Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > VIGILÂNCIA & PRIVACIDADE

Espionagem e história

Por Fernando Rodrigues em 10/09/2013 na edição 763
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 4/9/2013; intertítulo do OI

Quando há casos de espionagem entre governos, sempre me ocorre uma dúvida: se não fosse pelos vazamentos, como os cidadãos teriam acesso a esses dados? Não se trata de defender a espionagem. É só uma constatação. A maioria dos países não tem hoje uma política para se proteger de espionagem e tampouco uma governança eficiente para preservar o que se passa dentro do ambiente do Estado.

Desde o governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), os servidores públicos brasileiros usam mensagens eletrônicas de maneira intensiva. Durante a administração de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), e agora sob Dilma Rousseff, as autoridades passaram a ir além dos e-mails. Já cansei de trocar SMS – os torpedos, via telefone celular – com ministros de Estado. É muito rápido e prático. Mas um aspecto é negligenciado. Não existe uma política oficial de arquivamento desses bilhões de mensagens “.gov”. No passado, havia memorando em papel. Agora, a história do Brasil está sendo redigida em meio eletrônico. Sem preservar esse acervo, historiadores e interessados terão imensa dificuldade no futuro para descrever o que se passou no tempo atual.

Alguns livros têm sido lançados com riqueza de detalhes sobre períodos recentes do Brasil. Um deles é Getúlio, de Lira Neto. Há documentos daquela época, tudo impresso em papel. Não existia internet nem um getulio@gmail.com.

Como arquivar o que se produz na internet?

Neste momento em que há um surto de indignação sobre a espionagem dos Estados Unidos, o governo brasileiro pensa em como evitar tal bisbilhotice. Seria útil também gastar energia a respeito de como arquivar o que se produz em meio eletrônico no âmbito do Estado.

Dilma Rousseff usa cerca de dez contas de e-mails diferentes para preservar a privacidade de seus atos. Muito bem. E quem guarda tudo isso de maneira oficial para a posteridade? Com certeza, ninguém.

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Fernando Rodrigues, da Folha de S.Paulo

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