Quarta-feira, 16 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

CADERNO DA CIDADANIA > CASO ‘NEWS OF THE WORLD’

Deu pizza na Royal Court

Por Helena Celestino em 01/07/2014 na edição 805
Reproduzido do Globo.com, 25/6/2014; intertítulo do OI

Ela sabe se fazer notar. Os cabelos ruivos e cacheados de Rebekah Brooks fizeram mais sucesso do que a seleção inglesa na sua despedida da Copa. Num surpreendente e dramático final, ela foi absolvida de todas as acusações do processo de dois anos que sacudiu a política e a polícia britânica, comprometeu a credibilidade da mídia no Reino Unido, abalou a saúde financeira de tabloides e, claro, inspirou personagens de livros e séries sobre a vida nas redações. A ex-poderosa diretora do império de comunicação de Robert Murdoch saiu sem dizer uma palavra do tribunal mas o premier David Cameron foi obrigado a se desculpar por ter levado para o governo Andy Coulson, condenado ontem por grampo nos telefones da família real, de celebridades e mortais comuns quando era diretor do tabloide News of The World.

Mais de 60 pessoas foram para a cadeia, entre policiais e jornalistas. Ministros de muitos governos desfilaram pelo Tribunal 37, mas ficou um certo cheiro de pizza no ar da veneranda Royal Court of Justice. “As pessoas vão ficar enraivecidas de a acusação não ter tido uma atuação boa o suficiente”, disse ao New York Times o especialista de mídia Roy Greenslade. O ex-ministro de Comunicação e ex-assessor político de Cameron, Andy Coulson, foi o único entre sete réus considerado culpado, teoricamente porque no seu tempo como diretor do News of the World – a versão dominical do The Sun – grampeavam-se celulares em “escala industrial”. Rebekah Brooks era mais moderada e também tinha um jeito todo especial para mostrar sua aliança com a elite. Quando fez 40 anos, distribuiu aos convidados uma edição, engraçadinha e especial do The Sun como lembrança. Na página de abertura, seu rosto encimava o corpo de uma mulher nua e, em destaque na edição, apareciam mensagens de felicitações do então premier Gordon Brown, do atual, David Cameron, e do ex-Tony Blair – este, o mais afetuoso deles, dizia no texto: “Liz é fabulosa. Fantástica e engraçada.”

Nestes anos de processo que mudaram a mídia britânica, Rebekah esteve no centro das revelações constrangedoras sobre as relações entre os poderosos e a imprensa. E-mails do gabinete do então ministro Jeremy Hunt para ela continham informações privilegiadíssimas sobre o leilão do canal SkyB, no qual Murdoch estava interessado. Antes de sua primeira vez no banco dos réus, Rebekah recebeu de Cameron torpedos de encorajamento e declarações de amizade. Foram confrontadas as versões de poderosos de vários governos e dos executivos do grupo Murdoch, evidenciando o que sempre intuiu: os políticos dos mais variados partidos tinham uma relação de temor e reverência com Murdoch, franqueando aos seus executivos o aceso ao centro do poder. Nessas sessões do tribunal expressaram-se os ressentimentos, perpetraram-se vinganças e descobriram-se romances. E, claro, relataram-se com riqueza de detalhes os crimes cometidos por jornalistas em busca de furos, num total desprezo pela verdade e desrespeito à dignidade das pessoas.

O direito à privacidade

Consequências? Setecentas vítimas do grampo foram indenizadas – com algo em torno de US$ 300 milhões –, o News of the World foi fechado após 168 anos de existência e as vendas dos tabloides despencaram abatidas pelos escândalos e pela concorrência com as mídias sociais – rápidas em postar histórias sobre as celebridades. A aura de invencibilidade de Murdoch quebrou- se e o Guardian informou que a Scotland Yard estava só esperando os veredictos de ontem para abrir uma investigação criminal. “A imprensa está melhor, mais cuidadosa”, diz o professor de jornalismo Ricky Burdett.

É verdade, mas as relações entre mídia e governo ainda estão envenenadas, à espera de acordo sobre a melhor maneira de evitar novos desvios. O caminho fácil, o primeiro recomendado, foi o controle externo dos jornais, em conselhos onde não teriam voz jornalistas nem proprietários de meios de comunicação. Não houve acordo. Já existem leis suficientes para punir jornalistas que infringem a lei. “Jornalistas que cometem crime devem ir para a cadeia como qualquer outra pessoa, os outros devem ser protegidos com uma lei no mesmo espírito da 1ª Emenda dos EUA”, diz Carl Bernstein, o mítico repórter do caso Watergate.

O escândalo do grampo nos telefones feito na surdina pelos tabloides surgiu muito antes das revelações de Edward Snowden sobre a espionagem em massa patrocinada por EUA e Reino Unido. O governo britânico pegou pesado nas pressões para evitar a publicação dos documentos, argumentando que comprometiam a segurança e o combate ao terror. Ficou muito perto de infringir a liberdade de imprensa. Vamos combinar que o direito à privacidade deve ser respeitado por todos com poder, seja o Estado ou a mídia.

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Helena Celestino, do Globo

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