Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CADERNO DA CIDADANIA > BOATO & LINCHAMENTO

A internet, a afirmação e o Ministério da Verdade

Por Bruno Rebouças em 13/05/2014 na edição 798

A obra de George Orwell dispensa apresentação e elogios, mas é necessário tocar no ponto profecia que alguns dos seus magistrais textos e livros carregam, como em 1984, no país Oceania, comandado pelo Partido do Socialismo Inglês (Socing) através da sua figura máxima, o Grande Irmão, que em outra oportunidade, neste Observatório, comparei ao ex-presidente Lula.

Na Oceania, o Socing tem como lema: “Guerra é paz; Liberdade é escravidão; ignorância é força”, além do autoritário “dois mais dois são cinco se o partido quiser”. Naquele país imaginado por Orwell em 1949, o personagem principal do livro (Winston Smith) trabalha e é responsável por publicar notícias de interesse do partido e apagar notícias antigas que podem prejudicar o Socing no presente. Ele trabalha no Ministério da Verdade, responsável por disseminar a mentira e torná-la, claro, a verdade absoluta. Há um crime na Oceania que se chama “duplipensamento”, pois pensar é um crime. Quem comete tal crime é jogado no buraco da memória. Ou seja, nunca existiu.

A ferramenta de consertar notícias impressas em jornais e mudar a versão, sem dúvida nenhuma seria o maior aplicativo para converter a manipulação em política de Estado e concretizar a verdade. Orwell talvez não tenha imaginada que essa ferramenta, de corrigir erros de informação, chegaria a realmente existir. Esta é uma vantagem e uma desvantagem da internet como meio de comunicação, através dos portais e blogs.

A vantagem é referente à oportunidade de atualizar e manter sempre em tempo real a notícia jornalística. Desvantagem, também, porque o tempo real, a necessidade da rapidez, a tentação da afirmação leva à falta da verificação, ou afrouxa esse critério que caracteriza o jornalismo e o diferencia das páginas de informação e dos blogs, com boas exceções. Publica-se a informação nua e crua, transformando-a em notícia, pois caso em dois minutos ela estiver errada é só atualizar e mudar o conteúdo, tal qual Winston Smith faz no romance 1984.

Afirmação x verificação

A desvantagem de afirmar e depois corrigir o erro em um espaço sempre menor que o anteriormente propagado aconteceu em alguns portais da Baixada Santista e do Brasil ao publicarem a notícia do linchamento da dona de casa Fabiane de Jesus, de 33 anos, na última semana, no bairro de Morrinhos, em Guarujá (SP). O G1 se baseou em policiais que estavam no local e que acreditavam, naquele momento, que a dona de casa Fabiane de Jesus estava realmente morta, quando, na verdade, estava na UTI do hospital Santo Amaro, no Guarujá. A morte foi decretada e, nas redes sociais, alguns perfis diziam que a informação não era certa. A ferramenta “idealizada” no Ministério da Verdade entrou em ação e O G1 publicou errata na mesma reportagem que, anteriormente, afirmava que Fabiane havia morrido. Porém, o espaço para a suposta morte não foi o mesmo para a correção publicada em seguida. E, para determinado público, a mulher espancada morreu naquela hora, embora a morte fosse confirmada na segunda (5/05) de manhã.

A morte de Fabiane, uma inocente confundida com uma sequestradora de crianças para rituais de magia negra que não existia, comoveu o país e imagens estarrecedoras foram propagadas pelos portais do país inteiro. Os vídeos não acrescentaram nada ao fato e à notícia. A imprensa e os jornalistas que tanto pregam contra o sensacionalismo das páginas policialescas cometeram o mesmo erro, ao perder o sentido de gatekeeper e se equiparar ao sensacionalismo barato e desnecessário.

O caos controlado

No livro Propaganda (1928), Edward Bernays defendeu a manipulação das notícias para organizar o caos da sociedade democrática, assim como também defendeu a propaganda como “mecanismo pelo qual a democracia conseguiu organizar sua mente de grupo e simplificar o pensamento das massas” (p. 26). Para ele, o jornal sempre será o melhor veículo de formação e manipulação da opinião pública, logo de propaganda.

Com a queda da obrigação do diploma para exercer a profissão de jornalista, mais a ascensão das redes sociais e da tecnologia – especialmente no Brasil – há uma grande confusão entre informação e notícia. As redes sociais, em especial o Facebook, geram conteúdo, geram informação e geram notícia aos meios de comunicação. Produzir conteúdo e repassar uma informação não faz de ninguém necessariamente jornalista. A notícia é uma informação trabalhada dentro de critérios de noticiabilidade, dentro de uma metodologia e, principalmente, dentro do equilíbrio que a dita objetividade jornalística preza.

O boato, divulgado por uma página popular no Facebook, Guarujá Alerta, que até presta um serviço interessante à sociedade do Guarujá dando voz a essa população sobre os problemas da cidade, não levou diretamente Fabiane ao linchamento cruel e desumano que causou sua morte, porém criou um ambiente hostil a qualquer suspeita de um boato-fato que na verdade jamais existiu. O problema de páginas como a Guarujá Alerta e outras da Baixada Santista é quando elas tentam propor um trabalho jornalístico. Uma simples visualizada nessas páginas tão populares e disseminadas revela justamente a falta mínima em preceitos e conceitos que o jornalismo exige e que os estudantes de primeiro semestre do curso devem saber.

Um responsável por uma página semelhante ao Guarujá Alerta se autoproclamou representante das redes e tentou defender o indefensável, ressaltando que ao divulgar o retrato falado falso, “a equipe do Guarujá Alerta sempre disse que era um boato”. Mas, existia uma imagem e um nome, aliás o nome de uma mulher que nem no Guarujá vivia. A busca do sensacional, da audiência e do show tira dessas páginas qualquer possibilidade de trabalho jornalístico. Além disso, se o “fato” era conhecido como um boato, não devia ter sido publicado e longamente divulgado pela equipe do perfil. Um jornalista ou estagiário talvez até publicasse isso em um portal, com a possibilidade de jogá-la, após a edição, no buraco da memória. Um jornalista bem formado, ou um estagiário de jornalismo atencioso teria ligado para a polícia e buscado confirmar um boato que, sim, pode virar notícia, desde que trabalhado com métodos e critérios da profissão.

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Bruno Rebouças é jornalista e mestre em Comunicação e Jornalismo

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