Sábado, 25 de Abril de 2015
ISSN 1519-7670 - Ano 18 - nº 847

CADERNO DA CIDADANIA > CONFISSÕES DE XUXA

No reino do abuso infantil

Por Gabriel Priolli em 29/05/2012 na edição 696

O depoimento de Xuxa Meneghel ao Fantástico não perde interesse, mais de uma semana depois de sua transmissão, o que é indicador seguro, senão de sua relevância, do impacto que provocou. Vai se formando maioria sobre a importância de uma grande celebridade revelar, em público, que sofreu abusos sexuais na infância. Entende-se que isso chama atenção para um problema gravíssimo e favorece seu enfrentamento, o que é confirmado pela explosão de denúncias em todo o país, desde o domingo retrasado.

Muita gente, entretanto, segue condenando Xuxa por praticar quase o mesmo crime de que foi vítima. Acusam-na de fomentar a sexualização precoce e a compulsão consumista de milhões de crianças, ao longo dos 30 anos em que está no ar. E recusam-se a reconhecer a sinceridade do depoimento ao Fantástico, porque a apresentadora falou de quase tudo, mas não desse aspecto sabidamente controverso de sua carreira.

Talvez Xuxa não tenha falado porque não lhe perguntaram. Ela foi entrevistada, convém não esquecer. Nessa modalidade jornalística, alguém pergunta e o outro responde. Não é comum o entrevistado pedir ao entrevistador para comentar algo que está fora da pauta, que não lhe foi proposto. Acontece, em geral, quando o tema adicional está nas preocupações imediatas da pessoa, é algo que a aflige na hora da entrevista e ela julga indispensável acrescentar.

Mimetização sexual

Se o humorista Claudio Manoel, o responsável pelo trabalho, fez ou não a pergunta, é ocioso saber. Mesmo que tenha feito, não teria como incluí-la na edição final. Contratado da Globo, não poderia submeter a emissora ao constrangimento de uma resposta incriminadora. Xuxa poderia admitir que sim, é a rainha da perversão dos baixinhos, mas que foi entronizada nesse papel pela televisão e nunca pôde experimentar um estilo diferente, porque o sucesso a impediu. E esta seria uma confissão intolerável. O silêncio sobre as suas próprias mazelas é um limite claro que qualquer veículo impõe à liberdade de expressão, quando se trata de nele gozá-la. Discute-se na mídia o possível, bem menos que o desejável.

É compreensível que Xuxa, como símbolo, seja o primeiro alvo da crítica – procedente – à sexualização precoce e ao consumismo incentivados pela TV. De fato, Xuxa encarnou a primeira apresentadora infantil que não foi a fadinha boa, ou a tiazona da garotada, tipos assexuados. Mas esse personagem televisivo só foi possível, em veículo de conteúdo tão controlado como é a TV, por uma conjunção de fatores mercadológicos e sociais, e por decisão de cúpula empresarial, da qual Xuxa certamente não participou. Não foi ela, de certa forma, que criou o próprio personagem. Foi ela quem o interpretou.

Xuxa sexualizou a criançada no momento em que foi importante, para a maximização do lucro na operação televisiva, renovar a programação infantil. O mercado crescente de produtos para esse público, no início dos anos 1980, exigia um novo comportamento das crianças, uma nova autoridade delas sobre os pais, para forçar a expansão do consumo e o giro da roda publicitária. Foi essa a força que criou Xuxa e empurrou os limites da moral pública, redefinindo o comportamento aceitável para as apresentadoras infantis.

Xuxa foi o veículo, o canal dessa mudança cultural, forçada por razões econômicas. Assim como Carla Perez, posteriormente, ampliou a coisa, ao dançar na boquinha da garrafa e levar meninas pequenas ao mesmo, sem perceber a mimetização sexual contida no gesto. Aconteceu na eclosão da “axé music”, um sopro de renovação para o mercado fonográfico já em crise. Vendesse disco, que importavam garrafas?

Outro depoimento

Muito bem, mas tudo isso é argumento para livrar a cara da Xuxa? Não, porque as pessoas não se livram de sua história e das responsabilidades que ela implica. É apenas uma tentativa de entendê-la e ao fenômeno que a gerou. Se todos somos produto das circunstâncias, muito mais do que da autodeterminação, com Xuxa não haveria de ser diferente. Há uma responsabilidade múltipla na trajetória da menina que desabrochou precocemente em mulher, foi abusada na infância por causa disso, pelo corpo converteu-se em esteio da família, e com o apelo dele galgou as escadas da vida.

Mas não seria importante que Xuxa admitisse a responsabilidade da TV e dela mesma na sexualização precoce, e pusesse o tema em debate? Sim, claro. Ajudaria tanto quanto combater a pedofilia, meta pela qual se bate. Só que isso dificilmente aconteceria em entrevista na televisão comercial, sobretudo no canal em que ela estivesse empregada. Não é mídia disposta à reflexão e sim à diversão. No máximo, a alguma – e controlada – informação. Autocrítica não está incluída.

A improvável análise da Xuxa sobre TV e sexualidade infantil só poderia ocorrer em outro foro, outra mídia. Mas esperemos que venha. Tomara que a repercussão da entrevista e a atualização da crítica de predação infantil, a única de fato pertinente que se pode levantar contra a apresentadora, façam-na refletir e permitam também este seu outro depoimento, em alguma oportunidade. Ele ajudará milhões de adultos, ontem crianças “abusadas” pela TV, a entenderem melhor a si mesmos e ao mundo complexo em que vivem.

