Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

CADERNO DA CIDADANIA > ORIENTE MÉDIO

Palestina, sim!

Por Guilherme Casarões e Fernando Brancoli em 15/07/2014 na edição 807

Os atos de violência entre palestinos e israelenses mobilizaram os noticiários nos últimos dias. Pela importância simbólica do tema entre diversas matizes políticas – e pelas paixões que gera –, não surpreende o surgimento de narrativas em que um dos lados é desumanizado. Uma das mais recorrentes estratégias é afirmar que o povo palestino não teria direito a um Estado, por não constituir uma comunidade coesa, com valores e características suficientes para ser tratado como uma nação. Esse discurso, disseminado em diversos canais midiáticos e reforçado por um sem número de jornalistas, foi repetido no Brasil no domingo (6/7), na seção “Tendências/Debates” da Folha de S. Paulo.

Naquela edição, o jurista Flávio Bierrenbach, no artigo intitulado “Palestina”, trata como o óbvio ululante a máxima que “não existe povo palestino”. A certeza que transparece da afirmação categórica dispensaria considerações posteriores, mas o autor faz questão de trazê-las. Sustenta que a ideia de povo palestino não passa de uma “jogada magistral de marketing” de Yasser Arafat, abraçada, de maneira ingênua, pelo “pensamento único politicamente correto”. Evoca “argumentos históricos, geográficos, antropológicos, literários e até religiosos” para desqualificar a causa palestina.

Bierrenbach não oferece, no entanto, explicações convincentes para sustentar suas convicções. Tirante os excessos retóricos, desenvolve de maneira mais detida somente dois argumentos que supostamente desqualificam a existência do povo palestino.

O primeiro deles é o de que a Palestina é uma região geográfica. O subtexto é o de que um povo só existe quando ele dá nome à região onde se estabelece, e não o contrário. Há uma infinidade de exemplos históricos que desmentem essa percepção. Grande parte dos indianos tem sua identidade nacional atrelada ao sistema cultural, filosófico e religioso do hinduísmo, cujo nome vem do rio Indo, seu local de origem (hoje, ironicamente, localizado no Paquistão). Os germânicos eram tribos dispersas da região da Germânia, denominação atribuída pelos romanos, e que só desenvolveram caráter nacional nos últimos três séculos. Para não falar em todos os povos que se constituíram como tal após dolorosos processos de descolonização, mas que mantiveram os nomes herdados do período colonial, geralmente associados a acidentes geográficos. Da Jordânia aos Camarões, da Nigéria ao Uruguai: passadas décadas da independência, não se pode negar-lhes a condição nacional. O fato de serem nações criadas após seus respectivos Estados, ou de estarem ligadas a uma região geográfica, não pode ser utilizado para desqualificá-las.

Todas as nações, como já disse Benedict Anderson, são comunidades imaginadas. Não brotam por geração espontânea, mas são forjadas por lutas políticas, pela alteridade e por atributos culturais, étnicos e religiosos. A equação é complexa e delicada.

Estado observador

O segundo argumento é o de que a expressão “povo palestino” é nova. Trata-se de um engano. A constituição de uma identidade nacional palestina remonta ao século 19, ainda nos tempos do Império Otomano, envolvido em uma miríade de influências como nacionalismos de comunidades vizinhas, como a síria, articulações sobre um “sentimento árabe” e discursos de ancestralidade ligados a povos antigos da região, como os cananeus. Essa identidade ganhou força nas primeiras décadas do século 20, parte consolidada em oposição à crescente presença de judeus na Palestina, parte no contexto da luta pela independência dos britânicos.

Os palestinos organizavam-se em partidos políticos e possuíam lideranças locais que, ao menos em teoria, os representavam. Embora parte do discurso dos líderes palestinos estivesse ligada ao islamismo, como foi o caso do Mufti de Jerusalém, Haj Amin Al-Husseini, durante o período do mandato britânico (1920-1948), os árabes cristãos da Palestina também tinham vínculos de pertencimento ao povo palestino.

As comunidades palestinas em diáspora, majoritariamente cristãs, vieram para as Américas diante da perseguição otomana no fim do século 19 e construíram um sentimento de identidade coletiva para além de suas cidades de origem ou de um vago sentimento arabista. Um estudo recente da pesquisadora Cecilia Baeza mostra que, entre 1920 e 1939, dezenas de organizações – clubes esportivos, sociedades de jovens, clubes sociais – foram inauguradas ao redor de toda a América Latina, fazendo referência direta à Palestina (inclusive às cores de sua bandeira nacional).

A fundação de Israel, em 1948, impactou diretamente no desenvolvimento do nacionalismo palestino, que passou a orientar-se pelo antissionismo e pela oposição ao Estado judeu. O episódio da declaração de independência israelense é encarado como a “catástrofe” (al-Nakba) palestina, levando ao êxodo de centenas de milhares de árabes para países vizinhos – Egito, Líbano, Síria e Jordânia. É, ainda hoje, o elemento formativo mais importante da narrativa comum palestina.

Nas décadas seguintes, o Oriente Médio viveu o auge do pan-arabismo, e as demandas por unidade árabe e pela eliminação de Israel, traduzidas em sucessivas guerras árabe-israelenses, obliteravam a manifestação singular da identidade palestina. A ocupação israelense, insuflada pelas tensões regionais, fez com que parte dos palestinos pegasse em armas e cometesse atos de terror. A injustificável violência perpetrada pela Organização para a Libertação da Palestina (OLP) de Arafat e por outros grupos palestinos não pode, no entanto, jogar por terra a legítima (e antiga) luta de um povo por um Estado.

Diante da fragilidade e da desunião das lideranças palestinas, e de sucessivos governos israelenses com pouco interesse em negociar, coube à Autoridade Nacional Palestina, valendo-se dos poucos recursos que tem, levar a causa daquele povo para o plano diplomático. Da declaração simbólica de independência da Palestina, em 1988, ao seu reconhecimento como Estado não-membro observador das Nações Unidas, em 2012, mais de uma centena de países já reconhece a soberania palestina, validando a busca de seu povo pela autodeterminação.

Porta de entrada

Isso, em si, já seria o suficiente para desbancar qualquer argumento de que o povo palestino seja fruto da imaginação. No entanto, devemos frisar que mesmo Israel reconhece a Autoridade Palestina, seja como interlocutor nas negociações de paz ou como entidade representativa dos árabes (palestinos!) que habitam a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.

O que seria, afinal, da chamada “solução de dois Estados” sem que houvesse, efetivamente, dois povos?

Sem a compreensão fundamental de que, naqueles pequenos bolsões de terra, há pessoas que se identificam como palestinas e que se vinculam a uma coletividade intangível, qualquer possibilidade de avançar a sempre frágil paz na região torna-se impossível. A história nos mostra que desumanizar o povo palestino, por mais que pareça atender aos interesses belicistas de uma minoria radical em Israel, é contraproducente: a anomia palestina é a porta de entrada para a radicalização e o terrorismo, cujos custos humanos são imensos e sempre indesejáveis.

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Guilherme Casarões, 31, é professor de Relações Internacionais das Faculdades Rio Branco e do MBA da Fundação Getulio Vargas; Fernando Brancoli, 28, é professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e do MBA da Fundação Getulio Vargas (RJ).

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