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A imprensa e uma população à beira de um ataque de nervos

Postado por: Carlos Castilho | 4 comentários

A sociedade brasileira está ingressando num período tenso, como mostra a repetição de protestos, manifestações, greves, conflitos e vandalismo. Tudo isso ocorre em meio a muita controvérsia sobre as vítimas, responsáveis e beneficiados, o que gera uma desorientação geral e aumenta a complexidade do papel da imprensa nesta conjuntura.

Uma porta enguiçada de vagão de metrô é suficiente para deflagrar uma sucessão de eventos que quase paralisaram a maior metrópole do país. A população cansada e esgotada por tantas dificuldades no seu quotidiano parte para o confronto com a polícia, ataca prédios governamentais e agências bancárias, revelando uma tolerância quase de zero com relação descalabro nos serviços públicos.

A insatisfação generalizada e a desorientação informativa criam o ambiente adequado para agentes infiltrados agirem no meio dos manifestantes provocando situações que depois serão exploradas politicamente, diante de uma população perplexa.

Estamos muito perto de uma situação onde uma pequena faísca pode provocar um grande incêndio ou explosão. As pessoas estão irritadas e com reduzida capacidade de refletir diante de situações obscuras e complexas. O ambiente está propício a ações fruto do impulso, paixão e raiva. Qualquer episódio ganha imediatamente versões antagônicas, o que contribui para aumentar a incerteza e a confusão.

Tudo isso ocorre tendo como pano de fundo as eleições presidenciais deste ano. A campanha eleitoral começou de forma disfarçada, com os partidos de oposição partindo para um perigoso vale-tudo político diante do espectro de mais uma vitória do PT. A população ainda não se deu conta, mas qualquer protesto ou manifestação vira imediatamente uma peça de um jogo político manipulado por partidos que dissimulam suas reais intenções por meio de uma retórica moralista e legalista.

Quando os políticos só pensam em manter empregos por meio de eleições e com uma população à beira de um ataque de nervos, a imprensa passa a ter um papel de importância crítica na busca de uma racionalidade mínima na percepção da crise. Repórteres e editores começam a ter que caminhar sobre ovos porque um pequeno deslize pode acabar provocando um grande conflito com desfecho impossível de ser previsto. Um escorregão editorial pode criar uma situação que seguramente vai exigir arrependimentos futuros, como aconteceu com os jornais e emissoras que apoiaram o golpe de 1964.

É em conjunturas como a que estamos vivendo atualmente que o papel da mídia pode ser avaliado. Se a imprensa levar em conta apenas seus compromissos políticos e interesses financeiros, a população ficará numa situação de orfandade noticiosa e incapacitada para avaliar areal dimensão da crise. Os conglomerados jornalísticos nacionais estarão repetindo os mesmos erros cometidos há cinquenta anos

 

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O jornalismo diante da agenda negativa da imprensa – C.C.

O jornalismo diante da agenda negativa da imprensa

Postado por: Carlos Castilho | 7 comentários

Quem acompanha o noticiário pela televisão, em especial o da TV Globo, certamente já se impressionou com o predomínio de notícias sobre violência, corrupção, tragédias, acidentes, declínio econômico, aumento de preços, congestionamentos e por aí vai. A lista de mazelas públicas e privadas exibida pelo menos quatro vezes ao dia nos telejornais poderia ser ampliada ainda mais dando margem a duas suposições: os editores e repórteres passaram a ver apenas um lado da realidade ou então existe uma predeterminação para que o pessimismo também contamine a população, pelo menos até as eleições.

Meu colega Luciano Martins Costa já abordou a agenda pessimista da imprensa a partir das manchetes dos grandes jornais brasileiros. Suas análises deixam claro que, deliberadamente ou não, existe uma tendência a priorizar o negativo seja por questões políticas ou para explorar o voyeurismo e morbidez para vender jornais. Pretendo ir um pouco além para explorar a atitude de repórteres e editores diante desta tendência.

