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Venda de jornais indica mudança de prioridades na imprensa

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

A sucessão de vendas de grandes jornais norte-americanos comprova uma mudança de objetivos e métodos que é muito mais relevante do que a troca de comando e de estratégias empresariais. Não se trata apenas da constatação de que terminou o período de vacas gordas na indústria de imprimir notícias, mas da consolidação dos indícios de que a sobrevivência da imprensa depende mais da sua relação com o público do que com os anunciantes e investidores.

Até agora o jornalismo produzia notícias para uma indústria que as transformava em produto comercializável. No fundo, os profissionais produziam para seu patrão, mas agora o objetivo passou a ser pessoas ou grupos de pessoas. Antes, a notícia produzida por jornalistas era valorizada pela sua capacidade de atrair anunciantes. Agora, ela passa a ser avaliada pela criação de comunidades sociais integradas e produtivas.

Antes a notícia estava vinculada à produção de capital financeiro por meio de taxas de lucros que beiravam os 25%, algo considerado anormal até no mundo dos negócios. Depois das TICs, o objetivo passa a ser a geração de capital social, por meio do qual as comunidades sociais garantem a sua sustentabilidade econômica.

É nessa mudança de foco que podemos entender por que empresários bem sucedidos, que não têm nada de burros, abrem mão de negócios que não faz muito tempo eram considerados verdadeiras minas de ouro. Os executivos da imprensa perderam as esperanças de voltar à bonança do final do século passado ao verificar que o interesse público passou a ser predominante na atividade jornalística.

No contexto digital, o jornalismo reencontra seu velho discurso sobre a função social da profissão, diante do acúmulo de fatos e dados que apontam o papel da notícia e da informação com fatores obrigatórios, embora não únicos, na produção de conhecimento coletivo – que os economistas e sociólogos chamam de capital social. 

É essencial entender esse processo para que não fique a impressão de que os jornalistas e a produção de jornais (impressos ou digitais) estão em vias de extinção inexorável. Pelo contrário, o jornalismo assume hoje uma importância que a produção industrial de notícias não permitia vislumbrar.

O raciocínio é simples. A notícia, como um tipo especial de informação caracterizado pelo ineditismo, relevância, credibilidade e pertinência, é parte essencial no sistema de produção de conhecimento, sem o qual é impossível alimentar o processo de geração de inovações, que por sua vez é a base da dinâmica da economia digital.

Até agora a produção industrial de notícias era um negócio vinculado à luta pelo poder político e econômico. Era um apêndice da estrutura básica da economia mundial. Agora, o jornalismo assume um papel muito mais importante e central porque se vincula ao processo de inovação social e econômica por meio da notícia e da informação.

O profissional do jornalismo passa a ser avaliado não mais por suas habilidades na escrita e na investigação, mas também pelo seu engajamento junto às comunidades e grupos sociais. É o que afirma Jeff Jarvis, professor e consultor norte-americano em novas mídias, para quem a sobrevivência do jornalismo depende de sua vinculação às necessidades informativas das comunidades e organizações sociais.

Essa mudança de foco levou ao surgimento de novas plataformas de publicação e produção de notícias, como é o caso do Facebook, Twitter, Linkedin, Youtube, Podcasts, RSS, Google, Amazon,blogs, webrádio, softwares para análise de bancos de dados, curadoria de notícias e os programas para edição na “nuvem” (programas residentes na internet). Esses e dezenas de outros novos softwares que pipocam a todo instante na internet são as novas ferramentas do jornalismo.

É toda uma nova linha de produção de equipamentos que substitui as gráficas e sistemas de distribuição de jornais impressos. É um novo jornalismo que está surgindo e cujas dores do parto ainda são intensas, mas assustam bem menos que antes.

Ninja, um novo modelo de jornalismo

Postado por: Carlos Castilho | 3 comentários

A mesmice da imprensa convencional no Brasil começa a ser sacudida pelo fenômeno Ninja, sigla de Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação (no imaginário popular, está associada aos invencíveis guerreiros nipônicos), que pode sinalizar novos rumos para o debate sobre o futuro do jornalismo no país. Isso ficou bastante claro após o programa Roda Viva(5/8), quando dois fundadores do grupo foram intensamente questionados por alguns dos mais experientes jornalistas da imprensa convencional.

