Sexta-feira, 06 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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CADERNO DA CIDADANIA >

As descobertas da presidente

Por Ligia Martins de Almeida em 08/10/2013 na edição 767

A presidente Dilma Rousseff precisou mandar sua equipe fazer um diagnóstico para descobrir o óbvio: os brasileiros que dependem do SUS querem mais rapidez no agendamento de consultas e um tratamento mais humano. Foi o que publicou o UOL na quarta-feira, (2/10), na cobertura sobre uma visita de Dilma a Maceió.

A imprensa precisou que o governo resolvesse falar do assunto (e justificar a vinda dos médicos cubanos) para dar a mesma notícia que todo mundo está cansado de saber. O pior é que a mídia se limitou a registrar a fala oficial, perdendo a oportunidade fazer um diagnóstico da situação do atendimento médico a quem não pode pagar um plano de saúde.

Dilma afirmou que o programa Mais Médicos surgiu por críticas feitas pela população, não só pela falta de profissionais, mas também pela falta de um atendimento mais humanizado, em que o médico “toque” nos pacientes. Ela disse que é necessária uma mudança no comportamento dos médicos: “Uma das pessoas me disse: ‘O médico não me toca’. Ela queria que o médico a tocasse. Pelo menos o meu médico sempre me apalpou, olhou o coração, a garganta, essa coisa toda. O médico é um elemento essencial”.

É uma pena que seja preciso mandar fazer um diagnóstico para que a presidente do país fique sabendo como é o atendimento no SUS. Uma falha até da imprensa, que teria obrigação de acompanhar esse serviço público. Nada muito diferente, aliás, do atendimento de alguns planos de saúde: demora para as consultas, médicos que não examinam os pacientes e diagnósticos protocolares feitos só depois de exames de laboratório. Essa é a realidade da maioria dos planos de saúde. A diferença é que se o problema é com planos pagos, a mídia acaba se sensibilizando e discute o assunto.

Acesso universal

Prova disso é que no mesmo dia que a presidente Dilma Rousseff relatava suas descobertas sobre os anseios dos clientes do SUS, a Globo News e O Estado de S.Paulo noticiavam (com destaque) os problemas enfrentados pelos clientes da Golden Cross, comprada pela Unimed Rio. Segundo o Estadão

“…clientes de planos individuais ou familiares da Golden Cross enfrentam dificuldades nos primeiros dias de atendimento pelo Sistema Nacional Unimed. Desde o dia 1º, a Unimed Rio assumiu em todo o País a carteira de 160 mil beneficiários da Golden Cross, que manteve o atendimento somente para clientes empresariais. A Comissão de Defesa do Consumidor da Assembleia Legislativa do Rio ingressou com ação civil pública para garantir que a rede hospitalar e médica do antigo plano seja assumida pela nova operadora. As queixas dos consumidores vão da falta da carteirinha, o que dificulta a consulta da rede referenciada no site, à recusa de atendimento por médicos e hospitais”.

A Globo News mostrou uma cliente que paga mais de mil reais por mês ao plano de saúde, foi impedida de fazer exames de sangue e acabou gastando mais de 300 reais para resolver o problema. O que nem o jornal nem a TV disseram é que os clientes do SUS também enfrentam esse tipo de problema e não raro, quando a doença é grave, são obrigados a pagar por seus exames – que podem demorar meses até a sua realização.

Embora a presidente afirme que o programa Mais Médicos vai contemplar “quem mais precisa e isso vai significar [é o que ela espera] um tratamento mais humano”, é difícil acreditar que, num passe de mágica, a importação de profissionais seja capaz de mudar uma situação e uma mentalidade tão arraigadas. Mesmo que consigam um atendimento mais humanizado e eficiente, os pacientes do SUS vão continuar enfrentando filas para obter um exame que, às vezes, é fundamental para dar prosseguimento a um tratamento.

A verdade é que aquele médico de antigamente, que conhecia a história do paciente, sabia reconhecer uma doença pelo sintoma e não tinha medo de receitar sem achar que corria o risco de ser processado, é hoje uma raridade reservada a poucos privilegiados, entre os quais devem estar incluídas pessoas como a presidente da República ou o ex-presidente que teve sua doença diagnosticada – e tratada – num prazo recorde. Esse tratamento – a que todos deveriam ter acesso – parece um sonho muito distante.

O governo tem que fazer a sua parte, mas a mídia também precisa ajudar, seja falando do SUS, seja discutindo a situação dos planos de saúde ou até dos grandes hospitais do país. Questionar a vinda de médicos cubanos para o Brasil é ficar na superfície de um problema muito, mas muito mais profundo.

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Ligia Martins de Almeida é jornalista

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