É claro que a alternativa de só dar notícias boas, como ocorria na imprensa durante o regime militar, é tão equivocada quanto só dar as ruins. Não se trata de fazer uma escolha, mas de ter em mente que a sociedade em que vivemos é complexa, dinâmica e diversificada. Às vezes com um pouco mais de otimismo, noutras de pessimismo. É impossível um equilíbrio estático e não há uma fórmula única para avaliar os dados do dia a dia. O desafio do jornalista é achar a dose certa.

É aí que reside a especificidade da profissão. A principal função do jornalismo é a prestação de serviços de interesse público mediante a produção de notícias capazes de gerar debate e, com isso, ampliar o conhecimento coletivo e individual. O noticiário ocupa neste cenário um papel fundamental, pois é ele que alimenta a reflexão entre as pessoas e, consequentemente, as suas decisões. 

Produzir pessimismo é uma forma de induzir a decisões equivocadas porque todo mundo sabe que o quotidiano é feito de coisas ruins e coisas boas. Logo, a ênfase no negativismo, ou no ufanismo, é um sinônimo de mau jornalismo porque ignora a realidade social e engana o público ao lhe fornecer um quadro distorcido do mundo em que vivemos.

Também não se trata de adotar uma estratégia salomônica: dar uma notícia ruim e outra boa. É uma técnica ultrapassada porque a realidade é dinâmica e não adianta querer transmitir uma ideia de equilíbrio porque a mudança é permanente. Os extremos (pessimismo ou ufanismo) são mais confortáveis porque o jornalista não precisa viver a dúvida permanente se está ou não levando em conta os demais dados da realidade. Mas podem ser um erro fatal se considerarmos a sua credibilidade pública.

Para manter uma sintonia mínima com a dinâmica social, os profissionais da imprensa não têm outra alternativa senão pesquisar, duvidar, conferir e compartilhar dados, informações e conhecimentos. Isso toma tempo, o que gera um conflito inevitável com o ritmo industrial de produção jornalística adotada pelas empresas de comunicação. É aí que possivelmente reside uma das causas da atual distorção do noticiário oferecido ao público.

Uma consequência prática, fácil de perceber entre telespectadores, especialmente nas grandes cidades, é o crescente ceticismo em relação ao noticiário. As pessoas começam a mostrar cansaço em relação à insistência na ênfase negativista. Não há uma rejeição clara dos números, fatos ou eventos transmitidos, o que revelaria uma atitude proativa, mas uma tendência a não levá-los em conta como elemento essencial para a tomada de decisões. As pessoas consultam cada vez mais parentes, amigos e as redes sociais na hora de fazer uma opção.

As pessoas também se queixam que a imprensa costuma omitir nomes e marcas envolvidos em questões polêmicas. A atitude é uma compreensível precaução preventiva de empresas e profissionais contra ações judiciais dos suspeitos, mas o público acaba ficando diante de uma situação difícil: duvidar de tudo ou especular sobre o que não foi revelado. Nem uma nem outra opção atendem às necessidades dos leitores, ouvintes, telespectadores ou internautas.

O resultado é o distanciamento crescente entre as pessoas e a imprensa, que passa a ser vista cada vez mais como uma distração ou voyeurismo social, em vez de ser, prioritariamente, um fator de geração de conhecimento coletivo e individual voltado para a consolidação de relações comunitárias. 

‘Mancheteiros’ e ‘explicadores’

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

Uma nova migração de grandes nomes do jornalismo norte-americano sinaliza uma tendência inovadora, alimentada pela internet, no mercado da notícia. Trata-se de uma segmentação das prioridades editoriais em duas áreas diferentes: a da noticia dura (números, fatos ou eventos), base de manchetes que atraem o público; e a dos “explicadores”, profissionais experientes que acumularam conhecimentos em temas específicos.

Nos últimos meses, pelo menos doze grandes nomes do jornalismo impresso nos Estados Unidos migraram para projetos nascidos na internet, trocando salários altos e estabilidade por risco e liberdade de criação. A troca de emprego pode ter sido determinada por interesses puramente pessoais, mas ela revela uma mudança mais profunda e que altera o panorama da imprensa tradicional pré-internet.

