Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

CADERNO DA CIDADANIA > LEI MARIA DA PENHA

Lembranças amargas em Gabriela

Por Washington Araújo em 14/08/2012 na edição 707

Neste velho mundo que se reinventa a cada instante nada se faz sem antes sondar fatos, pesquisar, ligar ideias, conectar percepções, percorrer o calendário em todas as possíveis variáveis. A reinvenção é a forma que encontramos para conviver com a realidade de forma a menos indolor possível. E é o movimento natural que aponta sempre para o que está-por-vir, para o que transita entre o hoje e o amanhã. É o mesmo velho mundo que vai dormir em meio aos ataques totalitários do governo Bashar al-Assad contra a população civil de Aleppo, contingente populacional indefeso e transformado em alvo militar estratégico e que vai acordar em meio às notícias das medalhas olímpicas que ganhamos ou deixamos de ganhar em Londres.

A vida que passa nos meios noticiosos é a vida de todos nós: grandes mesquinharias, pequenas glórias, exacerbado individualismo para manter o bem-estar da parte e porções ínfimas de solidariedade para com o sofrimento do todo.

Enchemos os olhos com as desoladoras imagens dos indignados espanhóis marchando sobre Barcelona e Madri, Alicante, Valencia e Zaragoza e vociferando palavras de ordem contra medidas governamentais que nada mais fazem do que manter o desemprego do povo espanhol em insuportáveis 24,7% da massa de trabalho economicamente ativa.

Assistimos ao intervalo comercial na telinha mágica, sempre anunciando a liquidação das liquidações de veículos, a mãe de todas as queimas de estoques e três ou quatro instituições bancárias afirmando, cada uma, ser a pioneira na baixa expressiva dos juros para empréstimos e manutenção do cheque especial. São comerciais que falseiam tanto a verdade que usam e abusam de aumentar os preços artificialmente em uma hora para, na meia hora seguinte, oferecer imperdível descontos de tantos por cento. E fazem isso com tanta naturalidade que somos tentados a compreender que o mundo é bem mais virtual que real, é mais corrida de obstáculos para conseguir vantagens que meros 100 metros rasos a serem percorridos sem qualquer cronometragem.

Pensamento arcaico

Refeitos dos clipes publicitários, reingressamos na atmosfera cada vez menos diferenciada dos clipes noticiosos. As imagens se embaralham, formam belos desenhos, emolduram rostos com boa dicção e arremessam fiapos de notícias – muitas desencontradas, outras pela metade, a maioria condenada ao esquecimento instantâneo de nossas mentes agitadas pelos jogos de luzes, pelos graves e agudos ainda ecoando dos intervalos comerciais.

Entramos no reino da teledramaturgia com a mesma naturalidade com que juízes do Supremo Tribunal Federal se concedem o direito de cochilar e, de tanto ouvir o clamor dos advogados dos réus da Ação Penal 470, sentem-se embalados a deixar o sono os dominar, correr solto. Vez ou outra um advogado faz referência aos personagens da novela da 9 de maior audiência da atualidade – Avenida Brasil (TV Globo) –, Carminha, Rita, Max. Folhetim idealizado para transformar atos de vingança em atos de justiça explícita, trama copiada do seriado Revenge recentemente produzido nos Estados Unidos.

Mas a noite de terça-feira, 7 de agosto, marcou o grande descompasso entre cidadania e a dramaturgia, cidadania e novela, cidadania e TV Globo. Refiro-me à novela Gabriela, adaptada do romance Gabriela, cravo e canela do genial Jorge Amado, que reúne a chamada prata da casa – Antonio Fagundes, Maitê Proença, José Wilker, Laura Cardoso, Ari Fontoura, Juliana Paes, Mateus Solano, Humberto Martins etc – e investe pesado na recriação de Ilhéus nas primeiras décadas do século 20. Trata-se de esmerada superprodução de TV Globo: fotografia deslumbrante e caracterizações algo como a meio passo da perfeição. A recriação do Bataclan, abrigo das prostitutas da região, verdadeiro Moulin Rouge encravado na geografia baiana, é um capítulo à parte com seu clima de clube de mafiosos tão onipresente na Chicago de 1920.

Mas se a história é saborosa, o elenco impecável – conta até com uma antológica Ivete Sangalo no papel da cafetina Maria Machadão –, a música interpretada por uma faceira Gal Costa é do nosso maestro soberano Tom Jobim, as imagens em tudo se aproximam da qualidade cinematográfica… Então, qual o problema? Qual o descompasso? Qual a razão da implicância?

É que exatamente em 7 de agosto a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340) celebrou seu sexto aniversário de vigência. É resultado direto da luta das mulheres brasileiras e do avanço legislativo internacional no enfrentamento da violência doméstica contra a mulher. Não é extemporâneo recordar que a lei é considerada uma das mais avançadas do mundo e principal instrumento para mulheres se defenderem de seus agressores. E o que isso tem a ver com a superprodução da Vênus Platinada?

O capítulo de Gabriela de 7 de agosto foi quase que inteiramente dedicado à performance do Coronel Jesuino (José Wilker) para lavar com sangue a sua honra: mata a tiros e à queima roupa sua esposa Dona Sinhazinha (Maitê Proença) na cama com seu amante, o dentista Dr. Osmundo (Erik Marmo), que teve o mesmo fim. O capítulo é pródigo em mostrar as mais variadas moções de solidariedade a Jesuíno. E elas vêm dos coronéis, chefes políticos, advogados, políticos, latifundiários, damas da sociedade. Todos concordam entusiasticamente com o ato do assassino confesso.

Em um país onde a violência contra a mulher vem de muito longe, talvez trazida ainda nas caravelas de Cabral, nos idos de 1500, foi no mínimo irônico e de profundo mau gosto comemorar uma infante lei – em vigor há seis anos apenas – trazendo a lume muito do pensamento arcaico, sectário e violento que insiste em sobreviver em nosso inconsciente coletivo, revivendo-o em cenas e falas dos ícones maiores de nossa teledramaturgia.

Curiosamente, poucas horas antes de o capítulo ser exibido, estiveram em solenidade no Senado Federal para comemorar o aniversário da Lei Maria da Penha os atores da TV Globo Malvino Salvador e Oscar Magrini. No fundo, talvez pensassem estar celebrando o sexto aniversário da promulgação de uma hipotética lei… Sinhazinha da Penha.

***

[Washington Araújo é jornalista e escritor; mantém o blog http://www.cidadaodomundo.org]

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