Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CADERNO DA CIDADANIA > RESCALDOS DO CASO SNOWDEN

Espiões burros e burros espiões

Por Lúcia Guimarães em 27/08/2013 na edição 761
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 26/8/2013; intertítulos do OI

Quando dizemos “Fulano é um asno”, mais do que colocar a espécie equina sob uma luz negativa, estamos sendo pouco precisos. O asno nada mais é do que um jumento, o Equus asinus, animal resistente que pode ser encontrado em regiões geográficas diversas e se presta também ao insulto universal.

Se uma égua tiver um caso com um jumento (ainda no território da zoologia), o produto desse acasalamento será o burro ou a mula (agora vamos caminhando para o reino das figuras de linguagem). Em inglês, a palavra mule define burro e mula. E define metaforicamente quem transporta algo ilegalmente. Drug mule, por exemplo, é o otário que transporta drogas para o traficante por uma fração dos lucros do chefão e sob risco pessoal multiplicado.

Pois enquanto se espalhava a indignação internacional com a prisão do carioca David Miranda no aeroporto de Heathrow, sob uma lei antiterror que, segundo um dos seus redatores, foi violada, o analista legal da CNN disparou o seguinte comentário:

“Vamos ser bem claros aqui sobre o papel do Senhor Miranda. Não quero ser indelicado, mas ele era uma mula. Ele recebeu algo, não sabia o que era, de uma pessoa para entregar para outra, no aeroporto. Nossas prisões estão lotadas de ‘drug mules’“.

Em minha confusão, podia jurar que tinha ouvido o comentarista relinchar.

Pena de prisão

A poluição sonora produzida pelo extremismo usado para encher a linguiça das horas intermináveis da TV a cabo não surpreende mais. O problema é que o comentarista, Jeffrey Toobin, que não queria “ser indelicado” e conseguiu sê-lo com uma pitada de racismo, trabalha para a estimada revista New Yorker. E, ainda por cima, é um especialista em Direito Constitucional. Se existe um paraíso e Harold Ross, o fundador da New Yorker, está tocando lira com os anjos, espero também que já tenha escrito uma eloquente carta de recomendação para Toobin no purgatório.

Mal o mundo plantou os olhos na cara de nerd de Edward Snowden, em junho, falando naquele vídeo no hotel de Hong Kong, Toobin já tinha feito o diagnóstico de Distúrbio de Personalidade Narcisista sobre o ex-funcionário da CIA. Ou seja, Edward Snowden, que nunca mais mostrou a cara voluntariamente na mídia, revelou seus segredos porque é patologicamente vaidoso. O ataque instantâneo de Toobin nos primeiros momentos do megavazamento do programa de megadados foi mais chapa branca do que qualquer press-release sonhado pelo governo americano.

Como disse um outro comentarista mais ao meu gosto, se uma lei secreta e nunca consentida pelo público americano deu poderes nunca conferidos a um governo democrático, bem, “a lei é um asno”.

Em menos de três meses de revelações, não só as que vieram do material de Edward Snowden no Guardian britânico, mas também em reportagens investigativas de outras organizações, ficou claro até para o governo americano que o obeso gênio da vigilância secreta não vai atravessar de volta o fino gargalo da garrafa da qual escapou.

Ironicamente, uma das revelações que mais expõem os profissionais da NSA, a agência de segurança nacional, aos epítetos equinos, veio da decisão da Casa Branca de levantar o embargo sobre 86 páginas de documentos, na semana passada. Um juiz declarou que a NSA coletou ilegalmente os emails de dezenas de milhares de cidadãos americanos enquanto tentava peneirar as comunicações de estrangeiros.

Os documentos foram liberados porque o presidente Obama disse que não adianta ele dizer para a Michelle que lavou os pratos, precisa mostrar os pratos limpos para ela. Quando ouvi a comparação, tive a distinta impressão de que o presidente me achava meio asinina. Mas não deve ser nada pessoal.

Espere aí, não é pessoal? Ao desviar a atenção da espionagem para pessoas, na pena de prisão sem precedentes aplicada a Chelsea (ex-Bradley) Manning, na campanha de propaganda contra Snowden, e na detenção de um carioca que é tão terrorista quanto eu sou goleira do Fluminense, tem sido útil tornar o debate pessoal.

Posição inaceitável

Agora, até os sentimentos pessoais dos espiões estão feridos. Desde a década de 70, quando Richard Nixon mandou espionar ativistas de direitos civis, a NSA não era tão escorraçada no país. Dizem que os funcionários da NSA se sentem como o personagem de Bill Murray em Groundhog Day (Feitiço do Tempo). Todo dia, quando toca o despertador, estão de volta às manchetes, atropelando os direitos dos americanos.

Depois da prisão de David Miranda, um cavalo de Troia que David Cameron estacionou no gramado da Casa Branca, parece que há uma corrida para a saída de emergência. Obama quer mostrar os pratos limpos no escorredor para o povo americano. Os agentes da NSA querem recuperar seu mojo. Os deputados e senadores que assinaram o cheque em branco para a vigilância se acotovelam para caber no retrato da classe do curso de transparência democrática. Até Jeffrey Toobin escreve para websites tentando em vão explicar por que empacou como um jegue na posição inaceitável para quem se diz jornalista.

Se os animais trocassem insultos, a égua ia xingar o jumento de quê?

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Lúcia Guimarães é colunista do Estado de S.Paulo, em Nova York

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