Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > PROFISSÃO PERIGO

A mudança na vida de jornalistas que sofreram violentas represálias

Por Nathália Carvalho em 20/08/2013 na edição 760
Reproduzido do portal Comunique-se, 15/8/2013; intertítulos do OI

O que pode acontecer na vida de um jornalista que sofre represálias? Como ele encara a profissão após ser ameaçado? Como fica o psicológico de quem passa por situações de extremo medo? Com histórico que reúne, pelo menos, 16 homicídios, sete tentativas de assassinato, 24 ameaças de morte, dois sequestros, 41 agressões físicas e inúmeros processos judiciais, o ano de 2012, certamente, não foi um dos mais tranquilos para os profissionais de imprensa.

Diante de tantos casos graves, que foram noticiados e esquecidos, o Comunique-se foi em busca de três histórias que completaram ou vão completar um ano nos próximos meses. Mauri König, da Gazeta do Povo; Leniza Krauss, da Rede Record; e Monize Taniguti, de O Jornal, em Guaíra (SP), mostram os reflexos das ameaças na vida dos profissionais.

Diretor da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e repórter do jornal Gazeta do Povo, Mauri König foi ameaçado de morte em dezembro de 2012. À época, pessoas que se identificavam como policiais ligaram para o jornalista avisando que militares estavam indo para Curitiba para matá-lo. O motivo da represália foi uma série de reportagens publicadas ao final de maio de 2012 – em conjunto com os repórteres Felippe Aníbal, Diego Ribeiro e Albari Rosa – denunciando ilegalidades e corrupções exercidas por policiais. König foi obrigado a deixar o país e viver escondido com a família.

Estratégia para fugir da depressão

“Ainda não consegui me recuperar totalmente”, conta. O jornalista, que ainda sente os reflexos das ameaças, diz que, por muito tempo, precisou ficar fora de casa, pois existia a possibilidade da residência ser metralhada. Casado pela segunda vez e pai de uma criança de três anos – a mais nova dos três filhos do profissional –, ele se viu obrigado a se afastar da família, situação que acabou sendo permanente. “Perdi a minha família. Minha mulher ficou traumatizada, tem muito medo pela vida do nosso filho e, por isso, acabamos nos separando. Ela mudou de estado e é muito doloroso e penoso para o pai não poder acompanhar o crescimento do filho”, lamenta.

Atualmente, König vive momento de mudança, tanto na vida profissional, quanto na pessoal. “Sempre escolhi ser repórter, mas agora não sei se é o momento. Quero mudar o meu perfil, tratar de assuntos mais amenos.” Ainda na Gazeta do Povo, o jornalista deixou as ruas para se dedicar a serviços internos, como edição e fechamento de capa. “Entreguei-me demais ao trabalho e isso acabou restringindo a minha vida pessoal. Negligenciei o meu trato com a família. Tenho que rever as minhas decisões, talvez tardiamente, mas estou começando a rever.”

Tudo na rotina de König mudou. Sozinho, o profissional passa parte do tempo na redação e tenta ocupar as outras horas com atividades como exercícios físicos, dança de salão e idiomas. A medida faz parte da estratégia para fugir da depressão. “Vivo, hoje, sozinho com a minha mente. Quando voltei ao Brasil, precisei tomar remédios para dormir, tive depressão aguda e sentimento de culpa por tudo o que aconteceu com a minha família e comigo. Preciso tomar cuidado para não ser engolido novamente.” O jornalista afirma que, além de estar sempre ocupado, a terapia é grande aliada na aceitação das mudanças.

“Eles sabiam o conteúdo dos e-mails”

König está em busca de uma maneira segura para voltar à reportagem. Para quem vive da profissão, o jornalista aconselha ter cautela. “Sempre achei que o repórter precisa e deve assinar os seus textos. É uma forma de validar a informação e de construir patrimônio. Mas, em alguns casos, isso precisa ser repensado.” O profissional conta que nunca publicou nada sem assinar, mas que, se fosse hoje, jamais teria colocado o nome e a identificação da equipe na reportagem. “Tem que abrir mão da vaidade. Talvez, foi isso que me prejudicou.”

Repórter da Rede Record, Leniza Krauss sofreu represália em junho do ano passado. A profissional investigava, junto com o produtor Lumi Zúnica, também ameaçado, o assassinato de Geralda Guabiraba, caso conhecido como “Pedra da Macumba”. Ambos receberam diversos telefonemas e foram obrigados a deixar o estado de São Paulo. Leniza contou três tentativas de invasão à sua casa. “Foram 40 dias longe daqui, os mais sofridos da minha vida. Tive que me afastar da família. A minha filha, na época com dois anos, teve febre emocional. Ela chamava pela mãe o tempo inteiro e eu não podia voltar.”

Até agora, o caso que Leniza estava apurando não foi resolvido. Tampouco pouco foi descoberto os autores das ameaças. “As represálias para o produtor chegavam pelo telefone da mulher dele. Eu recebia ligações e ameaças no meu celular. Uma vez estávamos no DEIC prestando depoimento e ligaram, simultaneamente, avisando que sabiam que tínhamos buscado ajuda policial.” A jornalista explica que seu computador foi invadido e todos seus passos eram seguidos. “Não era ninguém ‘blefando’, eles sabiam o conteúdo dos e-mails trocados e tudo que conversávamos.”