As respostas de Bruno Torturra e Pablo Capilé, durante o programa, e as declarações dadas à BBC, dois dias antes, mostraram que os ninjas, como foram batizados os integrantes do grupo Mídia Ninja, partem de uma mudança radical no conceito de notícia, o que altera a forma de praticar o jornalismo e se reflete diretamente no modelo de sustentabilidade do projeto.

A proposta é muito mais consistente do que estava sendo divulgado, justamente porque até agora a abordagem do fenômeno Ninja passava pelo filtro da mídia convencional, que tendia a mostrá-los como um modismo. No Roda Viva, deu para perceber que, para os ninjas, a notícia não é uma mercadoria, com valor de troca. Depois da internet e do surgimento do fenômeno da massa de mídias (o oposto do conceito de mídia de massa), o valor de uso da notícia se tornou muito mais importante do que sua capacidade de ser monetizada. [O conceito de massa de mídias reflete a variedade e quantidade de plataformas e de conteúdos disponibilizados pela internet por meio da avalancha informativa. A ideia de mídias de massa reflete a preocupação de cada veículo de comunicação atingir a maior audiência possível.]

A fluidez da notícia no ambiente digital caracterizado pela interatividade e recombinação num ambiente de abundância informativa faz com que o seu valor de uso também se torne altamente mutável. A notícia que é importante para mim agora, pode não ser daqui a alguns minutos, quando outra notícia passa a me interessar mais, ou seja, ter mais valor de uso.

Ao ganhar valor de uso, a notícia dá origem a dois outros processos: a colaboração e o escambo. A colaboração é a troca do conteúdo da notícia, onde ela ganha mais valor ou relevância na medida que incorporar mais elementos como causas, consequências, beneficiados e prejudicados. Esses elementos permitem ampliar o interesse direto de uma notícia para pessoas e comunidades, bem como consolidam a sua credibilidade.

A necessidade da colaboração cria as condições para um jornalismo não competitivo e não exclusivista, voltado mais para a produção de conhecimento numa forma estruturada do que para a produção industrial de uma commodity com valor comercial. A colaboração ainda é vista por muita gente como algo teórico, fruto da imaginação vanguardista de alguns gurus da era digital. Mas os ninjas estão mostrando que a nova lógica da notícia com valor de uso também funciona na prática.

A parte mais controvertida do projeto Ninja não é se eles são a favor ou contra o vandalismo em protestos de rua e nem se são uma linha auxiliar do PT, mas o seu modelo de sustentabilidade. O vandalismo e a partidarização do movimento são quase uma obsessão para os jornalões e para a TV Globo, ainda profundamente impregnados pela dicotomia clássica que organiza o mundo apenas pela forma simplista do a favor ou contra, do bem contra o mal, do legal contra o ilegal, quando todo mundo sabe que a realidade se mostra cada vez mais complexa.

Vários entrevistadores tentaram encurralar os entrevistados dentro da lógica do a favor ou contra, mas Torturra e Capilé foram rápidos no gatilho e desmontaram a falsa isenção da mídia convencional ao comentar o contraste entre classificar como quadrilha os envolvidos no escândalo mensalão e de cartel, os acusados de fraudar concorrências na construção do metrô de São Paulo. A roubalheira foi igual, a diferença de termos ficou por conta dos vínculos partidários dos acusados.

O modelo de sustentabilidade do movimento Ninjase apoia nos coletivos cuja existência se baseia na troca de bens e serviços como forma de organizar a sobrevivência do projeto. É claro que ele também precisa de dinheiro porque não vivemos numa sociedade socializada – e o X da questão está justamente em como conciliar estas duas lógicas: a do dinheiro (associado ao valor de troca) com a do escambo/colaboração (associada ao valor de uso). No programa Roda Viva, Pablo Capilé tentou explicar o modelo mas não foi feliz. O tempo era curto demais para sintetizar ideias e propostas que são complexas porque não estão baseadas em modelos prontos.

