Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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CADERNO DA CIDADANIA > MÍDIA & PRECONCEITO

A imprensa esportiva racista do Peru

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 18/02/2014 na edição 786

O comportamento selvagem e racista da torcida do Real Garcilaso contra o volante Tinga, do Cruzeiro, na Copa Libertadores, deixou todos indignados e surpresos. Mas isso não é novidade no Peru. O site Superesportes, dos Diários Associados (13/2) revelou que os peruanos costumam chamar seus vizinhos equatorianos de monitos (macaquinhos). A revista afirmou que a imprensa esportiva do país é a maior incentivadora do racismo no futebol:

“No ano passado, antes da partida decisiva pelas eliminatórias entre Peru e Equador, em Lima, os termos mono e monito ganharam manchetes dos jornais esportivos peruanos durante dias seguidos. Revoltada, a mídia equatoriana se queixou de racismo.”

O Superesportes trouxe alguns exemplos:

** O jornal Depor usou como manchete em 2013, durante as eliminatórias da Copa: “Para freir monos”. Tradução: Para fritar macacos;

** O diário de esportes Líbero provocou: “Que los monitos traigan canasta para los goles”. Tradução: “Que os macaquinhos tragam cesta para os gols”;

** O jornal popular Ajá publicou em 2013 (15/09): “Blanquirroja sale a domar monos en la altura de Quito”. Tradução: “Alvirrubra sai a domar macacos na altitude de Quito” (o periódico fazia referência às cores do uniforme da seleção peruana: o vermelho e o branco).

O portal esportivo de Minas Gerais destacou que o caso de Tinga não foi fato isolado na imprensa peruana. Mas algo me intriga: racismo no Peru? Bolívia e Peru são os dois países onde a maior parte da população é indígena, diz a publicação da CIA The World Factbook. Mas desde quando a CIA é uma boa fonte? Eles se atrapalham até para informar o próprio país. Eles também apuraram que apenas 6,2% dos brasileiros são negros. Boa piada, péssima estatística. Por isso procurei outra fonte.

Didi, o etíope

Encontrei uma muito melhor, e que compara o grau de contribuição de cada grupo na composição étnica dos dois países: a tese de doutoramento de Neide Maria de Oliveira Sobrinho (2008), da Universidade de Brasília, mostra que no Peru os europeus entram com 15% de participação na composição genética da população, os ameríndios com 73% e os brancos com 12%. O Equador tem 31% de influência genética de brancos em sua população, 64% de ameríndios e 4,4% africanos.

Os dois povos são mestiços de forma diferente: o Peru teve maior influência africana que o Equador. Que tem menos influência indígena e quase o dobro de contribuição europeia na composição genética nacional. Os dois povos são mestiços, mas comportam-se de maneira diferente. Os equatorianos nunca demonstraram brutalidade e racismo como os peruanos que imitaram macacos para humilhar Tinga. Os peruanos racistas são uma contradição: são rechaçados na Europa e Estados Unidos por serem escuros. Por não serem brancos. A população peruana é de extrema diversidade. Por outro lado, este é um questionamento tolo: a História prova que mestiços podem ser tão racistas como qualquer povo. No Egito antigo, escravos africanos da Núbia (Sudão) eram comuns. Eram vistos como bárbaros e impiedosamente subjugados por seus senhores mestiços ao norte.

Em 2009, o blog de esportes Cacellain – que pretende ser a “Enciclopédia do futebol na internet” – publicou o seguinte título sobre a seleção peruana de 1970 (05/04): “Guerreiros incas liderados por um etíope”. Há uma dupla dose de racismo nesse título. Em primeiro lugar, eu não sabia que o nosso Didi veio da Etiópia. Chamar o genial inventor da “folha-seca” de etíope é agir como os colonizadores europeus que dividiram as etnias africanas de acordo com seus próprios moldes raciais: os “negros nilóticos” (etíopes, núbios, somalis e os tutsis de Ruanda) têm feições mais finas e foram considerados ‘superiores’ a outras etnias menos assemelhadas ao padrão europeu.

Racismo nas arquibancadas

A divisão étnica trazida da Europa gerou ressentimento duradouro e desaguou no massacre de Ruanda em 1994. Mas era ano de Copa do Mundo, havia guerra na Bósnia e ninguém prestou muita atenção no que acontecia em África. Além disso, um peruano comum contemporâneo pouco tem de inca. Alguns ainda exibem o típico nariz daquela gente que invadiu o Peru. Certos elementos da cultura inca sobreviveram até hoje, mas isso é tudo. A atual situação da maioria indígena envergonha a grandeza das antigas civilizações que habitaram aquela parte do continente sul-americano no passado.