O fenômeno dos “explicadores” resulta da combinação da crescente complexidade dos fatos noticiados em manchetes e com a frustração de profissionais capazes de explicar o contexto ampliado do que anunciamos nos veículos de comunicação jornalística. Perplexo e desorientado pelo bombardeio diário de notícias, o público começa agora a procurar referências capazes de ajudá-lo a entender o caos informativo da era digital.

Trata-se de um novo nicho de mercado surgindo na área jornalística que, curiosamente, está sendo mais explorado por independentes e por empresas de base tecnológica do que pela imprensa convencional. Os explicadores, em sua quase totalidade, foram formados nas redações de grandes jornais, revistas ou emissoras de televisão.

As empresas onde trabalhavam, ou ainda trabalham, bem que tentaram se adaptar aos novos tempos da interatividade e da avalancha informativa, mas a rigidez e a centralização vertical das estruturas corporativas entraram em conflito com o individualismo e com o deslumbramento dos novos profissionais/empreendedores diante das novas tecnologias de comunicação e informação. O resultado foi a migração de nomes como David Pogue, Nate Silver, Andrew Sullivan e agora Ezra Klein para projetos na internet.

O crescimento do setor dos “explicadores” na mídia sinaliza o surgimento de um novo paradigma na imprensa, tanto online como offline. O novo segmento não tem a agilidade, a amplitude e imediatismo informativo das redações voltadas para a cobertura das chamadas notícias duras (hard news). Assim, a tendência é a complementaridade entre “mancheteiros” e “explicadores”, uma divisão de tarefas e responsabilidades em pé de igualdade.

A notícia dura é tão importante quanto a contextualização e a explicação. A notícia dura chama a atenção do público porque altera o universo cognitivo de um indivíduo ao introduzir um número, fato ou evento novo e desconhecido. As alterações do universo cognitivo provocadas pelo noticiário diário geram incertezas ou curiosidade que alimentam a necessidade de contextualização para entender o que está acontecendo.

Até agora, os veículos tradicionais de comunicação jornalística procuraram atender, num único ambiente, tanto a demanda por notícias duras como a busca de explicações. Tudo indica que, agora, o público vai diversificar as suas fontes de informação. O hard news já está onipresente na internet, redes sociais, smartphones, tablets, outdoors, emissoras de rádio e de TV. Contrastando com a concentração da produção de notícias duras em poucos veículos, começa a se esboçar uma pulverização dos “explicadores”, tanto entre jornalistas de grife, famosos por seus conhecimentos e estilo personalizado, como entre os curadores de informações (jornalistas profissionais e praticantes do jornalismo) que recomendam fontes e abordagens para temas específicos.

O projeto Vox Media investe forte na atração de explicadores para seu site afirmando: “Queremos redatores obcecados por sua área de conhecimento, que sejam capazes de noticiar, explicar e também de investigar. Precisamos de hackers [programadores] e outros gênios em processamento de dados que possam explicar as notícias de um jeito melhor do que as palavras. Precisamos de produtores de vídeo que possam fazer animações de dois minutos sintetizando temas complexos. Precisamos de designers que possam construir o primeiro projeto híbrido combinando notícia e enciclopédia” [texto original aqui].

O dilema diário de lidar com notícias e informações

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

Há 17 anos, o Observatório da Imprensa se propôs a oferecer ao público uma nova forma de ler jornais. Na época, foi uma decisão ambiciosa e visionária pois estávamos saindo de duas ditaduras: uma militar e outra da autocensura jornalística. Quase duas décadas depois, o novo jeito de ler jornais tornou-se numa virtual obrigação provocada pela necessidade de separar o joio do trigo no meio da avalancha informativa gerada pela internet.