Mas talvez nesse ponto esteja a principal contribuição que os ninjas podem dar para o debate sobre o futuro do jornalismo, porque a sustentabilidade é o grande dilema da profissão. O modelo convencional de negócios não pode funcionar mais porque está baseado na notícia com valor de troca, algo que está desaparecendo rapidamente como padrão hegemônico. A notícia como valor de troca precisa permanecer estática durante um tempo mínimo para ser comercializada com ganho para quem a produz, coisa que se tornou inviável no ritmo frenético da internet.

Na busca da sustentabilidade no jornalismo, os ninjas ainda vão ter que queimar muitos neurônios, bem como suportar muitos retrocessos nesse esforço. Mas eles estão fazendo muito mais pelo futuro da profissão do que a mídia convencional, ainda paralisada pela obsessão em obstruir a continuidade do PT no Palácio do Planalto.

Sobre desabafos e o jornalismo do ‘faz de conta’

Postado por: Carlos Castilho | 6 comentários

Está circulando na internet um vídeo com uma entrevista do jornalista Ricardo Boechat na qual ele faz um desabafo, sem papas na língua, que bem poderia ser uma espécie de manifesto contra o jornalismo “faz de conta” que nos é servido diariamente pela maioria dos jornais, revistas e emissoras de rádio ou televisão do país. 

“Faz de conta” porque tem muito pouca coisa a ver com a realidade e procura nos passar a imagem de que se trata de informação isenta e objetiva. Não sei se a minha experiência pode ser generalizada, mas a cada dia que passa encontro mais pessoas que deixaram de ler jornais, viram a cara para as capas de revistas semanais e evitam os telejornais tentando evitar acessos de irritabilidade.

É muito preocupante ver como as pessoas estão se afastando da imprensa depois de terem sido contaminadas pelo vírus da dúvida sobre a fidedignidade e isenção das notícias publicadas nos principais veículos de comunicação jornalística do país. Mais preocupante ainda é perceber que ainda é grande o número de profissionais que não se deram conta do papel que lhes está sendo imposto pelas empresas jornalísticas.

Boechat, no auge de seu desabafo, diz que mudou sua maneira de ver a ética pública depois de constatar que as redações checam a credibilidade de declarações de cidadãos comuns, mas aceitam sem restrições afirmações de políticos que, segundo o âncora do Jornal da Band, são quase sempre mentirosas porque defendem algum interesse oculto.

A docilidade com que a imprensa aceita o jogo dos participantes do poder político no Brasil é provavelmente a maior responsável pelo desencanto da opinião pública não só em relação aos jornais, mas em relação a quase tudo o que tem a ver com governos.

O jornalismo que nos é oferecido diariamente ganha cada vez mais ares de um grande “faz de conta” em que a imprensa “faz de conta que informa” e nós, o público, “fazemos de conta” que acreditamos no que nos é passado como verdade. É cada vez maior o número de leitores e telespectadores que se preocupam mais em tentar captar o que está nas entrelinhas do que aquilo que é impresso ou dito por jornalistas profissionais.

É claro que a complexidade dos fatos, dados e eventos dificulta enormemente o desafio de informar o público, nos tempos pós-avalancha informativa. Há dezenas de percepções, posicionamentos, vieses e interesses embutidos até mesmo nas notícias mais corriqueiras. São poucos os leitores e telespectadores cientes desta dificuldade. A grande massa do público culpa os jornalistas pelo “faz de conta”.

Mas em nome da preservação do emprego e do status social, a atitude mais comum nas redações é também fazer de conta, agarrando-se ao discurso corporativo que associa críticas e agressividade contra jornalistas à ameaças contra a liberdade de imprensa. Na verdade, muitas pessoas querem dizer apenas que não aguentam mais o jornalismo “faz de conta”.

A saturação com a hipocrisia está dando origem a uma onda de desabafos de todo o tipo de pessoas. Parece que nossa quota de tolerância chegou ao limite, como mostram as explosões de descontentamento popular materializadas nos protestos de rua desde junho. A sobrevivência de Ricardo Boechat na bancada do Jornal da Band ainda é uma incógnita porque o desabafo de seu principal âncora coloca TV Bandeirantes num dilema: se tolera as duras afirmações do jornalista, coloca-se em rota de colisão com o establishment politico de Brasília; mas, se afastar Boechat do seu posto, passa um recibo de autenticidade para tudo aquilo que ele botou na boca do trombone.

