Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > MÍDIA, POLÍTICA E JUDICIÁRIO

Reflexões sobre a conjuntura política

Por Marlos Mello em 19/06/2012 na edição 699

O país ganhou um novo personagem desde a divulgação da prisão de Carlinhos Cachoeira. Mas ao contrário das novelas e filmes, onde os personagens são fictícios e apenas ocupam o imaginário social das pessoas por um tempo, na vida cotidiana, em tese, deveria ser diferente. Partindo de algumas questões principais queremos refletir sobre a conjuntura política brasileira. As perguntas que motivam essa reflexão são as seguintes: há um desencantamento com a política? O que “move” a política no Brasil? Mídia e política ou mídia e judiciário?

No Brasil, de acordo com os últimos acontecimentos políticos, há uma tendência a acreditarmos que toda a midiatização do caso Cachoeira não resultará em nenhuma ação prática por parte dos órgãos responsáveis pelo controle e fiscalização da gestão dos bens públicos. Esse é um fenômeno que tem sido chamado de desencantamento com a política. Sinceramente, não creio que vivamos uma era de desencantamentos com a política. O que talvez estejamos presenciando é a naturalização da política calcada nas aparências, na onda do vem quem quer, das práticas viciosas de quem já se acostumou a ter o poder nas mãos e acha que pode fazer o que bem entender e ainda se irritar se alguém ousar questionar.

Na minha opinião, há um processo contínuo de liquidação de julgamentos que partem do desvairamento de certos políticos que se juntam a autoridades do poder judiciário, catedráticos de universidades, apresentadores e comentaristas de política e formam uma estranha e poderosa classe de figuras soberbas e tendenciosas que no mundo político, mais do que na vida cotidiana, expressam uma covardia íntima. Trata-se do maior dos males: o conformismo, que é a forma mais vulgar de covardia.

Dispersão da ética

Para certos políticos, juízes, catedráticos, apresentadores e comentaristas, a regra é ser conivente com o determinismo do capitalismo. Para esses, julgar o que é melhor para alguns às custas de todos é muito fácil, pois é nesse processo que os seres humanos são transformados em meros espantalhos determinados por condições materiais inexoráveis. Daí, a base das políticas neoliberais: nada pode atrapalhar o crescimento econômico.

Atualmente a ordem natural da política brasileira é induzir por deduzir a fim de concluir. Porém, o verdadeiro “motor” da desconstrução de valores éticos e morais é o capitalismo moderno, ou seja, a lógica da competição que capturou até os que se diziam incapturáveis ou, possivelmente, disfarçavam muito bem.

Mas há mais do que isso; e gostaríamos de frisar essa parte do texto.

A desconstrução dos valores éticos na política brasileira não foi somente obra dos políticos, embora esses também tenham participado do ataque à democracia. Mas já é tempo de sermos claros e reais em nossos posicionamentos: a dispersão da ética, a competição desenfreada e a soberba de certos políticos está associada à materialização de como a atual política brasileira foi se construindo teoricamente nos laboratórios e departamentos das universidades, nas reuniões promovidas pelos “chefões” do capitalismo burguês e nos porões dos jornais que foram criados para sustentar a opinião dos abastados.

Relação mídia e política

No Brasil, a soberania política está associada/comprometida a um conceito acadêmico e não com a convicção política, ou seja, com a defesa do bem comum, principalmente, no resguardo dos direitos individuais à vida e ao prazer.

A materialização da política está associada a uma questão teórica, e não prática. A formação de políticos tem permanecido alheia à gestão pública e ao debate orgânico sobre os sistemas de estruturação gerencial. Essa contradição entre a formação política e a prática tem se mostrado absolutamente impermeável ao controle social, que deveria ser a “espinha dorsal” do modelo oficial brasileiro registrado na Constituição de 1988. Justamente o modo como se estruturam e são gerenciados os partidos políticos configuram um dos grandes “nós” das mudanças que se espera numa possível e necessária reforma política.