Leitura crítica, contextualização, curadoria e observação da mídia deixaram de ser acessórios para se transformarem em ferramentas indispensáveis para todos nós, desde os que apenas desejam saber o que está acontecendo até os tomadores de decisões, profissionais liberais, educadores, funcionários e pesquisadores. Os riscos para quem não sabe lidar com a informação variam desde tomar a direção errada no trânsito até prejuízos milionários em projetos equivocados, sem falar no letal assassinato de reputações.

Lidar com a informação tende a se tornar uma disciplina obrigatória em qualquer processo de aprendizagem, pois este significa o contato com o novo e desconhecido, o que implica risco de erro ou fracasso. O que antes era uma recomendação para evitar ser enganado, agora é uma exigência compulsória para quem precisa reduzir ao máximo as consequências de erros por falta de informação adequada.

O tratamento da informação tornou-se uma indústria multibilionária conforme indicam o fenômeno dos Grandes Dados (Big Data) e os investimentos de empresas jornalísticas na digitalização de suas edições passadas. Os megabancos de dados lidam com volumes incomensuráveis de números, fatos, eventos e notícias, que só têm valor se forem filtrados conforme as necessidades e desejos do cliente, que hoje não tem mais tempo organizar informações e muito menos cacife financeiro para bancar decisões desinformadas.

O cidadão comum só agora começa a se dar conta da importância do trato da informação para uso pessoal. Ainda estamos vivemos a era da confiança cega, típica do período pré-internet. Mas os tempos mudaram e não dá mais para confiar numa única fonte de informação, por melhor que ela seja. É impossível saber tudo, logo sempre haverá algo desconhecido, o que nos leva à necessidade de pesquisar, conferir e aprender.

Quem lê jornal ou assiste à televisão, por exemplo, não pode mais tomar uma notícia ou informe de um correspondente no exterior como a materialização da verdade. Por melhor e mais competente que seja o jornalista é humanamente impossível esperar que ele transmita todos os detalhes da crise na Ucrânia ou sobre as razões do aumento da taxa Selic. É pedir demais, mas é justamente isso que a maioria dos leitores de jornais e telespectadores fazem todos os dias ao consumir notícias .

A nova realidade, baseada numa enorme diversidade informativa, mostra que o lógico seria tomar as notícias de jornais, reportagens de revistas e o conteúdo dos telejornais como uma fonte de informações entre várias possíveis e não como a nossa única referência. Parece obvio do ponto de vista teórico, mas na realidade não agimos assim. Na verdade, teríamos que situar os dados, fatos, eventos e notícias lidos, vistos ou ouvidos num contexto mais amplo para verificar sua credibilidade, exatidão, relevância e relação com o nosso quotidiano.

O problema é que isso toma tempo, o que inviabiliza a rotina da verificação para quase todos nós. Restam então duas alternativas: ação coletiva ou assumir a complexidade dos fatos, dados ou eventos. Ação coletiva significa trocar percepções e opiniões com outras pessoas para avaliar dados e informações. Muitas pessoas e empresas já fazem isso diante de situações complicadas. 

Assumir a complexidade da vida moderna significa incorporar na rotina pessoal a consciência de que não temos condições de captar toda a diversidade de percepções da realidade e que, portanto, nossas opiniões e posicionamentos são sempre relativos, ou seja, não somos donos da verdade e por isso não temos condições de impor nada a outras pessoas. As notícias captadas em jornais, revistas e telejornais devem ser avaliadas e comparadas com outras fontes.

Cada vez mais surgem ferramentas para nos ajudar a separar o joio do trigo em matéria de noticiário quotidiano. A maioria delas combina softwares e a ação de indivíduos chamados curadores, ou seja, pessoas que ajudam outras pessoas a fazer a triagem de dados e informações. Outros atuam na base das comunidades de curadoria em que integrantes compartilham notícias e recomendações.

Tudo isso indica que a informação por meio da imprensa tende a ser cada vez mais uma ação coletiva e social em vez de um ato solitário, de uma pessoa. Isto muda muito não só o nosso posicionamento diante da mídia como, principalmente, a forma como ela passará a produzir notícias. 