O cerco informativo ao governo Dilma

Postado por: Carlos Castilho | 2 comentários

O governo federal está encurralado no cenário político nacional em matéria de estratégias de comunicação e informação, numa situação que pode ter reflexos diretos na campanha eleitoral para as eleições presidenciais de 2014.

A imagem pública da presidente Dilma Rousseff foi desconstruída ao longo de um processo em que a imprensa teve um papel relevante, e que começou já há bastante tempo. Trata-se de um processo onde a construção ou desconstrução da forma como o público vê um político tem mais a ver com percepções do que com evidências. É como no famoso dito de que, em política, as versões são mais importantes do que os fatos.

Dilma hoje está sendo julgada mais pela imagem que a imprensa, a oposição partidária e os desafetos presidenciais no Poder Judiciário construíram em torno da presidente do que pelos feitos de seu governo. Entre a imagem e os feitos há uma considerável diferença – e os eventuais benefícios factuais capazes de ser capitalizados por Dilma estão sendo pulverizados pelos efeitos devastadores do encurralamento comunicacional e informativo.

O governo federal está claramente na defensiva porque a estratégia comunicacional dos adversários de Dilma logrou associar sua gestão à incerteza econômica ao supervalorizar processos como a inflação, queda do PIB, declínio da atividade econômica e redução do superávit na balança comercial. São todos fenômenos muito condicionados pela situação econômica internacional, mas foram apresentados como exclusivamente domésticos para associá-los a uma imagem de má gestão.

A onda de protestos de rua, em junho, confundiu o panorama político e ameaçou tirar Dilma do clinch político-partidário. [Clinch é o jargão usado no boxe para definir uma situação em que um lutador se abraça ao adversário para impedi-lo de continuar atacando.] Ela até que tentou retomar a iniciativa com a proposta de plebiscito, da reforma política, aumento das verbas para a educação e o envio de médicos para o interior. Mas faltou ousadia para romper com o fantasma da governabilidade. Para concretizar a sua estratégia destinada a encampar o clamor das ruas, a presidente tentou ganhar apoio parlamentar – e foi aí que ela se perdeu.

Negociar com políticos e candidatos em véspera de eleições é a forma mais segura de emascular uma proposta política que altere o status quo, especialmente quando se trata de acabar com privilégios e aberrações da atividade parlamentar. Surgiu uma aliança informal entre políticos e magistrados do Supremo Tribunal Federal com o apoio corporativista dos médicos que transformou em fumaça o projeto emergencial do governo.

Para romper o cerco, a presidente tem as redes sociais na internet como provavelmente a única alternativa para desenvolver uma nova estratégia de comunicação política. Mas essa opção exige uma considerável ousadia porque implica meter-se num ambiente informativo com regras e procedimentos bem diferentes dos usados habitualmente pelos altos escalões do governo.

Uma aposta nas redes sociais virtuais permitiria ao governo prescindir da imprensa como mediadora na relação com os cidadãos. Mas para tentar essa estratégia, a presidente teria que abrir mão da busca da tal governabilidade e da barganha de ministérios com partidos políticos. Poderia governar como pediam os participantes dos protestos de rua, em junho. Seria uma jogada de altíssimo risco.

Os desafetos da presidente não têm muita intimidade com o uso dos mecanismos digitais. Deputados federais, senadores, magistrados e até mesmo a imprensa preferem os métodos tradicionais de comunicação, embora eles se distanciem cada vez mais das ferramentas virtuais adotadas pelos jovens que saíram às ruas para exigir um país diferente.

Os riscos da opção estratégica pelas redes sociais são consideráveis. Primeiro, porque o governo teria que conviver com um forte criticismo de um segmento importante da blogosfera. A internet é muito mais transparente que a imprensa convencional e isso faz com que o debate político siga caminhos bem diferentes dos usuais. A convivência com xingamentos e acusações passa a ser uma necessidade porque o objetivo é o conjunto das opiniões e não a de um indivíduo isolado.

