Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

CADERNO DA CIDADANIA > ‘OI’ NA TV => ‘CHUMBO QUENTE’

1964 e os equívocos da imprensa

Por Alberto Dines em 28/01/2015 na edição 835

Editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 766, exibido em 20/1/2015; terceira parte da série “Chumbo Quente – 50 Anos do Golpe”

O apoio ao golpe militar de 1964 foi um terrível equívoco pelo qual algumas empresas jornalísticas se penitenciaram, nem todas, mas a ditadura encubada no golpe, estendida por duas décadas, não mereceu a mesma revisão. Enquanto uma geração era sufocada pelo arbítrio, outras cresceram deformadas pela mentira. A imprensa, cuja principal missão é buscar a verdade e investigar, deixou-se enganar e gostou de ser enganada: a prova está na longevidade de um grupo de figuras que ganharam os holofotes porque a luz era pouca e estava controlada.

A sucessão de crimes cometidos para sustentar e depois acobertar a ilegalidade de 64 criou um sistema criminoso cujo o principal objetivo passou a ser a sua própria continuidade. O que era um meio tornou-se fim. Quando os órgãos da repressão perceberam que já não havia o que reprimir, e que a ditadura estava com os dias contados, passou a inventar pretextos para sobreviver e se perpetuar. No desespero ainda foram mais cruéis.

Neste terceiro episódio da série “Chumbo Quente” o Observatório da Imprensa mostra as terríveis transformações que podem ocorrer numa sociedade quando impera a fraude ou a omissão.

Imprensa despreparada

O último ato da oposição unida foi a formidável campanha das diretas. Derrotada a proposta no Congresso, a estratégia da ditadura priorizou a fragmentação da oposição. Dividida, agindo em diferentes direções – e, às vezes, até opostas –, a redemocratização perdeu ímpeto, substância e coerência. A reboque de interesses segmentados, enquanto o conjunto militar mantinha-se absolutamente coeso.

No caso da imprensa, ficou claro o seu despreparo enquanto instituição para o pleno restabelecimento do Estado de Direito. Acabar com a excrecência da censura foi importante, importantíssimo, mas insuficiente para garantir a fluidez, autonomia, e o pluralismo do fluxo informativo. Os diferentes grupos jornalísticos apostavam apenas nos seus planos empresariais. Abriram mão do projeto de uma sociedade aberta, diversificada e inovadora.

Queriam a restituição dos seus poderes, que perderam por vontade própria, mas não pensavam em construir o quarto poder.

Chumbo quente quando esfria se espalha, e removido se entranha. 

 

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