível.

A sofisticação dos métodos de espionagem digital revelados por Snowden sepultou o sonho da privacidade ingênua na internet. 

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