Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > PROFISSÃO PERIGO

Jornalista brasileiro é preso no Cairo

Por Globo.com em 20/08/2013 na edição 760
Reproduzido do Globo.com, 17/8/2013

O jornalista brasileiro Hugo Bachega, colaborador de O GLOBO no Cairo, ficou cerca de sete horas preso, neste sábado [17/8], por policiais egípcios, em meio à crise política no país. Bachega foi detido quando deixava a Praça Ramsés, um dos pontos de conflito no Cairo. Seu táxi foi parado numa barreira policial, e sua máquina fotográfica, apreendida.

De acordo com o representante consular do Brasil no Cairo, Álvaro de Oliveira, Bachega foi detido sob alegação de exercer ilegalmente a atividade profissional no Egito. O Itamaraty chegou a informar sobre o incidente à presidente Dilma Rousseff, que pediu à Chancelaria para entrar em contato com as autoridades locais a fim de acelerar sua soltura.

Repórter com treinamento para coberturas em zonas de conflito, Bachega havia trabalhado para a agência de notícias Reuters. Ele viajou este ano para o Egito com objetivo de estudar a língua árabe e está em processo de obtenção de permissão de trabalho. Do Cairo, passou a atuar como free lancer para empresas de comunicação, como O GLOBO e a Rádio France 2.

– Na saída da Praça Ramsés, o táxi foi parado num posto de controle do Exército. Viram a câmera e me levaram preso, mas fui bem tratado – declarou o repórter, já em casa.

A prisão de Bachega ocorre num momento em que a escalada da repressão do governo interino egípcio contra a Irmandade Muçulmana e simpatizantes do presidente deposto Mohamed Mursi gera tensão para o trabalho da imprensa. Ontem, pelo menos um outro correspondente internacional foi preso e mais dois foram agredidos por manifestantes no Cairo. O repórter Patrick Kingsley, do britânico “The Guardian”, foi detido pela polícia, levado a uma delegacia, e liberado após algumas horas. Foi a segunda detenção do jornalista no mesmo dia, disse o jornal.

Segundo a rede de TV al-Jazeera os repórteres Matt Bradley, do “Wall Street Journal”, e Alastair Beach, do “The Independent”, foram atacados pela multidão que estava do lado de fora da mesquita al-Fath, onde partidários de Mursi se refugiavam desde a madrugada. Os dois foram retirados do local por soldados do Exército e colocados em um veículo blindado. Bradley contou a Adam Makary, um jornalista baseado no Cairo, que estavam sendo bem tratados pelo Exército.

O correspondente David Alandete, do jornal “El País”, disse que as condições no Egito para a imprensa estrangeira estão “muito perigosas”.

Na sexta-feira [16/8], o repórter-fotográfico do jornal “Folha de S. Paulo” Joel Silva foi baleado de raspão na cabeça durante a cobertura de protestos de islamitas na capital do Egito. Desde o início dos confrontos na última quarta-feira, quatro jornalistas morreram.

***

‘Fui o último ser solto, após apagar as fotos’, conta jornalista preso no Cairo

Hubo Bachega # reproduzido do Globo.com, 18/8/2013

Eu já estava distante da Praça Ramsés, no centro do Cairo, onde o tiroteio corria solto em frente à mesquita al-Fath quando fui parado, no táxi, em um dos diversos postos de controle instalados pelo Exército e a polícia nas ruas da capital.

Desde a escalada da violência na quarta-feira, correspondentes trocavam relatos sobre serem perseguidos e alvejados, tanto por forças de segurança quanto por manifestantes. A imprensa tinha virado alvo, acusada de ser favorável aos opositores.

O governo já havia dificultado a emissão da permissão a jornalistas, num sinal claro do novo ambiente à mídia por aqui. Meu visto de residência temporário era o mesmo usado por diversos correspondentes estrangeiros, baseados aqui ou não, trabalhando nas ruas.

Na ação da Mesquita Rabaa al-Adawyia, diversos repórteres contaram ter sido detidos em atividade – um deles descreveu como foi fortemente agredido pela polícia. Outros relataram terem sido cercados e, depois, atacados. Dois jornalistas morreram cobrindo a ação contra a vigília pró-Mursi. As ocorrências se repetiram nos dias seguintes. Na Praça Ramsés, no sábado, sobravam casos de repórteres emboscados pela multidão enfurecida.

Antes de entrar na lista, eu havia combinado de encontrar um grupo de jornalistas e tinha deixado avisado a outros onde estaria e quando retornaria. Com o toque de recolher e meu sumiço, o sinal de alerta acendeu e amigos iniciaram um árduo trabalho de localização.

Nada do que eu carregava escondia minha função de jornalista. Treinado para cobrir conflitos, eu levava na mochila tudo o que se pode precisar em ambientes hostis: kit de primeiros socorros, remédios, energéticos, cereais e máscara, além do habitual – celular, máquina, gravador, blocos de anotações e identificações.

Na delegacia, policiais viam e reviam as fotos. Junto ao meu bloco estavam, por acaso, exercícios da aula de árabe que chamaram a atenção dos agentes – acredito que eles tenham dado risadas ao lerem a tradução de “estou feliz porque encontrarei Yasmin em casa” e outras frases inofensivas.

No corredor, cinco homens vendados e com as mãos atadas estavam no chão, enquanto um policial chutava-os nos pés. Nenhum dos agentes usava uniforme. Todos os relatos sobre a polícia egípcia pareciam fazer sentido.

Mas fui bem atendido. Passadas três das sete horas em que permaneci na delegacia, fui servido de suco e biscoitos. Por vezes, ouvi meu celular tocar antes de ser desligado. Policiais puxavam conversa em árabe e, ao sair, me levaram até um táxi em meio às desertas ruas do centro. Fui o último de um grupo de 15 pessoas, depois de apagar todas as fotos. Mas elas já haviam perdido qualquer importância.

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