Sábado, 24 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

CADERNO DA CIDADANIA > CASO RACHEL SHEHERAZADE

Kant contra Sheherazade

Por Vitor Cei em 18/02/2014 na edição 786

Immanuel Kant continua atual. Em seu livreto Resposta à pergunta: O que é o Esclarecimento?, de 1784, o filósofo alemão define Aufklärung(iluminismo, esclarecimento) como uma condição moral que combina conhecimento profundo e autonomia crítica do sujeito do conhecimento. Partindo deste princípio, ele argumenta que é perfeitamente possível um público se esclarecer a si mesmo, desde que lhe seja dada a liberdade. Porém, entre os tutores estabelecidos da grande massa – dentre os quais atualmente se destacam os âncoras e comentadores de jornais e programas de TV – podemos encontrar sempre alguns indivíduos incapazes de qualquer esclarecimento.

Rachel Sheherazade, âncora e comentarista do programa SBT Brasil, é destas incapazes de uma avaliação racional do próprio valor e da vocação de cada homem em pensar por si mesmo. Na edição do programa que foi ao ar no dia 04 de fevereiro a jornalista usou tom de voz hostil e abusou da liberdade de expressão para afirmar que acha “compreensível” o ato criminoso de três homens que espancaram, desnudaram e prenderem pelo pescoço a um poste um adolescente negro, pobre, morador de rua e autor de pequenos furtos:

“O contra-ataque aos bandidos é o que chamo de legítima defesa coletiva de uma sociedade sem Estado contra um estado de violência sem limite. E, aos defensores dos Direitos Humanos, que se apiedaram do marginalzinho preso ao poste, eu lanço uma campanha: faça um favor ao Brasil, adote um bandido”.

Em entrevista a Leonardo Azzali, publicada no portal RD1 em 7 de fevereiro, Sheherazade mostrou-se incapaz de qualquer esclarecimento ao afirmar que seu editorial foi completamente desconstruído, pois em nenhum momento do texto teria apoiado ou incitado a violência.

Raciocínio pobre

Se Sheherazade fosse dotada de autonomia crítica e tivesse conhecimento profundo da Constituição da República Federativa do Brasil, do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros e da Declaração Universal dos Direitos Humanos saberia que o seu discurso de ódio violou os direitos humanos, o Estatuto da Criança e do Adolescente e fez apologia à violência, que é um crime previsto por lei. Se, por definição, “bandida” é a pessoa que praticou atividades criminosas, isto é, que infringiu por ação ou omissão o código penal, cometendo crime, Raquel Sheherazade, ao infringir a lei, tornou-se uma bandida. Kant já ensinou que semear preconceitos é muito danoso, porque acabam por se vingar dos que pessoalmente, ou os seus predecessores, foram os seus autores.

Pelo pobre raciocínio da apresentadora do SBT Brasil, ela mesma poderá vir a ser vítima da defesa coletiva dessa sociedade sem Estado, afinal, ela é uma criminosa. No entanto, para sairmos da barbárie, cabe ao Estado puni-la, de acordo com a lei.

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Vítor Cei é jornalista e pesquisador visitante da Universidade Livre de Berlim

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