Sexta-feira, 25 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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CADERNO DA CIDADANIA > ENTREVISTA /RICARDO KIRSCHBAUM

“O clima político está mudando na Argentina”

Por Roberto Gazzi em 02/10/2012 na edição 714
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 30/9/2012; intertítulos do OI

Na semana passada, o Clarín, o maior grupo de mídia da Argentina, promoveu, em Buenos Aires, um seminário para discutir questões que envolvem o futuro dos jornais e do jornalismo num mundo digital que embaralhou o modelo de negócios do setor. Como os jornais podem enfrentar a crescente queda da publicidade que sempre os sustentou? Os jornais devem ou não cobrar pelo conteúdo relevante que produzem? Temas capazes de lotar o auditório do Malba, o interessante museu de arte latino-americana da cidade. Mas que parecem irrelevantes perto do desafio posto pelo governo argentino ao principal grupo de mídia do país: ter de abrir mão de grande parte de seu faturamento.

O governo da presidente Cristina Kirchner elegeu o grupo Clarín como um de seus inimigos. E recentemente propagandeou ruidosamente que em 7 de dezembro o grupo deve entregar suas operações de rádio e TV para estar de acordo com uma lei de controle social da mídia sancionada em 2009. Algo que setores do PT tentam aprovar no Brasil, sem sucesso, há anos.

O movimento de pressão contra o grupo vem de algum tempo, mas desta vez o impacto poderá ser estrondoso. Segundo fontes do jornal Clarín, as atuais pressões contra o grupo fizeram o valor de suas ações, negociadas na City de Londres, baixar de algo estimado em US$ 4 bilhões para cerca de US$ 500 milhões. Tudo em nome de uma mídia democrática, sustentada por dinheiro público, distribuída majoritariamente a grupos que apoiam o governo.

“O clima político está mudando”

Um recente levantamento mostra que o investimento do governo argentino na mídia subiu espantosos 1.300% desde 2003. Empresas jornalísticas que apoiam o governo viram suas verbas oficiais multiplicarem-se de forma mágica. Página 12, em seus primórdios um combatente periódico, transformado hoje num folhetim de apoio ao governo, recebeu nada menos que 37 milhões de pesos (algo em torno de R$ 16 milhões) para uma tiragem de 14 mil exemplares. O diário Clarín, com uma circulação de 315 mil exemplares recebeu 3 milhões de pesos (R$ 1,3 milhão). Mas esse é um dado insignificante perto do total de 1,5 bilhão de pesos (R$ 650 milhões) gastos pelo governo para formar uma cadeia de informações pró-governo. Este cenário bipolar é agora incentivado pela perspectiva de uma futura reforma constitucional que possa permitir a rerreeleição de Cristina.

Ricardo Kirschbaum é o editor-responsável do Clarín. Está na profissão há 36 anos, alguns deles como correspondente em Brasília.

Ele é categórico. “Desde o fim da ditadura militar, em 1979, nunca vivi um período na Argentina de ataque à imprensa como hoje.” Mas ele é otimista: “O clima político argentino está mudando, ficando contra o governo, e o anúncio da data de 7 de dezembro busca aterrorizar os meios críticos ao governo, para tentar calar a oposição.” O que ele imagina que não ocorrerá. A seguir os principais trechos da entrevista concedida por Kirschbaum em sua sala no 3º andar da sede do grupo no bairro de San Telmo.

“[A pluralidade] é uma grande hipocrisia!”

O que o Clarínvai fazer dia 7 de dezembro?

Ricardo Kirschbaum– Eu creio que esta é uma questão de Justiça, não política. É sobre o prazo de uma lei. Não tem por que o governo tentar qualificar se estamos ou não ilegais.

Então por que o anúncio de que vocês têm de devolver parte de suas operações?

R.K.– Veja. Esta é uma data que o governo tenta marcar como aquela na qual vai tomar o controle da imprensa livre na Argentina. A Lei de Mídia não tem outro objetivo que não seja o de manter a imprensa sob controle. Cerca de 80% do meios argentinos estão hoje sob controle direto ou indireto do governo. Criaram um formidável aparato de propaganda que inclui milionários aportes de verbas a meios de baixa audiência. E retirar a publicidade oficial de quem não se alinha com a Casa Rosada (sede do governo).

Mas muitos veem neste movimento do governo uma forma de tornar a mídia mais plural…

R.K.– Isso! É uma grande hipocrisia! Dizem que o objetivo é aumentar a pluralidade de vozes, a democratização da comunicação, mas nada disso aparece. Exatamente o contrário. Fica uma só voz, a oficial…

“A sucessão do líder é um problema dos regimes autoritários”

Ou seja, o anúncio foi uma forma de pressão contra vocês?

R.K.– Mais do que uma pressão para que entreguemos nossas concessões de TV. Eles estão imaginando que terão de sufocar os meios críticos ao governo porque o clima político está mudando e eles acham que precisam controlar a situação.

E por que esta nova pressão?

R.K.– Para tentar satanizar um inimigo e tentar juntar forças para promover a reforma constitucional que impede a rerreeleição da presidente em 2015. Mas este ponto está enfrentando muita resistência de uma parte da população. O governo precisa fazer um grande resultado nas eleições legislativas do próximo ano para conseguir a maioria de dois terços do Congresso necessária para reformar a Constituição. Esta é a situação. O restante é uma mise-en-scène para que se oculte a verdade.

O governo teme que esta mudança de clima ameace seu projeto de poder?

R.K.– Como em todo governo personalista, a sucessão do líder é um problema. É um problema típico dos regimes autoritários que agora eles estão vivendo.

“Qualquer opinião crítica é reprimida”

Você já vê um certo desespero por parte do governo de Cristina?

R.K.– O humor político está mudando e muita gente mostrou em 13 de setembro (dia de uma grande manifestação contra o governo em Buenos Aires) que sabe o que não quer, ainda que não saiba o que quer. O que não querem é muito do que está acontecendo agora na Argentina. A melhor maneira para resolver isso é o voto.

A pressão feita pelo governo aos seus críticos tem recebido muitas críticas…

R.K.– Claro. O jornalismo que não seja o oficial é visto como inimigo. Qualquer opinião crítica é reprimida. Vemos o mesmo em outros países da América Latina. Nossa visão de uma sociedade democrática é muito diferente.

***

[Roberto Gazzi, do Estado de S.Paulo]

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