Nem pensar em controlar os comentários porque isso seria imediatamente associado à censura, o que anula qualquer eventual efeito positivo da presença online do governo federal. Além disso, uma estratégia online do Planalto exigiria uma profunda reciclagem comunicacional da cúpula do governo, que é tão conservadora em relação à internet quanto a oposição.

A aposta é arriscadíssima, mas a presidente está na posição de se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

Jornalismo de dados cria primeiro repórter milionário

Postado por: Carlos Castilho | 0 comentários

O repórter Nate Silver acaba de deixar o seu próspero emprego no jornal The New York Times para aceitar uma remuneração milionária na rede de TV ESPN, na primeira grande contratação registrada na imprensa mundial envolvendo um profissional especializado em jornalismo de dados (Big Data Journalism).

Nate Silver ganhou visibilidade mundial ao fazer previsões sobre os resultados das eleições presidenciais norte-americanas de 2012 com uma precisão que surpreendeu até mesmo os especialistas em sondagens de opinião pública. O segredo do agora ex-repórter do The New York Times é sua habilidade em trabalhar com grandes volumes de dados usando a matemática, estatística e os cálculos probabilísticos.

A teoria dos Grandes Dados (Big Data) já é amplamente conhecida e usada nos meios científicos, corporativos e esportivos, mas nenhum repórter a havia aplicado antes em coberturas jornalísticas. Nate Silver criou uma espécie de franquia pessoal que agora foi cedida à rede ESPN, onde ele vai prever possíveis resultados esportivos usando ferramentas matemáticas e estatísticas.

O uso inovador da estatística no esporte vem desde 2002, quando o gerente de um clube decadente de beisebol na cidade de Oakland, na Califórnia, contratou um jovem matemático para melhorar performance do time. Usando centenas de medições da performance física e técnica de jogadores inexpressivos, o gerente e seu assessor conseguiram transformar atletas medíocres em estrelas do esporte aproveitando habilidades desconhecidas até mesmo pelos próprios atletas.

O time de Oakland surpreendeu o mundo esportivo norte-americano com uma série de 20 vitórias consecutivas sobre adversários muito superiores tecnicamente. O caso virou um livro e um filme de sucesso, ambos intitulados Moneyball.

Curiosamente, a troca de empregos por Nate Silver foi mais discutida na imprensa norte-americana por conta de uma suposta dívida moral do repórter em relação ao Times e menos pelo seu real significado, a valorização dos profissionais que sabem trabalhar com bancos de dados e com cálculos probabilísticos.

O caso Silver é paradigmático na transição de modelos de negócios em curso na imprensa mundial porque comprova duas tendências em ascensão e que seguramente afetarão as expectativas dos novos profissionais: a relevância crescente com o jornalismo de dados e o êxito de franquias jornalísticas apoiadas na especialização e credibilidade de seus responsáveis.

O jornalismo de dados é uma especialidade que exige uma grande intimidade no desenvolvimento e uso de bancos de dados por jornalistas. É o tipo de profissional que não se enquadra no modelo tradicional de repórter que gasta sola de sapato para investigar uma suspeita. O jornalista de dados não sai da frente de um computador, maneja grandes volumes de dados e sabe como produzir correlações entre tendências reveladas pelos números.

Foi com base nessas correlações que Silver conseguiu prever resultados de eleições nacionais nos Estados Unidos com um grau de precisão muito superior ao de institutos de pesquisa com décadas de experiência em sondagens de opinião pública.

A ida de Nate Silver para a ESPN foi também importante pelo fato de consolidar a tendência dos profissionais altamente especializados em alguma área da informação de criar franquias pessoais para administrar a “marca” do seu nome.

Jay Rosen, professor de jornalismo da Universidade de Nova York, afirmou em seu blog que possivelmente estamos assistindo ao início da substituição do trabalho assalariado no jornalismo pela contratação de franquias jornalísticas, ou seja, a transformação de repórteres, comentaristas e editores de pessoa física em pessoa jurídica.

Até agora ser pessoa jurídica era um recurso contábil para reduzir o pagamento de impostos, mas tudo indica que, daqui por diante, o status de franquia tenderá a ser uma marca registrada do jornalista digital. A franquia passa a ser a marca da confiabilidade na informação produzida pelo jornalista.