O coração, a intuição e os cuidados

Por decisão da Record, as apurações foram congeladas. Neste momento, as ameaças cessaram. “Psicologicamente ainda me sinto muito abalada, é algo que por mais que eu queira, ou tente, não passa. A Leniza depois desse episódio é bastante diferente.” Grávida de seu segundo filho, a repórter vê na atual gestação os reflexos do que aconteceu no ano passado. “Estou afastada desde os sete meses de gravidez. Tive pré-eclampsia (doença em que a gestante desenvolve hipertensão). Tenho absoluta certeza de que tudo de ruim durante a minha gestação foi por causa do impacto psicológico que sofri.”

A casa própria de Leniza foi abandonada. A profissional foi obrigada a deixar a residência e, agora, paga aluguel. “Tive que trocar de casa, de bairro, de carro! Tudo para preservar a segurança da minha família.” Embora tenha migrado dentro da emissora para cobrir pautas mais tranquilas, a repórter considera que grandes descobertas jornalísticas promovem reviravoltas em casos que ficariam impunes. “Mas é preciso coragem e até arriscar a própria vida para falar, mostrar e cobrar das autoridades.”

Não fosse pela família, ela afirma que teria se arriscado mais. Aos profissionais que seguem em coberturas de risco, ela aconselha “o mesmo de sempre: ouvir o coração, a intuição e os cuidados. Todos os possíveis e imagináveis”.

Cuidado nunca é demais

Era setembro de 2012 quando a jornalista Monize Taniguti saiu de casa, como de praxe, para buscar, em uma cidade vizinha, a versão impressa da edição semanal de O Jornal. Dona do veículo de comunicação que circula em Guaíra, interior de São Paulo, ela quase não retornou para casa. “Aqui tem muito canavial na estrada. Dois carros me abordaram. Eram três homens, um deles me deu um comprimido para tomar. Em seguida, me levaram.” Depois de longo caminho, os criminosos pediram para que a profissional saísse do automóvel. Ela foi agredida com chutes, socos e tapas no rosto. “Abandonaram-me lá e levaram todos os exemplares do jornal. Meus equipamentos ficaram. Ficou muito claro que eram represálias pelas reportagens que publico.” Na época, ela divulgou série de reportagens com denúncias políticas. A profissional não acredita que a agressão tenha vindo de políticos, mas sim, de militantes.

Como geralmente acontece, o caso de Monize também ficou sem solução. Até o momento, os autores do crime não foram descobertos. Mesmo com diversas denúncias, a jornalista, que estava muito nervosa, afirma que não consegue identificar os homens. À época, ainda muito assustada, a diretora do jornal precisou passar um tempo longe da cidade e da família. “Tinha segurança 24 horas na minha casa. Fiquei com muito medo. Nunca imaginei que isso poderia acontecer.”

Passado quase um ano da agressão, a jornalista conta que se sente fortalecida. “Conheci um lado da minha personalidade que não conhecia. Sempre fui uma pessoa determinada que corria atrás de seus objetivos, mas não imaginava que poderia ser tão corajosa.” Sem paralisar o trabalho no jornal, Monize segue com pautas de denúncia e conta que não ficou traumatizada pela situação. Mas há ressalvas. “Tenho medo do próximo ano eleitoral. Hoje, o que mais me preocupa é a segurança da minha filha, de cinco anos. Tenho receio que, para me atingir, possam fazer algo com ela.” A rotina da jornalista não mudou, mas ganhou cautela e segurança. “Tomo certos cuidados básicos. Reforcei a segurança da minha casa com alarmes e cerca elétrica, e tenho um profissional durante a noite, que vigia a casa do lado de fora.”

Sem planos para deixar a profissão, ela alerta que cuidado nunca é demais e afirma que todo jornalista investigativo “é um pouco louco”. “E acho que tem que ser assim mesmo. O jornalista deve ser ousado, mas precisa ter cautela, paciência e também contar com a sorte. Quem escolhe este tipo de jornalismo sabe que fará inimigos, pois sempre ocorrem denúncias que atingem pessoas poderosas, com dinheiro e disposta a tudo para que seu ‘negócio’ não seja desvendado.”

Dados que refletem a situação brasileira

A história de König, Leniza e Monize é resultado da pouca segurança que existe no Brasil. Em relatório divulgado e elaborado pelo Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) no início deste ano, o país figura entre os dez mais perigosos para profissionais da imprensa. Chamado de “Ataques à Imprensa”, o documento denunciou o “aumento sem precedentes no número de jornalistas assassinados e presos no último ano” e uma “legislação restritiva e censura estatal” que colocam em risco o jornalismo independente. “Os obstáculos no Brasil são, em particular, alarmantes, dada a sua condição de líder regional e sede de uma vasta e diversa rede de meios de comunicação”, afirmou a escritora Karen Phillips, no site do CPJ.

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Nathália Carvalho, do Comunique-se

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