Domingo, 18 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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CADERNO DA CIDADANIA >

A violência e a discriminação

Por Ligia Martins de Almeida em 25/03/2014 na edição 791

Duas notícias sobre mulheres tiveram destaque na mídia semana passada: a morte violenta de Claudia Ferreira da Silva e a indenização recebida pela mãe de Alyne Pimentel, que morreu há 12 anos, vítima do mau atendimento médico pelo SUS.

No primeiro caso, a vítima poderia ter sido um homem, uma criança, um idoso: Claudia, atingida por uma bala perdida, foi colocada numa viatura policial e levada pelos policiais. A porta da viatura abriu e ela foi arrastada por mais de 300 metros, tendo o corpo dilacerado. As imagens chocantes de um cinegrafista amador foram mostradas insistentemente na internet e nos noticíarios de TV.

O segundo caso – mau atendimento no SUS – também poderia vitimar homens, crianças ou idosos, como vemos de vez em quando no noticiário. A diferença é que a vítima, Alyne Pimentel, estava fazendo pré-natal:

“Aos seis meses de gestação de Ester, sentiu-se mal e procurou a maternidade em que fazia pré-natal, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Alyne sangrou quase um dia inteiro, até ser transferida para um hospital. Foi reanimada. Como não enviaram a ficha médica, passou 8 horas no corredor. Morreu em 16 de novembro. Na véspera, o bebê havia sido enterrado.” (O Estado de S.Paulo, 23/3/2014)

A morte de Claudia Ferreira é chocante pelo simples fato de ela ter sido vítima de uma bala perdida. Mas o grande impacto foi a divulgação do vídeo mostrando a mãe de família sendo arrastada pelo carro da polícia. Está certo o ditado que diz “o que os olhos não vêem….” A morte da Alyne Pimentel, provocada por um aborto espontâneo e um péssimo atendimento médico, não comove como a visão de Claudia sendo arrastada pela rua.

Governo e imprensa

Essas duas notícias revelam um profundo desrespeito pelo ser humano, especialmente pelas pessoas mais pobres. Desrespeito que se agrava quando os pobres são mulheres grávidas. O caso de Alyne foi denunciado à Organização das Nações Unidas (ONU) que, em 2011, condenou o Brasil pela morte dela. Para a mãe de Alyne o importante é a condenação:

“Dinheiro não vale a perda da minha filha. O que importa é o Brasil ter sido condenado. Se não fosse essa ONU, a justiça não teria sido feita. Mas até hoje há grávidas morrendo nos hospitais. As coisas têm de melhorar. Eles vão indenizar todo mundo? Eu briguei não foi um dia, não foi um mês. Foram 12 anos. É mais pelo futuro das outras mães.”

A condenação do Brasil pela ONU não resolve o problema do mau atendimento médico pelo SUS, mas, pelo menos, divulga uma imagem do Brasil que não agrada em nada os governantes. Isso talvez ajude na tomada de providências para tornar o atendimento pelo SUS um pouco melhor.

Mas e o caso de Claudia Ferreira da Silva, dilacerada pela “boa vontade” dos PMs? O julgamento dos policiais e sua eventual condenação servirão apenas para tirar o assunto da pauta dos jornais e revistas.

Interessante a pergunta da articulista Roseli Fichmann:

“Como não ver que o corpo dilacerado é cada mulher, cada pessoa negra e pobre, dilacerada na violência? Direitos de cidadania, direitos humanos, tudo dilacerado? Trata-se de mais uma manifestação do apartheid racial e social que ainda vigora tacitamente no Brasil, terrível, pois jamais dependeu de leis, apenas de sua omissão de um outrora recente, como da cumplicidade silenciosa de seus beneficiários” (O Estado de S.Paulo , 23/03/2014):

O governo teria que tentar melhorar a vida das pessoas que vivem em áreas de risco – as Alynes que não conseguem atendimento de emergência e as Claudias que morrem porque saíram de casa para comprar pão – e a imprensa poderia fazer o seu papel, fiscalizando, cobrando e noticiando sempre. Discutir o assunto só quando uma imagem chocante é imposta aos espectadores também é uma forma de omissão e discriminação contra os mais pobres.

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Ligia Martins de Almeida é jornalista

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