Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CADERNO DA CIDADANIA > ASSASSINATO DE REPUTAÇÕES

Tange, ferra, engorda e mata

Por Carlos Brickmann em 29/07/2014 na edição 809
Reproduzido da seção “Tendências/Debates” da Folha de S.Paulo, 25/7/2014; intertítulo do OI

Um ótimo filme, de 1951, é um retrato do jornalismo da época. Mas vale até hoje. Com Kirk Douglas, dirigido por Billy Wilder, “A Montanha dos Sete Abutres” mostra como as coisas realmente funcionam.

Kirk Douglas é Charles Tatum, repórter decadente em busca de emprego. Um dia, soube que um escavador tinha ficado preso num desabamento, na montanha dos Sete Abutres, numa pequena cidade dos EUA. Tatum decide apostar no caso: a vítima, embora imobilizada por terra e por pedras, tem condições de dar entrevistas. E transforma o salvamento, que poderia ser rápido, em algo demorado. Precisava do tempo para transformar o caso numa grande notícia.

Enquanto rodam as lentas engrenagens do salvamento, Tatum engrandece o drama. Muita gente vai à montanha assistir ao espetáculo. Aparecem os vendedores de cachorro-quente e pipoca, os serviços paralelos, uma roda-gigante. Ganham todos, e a todos interessa a farsa: o povo se diverte, os vendedores faturam, as autoridades estão felizes com o turismo, os jornais vendem, o repórter decadente vira estrela.

Ganham todos? Nem todos: a saúde da vítima se deteriora. Um dia, morre de pneumonia.

O parque em volta da montanha é desmontado, os turistas vão embora. O repórter, arrependido, decide contar a história real. Transforma-se então na segunda vítima: é demitido. Como sempre, e até hoje, todos acreditaram em suas mentiras. Ninguém acredita quando conta a verdade.

“Apesar das acusações…”

O filme tem 63 anos. O jornalismo continua o mesmo –mas com maior força de difusão, com a internet, que espalha uma notícia, mesmo falsa, por tantos lugares que se torna impraticável desmenti-la.

Um grande veículo publica uma notícia (vazada por autoridades anônimas, apresentada como “documentos a que a reportagem teve acesso”), com a defesa da parte atingida (normalmente resumidíssima, mas, embora nem sempre, existente). Centenas de clientes que compram a notícia republicam a informação ignorando a defesa.

Um famoso procurador de Justiça sugeriu a seus colegas que usassem a “relação simbiótica” com a imprensa para que os juízes fossem mais facilmente persuadidos a atendê-los. Relação simbiótica? Sim, é o que ocorre quando dois organismos distintos se aliam para fortalecer-se.

Como no filme, todos ganham com a simbiose: repórteres, que têm a matéria pronta, com tudo o que as autoridades querem dizer; autoridades, com a divulgação garantida e sem contestação; veículos, que ganham prestígio como justiceiros. Mas há quem não ganhe com isso.

Os atingidos, mesmo inocentes, têm a reputação para sempre prejudicada; empresas são preteridas por concorrentes, têm o crédito reduzido ou eliminado, e estarão a caminho da falência. Quantas empresas já fecharam por isso? Quantas foram atingidas por manobras de concorrentes mais bem relacionados? Quantos empregos se perderam? Algum repórter já foi verificar isso?

Monta-se tudo para que o acusado seja considerado culpado. Frase recente de um grande jornal sobre um empresário que sofreu denúncias e foi inocentado mostra isso: “Apesar das acusações, a Justiça Federal absolveu Fulano”. Absolvição, para o redator (e para a opinião pública já trabalhada), é um absurdo.

Lembremos Théo de Barros e Geraldo Vandré, em “Disparada”: “Porque gado a gente marca/ tange, ferra, engorda e mata”. Mas com gente deveria ser diferente.

******

Carlos Brickmann, 69, foi repórter especial da Folha e editor-chefe da Folha da Tarde. É diretor da Brickmann & Associados Comunicação

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