O racismo no Peru vai além do futebol. A Universidad del Pacifico publicou um ensaio onde 39% dos entrevistados declararam sentir-se discriminados por raça no Peru. Há um problema racial naquele país. Muita gente prefere identificar-se com espanhóis e mestiços e discriminar a minoria negra. Eles querem de modo patético projetar uma imagem ‘branca’ para o mundo. Brancos e negros são minoria no Peru. Que persiste no racismo além das quatro linhas há muito tempo. Não há mais lugar no mundo para esse tipo de comportamento. Como já disse antes, um povo mestiço pode ser tão racista ou mais que outras etnias menos mestiçadas. Porque as populações do planeta não são homogêneas, do ponto de vista étnico. Até na Dinamarca encontramos sinais de diversidade genética no DNA da população.

A imprensa esportiva racista do Peru é uma vergonha para o país e o mundo. Mas serve para derrubar alguns mitos e levantar algumas incômodas questões. Como aquela que dizia não haver problema racial na América do Sul. Ou racismo no futebol brasileiro. Ele existe, sim, e tem que ser denunciado. Pode não acontecer nas nossas maiores metrópoles, mas em certas regiões do Brasil o racismo ainda está presente nas arquibancadas.

Jornalismo vulgar

Tinga já foi vítima de racismo no Rio Grande do Sul. E o meia Zé Roberto também. Nada aconteceu em jogos internacionais. O mundo não viu, mas em 2012 o portal Terra Esportes publicou sua triste história (28/01): “Em entrevista durante a apresentação no Bahia, nesta semana, o meia Zé Roberto disse que deixou o Internacional, time com o qual tinha contrato até 2013, porque seu filho foi vítima de racismo na escola. ‘Eu não gosto nem de falar muito sobre isso. Mexeu muito comigo, com a família. Foi o que mais fez com que eu deixasse o Inter’, confessou. Na final do Campeonato Gaúcho de 2011, o jogador foi alvo de outra manifestação racista, quando a torcida gremista imitou o som de macacos ao ouvir o seu nome durante uma substituição.”

Incômodo, não? Mas verdadeiro. A mídia publicou, mas não houve indignação suficiente. Foi um fato trágico. Virou notícia e como tal foi esquecida em pouco tempo. Não estou a comparar a imprensa esportiva brasileira com a peruana, e nem estou a dizer que todos os peruanos são racistas. Isso seria uma generalização inaceitável. Minha crítica aponta para a imprensa esportiva popular peruana. Que é racista e alimenta o ódio na população mais humilde. Nossa mídia esportiva já baniu o racismo há algum tempo.

No Peru a imprensa esportiva incentiva o povo ao racismo e o governo nunca se importou com a população de origem africana. Até o atual governo de Ollanta Humala. Que criou o Ministério da Interculturalidade para atender demandas de populações indígenas e afro-americanas. O órgão é muito pequeno, conta com apenas dois funcionários e tem encontrado dificuldades em enfrentar o problema do racismo no Peru. O Guardian de Londres, em 2012 (12/06) publicou matéria sobre o assunto. Na reportagem, Rocío Muñoz, um dos dois membros do micro-ministério, explicou:

“Países vizinhos tem feito avanços muito maiores que o Peru”, disse Muñoz. “Bolívia, Brasil, Equador e Colômbia reconhecem suas populações afrodescendentes dentro de suas Constituições e têm dedicado políticas para seu desenvolvimento, algo que o Peru ainda tem que fazer”.

O diário inglês deu voz ao ativista peruano Jorge Ramírez, que declarou: “As pessoas precisam entender que nós não sabemos apenas dançar ou tocar instrumentos musicais; também podemos pensar e ocupar cargos importantes”, disse um impaciente Ramírez com a ação concreta a ser tomada. “Por anos estivemos esperando, e os afro-peruanos continuam sendo humilhados, maltratados e excluídos. Se o Estado não agir agora, nós vamos continuar vítimas desse racismo estrutural”.

Enquanto as minorias peruanas aguardam as medidas compensatórias do Estado peruano contra o “racismo estrutural” que lá vigora, a mídia esportiva do país ainda continua a incentivar o racismo na população menos educada. É patético. É um insulto. Esse tipo vulgar de jornalismo esportivo é um embaraço para toda a América do Sul.

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Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor

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