Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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CADERNO DA CIDADANIA >

“Tentaram me despir. Eu resisti e paguei”

Por OG em 09/10/2012 na edição 715

Durante boa parte do tempo em que esteve presa, a ativista e blogueira cubana Yoani Sánchez foi filmada pelas autoridades da ilha e somente horas depois da detenção pôde fazer uma ligação. Num relato ao jornal espanhol El País, para o qual trabalha como colaboradora, ela descreveu as 30 horas de reclusão pelas quais passou ao tentar fazer a cobertura de um julgamento que, diz o governo, foi público.

“Quiseram me impedir de chegar ao julgamento de Ángel Carromero”, começa o texto. “Um homem todo vestido de verde-oliva disse que queríamos boicotar o tribunal.”

Na quinta-feira [4/10], a ativista seguia de carro para o Tribunal Provincial Popular de Gramna, onde iria cobrir o julgamento do espanhol Carromero, acusado da morte Oswaldo Payá – um dos principais dissidentes cubanos – em julho, num acidente de carro. Por volta das 17h, a blogueira, o marido e um amigo foram detidos pela polícia em Bayamo, onde ocorreria a sessão. “Havíamos acreditado no jornal (oficial) Granma quando disse que o julgamento seria oral e público. Mas, já sabem, o Granma mente.” A família de Payá também foi proibida de participar da sessão, reafirmou ela mais tarde por meio de sua conta no Twitter.

Yoani descreve a operação montada para detê-la como tão grandiosa quanto as utilizadas para prender traficantes, “mas, em vez de figuras ameaçadoras, ali estavam apenas três pessoas que queriam participar de uma audiência”.

A ativista diz que, na realidade, recebeu a detenção como um presente, pois pôde “experimentar temporariamente o outro lado da história. Viver na pele o que viveu Carromero, como um detento”, escreveu. “Só de ver a estampa das cortinas, tive o pressentimento de que era o mesmo lugar onde haviam feito a primeira gravação que circulou na internet das declarações de Carromero”, afirmou.

“Três mulheres uniformizadas me cercaram e levaram meu celular. Depois, me levaram para um quarto e tentaram me despir. Eu resisti e paguei as consequências.” Em texto publicado em seu blog Generación Y, Yoani disse: “Mais do que buscar algum objeto escondido, essa revista tinha o objetivo de deixar-me com uma sensação de violação, de estar indefesa, de estupro.”

“Calabouço-suíte”

Yoani conta que, após horas em uma sala “terrivelmente quente” foi levada a um “calabouço-suíte”, onde acredita que Carromero esteve detido. “Chegar a esse salão mais amplo, com televisão e várias cadeiras que desembocava num quarto com uma cama realmente apetecível foi um golpe muito baixo”, conta. “Aquilo não era um quarto, era um set, soube imediatamente.” Desconfiada, recusou tudo o que lhe era oferecido e nada comeu ou bebeu nas 30 horas. “A água podia não ser água, a cama mais parecia uma armadilha e o médico solícito estava mais para um alcaguete do que para um doutor.” Ela diz ter sido filmada boa parte do tempo. “Não sei se algum dia irão exibir as imagens na TV oficial.” O pedido de ligação só foi atendido após 1h de sexta-feira.

Carromero, membro da juventude do Partido Popular espanhol, conduzia o carro no qual estavam Payá, o ativista Harold Cepero – também morto no acidente – e um sueco. Testemunhas dizem que o veículo ia em alta velocidade e que a sinalização de obras na pista não foi respeitada. A família de Payá questiona a versão e pede uma investigação independente. A sentença deve ser conhecida nos próximos dias.

O cônsul-geral da Espanha em Cuba, Tomás Pantoja, disse que o julgamento foi “processualmente correto” e crê numa redução da pena – o Ministério Público pediu sete anos de prisão. A diplomacia espanhola tenta fazer com que Carromero seja expulso da ilha.

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