Sexta-feira, 26 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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CADERNO DA CIDADANIA >

De olhos bem fechados

Por Fernando Grostein Andrade em 16/07/2013 na edição 755

Nunca consegui me identificar com os conceitos de direita e esquerda. Como defender um Estado que não dá proteção social a quem nasce em condições injustas? E como defender um Estado inchado, ineficiente e cheio de privilégios? Da mesma forma, não consigo entender quem qualifica PSDB ou PT como o câncer ou a salvação do Brasil. Como não reconhecer os grandes avanços que ambos os partidos promoveram sem deixar de apontar suas graves falhas?

O ex-governador Franco Montoro estaria envergonhado de ver o PSDB ter um membro envolvido em ações policiais pouco republicanas ou um deputado que propõe a cura gay. É decepção tão nítida quanto a de muitos que abraçaram o projeto histórico do PT diante do desgaste que a prática do poder causa. Contudo, algo chama a atenção: a capacidade prosaica de se tratar a situação política como um fla-flu, de forma alheia aos erros de ambos os partidos. Não importa a falha, vale fechar os olhos e defender aos berros o às vezes indefensável, abrindo espaço para uma anarquia nada romântica.

O Facebook transformou a experiência política de alguns em uma arena comum na qual as discussões diárias se dão com aparente paixão e veemência. Ao mesmo tempo, trouxe à luz um novo indivíduo. Depois do déspota esclarecido, veio o asno esclarecido. É aquele que gosta de defender seu líder, seu partido ou sua paixão, independentemente da asneira cometida. Pior, insiste num desgastado conceito de luta de classes, ainda que seja óbvio que o melhor negócio é aquele que é bom para todos.

Tiririca está desiludido

Não há blindagem suficiente para proteger os ricos em uma sociedade dividida. Basta olhar os arrastões nos restaurantes ou prédios endinheirados de São Paulo. Da mesma forma, proteções trabalhistas excessivas acabam criando um mercado informal que, no fim, não garante direito algum ao trabalhador.

Na ótica infantil, existem os bons e os maus. No mundo real, existem humanos, com seus erros e acertos. A militância infantil olha apenas para um lado, seja ele qual for, e justifica erros por outros erros ou por um pragmatismo que transforma valores morais em acrobacias elásticas nada honrosas. Enquanto isso, oportunistas de plantão se divertem. Deitam e rolam em cima do dinheiro público arrecadado por meio de tributos injustos e absurdos, que aprofundam a ineficiência no Brasil.

A hiperconectividade detonou novas formas de se organizar para manifestar, mas em breve promete encurtar a distância entre políticos e eleitores, governos e cidadãos. Afinal, para que manter estruturas de representação complexas, caras e ineficientes com as novas possibilidades de transparência que a internet oferece? Em tempos em que nossos melhores deputados parecem ser um ex-BBB e um ex-jogador de futebol, a era do político profissional pode estar com os dias contados. Afinal, se o Tiririca está desiludido, imagine o eleitor.

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Fernando Grostein Andrade é cineasta, autor dos documentários Coração Vagabundo e Quebrando o Tabu e sócio da produtora Spray Filmes

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