***

[Gabriel Priolli, jornalista e produtor de televisão, é presidente de honra da Associação Brasileira de Televisão Universitária e diretor de conteúdo da Fabrika Filmes]

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No reino do abuso infantil

Por Gabriel Priolli em 29/05/2012 na edição 696

O depoimento de Xuxa Meneghel ao Fantástico não perde interesse, mais de uma semana depois de sua transmissão, o que é indicador seguro, senão de sua relevância, do impacto que provocou. Vai se formando maioria sobre a importância de uma grande celebridade revelar, em público, que sofreu abusos sexuais na infância. Entende-se que isso chama atenção para um problema gravíssimo e favorece seu enfrentamento, o que é confirmado pela explosão de denúncias em todo o país, desde o domingo retrasado.

Muita gente, entretanto, segue condenando Xuxa por praticar quase o mesmo crime de que foi vítima. Acusam-na de fomentar a sexualização precoce e a compulsão consumista de milhões de crianças, ao longo dos 30 anos em que está no ar. E recusam-se a reconhecer a sinceridade do depoimento ao Fantástico, porque a apresentadora falou de quase tudo, mas não desse aspecto sabidamente controverso de sua carreira.

Talvez Xuxa não tenha falado porque não lhe perguntaram. Ela foi entrevistada, convém não esquecer. Nessa modalidade jornalística, alguém pergunta e o outro responde. Não é comum o entrevistado pedir ao entrevistador para comentar algo que está fora da pauta, que não lhe foi proposto. Acontece, em geral, quando o tema adicional está nas preocupações imediatas da pessoa, é algo que a aflige na hora da entrevista e ela julga indispensável acrescentar.

Mimetização sexual

Se o humorista Claudio Manoel, o responsável pelo trabalho, fez ou não a pergunta, é ocioso saber. Mesmo que tenha feito, não teria como incluí-la na edição final. Contratado da Globo, não poderia submeter a emissora ao constrangimento de uma resposta incriminadora. Xuxa poderia admitir que sim, é a rainha da perversão dos baixinhos, mas que foi entronizada nesse papel pela televisão e nunca pôde experimentar um estilo diferente, porque o sucesso a impediu. E esta seria uma confissão intolerável. O silêncio sobre as suas próprias mazelas é um limite claro que qualquer veículo impõe à liberdade de expressão, quando se trata de nele gozá-la. Discute-se na mídia o possível, bem menos que o desejável.

É compreensível que Xuxa, como símbolo, seja o primeiro alvo da crítica – procedente – à sexualização precoce e ao consumismo incentivados pela TV. De fato, Xuxa encarnou a primeira apresentadora infantil que não foi a fadinha boa, ou a tiazona da garotada, tipos assexuados. Mas esse personagem televisivo só foi possível, em veículo de conteúdo tão controlado como é a TV, por uma conjunção de fatores mercadológicos e sociais, e por decisão de cúpula empresarial, da qual Xuxa certamente não participou. Não foi ela, de certa forma, que criou o próprio personagem. Foi ela quem o interpretou.

Xuxa sexualizou a criançada no momento em que foi importante, para a maximização do lucro na operação televisiva, renovar a programação infantil. O mercado crescente de produtos para esse público, no início dos anos 1980, exigia um novo comportamento das crianças, uma nova autoridade delas sobre os pais, para forçar a expansão do consumo e o giro da roda publicitária. Foi essa a força que criou Xuxa e empurrou os limites da moral pública, redefinindo o comportamento aceitável para as apresentadoras infantis.

Xuxa foi o veículo, o canal dessa mudança cultural, forçada por razões econômicas. Assim como Carla Perez, posteriormente, ampliou a coisa, ao dançar na boquinha da garrafa e levar meninas pequenas ao mesmo, sem perceber a mimetização sexual contida no gesto. Aconteceu na eclosão da “axé music”, um sopro de renovação para o mercado fonográfico já em crise. Vendesse disco, que importavam garrafas?

Outro depoimento

Muito bem, mas tudo isso é argumento para livrar a cara da Xuxa? Não, porque as pessoas não se livram de sua história e das responsabilidades que ela implica. É apenas uma tentativa de entendê-la e ao fenômeno que a gerou. Se todos somos produto das circunstâncias, muito mais do que da autodeterminação, com Xuxa não haveria de ser diferente. Há uma responsabilidade múltipla na trajetória da menina que desabrochou precocemente em mulher, foi abusada na infância por causa disso, pelo corpo converteu-se em esteio da família, e com o apelo dele galgou as escadas da vida.

Mas não seria importante que Xuxa admitisse a responsabilidade da TV e dela mesma na sexualização precoce, e pusesse o tema em debate? Sim, claro. Ajudaria tanto quanto combater a pedofilia, meta pela qual se bate. Só que isso dificilmente aconteceria em entrevista na televisão comercial, sobretudo no canal em que ela estivesse empregada. Não é mídia disposta à reflexão e sim à diversão. No máximo, a alguma – e controlada – informação. Autocrítica não está incluída.

A improvável análise da Xuxa sobre TV e sexualidade infantil só poderia ocorrer em outro foro, outra mídia. Mas esperemos que venha. Tomara que a repercussão da entrevista e a atualização da crítica de predação infantil, a única de fato pertinente que se pode levantar contra a apresentadora, façam-na refletir e permitam também este seu outro depoimento, em alguma oportunidade. Ele ajudará milhões de adultos, ontem crianças “abusadas” pela TV, a entenderem melhor a si mesmos e ao mundo complexo em que vivem.

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[Gabriel Priolli, jornalista e produtor de televisão, é presidente de honra da Associação Brasileira de Televisão Universitária e diretor de conteúdo da Fabrika Filmes]

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