Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > PROFISSÃO PERIGO

O preço de ser jornalista no Brasil

Por Francho Barón em 27/05/2014 na edição 800
Reproduzido do El País Brasil, 19/5/2014; intertítulo do OI

Flavia Junqueira, jornalista do diário carioca Extra, estava no último dia 9 de maio no bairro de Curicica, na zona oeste do Rio de Janeiro, dando continuidade a uma reportagem sobre um caso de fraude na empresa estatal dos Correios. A cobertura quase lhe custou a vida, como também de sua equipe de trabalho, formada pelo fotógrafo Fábio Guimarães e pelo motorista Bruno Guerra. O agressor, que responde pelo nome de João Maurício Gomes da Silva (conhecido em seu meio como Janjão), está na mira da Polícia Federal e foi durante meses o elemento central das reportagens de Junqueira.

Segundo apuração do jornal Extra, Janjão liderou durante meses um esquema de tratamentos médicos superfaturados ou fictícios pagos pelo seguro de saúde que presta serviços para os empregados dos Correios e seus familiares (CorreioSaúde). “Descobrimos, por exemplo, que Janjão havia ativado o seguro para que pagasse a internação de sua mulher em uma clínica. No mesmo dia em que, teoricamente, a mulher estaria internada, encontramos no Facebook fotos dela em uma festa de aniversário. As investigações posteriores confirmaram que tudo era um esquema para receber 53.000 reais do seguro por um tratamento inexistente.”

Segundo o Extra, Janjão não atuava sozinho. “O esquema também envolvia médicos, clínicas e empresas de próteses e materiais cirúrgicos que certificavam os tratamentos superfaturados ou fantasmas”, explica Junqueira. Segundo as informações obtidas pela jornalista, o esquema chegou a fraudar 15 milhões de reais.

No dia do incidente, os agentes realizavam uma busca na residência de Janjão enquanto a equipe do Extra (guiada por seu olfato e suas fontes) esperava novidades no exterior da casa. Aconteceram duas coisas inquietantes: a primeira foi que Janjão avançou para onde se encontrava Junqueira e dirigiu-se a ela pelo nome, quando na realidade não se conheciam pessoalmente e nunca se viram na vida. A segunda, minutos mais tarde, foi quando o mesmo sujeito, ao volante de um veículo que circulava em alta velocidade (segundo Junqueira, a 80 quilômetros por hora), se jogou contra o carro dos jornalistas, que ia pela mesma rodovia em sentido oposto. “O motorista teve que fazer um desvio muito brusco para não bater. Por sorte não havia nenhum outro carro perto. Do contrário teria acontecido uma tragédia.”

“Na sua opinião, por que Janjão teria feito isso?” pergunta o repórter. “Não tenho certeza, mas tudo indica que queria nos assustar. Queria nos intimidar. Algo para nos dizer “melhor parar a investigação”, responde Junqueira, pensativa. A jornalista vasculhou desde agosto de 2013 os movimentos de Janjão, que então ocupava um cargo de responsabilidade (assessor técnico da Direção regional dos Correios no Rio de Janeiro) escolhido a dedo em um processo que violou o regulamento interno da empresa estatal. As evidências de que Janjão era o cabeça de uma rede dedicada a superfaturar e forjar tratamentos clínicos fantasma, para posteriormente cobrá-los da seguradora dos funcionários, foram crescendo e resultaram em uma mina de informações para a jornalista. Suas reportagens jogaram uma luz sobre as investigações já em andamento pela Polícia Federal. E possivelmente também causaram um tormento para Janjão, que de repente viu como a direção dos Correios o destituiu de suas relevantes funções para devolvê-lo à categoria de carteiro. O suculento salário também evaporou com o cargo.

11º país mais perigoso do mundo para jornalistas

“Quando publiquei minha primeira reportagem sobre este caso, quis ouvir sua versão dos fatos e liguei para ele. Me disse que tudo era mentira e que ia me denunciar”, lembra a jornalista, que se viu forçada a abandonar a cobertura temporariamente. “No jornal me disseram que por enquanto seria melhor me afastar do assunto. Mas outros colegas me substituíram na investigação. O Extra tem claro que não podemos deixar essas pessoas impunes”, acrescenta. A direção do jornal ofereceu medidas especiais de segurança à jornalista, que diz se sentir “mais apreensiva já que não sabemos o que passa pela cabeça dessas pessoas”.

Depois do incidente, o Extra deu continuidade ao caso em um artigo de capa assinado por toda a redação “para lembrar que a luta contra a corrupção não é um trabalho de um repórter solitário, mas o dever de todo jornalista”. O artigo publicou a denúncia do jornal contra Janjão por intimidar seus jornalistas. O caso Junqueira provocou uma onda de indignação nos principais órgãos de defesa de liberdade de imprensa no Brasil. A Associação Brasileira de Jornalismo de Investigação (Abraji) exigiu que a polícia do Rio investigasse o ocorrido com rigor e que garantisse a segurança de Junqueira e de sua equipe. A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) alertou que as ameaças aos jornalistas podem ter um efeito inibidor, que por sua vez impacta o direito dos cidadãos de serem informados.

Segundo o Committee to Protect Journalists (CPJ), o Brasil é o 11º país mais perigoso do mundo para exercer a cobertura jornalística e o 10º no índice de impunidade (casos de jornalistas assassinados nunca resolvidos), segundo dados da organização. De acordo com o CPJ, em 2013 três jornalistas perderam a vida no Brasil exercendo suas funções, com 98 registros de agressões a profissionais da informação.

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Francho Barón, do El País

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