Quarta-feira, 20 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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CADERNO DA CIDADANIA >

Corporação defende filão

Por Silvia Chiabai em 29/10/2013 na edição 770

Concordo com Carlos Brickmann, de que o que considero verdadeira campanha difamatória promovida pela mídia contra Chico Buarque, por sua posição a favor das biografias autorizadas, se configure “patrulhamento ideológico” (ver aqui). Mas há outras razões para isto. As biografias são um reduto de trabalho para jornalistas de todos os setores e matizes. Dependendo da popularidade do biografado ou do escândalo que suscite, um livro pode, sim, conferir bons lucros ao autor, principalmente se este vier a vender os direitos para adaptação em TV ou cinema (média de R$150 mil, segundo consta). E pode trazer o que todo arrivista sonha, que é a mesma fama de seu objeto de pesquisa. O que motiva a fixação de Ruy Castro e de sua companheira de copo Barbara Gancia (a que acha, como Obama, que “não existe privacidade”) na perna mecânica de Roberto Carlos? Palpite: ciúme da condição de ídolo popular e uma tentativa canhestra de desmitificá-lo, Acaso uma biografia só é motivada por nobres intenções?

A visão romântica do biógrafo não é partilhada pela poeta Alice Ruiz, viúva de Paulo Leminsky, em relação ao escritor Domingos Pellegrini. Ela citou textualmente a “disputa ferrenha de egos” entre Pellegrini e Leminsky para justificar a imagem destrutiva da biografia que o antigo amigo faz do poeta curitibano. E citou exemplo: o despojamento em que vivia a família, fruto da contracultura, é descrito, na pesquisa que afinal foi postada na internet por Pellegrini, como miséria existencial.

Sim, é humanamente possível que um escritor-seis-Jabutis tenha inveja de um poeta consagrado e morto. Há muito desse elemento (inveja) no massacre aos ídolos da MPB que querem ver sua privacidade respeitada nas biografias no Brasil, já que por aqui a Justiça é lenta demais em punir difamadores. Repare que há um contexto na reivindicação, mas os jornalistas, corporativamente, relevam esse dado e, tal como percebeu Caetano Veloso, deixam falar o complexo de vira-latas e se inspiram na situação dos Estados Unidos, paraíso das biografias e da devassa da intimidade de celebridades (mas onde a punição aos excessos é rápida e exemplar).

Fofocas e frivolidades

Foi ridícula a atuação de Bárbara Gancia no Saia Justa, respondendo à complexidade da questão (direito à privacidade versus liberdade de expressão) com palavras de ordem (“é proibido proibir”; “você está tentando acabar com as biografias”) e à presença luminosa de Paula Lavigne. Caetano tem razão, Paula deu vida a um programa que é muito melhor na sua versão masculina (uma temporada de exceção, infelizmente), e poderia ter desmontado esses clichês com um simples argumento: “terrorismo e linchamentos são liberdade de expressão em sua plenitude”. E a especificidade das vidas dos artistas em relação a outras categorias poderia ser resolvida à luz de uma Justiça eficiente, que julgasse caso a caso: afinal, todos concordam que a proibição do livro do assassino de Daniela Peres foi procedente; então como evocar o artigo “todos são iguais perante a lei?”

O Código Civil opõe jornalistas e artistas: aqueles achando que o artigo 20 protege das biografias reveladoras as figuras canalhas, estes querendo que a lei os defenda dos jornalistas canalhas. Por enquanto não é dada aos artistas a opção entre encontrar um repórter honesto ou um abutre.

Uma categoria encantada com o mundo exibicionista das redes sociais não se preocupa com a privacidade, onde tudo é foto de férias e festas e em que todos abrem mão dela espontaneamente. Querem o direito de vasculhar a vida íntima de quem quer que seja sem se preocupar com danos emocionais, mesmo que para isto tenham que dar voz a inimigos de mortos e alimentar o prazer perverso por fofocas e frivolidades dos fãs de reality shows. Jornalistas estão nessa questão ao lado dos editores, claro, agindo como uma corporação, defendendo o filão.

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Silvia Chiabai é jornalista

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