Não chega a ser uma revolução no jornalismo contemporâneo porque muitos profissionais bem sucedidos já se transformaram em grifes, na era do papel. A novidade é o fato do mesmo recurso começar a gerar receitas em ambiente virtual, onde a sustentabilidade financeira de iniciativas jornalísticas, tanto individuais como coletivas, ainda é uma grande incógnita.

Qual a função do jornalismo em momentos de crise?

Postado por: Carlos Castilho | 1 comentários

A resposta parece óbvia, mas não é. Os manuais de redação ensinam que a função do jornalista é manter o público informado para que ele possa tomar decisões. Num momento de crise, esta recomendação seria ainda mais importante porque a instabilidade da conjuntura torna difícil distinguir a informação dos boatos, o que aumenta a dificuldade das pessoas em formar opiniões.

Mas não é bem isto o que acontece. Em situação de crise, ou ameaça de crise, as redações acabam sendo levadas a assumir as mesmas posições das empresas para as quais trabalham e que, geralmente, colocam como prioridade principal os seus interesses corporativos, familiares, políticos ou ideológicos, às vezes tudo isto junto.

Os leitores e telespectadores estão acostumados a este tipo de situação porque já identificam em cada empresa jornalística um núcleo de interesses que nem sempre coincide com os seus. Os jornalistas sofrem o impacto de uma situação que, do ponto de vista profissional, é extremamente atrativa porque uma crise envolve momentos de tensão, mas, por outro lado, obriga o profissional a por em segundo plano o seu verdadeiro papel, na hora em que ele é mais relevante.

Estamos vivendo momentos que antecedem uma crise política e econômica cujos contornos reais ainda são impossíveis definir, mas que certamente estão relacionados ao processo eleitoral do ano que vem. Nesta conjuntura a imprensa joga um papel fundamental porque é ela que está determinando sobre o que as pessoas discutem. A imprensa não está impondo opiniões e nem posicionamentos políticos, mas está, claramente, “arrumando o campo” para a campanha eleitoral.

Meu colega Luciano Martins já identificou claramente como o processo está se desenvolvendo, qual a estratégia dos políticos, e mostrou o malabarismo informativo das empresas jornalísticas. Mas jornalismo e empresas jornalísticas não são a mesma coisa, o que levanta a questão do papel dos profissionais do jornalismo nesta conjuntura. 

Nada contra que as empresas tenham os seus interesses e os seus candidatos, mas informação é outra coisa e tem a ver com o direito das pessoas saberem o que está acontecendo da forma mais isenta e verídica possível. Uma empresa está movida por uma lógica de negócios, portanto é compreensível que ela deixe de divulgar determinados fatos que a prejudicam desde que não impeça as concorrentes de fazê-lo.

Os empresários e negociantes entendem esta lógica. Quando você vai vender um carro usado não vai logo contando todos os defeitos e problemas. Mas, para o comprador, o essencial é justamente aquilo que não foi revelado. O mesmo acontece com os leitores, ouvintes e telespectadores, quando procuram saber o que está por trás da notícia e quais são os interesses embutidos nela.  

Como os executivos de empresas jornalísticas misturaram deliberadamente interesses corporativos e o exercício do jornalismo, o público agora confunde uma coisa com outra, criticando as empresas por aquilo que seus jornalistas escrevem ou dizem. Para bem de um e de outro, é necessário separar as coisas e deixá-las bem claro, a começar pelo papel do jornalismo em tempos de crise.

Se as empresas pretendem resguardar sua credibilidade perante leitores, ouvintes, telespectadores e internautas, elas precisam deixar de agir como vendedoras de carros usados, ao ocultar do leitor os reais motivos de estratégias editoriais vinculadas a objetivos político-eleitoreiros. 

E os profissionais das redações devem conquistar a autonomia necessária para destrinchar o complicado quebra-cabeça pré-eleitoral para que o público possa entender minimamente o tiroteio noticioso a que está sujeito em questões como inflação, plebiscito, médicos, violência urbana, só para citar os mais frequentes e atuais.

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