Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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Por Ligia Martins de Almeida em 10/12/2013 na edição 776

Notícias como a que foi publicada na edição de domingo (8/12) da Folha de S.Paulo chocam tanto pelo tema (“Quadrilha de exploração sexual orientava adolescentes sobre roupas e truques) como pela naturalidade com que assuntos desse tipo são tratados pela mídia.

O abuso sexual e a exploração de menores (preços variando de 300 reais a 2.200 reais, se a menina fosse virgem) entram na pauta apenas como mais uma matéria policial, quando deveriam ser motivo de revolta, campanha, um escândalo, enfim, a ser escancarado não apenas pela Folha, mas por todos os jornais do pais. Ou será que o abuso de crianças, quando acontece numa capital distante do centro do país – Manaus (AM), no caso –, é encarado pela mídia como uma coisa normal?

Tão chocante quanto a descrição dos métodos usados pelos bandidos é o fato de até hoje (um ano depois de iniciadas as investigações policiais) ninguém ter sido preso. A matéria da Folha diz:

“Quando a ação policial foi deflagrada, em novembro do ano passado, 20 pessoas foram indiciadas sob suspeita de corrupção de menores, favorecimento da prostituição, rufianismo (obtenção de lucro através de exploração sexual) e, em alguns casos, estupro de vulnerável. O Ministério Público ofereceu denúncia. Mas a Justiça, um ano depois, ainda analisa se abrirá processo e reconhece que a investigação anda a passos lentos”.

Por que ninguém foi preso? A explicação foi dada ao jornal pelo desembargador Rafael Romando, relator do caso no Tribunal de Justiça do Amazonas:

“O processo já passou por alguns relatores. Passa de um para outro, que diz que não quer. Tem muita gente conhecida, de colégio, deputado, tinha prefeito. Província, né? Continua a província”.

Inibir o crime

Diz mais, a Folha:

“No final de 2012, Polícia Civil e Ministério Público estavam na fase final das investigações quando, via ação judicial, um dos suspeitos teve acesso ao teor da operação. Foi então que policiais e promotores aceleraram e desencadearam a operação Estocolmo, com 46 mandados de busca e apreensão. À época, dez agenciadores foram presos, mas logo liberados.”

Até hoje, 20 suspeitos continuam em liberdade e suas 31 vítimas – 12 delas menores de idade – esperando que a justiça seja feita.

Mas, com a lentidão da Justiça e o descaso da mídia, o caso pode se arrastar por anos, incentivando aliciadores de menores a agir sem medo de punição, desde que os seus clientes sejam, como disse o promotor, “gente conhecida”.

A prostituição de menores, ao que tudo indica, não é um crime capaz de comover e mobilizar a imprensa. Quando um promotor de Justiça explica a demora em punir os culpados dizendo que é um problema de provincianismo, a gente se dá conta da verdadeira tragédia que é a impunidade.

Enquanto as 31 vítimas aguardam a punição dos culpados, é muito provável que os aliciadores continuem recrutando novas meninas para satisfazer sua clientela. Afinal, eles sabem que estão acima da lei e que vão continuar sendo bem vistos até pela mídia que não tem acesso aos seus nomes, já que o processo corre “em segredo de Justiça”.

Se a mídia insistisse em discutir o assunto, mostrasse o que acontece com quem pratica esse tipo de crime, talvez aliciadores e usuários de seus serviços se sentissem menos seguros para praticar seus delitos. Seria uma tentativa de ajudar a diminuir o abuso sexual de menores.

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Ligia Martins de Almeida é jornalista

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