As movimentações de proporções bíblicas de como se formam as figuras míticas da política brasileira aparecem estampadas nas manchetes de jornais e revistas. Para os telespectadores de estômago forte há os canais que foram criados para reproduzir as sessões do parlamento e a própria “CPMI do Cachoeira”, que tem funcionado como uma espécie de vitrine dos políticos dedicados à atividade de provar que estão fazendo mais e roubando menos; uma aventura interessante baseada num princípio malufista: “rouba, todavia, contudo, mas faz”.

A relação mídia e política têm se pautado na proposta da oferta e da procura, mas isso não é de hoje. Há vários relatos em livros e em estudos consagrados que mostram a promiscuidade da relação entre os barões da mídia e os políticos, isto é, quando estes não são os mesmos barões da mídia.

Os agravantes da CPMI

Mas há um fato novo que tem se destacado e pode ser analisado: aparentemente, os barões da mídia estão num profundo “namoro” com a instância judiciária e é dessa relação que tem surgido uma sucessão de mudanças na busca por acomodar as novas forças que se constituem. Com a maioria dos políticos desmoralizados pelos escândalos, toma impulso a onda de denuncismo e oportunismo daqueles que controlam com base no poder da informação.

Retornando à pergunta original: mídia e política ou mídia e judiciário? Com o descrédito da política, cresce a imagem do poder judiciário. Antes, as notícias em relação ao terceiro poder eram mera falta de assunto e os ministros do STF nem eram conhecidos. Mas atualmente a coisa tem sido diferente. Sem dúvida, a instância jurídica (ministros, juízes, procuradores, promotores etc.) ganhou um espaço de visibilidade importante, o que justifica a tese de que os barões da mídia agora andam de mãos dadas com o judiciário. Mas há agravantes nisso tudo; primeiro, o tão aguardado julgamento do “mensalão” e, segundo, a “CPMI do Cachoeira” que corre solta.

Entre as múltiplas realidades da “CPMI do Cachoeira” há uma que se destaca: Cachoeira, que falou muito nas gravações telefônicas, hoje está tímido e quase não fala. Os abastecidos por esse grande esquema de corrupção que envolveu vários personagens das mais diferentes cúpulas e das mais diversas personalidades expressam um silêncio atroz que chama a atenção.

Um período para reflexão e debate

A casa de Cachoeira não era um comitê de campanha. Era uma extensão das suas empresas. Mas ali já estavam trabalhando dezenas de profissionais das mais diversas especialidades, cada qual recrutado de uma forma diferente, tanto advindo de uma contratação da esfera privada quanto da pública. São provas de que para a corrupção não há limites.

Nesse lento e assíduo trabalho de decomposição social da política brasileira tem cabido infelizmente a população a pior parte. A moralidade deixara de guiar-se por princípios isentos de interesses particulares. A virtude não é mais referendada pelo bom gerenciamento da coisa pública, mas pelo cálculo do que é lucrativo aos negócios próprios. Nessa conjuntura, por enquanto, nenhum político recebe de bom grado a fama de corrupto e um sentimento de nostalgia impregna a tão sofrida política brasileira, mas queremos crer que a “angústia” gerada pela decomposição dessa política não seja motivo para tratar a CPMI como um mero infortúnio da contemporaneidade.

Nesse perambular em busca de referências para escrever este artigo, encontramos Kant, que em 1783 sustentou a ideia de que é cômodo para a maioria das pessoas permanecer na situação em que estão e atribuir aos outros a direção de suas vidas. Apesar de clássica, a afirmação de Kant não é por acaso, pois ela nos provoca a sair da mesquinha contemporaneidade e, nesse período que nos coube viver, é fundamental adquirirmos força para enfrentar os desafios da política brasileira, que se encontra conformada ao modelo burguês, que é sempre acompanhado da constatação da impossibilidade de se superar a lógica do mercado.

Encerramos este artigo sem ter uma conclusão a apresentar, mas acreditamos que está se abrindo um período importante para a reflexão e o debate entre aqueles que persistem no caminho da transformação social.

***

[Marlos Mello é psicólogo, Porto Alegre, RS]

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