Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CADERNO DA CIDADANIA > VENEZUELA

TV editou críticas ao chavismo em entrevista de Vargas Llosa

Por ‘OG’ em 06/05/2014 na edição 797
Reproduzido do Globo.com, 2/5/2014; título original: “Rede de TV venezuelana editou críticas ao chavismo em entrevista de Mario Vargas Llosa”; intertítulo do OI

A rede venezuelana de TV Globovisión, que teve boa parte de suas ações compradas por aliados do governo no ano passado, está sendo acusada de editar a entrevista realizada com o escritor peruano Mario Vargas Llosa, um feroz crítico do chavismo. A entrevista, exibida na última terça-feira, chegou ao fim de seu segundo bloco com uma pergunta ao escritor sobre Hugo Chávez, motivada por um dilema levantado há 15 anos por Gabriel García Márquez envolvendo uma passagem da crônica “O Enigma dos dois Chávez”, escrita por Vargas Llosa.

“Enquanto ele se afastava de suas escoltas de militares condecorados e amigos, tive a sensação de que havia viajado e conversado com dois homens opostos. Um, a quem a sorte pode lhe dar a chance de salvar seu país. Outro, um ilusionista, que entraria para a história como um déspota.”

A resposta do escritor peruano nunca foi ao ar. Para a apresentadora Shirley Varnagy, que assistia à transmissão em casa, o que a levou a suspeitar de censura por parte da emissora. A apresentadora exigiu explicações e ouviu da Globovisión que problemas técnicos haviam impedido a resposta sobre Chávez de ir ao ar. Shirley reforçou sua suspeita inicial e pediu demissão da rede. “Ontem (terça-feira, 29/3) não transmitiram a entrevista completa que fiz com Mario Vargas Llosa. Não me calarei no meu espaço. Trabalhei até hoje na Globovisión”, afirmou a apresentadora no Twitter.

“Esse sistema não cria riqueza ou empregos”

Dois longos comerciais foram transmitidos durante os intervalos comerciais da entrevista. Um sobre o aumento do salário mínimo anunciado pouco antes pelo presidente Nicolás Maduro em cadeia de rádio e televisão, e outro, com declarações do ministro do Interior e Justiça, sobre o assassinato do ex-chefe de inteligência chavista, Eliézer Otaiza. Ambos tiraram minutos da entrevista de Vargas Llosa, o que não é incomum no mundo do telejornalismo. No entanto, não se tratavam de notícias de última hora, e após as nove da noite, as duas notícias receberiam espaço no telejornal da emissora.

A entrevista foi concedida na tarde de 24 de abril, mas a Globovisión fez o possível para adiar sua transmissão. No sábado, Shirley recebeu uma ligação da gerência de produção pedindo que a exibição não fosse agendada para segunda-feira. Ela se negou. Depois a gerência pediu para ver o material antes de veiculá-lo. A apresentadora aceitou, mas impôs uma condição: “As opiniões dele não podem ser editadas.”

O canal, antes um grande adversário do regime chavista, agora funciona como uma proteção, evitando difundir críticas ao governo. Desde a compra de mais de um quarto das ações por parte de aliados do governo, em abril de 2013, o canal vem colecionando pedidos de demissão, e Shirley é a 51ª funcionária a abandonar o cargo na rede desde então. Após a entrevista com Vargas Llosa, a direção pediu à apresentadora que agendasse uma entrevista com o intelectual chavista Luis Britto García para o dia seguinte, talvez numa tentativa de equilibrar opiniões.

A resposta que a Globovisión tanto tentou esconder foi coloca no ar pela apresentadora, e também pela própria Globovisión, ansiosa para calar as críticas que surgiram com a revelação da edição. “Acredito que a Venezuela tomou um rumo errado, contra a modernidade, que persegue uma utopia coletivista e socialista radical que fracassou em todos os lugares em que foi implantada. Esse sistema estatista não cria riqueza ou empregos, mas difunde a pobreza e sacrifica terrivelmente as liberdades”, afirmou Vargas Llosa no período da entrevista que ficou de fora da transmissão. “Creio que o povo venezuelano se conscientizou de que esse sistema não criará, de maneira alguma, riqueza, nem prosperidade, nem modernidade.”

Na mesma terça-feira, Vargas Llosa havia declarado, num encontro sobre a América Latina, que a Venezuela “se aproximava dos exemplos mais patéticos de fracassos econômicos e sociais, como Cuba e Coreia do Norte”.

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