Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CADERNO DA CIDADANIA > VENEZUELA

Globovisión censura entrevista com Vargas Llosa

Por Alfredo Meza em 06/05/2014 na edição 797
Reproduzido do El País Brasil, 1/5/2014; título original: “O canal venezuelano Globovisión censura uma entrevista com Vargas Llosa”; intertítulo do OI

Os ecos da recente visita de Mario Vargas Llosa à Venezuela ainda são ouvidos. Nesta terça-feira, a rede local de notícias Globovisión, adquirida há um ano por investidores vinculados ao Governo, decidiu transmitir, após muita hesitação, uma entrevista da jornalista Shirley Varnagy com o Nobel peruano. Quando a conversa chegava ao final do segundo bloco, a entrevistadora perguntou ao escritor sobre Hugo Chávez, tomando como base um dilema que 15 anos atrás, em janeiro de 1999, Gabriel García Márquez expôs a respeito do então recém-eleito presidente, numa crônica chamada O Enigma dos Dois Chávez: “Enquanto se afastava entre sua escolta de militares condecorados e amigos da primeira hora, estremeceu-me a inspiração de eu havia viajado e conversado à vontade com dois homens opostos. Um a quem a sorte empedernida oferecia a oportunidade de salvar o seu país. E o outro, um ilusionista que podia passar para a história como um déspota a mais.”

A resposta de Vargas Llosa nunca foi ao ar. A emissora decidiu suprimir o último bloco da entrevista pré-gravada e antecipar o início do seu noticiário principal. Para a entrevistadora, que estava em sua casa vendo o programa que ela mesma havia editado junto com a sua equipe, por causa da relevância do personagem, essa saída antitelevisiva era uma evidente amostra de censura. Varnagy pediu explicações e ouviu como primeira resposta que problemas técnicos haviam impedido a transmissão, embora depois, com o passar dos dias, esse argumento dado às pressas terminasse por ceder frente à intuição inicial dela.

A explicação coroava uma série de tropeços evidentes para o público na meia hora que a entrevista deveria durar. Durante os intervalos comerciais, foram transmitidos dois longos boletins informativos – um sobre o aumento do salário mínimo anunciado antes pelo presidente Nicolás Maduro em rede nacional, e outro com declarações do ministro de Interior e Justiça a propósito do assassinato do ex-chefe da inteligência chavista Eliézer Otaiza– que roubaram minutos da entrevista com Vargas Llosa. A rigor, não se tratava de notícias de última hora, e de qualquer forma o telejornal principal repetiria essas notícias depois das 21h.

Vargas Llosa concedeu a entrevista no final da tarde de quinta-feira, 24 de abril, mas a Globovisión fez tudo o que foi possível para adiar sua exibição. No sábado, Shirley Varnagy recebeu um telefonema da gerência de produção do canal para que não programasse a exibição da entrevista na segunda-feira. Ela se negou. O pedido, avaliou, contrariava a pertinência e o senso de oportunidade que caracterizam o ofício de jornalista. Depois, a direção pediu para ver o material antes de exibi-lo. A entrevistadora aceitou, mas impôs uma condição: “As opiniões dele não são editáveis no meu espaço.”

Shirley Varnagy repassa toda essa história durante a manhã silenciosa de 1º de maio. Na noite anterior, e com não pouca tristeza, havia decidido entregar seu pedido de demissão à direção da Globovisión, o que depois oficializou por sua conta do Twitter. “Ontem [terça-feira] não foi transmitida a entrevista completa que fiz com Mario Vargas Llosa. Não farei silêncio no meu espaço, trabalhei [só] até hoje na Globovisión.”

A utopia socialista

O tuíte causou alvoroço nas redes sociais, talvez porque se assemelhe à teoria que a oposição elaborou para explicar a mudança da linha editorial da Globovisión: que esse canal, outrora um brioso adversário do regime chavista, se entregou a outros interesses não jornalísticos e age como um muro de contenção para evitar a propagação da insatisfação com o governo. Por causa disso, houve na Globovisión uma avalanche de demissões – espontâneas ou forçadas – desde abril de 2013, quando a venda foi anunciada. Com Varnagy, já são 51 baixas desde que a emissora mudou de mãos e passou a ser dirigida por Raúl Gorrín e Gustavo Perdomo.

Depois de ver o conteúdo, a direção aceitou exibi-lo na segunda-feira. A entrevista foi bastante divulgada com antecedência, o que em princípio afastava a suspeita de qualquer restrição a ele. Vargas Llosa aparecia autografando livros, depois havia um primeiro plano da sua dedicatória. Reservadamente, porém, temia-se pelo impacto que suas declarações gerassem dentro do Governo, informaram duas fontes próximas à direção do canal. “Este é um momento muito duro para o jornalismo venezuelano. Os donos estão submetidos a muitas pressões, mas eu não posso acompanhá-las”, afirma. Há um fato que talvez confirme isso: a emissora pediu à entrevistadora que trouxesse um intelectual chavista, Luis Britto García, para ser entrevistado no dia seguinte, possivelmente com a ideia de equilibrar a balança.

Um discurso de Maduro em rede nacional obrigatória de rádio e TV impediu que que o material fosse exibido na segunda-feira, mas chamou a atenção que por volta de 20h45, justamente no horário que cabia a Varnagy, viesse a decisão de antecipar o início do telejornal. Foi o primeiro aviso. Com esse fardo nas costas, o incidente da terça-feira esgotou de vez a paciência da entrevistadora. Durante toda a quarta-feira, a jornalista exigiu à direção a reposição do programa em uma data concreta que ela pudesse anunciar. Nunca houve uma resposta. Disseram a ela que talvez fosse exibido no domingo, mas que não havia certeza. Diante da indefinição, e preocupada com a sua credibilidade, ela decidiu pôr fim à relação trabalhista. Na sua conta do Twitter, publicou o link para as declarações do Nobel. A Globovisión também respondeu colocando na internet o vídeo da entrevista, no que pareceu ser uma estratégia para atenuar as críticas. Ambas as versões mostram uma opinião que possivelmente se queria ocultar: que o caudilho que foi Hugo Chávez viveu a utopia socialista quando esta começava a se desmoronar, e a reavivou em virtude do seu carisma. “Os próprios venezuelanos perceberam que essa utopia cedo ou tarde vai fracassar no país e que isso criou tensões muito fortes que o presidente Maduro herdou.”

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Alfredo Meza, do El País, em Caracas

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