Um ‘rolezinho’ dos leitores de jornais

Postado por: Carlos Castilho | 3 comentários

Se há um segmento da sociedade brasileira que está precisando tornar visíveis os seus desejos e necessidades, este é o dos consumidores de jornais, revistas, telejornais e páginas noticiosas na web. O mundo mudou e as demandas da população também, mas a imprensa continua agarrada a um modelo que mostra evidentes sinais de desgaste. 

Temos hoje um déficit crescente de dados e informações capazes de dar à sociedade elementos para a tomada de decisões numa conjuntura cada vez mais complexa e interconectada. Opções relativamente simples – como comprar um equipamento doméstico – dependem cada vez mais de dados que permitam a escolha do produto certo, no preço adequado. Um estudo norte-americano mostrou que metade dos consumidores locais compram produtos inadequados por falta de informação.

Se formos estender a demanda de informações para questões mais delicadas como relações humanas, saúde e problemas legais, a carência de dados é ainda mais dramática porque cada caso é especifico de um determinado contexto social e individual.

O problema existe porque a imprensa precisa associar a oferta de conteúdos informativos à venda de publicidade comercial para sobreviver como negócio lucrativo. Nada contra existência de empresas, só que esse modelo de negócios não consegue suprir a demanda por dados e informações ligadas às necessidades da população, sem depender de patrocínios e anúncios.

No caso da polêmica sobre os rolezinhos, a cobertura da imprensa revelou-se deficiente não porque os repórteres e editores sejam despreparados, mas porque a publicidade dos shoppings força as empresas a buscar abordagens que não comprometam receitas futuras. Nessas condições o público fica sem elementos reais para poder posicionar-se diante de uma questão que provocou insegurança na classe média urbana de várias capitais brasileiras.

Estamos diante de uma situação em que os consumidores de informações acabarão sendo levados a promover o seu próprio rolezinho para que as empresas jornalísticas percebam o que a luta por sobrevivência financeira não as permite ver claramente. É a busca de visibilidade dos leitores para a demanda insatisfeita por dados e informações para o dia a dia das pessoas. Dados e informações que permitam às pessoas fazer opções de acordo com suas necessidades e contexto social, em vez de suas escolhas serem condicionadas pela publicidade.

Também nada contra a publicidade, que é necessária e insubstituível. O problema é os publicitários identificarem claramente o que é propaganda visando negócios e a que está voltada para necessidades reais da população. A guerra publicitária das operadoras de telefonia e de televisão é um exemplo de como a confusão proposital de dados e informações transforma uma opção de compra num desafio que pode acabar na escolha inadequada às necessidades do consumidor.

A primeira coisa que a imprensa deveria fazer para atender à insegurança informativa da população é procurar, de forma sistemática e continuada, ensinar as pessoas a lidar com a informação. São raríssimos os indivíduos que tornaram rotineira a checagem de dados e informações de qualquer natureza. Na era da abundância informativa, não dá mais para confiar numa única informação. Lidar com a informação implica uma série de hábitos e valores novos que ainda não foram incorporados ao dia a dia das pessoas. Hábitos tanto na hora de dar uma informação quanto na de usá-la. O problema não está só nos espertalhões ou irresponsáveis, mas na crescente diversificação das percepções de um mesmo problema.

Antes da internet, como havia poucos canais de comunicação, a informação era escassa e geralmente limitada a um número muito reduzido de fontes. Na era digital, tudo isso mudou. Milhões de pessoas passaram a publicar suas percepções e um mesmo fato, dado ou evento passou a ser percebido de forma diferenciada e não necessariamente falsa. É a velha questão do copo meio cheio ou meio vazio reproduzida dezenas ou centenas de vezes para uma mesma situação. Não se trata mais de distinguir apenas entre o certo ou errado, mas principalmente entre o melhor e o pior para uma determinada situação pessoal ou de grupo.

