Sábado, 23 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1025
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CADERNO DA CIDADANIA >

Estado brasileiro se retrata perante cineasta

Por Luiz Martins da Silva em 05/11/2013 na edição 771

O Ministério da Justiça inaugurou uma sala de projeção cinematográfica no Departamento de Classificação, Títulos e Qualificação com o nome do cineasta Vladimir Carvalho e nela foi realizada uma sessão especial para que fosse exibido o documentário O País de São Saruê (1971), interditado pelo regime militar por quase nove anos. Antes dessa projeção inaugural, o secretário-geral do Ministério, Paulo Abraão, presidiu a solenidade de descerramento de uma placa alusiva à homenagem, e afirmou em seu pronunciamento que essa era uma forma de o Estado brasileiro se retratar perante um dos artistas brasileiros mais atingidos pela antiga censura.

Abraão afirmou que reverenciar o nome de Vladimir Carvalho é uma maneira de demonstrar que a sociedade brasileira evoluiu e que é capaz de praticar democracia no mesmo lugar onde no passado foram adotados procedimentos antidemocráticos. O filme do professor aposentado da Universidade de Brasília, como puderam constatar os poucos convidados para a sessão especial de sua exibição, não contém uma única cena de proselitismo ou confronto ao regime militar pós-64. Àquela época, tampouco foram revelados ao cineasta os motivos pelos quais O País de São Saruê tornou-se uma das obras que mais tempo ficou nas “gavetas” da censura federal (até 1979). A obra mostra, de fato, em preto e branco, as condições desumanas em que viviam trabalhadores do interior da Paraíba, terra natal de Vladimir.

Trabalho coletivo

Como já teve oportunidade de relatar em depoimentos, Vladimir conta que certa vez um censor lhe disse que o problema é que o filme mostrava “um Brasil descalço” e que isso prejudicaria a imagem do Brasil no exterior. Um outro funcionário do extinto Departamento de Censura da Polícia Federal chegou a lhe dar uma “dica” para o documentário ser liberado: incluir-se no filme um trecho de um discurso feito pelo então presidente Emílio Médici. A miséria do Nordeste brasileiro, no entanto, não passou despercebida do ex-presidente, pois ele próprio afirmou ao visitar a região: “A economia vai bem, mas o povo vai mal”.

Na solenidade, o diretor do Departamento de Classificação, Títulos e Qualificação, Ulisses Brasil Simões Pires, também usou da palavra, tanto para realçar os méritos da longa trajetória do homenageado, quanto para informar que o Espaço de Projeção Vladimir Carvalho vai representar um diferencial muito importante no trabalho da equipe do ministério, encarregada de visionar filmes e classificá-los (de acordo com as adequações com relação a faixas de idade e horários). Com instalações próprias, que incluem projeção em HD-3D, o Departamento não dependerá mais de salas comerciais da cidade para o exame de parte dos filmes enviados ao ministério.

O homenageado afirmou que poucas vezes em sua vida experimentou tanta emoção, ainda mais que fora convidado a ir ao Ministério da Justiça sem que lhe fosse revelado o objetivo do convite. Disse que recebia a distinção com humildade e muito mais como um reconhecimento ao trabalho coletivo dos cineastas brasileiros do que propriamente como um mérito pessoal. Vladimir Carvalho (Itabaiana31 de janeiro de 1935) é detentor de um longo verbete na Wikipedia e sua filmografia (mais de 20 títulos) se estende de 1962 (Romeiros da Guia) a 2011 (Rock Brasília: a era de ouro).

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Luiz Martins da Silva é jornalista e professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, onde foi aluno de Vladimir Carvalho, na década de 1970

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