Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > GUANTÁNAMO

Jornalistas têm conversas grampeadas

Por Patrícia Campos Mello em 27/08/2013 na edição 761
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 21/8/2013; intertítulo do OI

Na sala de imprensa da base naval de Guantánamo, cada repórter tem direito a uma mesa e a um telefone – o que é bastante conveniente, uma vez que nenhum celular americano funciona. Os telefones das mesas, no entanto, são todos grampeados. Pelo menos, o Departamento de Defesa, ao contrário da NSA (Agência de Segurança Nacional), avisa: “Não discuta informações confidenciais – este telefone está sujeito a monitoramento constante. O uso deste telefone implica consentimento com o monitoramento”, diz adesivo nos aparelhos.

A vigilância em Guantánamo é constante. Só existem alguns poucos ângulos autorizados para se tirar fotos. Não se pode incluir mais de duas tendas em fotos ou vídeos, e a imagem não pode mostrar torres de controle, localização da planta de dessalinização ou o tribunal onde ocorre o julgamento. Todas as fotos e os vídeos são examinados por militares americanos, que filtram e editam as imagens.

Os jornalistas precisam assinar um documento dizendo que concordam em cumprir as regras. “As regras são estabelecidas para proteger a segurança operacional, além da integridade das comissões militares”, explica o Pentágono no conjunto de regras. Não se pode andar por Guantánamo sem um “acompanhante” militar – a exceção é para ir a um dos vários restaurantes do local, em geral cadeias de fast food, como McDonald’s e Pizza Hut. Dentro do tribunal, o monitoramento é ainda maior. Não se pode entrar com celular, gravador, câmera, USB ou comida. Só água, papel e caneta.

Banheiros limpos

Já foi pior. Michelle Shephard, repórter do canadense Toronto Star e veterana de coberturas em Guantánamo, conta que repórteres que usavam sutiã com arame eram sujeitas a revista especial. “Eles nos revistavam e levantavam o arame para ter certeza de que não estava solto”, conta. “No mínimo, deviam achar que a gente ia arrancar arame do sutiã e passar para o KSM [Khalid Sheikh Mohammed, o mentor dos atentados de 11 de setembro de 2001] através do vidro duplo do tribunal”, brinca.

Quando ela esteve no local em 2008, os repórteres não podiam levar mais de uma caneta para o tribunal, nem bloquinhos com arame.

Os jornalistas estão restritos entre as barracas, a sala de imprensa e o tribunal. As barracas são muito confortáveis, apesar do ar-condicionado ártico. E há chuveiros e banheiros que, apesar de não apresentarem muita privacidade, são impecavelmente limpos.

******

Patrícia Campos Mello, enviada da Folha de S.Paulo a Guantánamo

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem