Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > ‘DEMOCRACIA RACIAL’?

Contra a discriminação

Por Cora Rónai em 06/05/2014 na edição 797
Reproduzido do Globo, 2/5/2014; intertítulo do OI

Esta semana [passada], enquanto a internet discutia se #somostodosmacacos ou #somostodosbananas, um pequeno grupo muito especial de pessoas, reunidas sob os auspícios da Unicef no Berkman Center for Internet & Society, da Universidade de Harvard, aprofundava a questão: o que é que se pode fazer, efetivamente, para acabar com a discriminação, essa irmã gêmea igualmente horrenda do racismo? Como dar voz às comunidades carentes, às favelas, às tribos, às áreas mais frágeis da sociedade?

Todos sabemos que é conversando que a gente se entende – mas, para que esse entendimento seja possível, é preciso, antes, que a conversa se dê em pé de igualdade, e que todos sejam ouvidos. Nisso, infelizmente, o universo digital ainda deixa tanto a desejar quanto o mundo em que (fisicamente) vivemos. Basta lembrar que boa parte do planeta ainda não tem acesso à internet; e que ter este acesso é apenas um primeiro passo.

O Digitally Connected reuniu pesquisadores, ativistas e jovens comunicadores de diversos países para pensar sobre como melhorar e democratizar o uso da internet para quem mais precisa dela.

O Brasil foi representado por Rene Silva, que criou o jornalzinho Voz da comunidade no Complexo do Alemão quando era criança e hoje, aos 21 anos, já tem larga experiência em comunicação, e por Paulo Rogério Nunes, do Instituto Mídia Étnica, uma organização modelar no combate ao racismo na mídia. Paulo Rogério é editor do Correio Nagô, blog de notícias dedicado a diversidade e direitos humanos. Ele escreve para a revista America’s quarterly sobre inclusão social no Brasil. Paulo está testando, com jovens quilombolas da Ilha da Maré, na Bahia, uma tecnologia pioneira chamada Vojo, que prescinde de smartphones, computadores ou tablets para o acesso à internet. Conversei com ele, por e-mail, sobre o Digitally Connected: valeu a pena?

“Foi muito positivo”, avaliou. “Saímos com muitos contatos e ideias. No caso do Vojo, estamos tentando envolver pesquisadores do MIT e de Harvard, bem como fazer cooperação com outros países: já estamos em contato com grupos que trabalham na Colômbia e na Etiópia. A ideia também é nacionalizar o projeto, tornando a ferramenta disponível a outras comunidades, especialmente rurais e discriminadas.”

Violência de todos os tipos

Um dos grandes problemas do mundo digital é a assimetria nas relações entre o que hoje se denomina Norte global, a parte teoricamente mais desenvolvida do planeta, e Sul global, a sua contraparte ainda em desenvolvimento.

“O evento discutiu como criar relações mais simétricas, a partir da ideia de que há muitas tecnologias criadas no Sul global que são mais representativas, e que podem ser usadas em países com problemas similares”, observa Paulo Rogério. “No caso do Vojo, a tecnologia não foi desenvolvida no Sul, mas está sendo adaptada aqui, e a ideia é que o Brasil seja o país a liderar o seu desenvolvimento.”

Outro problema: não basta dar às pessoas a oportunidade de falarem. É preciso lhes dar condições de serem ouvidas. Como resolver isso? “Em relação ao Vojo, a ideia é, justamente, fazer com que as histórias sejam ouvidas. Estamos trabalhando para que rádios comunitárias e públicas, e a mídia de um modo geral, tenham acesso a esses conteúdos e escrevam histórias a respeito.”

Que ninguém espere lendas ou contos de fadas: o que a parte esquecida da Humanidade tem para contar são histórias de desastres ambientais, de remoções forçadas, de desigualdade racial e de violência de todos os tipos.

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Cora Rónai é colunista do Globo

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