Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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CADERNO DA CIDADANIA >

Sem autorização, livro sobre Caetano acabou engavetado

Por Juliana Gragnani, Marco Aurélio Canôn em 22/10/2013 na edição 769

Muito antes de entrar no debate sobre biografias não autorizadas, Caetano Veloso já havia barrado uma pesquisa de sete anos sobre sua vida feita com seu conhecimento e a princípio com seu aval.

O caso ocorreu em 2004. Antes da desistência, a editora que publicaria a obra, Objetiva, elaborou um contrato com cláusulas exigidas pelo escritório que representa o músico. Uma era a participação nas vendas, reivindicação do grupo Procure Saber, que Caetano integra hoje.

O trabalho foi realizado de 1997 a 2004 pelo compositor e poeta Carlos Eduardo Drummond, 42, e pelo funcionário público Marcio Nolasco, 44, cuja mãe é próxima de Rodrigo Velloso, irmão de Caetano.

Com a pesquisa avançada, a dupla contatou a Objetiva, que lhes pediu aval do biografado. Em 2001, levaram carta que teria sido escrita pelo cantor. “Como não se trata de biografia encomendada ou combinada de antemão, tenho ciência apenas de que os dois rapazes vêm entrevistando as pessoas […] nos termos adequados”, diz o texto.

A situação mudou em 2004, quando a editora buscou a autorização do escritório que representa Caetano, então comandado por Conceição Lopes e Paula Lavigne, ex-mulher e empresária do cantor.

Além da participação nos direitos autorais da obra, o escritório exigiu a retirada de cláusula que permitia a adaptação do livro ao cinema. Editora e autores aceitaram.

Pelo contrato, Caetano levaria 5% dos direitos autorais. Cada autor ficaria com 2,5%, metade do estipulado a princípio. Outros 2,5% iriam para a jornalista Ana Maria Bahiana, que faria a redação final. Ela só confirma ter sido chamada para o projeto.

Em 2004, com o contrato prestes a ser assinado, Drummond recebeu uma ligação de Isa Pessoa, então diretora editorial da Objetiva, avisando que Caetano desistira do projeto. Não se soube a razão.

A editora, então, renunciou à publicação. Para Roberto Feith, sócio da Objetiva, ela tornara-se “inviável”. “A chance de um processo seria alta”, diz. Um ano antes, entrara em vigor o Código Civil, com os artigos que exigem a autorização do retratado ou dos herdeiros para biografias.

Sem fofocas

“Não era uma biografia chapa-branca, mas também não era de fofocas. Era minuciosa”, diz Drummond. Ele e Nolasco dizem ter feito 103 entrevistas e viajado com recursos próprios. Depois, receberam R$ 20 mil de adiantamento da editora, valor que a casa não pediu de volta.

Das pessoas próximas a Caetano, Paula foi a única que não falou com os autores. “Não havia histórias que denegrissem a imagem deles, não queríamos motivos para bloqueios”, diz Nolasco.

A dupla diz que Caetano corrigiu “detalhes” e comentou o estilo do texto. “A postura dele era de que a obra era nossa”, diz Drummond. A editora, porém, quis convidar um escritor “mais qualificado”, segundo Feith, para “dar forma à pesquisa”. “O trabalho era admirável, mas o texto não era bom”, diz.

Antes de aceitar Ana Maria Bahiana, Caetano, segundo os autores, sugeriu o nome do poeta Eucanaã Ferraz, seu amigo, que recusou. “Disse ao Caetano que a publicação não valia a pena, não pela pesquisa, mas pela qualidade do texto”, afirma Ferraz.

Conceição Lopes diz não se lembrar da história. A Folha enviou e-mails a Paula Lavigne, Caetano e à assessoria do cantor, sem resposta até o início da tarde de ontem. Por telefone, a assessoria disse estar ciente das questões.

Na casa de Drummond, na zona norte do Rio, a Folha viu e-mails da editora, a minuta do contrato e a carta creditada a Caetano. “Documentos […] a que tiveram acesso me surpreenderam e emocionaram. Isso anima-me a encorajar a continuação da pesquisa”, teria escrito ele.

O material que sensibilizou o baiano, dizem os autores, incluía cartas, fotos e um caderno com desenhos de 1961 e 1962, em que ilustrou rostos femininos, como o de Maysa.

“Engavetamos um livro que lançaria luz sobre os primeiros anos de Caetano. Falamos com gente que não está mais viva, como dona Canô [mãe do cantor]. Se fizerem outra biografia, essa parte da história terá sido perdida”, afirma Drummond.

Ele nunca mais ofereceu o projeto a ninguém. “As editoras não bancariam uma disputa em favor de dois desconhecidos. Era uma briga desproporcional.”

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Juliana Gragnani, Marco Aurélio Canônico e Raquel Cozer, da Folha de S.Paulo

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