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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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CADERNO DA CIDADANIA > CASO RACHEL SHEHERAZADE

A liberdade de opinião exacerbada

Por Alex Contin em 11/02/2014 na edição 785

A discussão surgiu de uma postagem no Facebook sobre o caso da âncora do Jornal do SBT, Rachel Sheherazade, e a opinião emitida por ela a respeito do “marginalzinho amarrado ao poste” e os justiceiros que fizeram tal ato. Há uma petição online contra a jornalista e foi justamente a partir do compartilhamento dessa petição que a discussão se iniciou.

Um dos meus contatos estava indignado pela reação contra a jornalista lembrando que na época das manifestações de junho de 2013 ela tinha sido aplaudida de pé por ter se mostrado “muito guerreira, destemida e corajosa, por falar abertamente da realidade pobre da política brasileira”, segundo ele. A indignação dele era vê-la sendo “achincalhada” por ter cometido um erro.

O problema dela, contudo, é que não foi um único erro. As opiniões dela vêm incomodando há um certo tempo já. A opinião é livre, mas na posição em que a jornalista está essa liberdade é carregada por uma responsabilidade enorme, ainda mais com o público que o Jornal do SBT atinge. Muita gente ainda confere aos jornalistas a voz da verdade e da sabedoria, principalmente aquelas pessoas que não têm tanto estudo pra enxergar os interesses e o jogo de poder que estão por de trás dessas manifestações que Rachel emite. O texto pode nem ser dela, tornando-a um bode expiatório dos editores do jornal, mas quando ela abre a boca toma a autoria da fala pra si e parece não pensar nem um pouco nas consequências que essas palavras podem ter para os telespectadores. Este é, pra mim, o real problema.

Bolsa Família e a educação

A liberdade de opinião às vezes dá uma dessas: “As pessoas são tão expostas como são, e se acham cada vez mais no direito de julgar e conjugar os verbos”, como esse contato disse. No fundo eu acho que o problema é a falta de consideração sobre o que se está falando. A maioria esquece que tem dois ouvidos e uma boca e, infelizmente, cada vez mais estão perdendo a capacidade de pensar e refletir sobre o mundo. E quer exemplo mais claro disso que as próprias palavras da jornalista: “Ficha mais suja que pau de galinheiro”? Além do péssimo gosto para metáforas, o uso do conhecimento popular mostra que a linguagem está direcionada para um público específico. É justamente aí que mora o perigo nessa história da Rachel. Imagina uma mãe de família que, por uma injustiça social, não conseguiu terminar nem o ensino fundamental ouvindo essa mulher falar. Assim como o BBB, no dia seguinte o assunto da rodinha de amigas vai ser as palavras da Rachel.

A opinião é um assunto tão complicado que tem telejornais que sequer usam ancoras mais. Na contramão, os jornais da TV Cultura se abstêm de colocar um âncora e levam acadêmicos e estudiosos pra comentar as notícias. É um modelo excelente uma vez que eles colocam quem realmente estuda os assuntos a fundo e têm propriedade pra dar uma opinião concreta. Jornalistas, geralmente, não têm essa capacidade porque saem da graduação tão despreparados quanto um adolescente sai do ensino médio e que se vê forçado a escolher uma carreira a todo custo. É preciso anos de estudo, de profissão e de profissionalismo pra emitir uma opinião concreta e sólida. E acima disso, é preciso inteligência e discernimento para pensar na reação que as palavras terão junto ao público.

A opinião da jornalista representa, de certa forma, uma parte da população: a “classe média que sofre”. São aquelas pessoas que só enxergam problemas no Brasil e não conseguem ver que nossos problemas sociais e econômicos são causados, também, por nós mesmos, quando nos abstemos de lutar por um país com menor desigualdade. O governo pode até ter criado os “usurpadores”, como meu contato se referiu aos beneficiários de programas sociais, quando fez o Bolsa Família e as infinitas bolsas. Todo sistema tem suas falhas, mas de que outra forma seria possível reduzir a pobreza e diminuir a distribuição de renda que existe no país? O Bolsa Família, por exemplo, tem uma contrapartida na educação. A educação, infelizmente, ainda está engatinhando depois dos tombos que levou por conta das reformas passadas. Mas vai ser só por meio dela que vamos conseguir sair da condição que estamos e tentar caminhar com passos um pouco mais largos.

Palavras carregadas

Aí é que entram os jogos de interesse. Qual o interesse que os mais ricos têm de dar educação para a população? Pra quê fazer a massa pensar e raciocinar e abrir mão da política do pão e circo que está aí há séculos, desde que Portugal resolveu trazer as caravelas e despejar o instinto contra o trabalho e disseminar esse paternalismo exacerbado que só enxerga os interesses políticos com o custo de um jeitinho abrasileirado? É uma herança que temos e uma condição do capitalismo que ainda marca essa injustiça social. Karl Marx em O Capital, livro 1, já retratou a falta de interesse em fornecer educação para a população e mostrou como os trabalhadores daquela época eram explorados pelos capitalistas. O que mudou desde então quando o tema é educação?

Agora, sobre o caso do “marginalzinho”, quem prova que ele tinha feito algo realmente? Se fez, quem tem o direito de tomar o poder nas mãos e prender o indivíduo num poste com a trava de bicicletas? É realmente um ato desumano o que fizeram com ele. Nesse sentido, por que as palavra dela não foram em defesa da educação neste país ou de melhora no sistema carcerário? Fornecer ensino nos presídios e programas de capacitação no lugar de deixar mil presos numa cela pequena aprendendo ainda mais a como ser um bandido pode ser uma solução e uma causa para a campanha lançada no telejornal “Adote um bandido e dê a ele a oportunidade de estudar e tentar ser alguém”. Ai entram os defensores da “classe média sofre” e pensam no dinheiro público gasto com “marginais”. Contudo se esquecem que esse problema não é do indivíduo, mas sim da sociedade.

As palavras da jornalista, no entanto, foram carregadas de preconceito, esse preconceito “classe média sofre” porque um marginalzinho na rua vai roubar o iPhone dela para comprar drogas, uma vez que foi excluído da sociedade e da possibilidade de estudar e conseguir dinheiro por meios legais e dignos. As drogas e a violência é um problema social com uma solução a conta gotas, ficar propagando o preconceito e discriminação de classes da forma como ela e o SBT fizeram não vai ajudar em nada.

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Alex Contin é jornalista

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