Sábado, 24 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

CADERNO DA CIDADANIA > ‘HERÓIS DA INFORMAÇÃO’

Um jornalista na linha do tiro

Por Benedito Carvalho Filho em 17/06/2014 na edição 803
Reproduzido do Jornal Pessoal nº 562, da 1ª quinzena/ junho 2014; intertítulos do OI

Estava escrevendo a edição 34 de um jornal que mantenho na internet, o Catarse, quando fui informado pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto da sua indicação pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) como um dos “100 heróis da informação”. Fiquei emocionado não só pela longa amizade e carinho que tenho pelo Lúcio, mas, também, pelo valioso reconhecimento de um profissional que tem dedicado toda a sua vida à Amazônia que tanto ama.

Não é de hoje que Lúcio Flávio vem se dedicando ao estudo da região. Quando morava em Belém, pude ver e acompanhar a trajetória precoce desse jornalista, um dos poucos que, desde os anos 1970, em plena ditadura militar, se embrenhava pelos rincões dessa região, documentando os mais diversos conflitos, sempre atento aos avanços de uma das maiores e mais violentas fronteiras e frente de expansão do Brasil, e, talvez, do mundo.

Como fazer um jornalismo sério e competente na linha de tiro num império de grileiros, madeireiros, políticos e empresários corruptos, e poderosos em geral, num momento de nossa história onde imperava (como até hoje) a lei do silêncio? Como Lúcio sobreviveu a tudo isso, numa região em que é comum o assassinato de posseiros, advogados, padres, freiras e tantos atores que vivem nessa “terra de ninguém”? Ele é, sim, um sobrevivente! E não foi por acaso que seu Jornal Pessoal surgiu numa circunstância tumultuada, quando resolveu por conta própria criar o seu jornal que apurava da morte do advogado Paulo Fontelles, já que um dos principais jornais da cidade rejeitava a sua publicação.

De longe temia – e até hoje temo – pela segurança do Lúcio, atacado e ameaçado não só por pistoleiros profissionais a mando de seus patrões, mas também pelos “reis da quitanda”, ou “donos do poder”, porque publica fatos que os envolvem a corrupção sob a proteção do Estado.

Idade das trevas

Lúcio, como todos sabem, no Pará (e fora dele), nunca foi um jornalista sensacionalista. O grande ódio contra ele tem como raiz o fato de que o que publica é checado, pesquisado e publicado, “doa a quem doer”, como dizia um jornalista em épocas passadas. Isso incomoda os que não desejam que os fatos venham à tona, que a verdade seja revelada. Esse talvez seja o maior ódio: mostrar que o rei (seja da quitanda, seja de outros setores) está nu. “Como ousa um jornal como esse desafiar o nosso poder?” – dizem eles.

Mas vamos refletir sobre outros aspectos, tentando correlacionar o significado desse prêmio com a Amazônia e seus conflitos.

Afirmei no meu longo artigo que o conflito é constituinte da sociedade e ninguém escapa dele. Mas pensando nas publicações do Lúcio fiquei me perguntando: como os conflitos se explicitam na Amazônia? Acho que, ao nos debruçar sobre tudo que o jornalista escreveu, temos material empírico de sobra para pensar no conflito e na violência aqui perto de nós, na nossa cara.

Numa sociedade onde “a lei é potoca”, como dizia um caudilho local, poderia surgir uma sociedade capaz de estabelecer relações simétricas, nas quais os conflitos fossem explicitados e discutidos coletivamente?

Afinal, não dizemos da boca para fora que vivemos numa sociedade moderna, onde o dissenso, o conflito é parte constituinte? Por que numa terra tão avessa ao debate de ideias o conflito logo se transforma em violência física, numa coisa pessoal, na forma mais trágica que se possa imaginar? Que significado tem, por exemplo, assassinar pessoas que resolvem se confrontar com os poderosos? Que modernidade é essa que um dono de jornal, em pleno lugar público, espanca um jornalista simplesmente por comentar um fato no seu jornal?

Alguns vão dizer que é o poder, e repetir o mesmo bordão: Manda quem pode e obedece quem tem juízo. Esse é o bordão dos jagunços de paletó e gravata e dos que estão a serviço deles, que recorrem à violência quando os argumentos inexistem, porque certas elites não sabem discutir e só conhecem a violência, a porrada, a brutalidade, que significa barbárie, como se vivêssemos na pré-história. Isso virou costume desde o “amansamento” dos primeiros povos que aqui habitavam, pois sabemos a que preço a maioria se tornou minoria nas terras amazônicas e em todo o país.

