Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CADERNO DA CIDADANIA > JORNALISMO ANTOLHADO

Narco Metropolitano

Por Mauro Malin em 01/07/2014 na edição 805

O Arco Metropolitano do Rio de Janeiro é uma obra em andamento, planejada há 40 anos. O orçamento (sempre uma previsão subestimada) é de R$ 1,9 bilhão. O Narco Metropolitano, em sua versão atual, levou dez vezes menos tempo para se instalar e saiu infinitamente mais barato para traficantes, milicianos e policiais associados. Foi uma consequência prevista da criação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em favelas e bairros pobres do território carioca (Exame.com, 3/6/2013: “UPPs fazem tráfico de drogas migrar para Baixada Fluminense”). O negócio da droga foi reorganizado tanto onde entraram as UPPs como nos locais para onde se mudaram bandos de traficantes, Grande Rio e outras regiões do estado. Fenômeno que inclui a disseminação do crack, droga mais barata, e está longe de ter atingido o apogeu.

Ressalte-se que o maior problema não são as drogas em si. É a violência que acompanha seu comércio nos moldes atuais brasileiros. Violência reveladora do fracasso da política de “guerra às drogas”.

Por incrível que pareça, a população está assustada em lugares onde o sangue sempre correu fácil (a Baixada Fluminense registrava 74 homicídios por 100 mil habitantes em 1998, quando a taxa do país era 25,9).

Pela enésima vez, os moradores da Baixada constatam que lhes são destinadas sobras indesejadas da antiga capital federal: eles mesmos, trabalhadores que não conseguem morar em bairros pobres ou favelas cariocas, porque são pobres demais para isso; o lixo – 10 mil toneladas diárias produzidas pelos moradores do Rio; traficantes expulsos pela nova lógica de organização das relações entre crime organizado e Estado na capital fluminense.

K 11 esteve no Face

No bairro Parque Capivari, Duque de Caxias, crescem as ocorrências criminosas. No Babi, em Belford Roxo, “soldados” do tráfico já controlam ruas e usam armas de grosso calibre e cano longo, inexistentes aí até pouco tempo atrás. Na Chatuba, em Mesquita, dez pessoas foram assassinadas em três dias, no final de 2012. Mesquita e Nova Iguaçu têm a característica de se ligar à Zona Oeste do Rio – Bangu, Realengo – e à Zona Norte – Pavuna, Acari, Vigário Geral pela Serra de Madureira. Tempos atrás, traficantes do K 11, da Coreia e da Chatuba, chegaram a criar uma página de autoglorificação no Facebook. A página deixou de existir, mas passou a ser arriscado demais habitantes da região frequentarem cachoeiras em Mesquita. O tráfico já chegou aos municípios de Queimados e Japeri, dois dos mais pobres atravessados pela rodovia.

Custos socioeconômicos

Nada disso, por supuesto, é mencionado na reportagem “Arco muda a logística no RJ e atrai novos investimentos”, publicada no Valor (27/6). O Arco foi alvo de inauguração palanqueira com a presidente Dilma Rousseff e o governador Luiz Fernando Pezão três dias depois.

Pelos padrões convencionais do jornalismo de economia e negócios, a reportagem é correta. Mas revela fragilidades – inerentes a tais padrões, não necessariamente ao trabalho de quem a assina e a editou – quando se trata de saber como a obra viária, que ligará, no sentido leste-oeste, Itaboraí a Itaguaí, passando por Guapimirim, Magé, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Japeri e Seropédica, afetará a vida das pessoas que vivem ao longo de seu trajeto e dentro de faixas de algumas dezenas de quilômetros nas cercanias.

Por padrões menos convencionais, pode-se questionar o resultado econômico mais amplo do Arco Metropolitano. Melhor dito, o resultado socioeconômico. O raciocínio vale para o país inteiro. Considere-se que os homicídios se concentram numa população masculina jovem. Além da inquantificável dor da perda de entes queridos (essas pessoas têm filhos, esposas, namoradas, pais, avós, irmãos, primos, tios, etc.), podem ser contabilizados aí dois tipos de prejuízos: a falta que esses indivíduos farão no mercado de trabalho e a instantânea dissipação de tudo que foi investido pelo Estado, em nome da sociedade, para que chegassem à idade com que morreram.

Que se pense em todos os custos físicos da “guerra às drogas”: homens, armas, munição, viaturas, prédios, sistemas de comunicação, prisões, tribunais, espaço e tempo na mídia jornalística. Propinas relativas a cada um desses itens.

Que se imagine o custo intangível da gigantesca mobilização social causada pelo temor às drogas, medo do envolvimento de crianças nesse comércio perigosíssimo, como consumidores ou vendedores, e medo que os adultos sentem, e que lhes determina mudanças nas estratégias de sobrevivência e nos hábitos de vida. Como disse na matéria citada da Exame.com um ativista local anônimo:

“Antes, tinha bandido, mas não eram tantos. Agora, como as favelas atingidas no Rio pela UPP eram do Comando Vermelho e as daqui também são, os caras vieram para cá. Só que aqui a comunidade é muito mais pobre. Aí, eles saem para assaltar.”

Um mapa com as principais informações cartográficas e do projeto do Arco Metropolitano acompanha a reportagem do Valor. Aqui, como uma pequena provocação, vê-se a mesma imagem alterada, com os locais mencionados onde a violência cresceu, entre dezenas de outros. Se fossem acrescentados os pontos onde há grande vulnerabilidade social, o mapa se tornaria ilegível na escala em que foi desenhado.

A violência está em queda no mundo e até num dos países mais violentos desse mundo, o Brasil, mas a persistirem os fatores que infelicitam a Baixada Fluminense, lá essa melhoria vai demorar.

Arca Metropolitana

Escusado é dizer que as cidades do Grande Rio sofreram com governos municipais, estaduais e federais de todos os partidos e combinações de siglas que alguém possa imaginar. Uma Arca de Noé do ecossistema político regional. Ou seja, ninguém pode cantar de galo ou apontar o dedo para o outro como culpado pela permanência dos problemas de educação, saúde, saneamento, segurança, moradia, transporte, lazer e cultura da maior parte de seus municípios.

Povo sofrido. Dom Adriano Hypólito (1918-1996), que entre 1966 e 1994 foi bispo diocesano de Nova Iguaçu, comentou no início dos anos 1970 que não havia na Baixada Fluminense nenhuma grande escola de samba (a Beija-Flor de Nilópolis iria adquirir projeção no final da década), nem clube de futebol (o Nova Iguaçu Futebol Clube é de 1990 e o Duque de Caxias Futebol Clube, de 2005).

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Charco Metropolitano – M.M.

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