Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > RÚSSIA

A imprensa na era Putin

Por Marina Darmaros em 20/08/2013 na edição 760
Reproduzido do blog Prosa, de O Globo, 10/8/2013

No topo da base de dados online http://www.journalists-in-russia.org/, sobre os profissionais do setor assassinados no país, uma foto intriga. Nela, um homem forte, de cabeça raspada e camisa regata, discursa rodeado por faixas com palavras de ordem relacionadas à floresta de Khímki, nos arredores de Moscou. O leitor mais desatento poderia até confundi-lo com o lutador de MMA Fiódor Emeliánenko, mas aquele é o jornalista Mikhail Beketov.

Em seu últimos anos, porém, Beketov já não exibia a forma atlética. Sua figura jovial tornara-se a de um homem sedentário, envelhecido e frágil em uma cadeira de rodas depois de ser brutalmente espancado em 2008. Suas pernas foram amputadas, assim como alguns dos dedos. Os médicos também tiveram que extrair fragmentos ósseos do seu cérebro. Depois de inúmeras operações, o jornalista morreu no último mês de abril. Foi o primeiro neste ano a ter a morte relacionada à prática da profissão.

Defendendo há anos a floresta de Khímki da destruição iminente pela construção de uma estrada ligando Moscou a São Petersburgo, Beketov recebeu os primeiros “recados” sobre a insatisfação com seu uso da imprensa em 2007, quando, ao chegar em casa, encontrou o carro queimado e o cão de estimação morto sobre o capacho. Ao acusar o prefeito de Khímki, o episódio virou pretexto para a Justiça russa se voltar contra ele.

No verão de 2010, seu grito ganhou eco, e grandes protestos foram organizados para defender a floresta. Em novembro daquele ano, foi a vez de o jornalista Oleg Kashin, do “Kommersant”, receber uma lição. Também foi espancado, ficou em coma e teve dedos amputados. Kashin tornou-se um dos líderes dos protestos que tomaram o país desde 2011, clamando por eleições limpas e a saída de Putin do poder.

Antes desses, muitos outros tornaram-se mártires do jornalismo russo, ajudando a rebaixar a posição do país no Press Freedom Index (Índice de Liberdade de Imprensa), da organização Repórteres Sem Fronteiras. Se em 2006, quando foi morta a principal correspondente opositora da Segunda Guerra da Chechênia, Anna Politkóvskaia, o país ocupava a 147ª posição do ranking, em 2010, durante o governo do dito presidente-fantoche Dmítri Medvedev, ele ascendeu para o 140º lugar. Hoje, com o retorno de Putin à presidência, o país regrediu à 148ª posição.

Veículos de oposição ativos

Mesmo assim, não há censura na Rússia, como há no Brasil, com “O Estado de S. Paulo” proibido há dois anos de escrever sobre a família Sarney, por exemplo. Há, sim, repressão, e a resposta a jornalistas é dada, muitas vezes, com sangue. Lembro-me dos rostos horrorizados de meus colegas de mestrado em Moscou quando o já falecido comunista inveterado e professor de “Regulações legais dos meios de informação de massa”, Víktor Sbruev, falou sobre a inexistência da censura. Na ocasião, ele nos distribuía algumas cópias de “Tchastítchnoie Pravosúdie” (“Justiça parcial”, em russo), uma publicação da Federação Internacional de Jornalistas que divulgava as mortes de repórteres russos no período de 1993 a 2009, ou seja, praticamente desde a queda da União Soviética.

Se a revista mostra uma gritante diferença entre esses dois países no número de mortos relacionados ao exercício do jornalismo (de 1991 a 2009, o Brasil somava 27 profissionais mortos, contra os 96 russos no mesmo período, de acordo com dados da Federação Internacional de Jornalistas), hoje, os dois se aproximam cada vez mais. No Press Freedom Index, o Brasil despencou da 58ª posição, em 2010, para a 99ª no relatório de 2011-12, e 108ª-109ª, em 2013. Não bastasse isso, o país contabilizou 11 jornalistas mortos em 2012 e três neste ano, contra zero e um na Rússia, nos respectivos anos, ainda segundo o Repórteres Sem Fronteiras.

Vivendo desde 2007 em Moscou, poucas vezes me senti ameaçada como profissional. Minha situação, porém, colaborava: correspondentes internacionais escrevendo em língua estrangeira para publicações no exterior não parecem representar ameaça ao país. E, ao contrário do que se pensa, a Rússia conta com alguns meios de comunicação oposicionistas bastante inflamados — e de qualidade —, apesar da escassez de opiniões diversificadas na TV aberta, quase toda estatal. São periódicos como a revista “The New Times”, o canal a cabo “Dozhd”, a rádio Echo Moskvi e o diário “Nôvaia Gazeta”, entre outros.

Enquanto um dos melhores indicadores da liberdade de expressão talvez seja o modo como um país trata seus jornalistas, é inegável, porém, o tratamento repressivo que a Rússia dispensa a seus cidadãos fora do quarto poder. Quando as performáticas Pussy Riot, bem cobertas com seus vestidos e calças legging coloridas, fizeram uma apresentação-relâmpago dentro da Catedral do Cristo Salvador, os russos me diziam, confundindo o movimento com as peladonas do Femen: “Imagine, um bando de meninas nuas dentro da Catedral da Sé”. Na França, as ucranianas do Femen se despiram dentro da Catedral de Notre-Dame, enquanto no Rio, alguns manifestantes da Marcha das Vadias fizeram atos sexuais utilizando uma estátua de santa, na frente de peregrinos que esperavam pelo Papa. Ninguém foi detido. Ninguém será condenado a dois anos de prisão como as pobres pussies.

Frente a esse cenário, Snowden não se deu nada bem. Mas tampouco me dei ao retornar, como jornalista, ao Brasil.

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Marina Darmaros é jornalista, edita a Gazeta Russa e trabalhou em Moscou para veículos como a Folha de S.Paulo e a Radio France Internationale

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