A filósofa e escritora Hannah Arendt, citada nas minhas reflexões acima, já sublinhava as distinções entre poder e violência. Se os personagens que se dizem letrados na Amazônia conhecessem um pouco a sociologia e ciência política (um saber da modernidade), veriam que a violência não é apenas distinta do poder, mas, precisamente, o seu oposto. Poder é capacidade de agir e discutir juntos, aceitando o contraditório. Toda a impossibilidade de ação conjunta estimula o ato violento, como os têm sofrido Lúcio Flávio e todos os que se opõe aos poderosos.

O jornalismo, que só pode surgir no alvorecer da modernidade, em plena revolução burguesa, nasce como uma luz no meio da escuridão e sempre esteve no meio do conflito. Mesmo nos meios mais civilizados o jornalismo sofreu as brutalidades, a violência sutil e declarada. Os bravos lutadores jamais serão esquecidos, por sua persistência e tenacidade, e, sobretudo, pela coragem de ter enfrentado a reação. Por isso é uma trincheira da liberdade, mesmo diante da era sombria em que viveram, e que, em parte, vivemos hoje, porque poucos ousariam dizer que vivemos nessa primeira década do século em plena liberdade de imprensa. O Pará e a Amazônia, em particular, estão na idade das trevas.

Vida longa

De início, quando recebi a notícia sobre a premiação do Lúcio, fiquei intrigado com a palavra “herói”, que significa o nome dado pelos gregos aos homens divinizados. Aqueles que se distinguem por seu valor ou por suas ações extraordinárias, principalmente por feitos brilhantes durante a guerra.

Logo me lembrei de uma frase de um estadista que esqueci o nome e que dizia: “Infeliz do país que precisa de heróis”.

Depois vi que o prêmio conferido ao jornalista é merecido pela seguinte razão:

É extraordinária a persistente luta do jornalista diante de uma região onde impera tanta violência. Admiro as pessoas que, mesmo diante das adversidades, guardam consigo a esperança, a razão e a certeza de que o mundo pode ser melhor. Numa sociedade, como a que vivemos, onde o vazio dos valores predomina e a mediocridade impera, são heróis, sim, são aqueles que são capazes de se indignarem, de resistirem sem recorrer à força da violência, que é a negação da subjetividade, pois acreditam na capacidade de negociar, de dialogar com o diferente e, sobretudo, como dizia Simmel, “encontrar os seus demônios”, pois somente os virtuosos da ética, somente os super-homens têm a coragem de se realizarem a cada instante.

Querem um pequeno exemplo de como os conflitos se manifestam na Amazônia?

Anos atrás, e ainda hoje, uma onda de paralisações, greves e rebeliões operárias espalhou-se pela indústria da construção civil, atingindo algumas obras do PAC: 22 mil trabalhadores parados na hidrelétrica de Jirau em Rondônia, 16 mil na hidrelétrica de Santo Antônio, alguns milhares na hidrelétrica de São Domingos, no Mato Grosso do Sul, 80 mil trabalhadores grevistas em diferentes frentes de trabalho na Bahia e Ceará, dezenas de milhares no Complexo Petroquímico de Suape em Pernambuco.

Os conflitos estão aí, diante de nós. Um dia, quando pesquisadores se debruçarem sobre todas as publicações do jornalista (que é, também, sociólogo), encontrarão muito material para suas análises e verão que, por detrás da opaca realidade, o conflito e a violência fazem parte da realidade amazônica e do país. Há algo mais além da sua exuberante floresta, onde habitam animais e homens nos limites de suas possibilidades de sobrevivência. Como os escravos que construíram as pirâmides do Egito, na Amazônia existem (e existiram) milhares de homens que sucumbiram porque estavam na linha do tiro, nas frentes de expansão, cuja história precisa ser contada.

Esperamos longa vida para esse jornalista para que seu combate, o bom combate, não seja em vão, pois, como dizia o poeta: “Nada é pequeno, quando a vida não é pequena”.

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Benedito Carvalho Filho é sociólogo, professor da Universidade Federal do Amazonas e ombudsman do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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