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Terça-feira, 14 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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CADERNO DA CIDADANIA > PROFISSÃO PERIGO

Tortura com caneta?

Por Mauro Malin em 23/10/2012 na edição 717

O ex-deputado federal, ex-presidente do PT e ex-assessor do Ministério da Defesa José Genoíno equiparou jornalistas a torturadores da ditadura militar, no dia da votação do primeiro turno. A Folha de S.Paulo (8/10) e o Estado de S.Paulo aspearam: “Vocês são urubus e torturadores da alma humana. Vocês fazem igual aos torturadores da ditadura. Só que agora não tem pau de arara, tem uma caneta”.

É preciso dar um desconto a Genoíno, um homem hoje perplexo e angustiado com o que a fortuna lhe destinou. Homem que se considera, não sem fundamento, dotado de virtù. O erro de Genoíno pode ter sido político: aceitou a presidência do PT sem contar com um “esquema” próprio dentro do partido, onde convivem facções ostensivas, conhecidas, e patotas construídas por afinidades e interesses compartilhados. Alguns grupos não hesitam em usar expedientes e métodos cabeludos para alcançar seus objetivos.

Se tivesse feito justiça à sua própria trajetória militante, Genoíno não teria transformado a imprensa em alvo de seu ressentimento. Dizer isso não equivale a desculpar o comportamento importuno e inoportuno de tantos jornalistas, quase sempre os menos calejados, os menos capazes de apurar notícias importantes, os menos seguros de sua competência.

Último refúgio…

A manifestação do ex-deputado, conhecido por dialogar no Congresso Nacional com representantes das mais variadas posições, autor, durante anos, de uma coluna no Estado de S.Paulo, é um desses sinais que podem se perder no fluxo dos acontecimentos – esperemos que sim – ou sintoma de ampliação do círculo de poderosos ou ex-poderosos que exibem desapreço à imprensa quando ela incomoda. Ou seja, quando exerce o papel que numa democracia se requer dela.

Se Genoíno tivesse apenas se queixado da avidez de jornalistas por ver ou fazer a caveira alheia, teria sido apenas uma combinação de crítica pertinente com falta de fair-play, comportamento de mau perdedor. Mas igualar jornalistas a “torturadores da ditadura” é um passo que leva o ex-dirigente petista muito além, ou melhor, muito para baixo na escala de valores políticos e intelectuais.

Causa constrangimento Genoíno se igualar a tanta gente que usa esse mesmo tipo de comparação absurda, gente que consciente ou inconscientemente deforma a conceituação histórica do regime militar brasileiro. É apelação rasteira. Dá vontade de dizer, ecoando o Dr. Johnson, que Genoíno ingressou no último refúgio dos … (o leitor ponha aqui o qualificativo que lhe parecer mais adequado).

Em má companhia

A hostilização praticada por Genoíno não é ato isolado. Relatório apresentado à assembleia geral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) pela então presidente da Associação Nacional de Jornais, Judith Brito (íntegra aqui), menciona, além de vários casos de assassinatos e perseguições pelo Brasil afora, violências ocorridas na Grande São Paulo:

>> O repórter André Guilherme Delgado Vieira, da Rádio Jovem Pan FM, foi agredido em 24/7 por um segurança do candidato do PSDB à prefeitura de São Paulo, José Serra.

>> O fotógrafo Moacyr Lopes, da Folha de S. Paulo, foi agredido em 5/10 por um militante do PT durante caminhada do candidato do partido a prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (que posteriormente manifestou solidariedade ao jornalista).

>> A repórter Natália Oliver, do Diário de Guarulhos, foi agredida em 7/10 ao flagrar o diretor do Procon de Guarulhos fazendo boca de urna para um candidato do PSD.

O caso mais grave, assassinatos à parte, é o do repórter André Caramante, da Folha. O jornalista começou a receber ameaças no Facebook após a publicação de reportagem por ele assinada sob o título “Ex-chefe da Rota vira político e prega a violência no Facebook” (14/7). O ex-comandante da Rota Paulo Telhada usou sua página no Facebook para congratular-se com a violência em supostos confrontos com civis, que chama de “vagabundos”.

Em comentários à postagem de Telhada, adeptos do coronel, posteriormente eleito pelo PSDB vereador de São Paulo com a terceira maior votação da cidade (89 mil votos), passaram a hostilizar o repórter, que pouco depois começou a sofrer ameaças. Elas se intensificaram e se agravaram. O jornal mudou a rotina de trabalho do profissional, dispensado de comparecer à redação. Em 8/10, Caramante e sua família se exilaram fora do Brasil.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ofereceu ao jornalista ingresso no programa de proteção a testemunhas (!), mas não se conhecem providências administrativas ou partidárias destinadas a “baixar a bola” do coronel PM da reserva, agora vereador, objeto de 29 processos judiciais, ostentador orgulhoso de 36 mortes “em ação”.

O prejuízo à vida e à carreira de Caramante está feito. Telhada já anunciou que usará sua cadeira de vereador para propor maior rigor (leia-se violência) contra suspeitos e bandidos comprovados.

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