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Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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CADERNO DA CIDADANIA > YOANI SÁNCHEZ

30 horas atrás das grades

Por Janaina Lage e Lis Miller em 09/10/2012 na edição 715
Reproduzido de O Globo, 6/10/2012

A blogueira Yoani Sánchez, o rosto mais famoso da dissidência cubana no exterior, foi detida junto com o marido, Reinaldo Escobar, e Agustín Canino, que viajava como motorista, em Bayamo, capital da província de Granma, no Leste do país por volta das 18h de anteontem. A jornalista pretendia cobrir, como colaboradora do El País, o julgamento do espanhol Ángel Carromero, acusado pela morte do ativista Oswaldo Payá num acidente de carro, em julho.

Na noite de ontem (7/10), ela anunciou sua libertação no Twitter após 30 horas de prisão e agradeceu as manifestações na internet. “Já fomos liberados! Graças a todos que levantaram sua voz e a seus tuítes para que conseguíssemos voltar para casa”, escreveu. Sobre a prisão, disse que se recusou a se alimentar ou a beber enquanto esteve detida. “O primeiro copo d’água tomei ao chegar em casa, como fogo no esôfago.”

A detenção da jornalista motivou críticas de EUA e Itália, além de pedidos de libertação de organizações de direitos humanos e associações de imprensa. O chanceler Antonio Patriota disse que não comentaria o caso por se tratar de assunto interno de Cuba. O porta-voz do ministério, Tovar Nunes, afirmou: “O fato de existir Yoani e outros blogueiros mostra que existe espaço assegurado de manifestação da sociedade. O Brasil deu visto a Yoani quando ela quis vir aqui.” Na Itália, o ministro das Relações Exteriores, Giulio Terzi, pediu que Bruxelas aumentasse a supervisão dos acontecimentos referentes a direitos humanos na ilha. Nos EUA, o porta-voz do Departamento de Estado, Mark Toner, condenou o uso de detenções arbitrárias e o impedimento à ação de jornalistas independentes. “É muito claro que as condições de direitos humanos em Cuba permanecem pobres. O governo cubano continua a limitar liberdades fundamentais, incluindo a liberdade de expressão.”

Nova estratégia de detenção

Segundo Elizardo Sánchez, da Comissão Cubana de Direitos Humanos, a blogueira e o marido não estavam credenciados para participar do julgamento. Eles foram reconhecidos pela polícia, que fazia uma operação na cidade contra ativistas. As autoridades cubanas têm recorrido à prática de prisões temporárias antes de eventos que atraem a atenção da comunidade internacional, como a visita recente do papa Bento 16, de acordo com o relato de opositores. “Há uma metamorfose na repressão política cubana. Somente em setembro foram 533 detenções temporárias. É bom para o governo, que recebe menos críticas e desgasta os dissidentes”, disse Sánchez.

Manuel Cuesta Morúa, presidente do partido Arco Progressista, destaca que a nova estratégia reduziu a divulgação das prisões: “O governo tenta banalizar a repressão para a imprensa internacional, já que a situação em Cuba é como um passeio em Copacabana comparado ao que ocorre na Síria.” Não é a primeira vez que a blogueira enfrenta dificuldades com as autoridades: ela recebeu prêmios internacionais, mas nunca teve a autorização para viajar e recebê-los. Num episódio recente, gravou um vídeo pedindo a ajuda da presidente Dilma Rousseff para vir ao Brasil participar do lançamento de um documentário, mas as autoridades cubanas não autorizaram.

O blogueiro pró-governo identificado como Yohandry Fontana relatou que ela havia sido presa porque pretendia provocar e fazer “um show midiático” no julgamento. Durante a tarde, ele disse que Yoani estava sendo levada de volta para Havana porque o carro do casal estava em “terríveis condições mecânicas”.

A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) e o Comitê de Proteção a Jornalistas solicitaram, em notas, a libertação de Yoani. “Se as autoridades cubanas pretendiam minimizar a cobertura internacional do julgamento freando os esperados textos de Yoani, conseguiram o contrário com esta prisão arbitrária e de óbvio conteúdo político”, disse Gustavo Mohe, presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação da SIP.

No julgamento, Carromero repetiu sua versão do acidente e lamentou a morte de Payá. A promotoria pede pena de sete anos de detenção. A defesa quer absolvição e libertação imediata. “Perdi muitas coisas, mas não há comparação com o sentimento de dor das famílias.”

***

[Janaina Lage e Lis Miller, de O Globo; colaborou Vitor Sorano]

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