Aprender a lidar com a informação é talvez o nosso grande desafio em tempos de ação coletiva de vários segmentos sociais, todos buscando visibilidade pública num contexto cada vez mais complexo. Os leitores precisam cobrar isso da imprensa. 

Rolezinho, a profecia do presente

Postado por: Carlos Castilho | 3 comentários

Há 18 anos, o sociólogo italiano Alberto Melucci já dizia em seu livro Challenging Codes (Desafiando os Códigos, sem tradução para o português): “Os movimentos sociais contemporâneos são símbolos de mudanças que ainda não aconteceram... eles [os movimentos] falam antes do seu conteúdo, direção e organização serem conhecidos... são profetas de algo que já está acontecendo mas que não conseguimos identificar” (Challeging Codes, Introduction).

As ideias de Melucci, o primeiro grande teórico das ações coletivas na era digital, tornaram-se palpáveis quase duas décadas depois de terem sido publicadas e são uma evidência chocante de como a nossa imprensa e os nossos governantes foram incapazes de “ler” as mudanças em curso na sociedade. Pedir que os políticos leiam Melucci talvez seja demais, levando em conta a dimensão da cultura da maioria deles, mas os formadores de opinião na mídia não podem ficar reféns da agenda imediatista dos governantes.

O fenômeno do “rolezinho”, que tanta celeuma está provocando na imprensa, é algo previsível há tempos por quem observa o surgimento de ações coletivas sem líderes e nem heróis. Há quase 20 anos já está mais ou menos claro, desde a queda do Muro de Berlim, que o divisor de águas deixou de ser polÍtico/partidário para se tornar cultural. Além disso, a era digital acabou com as fronteiras físicas e reduziu as econômicas, pelo menos no segmento urbano. Por isso, quando os jovens da periferia das cidades invadem os shoppings, eles estão simplesmente seguindo a tendência da nova sociedade sem fronteiras, como prega o anúncio da operadora de telefonia celular Tim. Para quem procura entender as mudanças pelas quais estamos passando, o rolé é algo absolutamente natural e até inevitável.

Quem se assusta e alimenta, na imprensa, a teoria do medo, somos nós que não entendemos ou não queremos entender o que está acontecendo entre os jovens, um segmento social que só agora está rompendo fronteiras como as dos shoppings, descritos pela publicidade como templos de consumo. A classe média se apropriou dos shoppings e os transformou em bunkers da sociedade afluente, achando que as fronteiras econômicas e sociais seriam eternas.

Agora os jovens, que já nasceram na era digital, portanto não têm o mesmo respeito por barreiras como a geração anterior, entram nos shoppings não para comprar, mas para compartilhar o templo do consumo, alegando ter os mesmos direitos ao ar condicionado, praça de alimentação, cinemas e lan houses. O imaginário da classe média os associa a vândalos e aciona imediatamente o gatilho da repressão, o que não resolve o problema, mas aumenta ainda mais o desejo adolescente de derrubar fronteiras.

A imprensa está perdida no meio da polêmica, que na verdade tem um lado só: o da classe média, porque os adeptos do rolezinho não estão nem aí. O território deles é o das redes sociais e da internet. Como a maioria das pessoas que compram e leem os jornais e revistas é da classe média assustada, é inevitável que a mídia se preocupe mais com este segmento social, mas isso leva ao beco sem saída de olhar para trás, ignorando as profecias do presente.

Se a imprensa estivesse consciente de seu papel, ela estaria hoje tentando ajudar seus leitores, ouvintes e telespectadores a entender o que está acontecendo não com base na intensificação do medo e consequentemente da repressão, mas na análise das consequências das mudanças sociais geradas pela era digital. É urgente que a mídia perceba que estamos no meio de uma transição de modelos tão radical quanto a que ocorreu após a invenção da imprensa, seis séculos atrás. Adaptando o famoso bordão da campanha presidencial de Bill Clinton nos Estados Unidos, em 1992, (“It’s the economy, stupid”) para os tempos de rolezinho, teríamos: “É a história, estúpidos”.

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