Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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CADERNO DA CIDADANIA >

Em defesa das biografias

Por Ubiratan Brasil em 15/10/2013 na edição 768

Convidado para fazer uma palestra a respeito de biografias no estande brasileiro da Feira do Livro de Frankfurt, Laurentino Gomes acreditava que aquele seria um debate como vários outros. “Mas as notícias que chegam do Brasil, no entanto, fizeram com que eu mudasse de ideia e, ao invés de falar sobre meus livros, decidi tratar da ameaça que os biógrafos sofremos agora”, disse.

De fato, com o surgimento de um grupo chamado Procure Saber, a discussão se polarizou. De um lado, o Procure Saber, pilotado pela empresária Paula Lavigne e formado por músicos como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil e que lutam contra a modificação no Código Civil, ou seja, que continue sob vigilância qualquer tentativa de se biografar alguma personalidade sem prévia autorização.

De outro, o grupo dos biógrafos, formado por Fernando Morais, Ruy Castro, Lira Neto, Paulo César de Oliveira e o próprio Laurentino Gomes que, apesar de não organizados sob uma mesma entidade, defendem o pleno direito de se escrever sobre a vida pública de personalidades.

Anos de chumbo

“O Brasil é hoje um dos raros casos de país democrático que impõem dificuldade ou mesmo censura ao trabalho dos biógrafos”, disse Gomes. “Essa situação ameaça transformar o Brasil no paraíso da biografia chapa-branca, aquela que só é publicada mediante autorização prévia.”

O escritor, que recentemente publicou o livro 1889, disse ter ficado chocado ao descobrir o apoio daqueles músicos à bancada evangélica do Congresso para impedir a aprovação de um projeto de lei que modifique o artigo 20 do Código Civil, que confere à Justiça beneficiar qualquer pessoa que se julgue prejudicada ou ameaçada por uma biografia.

“Proibir ou dificultar a produção de biografias é engessar a História e tirar dela o seu componente mais encantador: a complexidade e a incerteza que envolve seus personagens, alvos permanentes de novas descobertas e interpretações”, disse o biógrafo, que apoiou o movimento dos músicos por mudanças no regimento de direitos autorais, ainda que isso implicasse em tirar fotos com políticos e “dar tapinhas nas costas do deputado Renan Calheiros”.

“Paula Lavigne afirma querer a verdade, mas, é preciso lembrar, também os militares diziam isso, nos anos de chumbo, para justificar seus atos.” Procurada pelo Estado, Paula Lavigne pediu para responder por e-mail a perguntas da reportagem, mas não enviou as respostas até o fechamento desta edição. (Colaborou Roberta Pennafort)

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Ubiratan Brasil, do Estado de S.Paulo, em Frankfurt

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